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Resenha (Edição nº 12)
“Teoria das Compras: o que orienta as escolhas dos consumidores”,
por Carla Barros (*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Teoria das Compras: o que orienta as escolhas dos consumidores
Nome do autor: Daniel Miller
Editora: Nobel
Número de páginas: 191 |
Daniel Miller, como destaca
Lívia Barbosa na apresentação do livro Teoria das Compras,
não é um autor amplamente conhecido no meio acadêmico brasileiro – A
Theory of Shopping, inclusive, é sua primeira obra traduzida e
publicada no Brasil. Apesar da pouca divulgação de seu trabalho no
país , Miller é reconhecido pelo mundo como um dos mais instigantes
pesquisadores na área de Antropologia do Consumo. Professor de Cultura
Material no Departamento de Antropologia da University College London,
publicou trabalhos sobre os mais diversos temas ligados ao consumo, como
materialismo, objetificação, shopping centers, home
possessions, usos da Internet e indumentária, entre muitos outros,
tendo como base estudos etnográficos realizados na Inglaterra e em
países em desenvolvimento como Trinidad, Jamaica e Índia.
Em sua
obra Teoria das Compras, Miller se propõe a entender, em
primeiro plano, a moralidade inscrita no ato de compras relacionadas ao
abastecimento dos lares de famílias pertencentes a um bairro na zona
Norte de Londres, até chegar a uma teoria geral da compra como
sacrifício. Longe da visão do consumo como algo pernicioso, o
autor evidenciará, em sua análise, a representação do ato de comprar
como uma expressão de amor, no sentido de fortalecimento dos laços de
parentesco, analisando as compras como um rito devocional. Miller irá
se opor, portanto, a teorias do consumo que entendem o comprar como um
ato centrado no materialismo e no hedonismo.
A
primeira parte do livro, intitulada "Atos de amor num
supermercado", apresenta os resultados de uma etnografia realizada
durante um ano com donas-de-casa de classe média, moradoras de uma rua
da zona norte de Londres. No trabalho de campo investigou as compras de
rotina, especialmente as feitas em supermercados, ligadas ao
abastecimento do dia a dia dos lares - compras usualmente desprovidas de
qualquer glamour ou reflexão por parte dos próprios
informantes. Através do estudo dessa modalidade de compras, Miller se
propôs a desvendar de que modo se constituem e são vivenciados os
relacionamentos entre as pessoas naquele contexto de consumo tão rotineiro.
As
donas-de-casa mostram, através das compras de abastecimento do lar, um
constante monitoramento sobre os desejos e preferências dos membros da
família. Miller ressalta em sua análise o fato de elas verem seu papel
de compradoras como moralmente superior, já que forneceriam aos
outros membros mercadorias que seriam edificantes, pois quando
consumidas levariam o outro a ser uma pessoa melhor. Miller chama
essa intenção educadora de um ato de amor – aqui entendido
como uma ideologia normativa que se expressa como prática em
relacionamentos de longo prazo - na medida em que a dona de casa tenta aprimorar
os gostos e desejos dos outros membros da família, para o bem deles
próprios. O amor aparece nesse contexto como a base de
significação para atos de compras que são vivenciados como ritos
devocionais que criam objetos de desejo.
O autor explora
um contraponto entre presentinhos comprados durante as compras
rotineiras, vistos como um ato hedonista, e o ethos normativo de
comprar, representado pela economia de dinheiro. Miller mostra que no caso
da compra de presentinhos (coisas normalmente não compradas, como
uma torta de sabor especial que seja do gosto de um membro da família),
o sentido se volta para o reconhecimento da individualização – um agrado
para um membro da família ou para a própria compradora – enquanto
que o sentido maior da compra de abastecimento seja determinado pela economia.
Se o presentinho
é visto como algo de menor importância nesse contexto, a atividade mais
significativa do ato de compras, sugere Miller, é a economia de dinheiro,
não como um meio para algum outro fim, mas como um fim em si mesma. A
economia, ou a ação de poupar, é apresentado como a grande
preocupação do ato de fazer compras. Miller não se refere a uma
mensuração instrumental da poupança alcançada, mas sim a uma atitude
frente ao ato de compras marcada pelos signos da restrição, da modéstia
e do comedimento. Assim, o autor propõe que se entenda a economia de dinheiro
não em termos de orçamento, mas como uma preocupação central da
experiência do comprar. O abastecimento do lar, desta forma, seria um evento
que começa pelo ato de gastar para se transformar, por fim, em uma
experiência de economizar.
Miller prossegue
analisando o discurso das compras, quando investiga o que as pessoas
dizem sobre essa atividade. A visão dominante, nesse caso, é a do ato
de comprar como uma atividade exagerada, dedicada à auto-indulgência.
O abastecimento do lar, objeto de estudo da etnografia no norte de Londres,
não seria visto como a verdadeira atividade de comprar. A principal
associação feita pelos informantes, em seu discurso, é entre comprar
e gastar de forma desmedida, o que mostra uma percepção do ato de comprar
como uma expressão privilegiada do materialismo e do hedonismo.
A relação
entre sacrifício e consumo é o tema da segunda parte do livro,
denominada "O comprar como sacrifício". Miller faz inicialmente
uma revisão nas teorias antropológicas sobre o ritual do sacrifício
em sociedades antigas e contemporâneas. A perspectiva adotada pelo
autor tem maior aproximação com o clássico trabalho de Hubert e Mauss,
que estudaram o ritual do sacrifício dividindo-o em estágios, sem se
descuidarem de uma consistente análise do todo. Uma maior atenção é
dada, no entanto, à contribuição para o tema de Georges Bataille, que
teria sido o primeiro a sugerir uma relação entre sacrifício e consumo.
Por fim, Miller apresenta sua reflexão, propondo uma teoria das compras
como sacrifício dividindo-os em três estágios. O primeiro estágio
revela que o discurso das compras e do sacrifício apresenta um
imaginário de extremo dispêndio e o consumo como dissipação. Já no
segundo estágio, onde são analisados os ritos de compras e sacrifício,
se evidencia uma negação desse discurso revelado no primeiro momento.
No sacrifício, temos um direcionamento do ritual para o alcance de uma
transcendência, a partir do momento em que se divide os objetos de
sacrifício entre os que serão ofertados à divindade e os que ficam
retidos para o consumo do grupo. No ato das compras, de modo similar, a
visão de gasto é transformada em uma experiência de poupança: a transcendência
aparece aqui na ação de poupar como uma expressão de amor e de
ênfase nos relacionamentos. No terceiro estágio, por fim, haveria um
retorno à esfera do profano, através da disseminação do que foi
santificado nos rituais do sacrifício. Nesse momento final do consumo,
o poder transcendental confirma e reifica as relações sociais do
grupo. A ordem social é assim, santificada, já que formas de
hierarquia são restabelecidas ritualmente através da separação entre
os que podem ou não participar do ato sacrificial.
Miller
chama atenção para o papel da mulher como principal agente da concepção
do consumo como um rito devocional. No caso das compras de abastecimento
do lar, a economia de dinheiro verificada entre as donas de casa seria transformada
em uma expressão do amor devocional entre a mulher e os outros membros
da família, que recebem as sobras do sacrifício sob a forma de compras.
Ao comprar determinada marca para alguém da família, a mulher se guia
não só pelo que a pessoa quer, mas pelo que ela pensa que poderia melhorar
essa pessoa: "É essa objetificação do amor como feminino em
geral que destaca a habilidade que algumas fêmeas têm de transferir o
sentido do transcendental – a meta da vida que ultrapassa o mero viver
– e trazê-lo para a prática diária, onde é reconhecido como ‘devoção’(:122).
Haveria, assim, nesse processo de objetificação, uma ênfase na
hierarquia masculino/feminino, onde os homens vivenciariam uma relação
mais pragmática e utilitária com as compras, e as mulheres
seriam o próprio meio de expressão da natureza sagrada do amor
enquanto devoção.
Após ter
analisado as possibilidades de entendimento do ato de compras como
sacrifício, Miller se detém nas conseqüências dessa justaposição
na terceira parte do livro, intitulada "Sujeitos e objetos de
devoção". Nessa última etapa do trabalho, acompanha as mudanças
histórico-culturais relativas a sujeitos e objetos de devoção: de
como a devoção religiosa, após o processo de secularização é
substituída pelo ideal do amor romântico, chegando até os dias
atuais, quando o objeto de devoção feminina vai se deslocando da
figura masculina para o culto à criança.
O autor
conclui seu paralelo entre compras e sacrifício mostrando que ambos
são práticas cujo sentido fundamental seria "a criação de um
sujeito que deseja". No sacrifício, existe o sentimento de que os
deuses desejam o sacrifício a ser ofertado; da mesma forma, no
ato das compras, o comprador espera influenciar os outros para que estes
se tornem beneficiários do que for consumido e passem a desejar
o objeto oferecido: "O propósito do comprar não é tanto comprar
as coisas que as pessoas querem, mas lutar para continuar se
relacionando com os sujeitos que querem essas coisas"(: 162).
A teoria
das compras proposta por Miller mostra como em nossas sociedades os
objetos de consumo ganham seu significado de acordo com sua capacidade
de objetificar valores pessoais e sociais.
As mercadorias tem importância, nesse contexto, como um meio para
constituir pessoas que importam e seu processo de escolha revela,
da parte do comprador, uma habilidade em lidar com as ambivalências dos
relacionamentos sociais. A área de Antropologia do Consumo, tardiamente
constituída dentro do campo de saber antropológico, tem em Teoria
das Compras uma importante contribuição para o entendimento do
consumo como meio fundamental de constituição expressiva das
sociedades contemporâneas.
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