Resenha (Edição nº 11)

“Antropologia e Comunicação”, por Patrícia Baptista Coralis (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: Antropologia e Comunicação
Nome do autor: Isabel Travancas e Patrícia Farias (orgs.)
Editora: Garamond
Número de páginas: 227
 

O debate sobre a “função” do antropólogo e o “objeto” de estudo da Antropologia é constante e vem se ampliando a cada dia. A partir do momento em que se voltou também para os estudos da chamada “sociedade complexa”[1], a Antropologia ampliou significativamente seu campo de estudo, passando a abordar questões que variam desde a entrada do pesquisador em campo e sua relação com os informantes (que muitas vezes são parte de sua própria realidade) até a validade mesma do trabalho etnográfico. A Antropologia há muito não se limita ao estudo de sociedades distantes e longínquas, tendendo à análise dos aspectos referentes à própria sociedade onde foi originada. A situação de estudar seu próprio meio coloca ao antropólogo (e à disciplina) novos limites e possibilidades. A tendência à interdisciplinaridade possibilita que a Antropologia se estenda a novas vertentes da sociedade, sendo a comunicação uma delas.

Enquanto expressões da vida social, os elementos da Indústria Cultural aparecem como novos temas para a Antropologia, fornecendo pistas para analisar a sociedade através do discurso que ela elabora sobre si mesma. É nessa direção que segue o conjunto de textos que compõem o livro Antropologia e Comunicação. O rápido desenvolvimento dos aparatos comunicativos vem gerando uma nova realidade, marcada pelo amplo acesso às informações, pela constituição de novas modalidades de sociabilidade e pela complexificação das noções de espaço e tempo, reavaliadas com o aumento da possibilidade de comunicar-se em “tempo real”. Com isso, a Indústria Cultural se faz presente no cotidiano, e amplia-se a relevância do desenvolvimento de análises que contemplem seu discurso.

O livro é resultado dos trabalhos de um grupo de discussão reunido no XXV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), em outubro de 2001, integrado por pesquisadores de várias partes do Brasil. O debate foi centrado em três grandes temas: “Os campos da Indústria Cultural”, “O audiovisual como campo de representação e percepção” e “Imprensa e publicidade: discursos e identidades”. O objetivo do grupo foi promover um intercâmbio de informações e experiências sobre trabalhos envolvendo a análise daquilo que é transmitido pelos meios de comunicação a partir de uma perspectiva antropológica, enfocando desde a publicidade e o consumo até a indústria editorial, os jornais e os jornalistas, o cinema e a música popular.

O primeiro artigo, de autoria de Ilana Strozemberg, trata diretamente da questão da interdisciplinaridade na Antropologia, seus limites, possibilidades e as dúvidas que permeiam a união entre campos de estudo distintos. Impulsionando o debate sobre a junção da Antropologia com a Comunicação, a autora indica que os objetos de estudos de ambas apresentam certas similaridades ao voltar-se para o que parece “exótico”: a primeira, para o conhecimento dos modos de vida de sociedades “distantes” do Ocidente; a segunda, para a realidade das novas tecnologias de comunicação. A partir do momento em que a Antropologia volta-se para o estudo das sociedades contemporâneas, ambas poderiam ser vistas como tendo um objeto comum: a cultura.

No artigo seguinte, Cláudia Lago faz um mapeamento das discussões e significações internas referentes aos dois campos e mostra que ambos se cruzam em diversos momentos devido às suas situações atuais: a Antropologia, ampliando suas abordagens, e a Comunicação, buscando métodos e teorias em outras áreas. A partir de considerações acerca de um estudo de caso realizado pela autora (objetivando refletir sobre o ethos romântico no jornalismo e a Antropologia), ela mostra que existem similaridades entre a Antropologia e a Comunicação, e que ambas podem complementar-se.

Isabel Travancas desenvolve, no terceiro artigo, uma análise de quatro cadernos literários: dois de jornais brasileiros e dois de franceses, considerando que os textos que constam em tais cadernos são resultado da visão de mundo dos jornalistas, que, por sua vez, são influenciadas pelas peculiaridades de sua profissão. É sob essa perspectiva que a autora desenvolve reflexões sobre a relação entre a Antropologia e a Comunicação, nesse caso mostrando como os suplementos literários dos jornais aparecem como “territórios de defesa” do livro e das sociedades letradas. 

O artigo que encerra a primeira sessão é o de Letícia Vianna, que busca elaborar reflexões acerca de determinados aspectos no universo da chamada “música de massa” no Brasil, considerando que, embora cumpram também papel de “mercadoria”, as músicas populares são potenciais continentes de significados coletivamente atribuídos. O artigo trata das gêneses e segmentações em três complexos musicais brasileiros: o samba, a música sertaneja e o baião, considerando que cada um deles evoca identidades coletivas específicas. Contudo, uma vez postas no mercado, essas expressões de musicalidade estão ao alcance de todos, passam por complexos processos de re-significação, e portanto não se limitam a representar uma identidade cultural específica. É devido a isso que a autora considera que a música é um complexo e diversificado local de interação social.

A segunda sessão é aberta com uma análise da figura do “caipira” a partir dos filmes de Amácio Mazzaropi executada por Jesana Pereira. A autora articula a representação caricatural do “caipira” a visões de mundo individualistas e tradicionais. Embora se ligue a processos de produção, circulação e consumo orientados pela Indústria Cultural, essa representação envolve valores pertencentes à cultura/sociedade “caipira”. A autora mostra, assim, como a Indústria Cultural opera com significados que encontram correspondência na realidade, oferecendo pistas relevantes para seu entendimento.

O texto seguinte, de autoria de Esther Hamburger, trata da questão da construção da verossimilhança em quatro novelas da Rede Globo de Televisão, um dos maiores ícones da programação televisiva nacional. O objetivo é, através dessas análises, discutir sobre as diferentes formas de construção de representações verossímeis que trazem ao público questões sociais relevantes por meio das telenovelas, intercalando o real (notícia) e o fictício em um complexo jogo de representações que se referem, de modo peculiar, à nação. A autora conclui que a legitimidade das representações reside na apropriação de elementos da linguagem jornalística que aludem a eventos reais e elementos da cultura e história do Brasil. Notícia e ficção se misturam e formam um repertório compartilhado específico.

A última sessão do livro é aberta com o texto de Simone Dubeux, que versa sobre a cobertura de imprensa da morte do estudante Edson Luiz, em 1968, durante uma manifestação no Rio de Janeiro. A autora mostra que os meios de comunicação, sendo os “responsáveis” pela divulgação das notícias, colocam-se como porta-voz “oficial” dos acontecimentos, exercendo papéis importantes na constituição da memória coletiva. A mídia “edita” os fatos e os apresenta de maneiras distintas, resguardando, em seu interior, conflitos entre a amnésia e a memória: com o passar dos anos, alguns fatos são “esquecidos” e outros “lembrados”, mas essa memória histórica é fruto da edição realizada para a cobertura jornalística, é a história contada pela mídia, com suas lacunas e ênfases específicas.

O texto de Mirian Goldenberg trata da constituição dos papéis de gênero nos principais jornais e revistas do país, mais especificamente, da masculinidade. Considerando o gênero uma categoria explicativa da sociedade atual, a autora mostra que algumas matérias analisadas apontam sutilmente a emancipação feminina como a responsável pela decadência da imagem tradicional de “homem” e pela desestruturação da família. Contudo, outras abrem espaço para problematização, indicando que existem várias formas de “ser homem” e “ser mulher”. O que ocorre, conclui a autora, é uma maior consciência crítica das experiências e visões de mundo consideradas específicas de homens e mulheres. O modelo tradicional de homem, produzido pela sociedade patriarcal, vem abrindo espaço para masculinidades flexíveis e plurais, e assim a masculinidade é apontada como uma questão a ser pensada e debatida.

Everardo Rocha e Carla Barros discutem, no artigo seguinte, a questão do consumo sob uma interpretação antropológica. Partindo da idéia de que o consumo é um caminho privilegiado para a compreensão da sociedade contemporânea, os autores apontam algumas idéias sobre o significado do consumo a partir de três autores clássicos – Veblen, Mauss e Lévi-Strauss – que oferecem subsídios para reflexões sobre a “Antropologia do consumo”. O objetivo é pensar as representações veiculadas pela mídia – em especial, a publicidade – e o fenômeno do consumo sob uma perspectiva antropológica – via etnografia. O consumo teria um significado cultural, e caberia à pesquisa antropológica interpretá-lo.

O texto que fecha a coletânea é de autoria de Patrícia Farias, que analisa a imagem de homens e mulheres negros na mídia tendo como base anúncios publicados por uma revista brasileira – a Veja – nos anos 70. A partir da hipótese de que as formas como essas pessoas são representadas estão passando por um período de variação, a autora busca traçar um quadro das recorrências percebidas nessas imagens, relacionando-as ao contexto social nacional e internacional. O material jornalístico apresentado em cada edição também foi considerado, como forma de contextualizar as representações no interior do imaginário social do momento. A autora conclui que a publicidade é um campo de representações em conflito e intensa negociação, a partir do qual segmentos sociais adquirem – ou não – visibilidade social. 

A leitura conjunta dos artigos que compõem Antropologia e Comunicação mostra que a Comunicação, enquanto expressão de um contexto social, coloca questões relevantes para a compreensão da sociedade que a produz. A Antropologia, graças ao seu caráter interpretativo, oferece um instrumental teórico e metodológico para análise dessa dimensão social, a partir do entendimento de que a comunicação de massa repousa em significações compartilhadas, devendo assim ser “lida” como fenômeno sociocultural.

 

[1] VELHO, Gilberto. Observando o familiar. In: Individualismo e cultura: Notas para uma Antropologia da Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981.

 


(*) Patrícia Baptista Coralis é pedagoga e mestranda em Ciências Sociais na UERJ.

 


 

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