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Resenha (Edição nº 11)
“Obras
e Vidas - o antropólogo como autor”, por Maria
Cláudia Coelho
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Obras e vidas- o antropólogo como autor
Nome do autor: Clifford Geertz
Editora: UFRJ
Número de paginas: 204 |
Em 1967, o meio antropológico foi sacudido pela publicação dos diários
escritos por Malinowski durante seu trabalho de campo nas Ilhas
Trobriand. O Diário no sentido estrito do termo esteve, desde
então, no cerne de duas problematizações fundamentais propostas pela
antropologia pós-moderna: o lugar da subjetividade do etnógrafo na
pesquisa de campo e a concepção da etnografia como um gênero literário.
É sobre esta segunda questão que Geertz se debruça no livro Obras
e Vidas - o antropólogo como autor, o qual, juntamente com a coletânea
de textos de autoria de James Clifford intitulada A Experiência
Etnográfica (organizada por José Reginaldo Gonçalves e publicada
em 1998 também pela Editora da UFRJ), vem facilitar o acesso do leitor
brasileiro a uma discussão que permeou a cena antropológica
norte-americana nos anos 80.
Obras e Vidas é composto por seis artigos. O primeiro e o
último são dedicados, respectivamente, ao exame do par “estar lá-estar
aqui”. Esta é a forma encontrada por Geertz para referir-se aos dois
mundos pelo qual transita o antropólogo: o “campo” e a academia, a
pesquisa e a escrita. Entre ambos, quatro artigos, quatro “estudos de
caso” sobre a escrita etnográfica e suas estratégias retóricas,
elaborados com base em alguns textos de quatro autores seminais da
antropologia: C. Lévi-Strauss, E. E. Evans-Pritchard, B. Malinowski e
R. Benedict.
O
ponto central do livro é a discussão da etnografia como um gênero.
Geertz parte de uma reflexão acerca das objeções levantadas contra
esta forma de encarar o trabalho do antropólogo, ancorada, segundo ele,
em uma concepção da etnografia como sendo convincente em função de
sua fidelidade aos fatos narrados, e não como decorrência de artifícios
retóricos. Para Geertz, contudo, é este justamente o objetivo dos etnógrafos:
convencer o leitor de que seus relatos são fidedignos porque estiveram
lá, e também de que, “se houvéssemos estado lá, teríamos
visto o que viram, sentido o que sentiram e concluído o que concluíram”
(p. 29).
O
primeiro autor a ter suas estratégicas retóricas dissecadas é Lévi-Strauss.
Geertz toma como objeto de sua análise Tristes Trópicos, e propõe
uma interpretação desta obra como sendo composta por vários textos
concomitantes. Para Geertz, Tristes Trópicos é ao mesmo tempo
um relato de viagem, uma etnografia, um texto filosófico, um tratado
reformista e um texto literário simbolista. Após examinar as características
de cada um destes “textos”, Geertz encaminha sua conclusão
perguntando-se qual seria o resultado desta superposição. Sua
resposta: um mito. Para ele, Tristes Trópicos seria uma “história
de busca”, estruturada em quatro etapas: a partida das praias
familiares e monótonas; a viagem aventureira por um mundo estranho e
ameaçador; o encontro com o mistério do “outro absoluto”; e a
volta para casa para contar histórias.
O capítulo
seguinte é dedicado a Evans-Pritchard, do qual Geertz escolhe um
pequeno texto intitulado “Operations on the Akobo and Gila Rivers,
1940-41”. Geertz examina o “teatro da linguagem” empregado por
Evans-Pritchard, marcado por um discurso do tipo “é claro”, cujas
principais características seriam um tom de casualidade estudada, o
predomínio de frases assertivas simples, a distância pessoal e uma
leve ironia. Para Geertz, o estilo de Evans-Pritchard seria
predominantemente visual, repleto de diagramas, fotos e desenhos, nos
quais os contornos indefinidos da vida social ganhariam plena nitidez. O
efeito desta estratégia “é claro” seria a naturalização do
bizarro, em plena conformidade com a questão fundamental de sua obra:
uma versão do relativismo em que “as diferenças entre eles e nós,
por mais dramáticas que sejam, afinal não têm muita importância”
(p. 97).
Ao
voltar-se para Malinowski, Geertz parte novamente do Diário, a
exemplo do que já fizera em O Saber Local, ao discutir a
natureza da compreensão antropológica. Para Geertz, o Diário
levanta um problema que perpassa a obra de Malinowski: como passar da
experiência desordenada do trabalho de campo a uma descrição
organizada da vida do outro? Malinowski aparece então como responsável
por um legado à antropologia que não se restringiria ao método da
observação participante, mas abrangeria a “descrição
participante”. Partindo deste ponto, Geertz dedica este capítulo ao
exame das formas contemporâneas de lidar com este legado, examinando três
obras de três autores (P. Rabinow, V. Crapanzano e K. Dwyer) que
realizam experimentos em torno da questão da autoria etnográfica.
O último
autor escrutinado é Ruth Benedict. Geertz caracteriza sua prosa como
marcada simultaneamente pela paixão, pelo distanciamento, pela
franqueza e pela implacabilidade. Para Geertz, a obra de Benedict
precisa ser entendida como uma versão antropológica de As Viagens de
Gulliver. Com Swift, Benedict teria em comum uma forma de exercer a crítica
social baseada na justaposição entre o familiar e o exótico,
exacerbada ao ponto de inversão de seus lugares. Sua retórica seria
baseada na “des-excentrização” do outro, provocando um efeito
final de autoquestionamento.
Após
este passeio pelas estratégias retóricas dos clássicos, Geertz volta,
no sexto capítulo, ao problema formulado inicialmente. Como
compatibilizar o mundo do campo com o mundo da escrita? Este problema,
em um mundo pós-colonialismo e globalizado, ganha novos contornos, em
que uma questão concebida como originalmente de ordem técnica ganha
matizes morais e políticos. A cena antropológica é descrita como
permeada por um profundo desconforto, gerado pela combinação de duas
crises: a moral - provocada pela ruptura com o passado colonialista da
disciplina - e a intelectual - provocada pela desconfiança quanto à
possibilidade de “representar” o outro. Discutindo este mal-estar,
Geertz pergunta-se qual a razão para se fazer antropologia hoje, e
postula como resposta seu potencial para favorecer a comunicação entre
grupos que atualmente, dadas as características do mundo contemporâneo,
são forçados, apesar de suas diferenças, a uma convivência cada vez
mais íntima e cotidiana. Este papel seria desempenhado através da
“representação de um tipo de vida nas categorias de outro” (p.
188) - o que coloca a dimensão textual da etnografia no cerne dos
problemas antropológicos, evidenciando a ligação inextricável entre
o “estar lá” e o “estar aqui”.
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