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Resenha (Edição nº 10)
“Corpo
e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe”, por
Fátima Cecchetto (*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Corpo e alma: notas etnográficas de
um aprendiz de boxe
Nome do autor: Loic J. D. WACQUANT
Editora :Relume Dumará
Número de páginas: 293 |
Publicado na íntegra 12 anos depois de uma primeira aterrissagem no
terreno do boxe, Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de
boxe, de Löic Wacquant é um livro instigante. Instigante pelo modo
como o autor nos conduz a uma viagem pelo mundo do boxe e pelas
sensações corporais produzidas pela sua prática.
Neste
livro, Wacquant se vale de vários aportes originais. Em primeiro lugar,
adota como ponto de partida nessa pesquisa sobre os lutadores de boxe o
“aprendizado pelo corpo” da ordem social. O trabalho também conduz
o leitor por um intrincado labirinto de reflexões sobre a construção
social da masculinidade e da virilidade entre os boxeadores, e de seus
pressupostos teóricos e práticos. Discípulo de Pierre Bourdieu, ele
há muito vem lançando seu olhar sobre os homens que entram nessa
sangrenta mas gloriosa profissão, desvelando algumas das
particularidades do
habitus pugilista (Wacquant,1998).
Conhecido por seus trabalhos pioneiros sobre a juventude pobre em
vários países, o autor atualmente é professor de sociologia da
Universidade da Califórnia, Berkeley e pesquisador do Centre de
Sociologie Européenne du College de France. Seus principais temas de
trabalho incluem: Marginalidade Urbana, Relações Raciais, Violência e
Estudos sobre Instituições Penitenciárias. Possui trabalhos
publicados no Brasil como Prisões da Miséria [Jorge Zahar, 2001],
Punir os Pobres [Freitas Bastos,2001], Os condenados da Cidade [Revan,
2001]. Integra ainda coletânea A miséria do Mundo [Vozes, 1997], sob a
direção de Pierre Bourdieu, com o artigo “A Zona”.
O
presente trabalho apresenta análise sociológica e relato, conceito e
descrição do cotidiano do boxeador. Um dos méritos do livro é a riqueza
do material coletado: duas mil e trezentas páginas de notas sobre o
mundo do boxe. E por isso essa obra é uma referência para quem se
dedica ao campo tradicionalmente denominado da etnografia urbana.
Os
principais pontos teóricos e metodológicos estão detalhados nos três
textos que formam o livro 1- A Rua e o Ringue; 2- Uma
Noitada no Studio 104; 3) “Busy Louie” nas Golden
Gloves, e que passam por três eixos centrais a) os impasses da
conversão moral e sensual ao cosmos pugilístico; b) a compreensão do
ofício de boxeador; c) os questionamentos impostos pela sua inserção
num clube de boxe do gueto negro de Chicago.
Quanto à sua entrada no campo, Wacquant começa afirmando que sua “aventura”
de fato começou em 1988, quando procurava um ponto de observação mais
acurado que permitisse tocar de perto a realidade cotidiana do gueto,
uma investigação que desenvolvia na Universidade de Chicago em
colaboração com William Julius Wilson,
pesquisador negro de origem norte-americana, que se dedicou a estudar,
no final dos anos 80, o agravamento das condições sociais do
subproletariado negro residente nas áreas pobres da cidade. A
colaboração com Wilson abrangia justamente o exame das estratégias
sociais utilizadas pelos jovens negros do gueto, objeto original da
pesquisa. Talvez por causa disso, Wacquant descreva de modo contundente
o “acaso” de sua chegada na academia de boxe situada no bairro de
Woodlawn, “um lugar precário e degradado”, levado por um amigo
francês e judoca da Universidade.
Dessa
“janela”, porém, o autor enxerga a oportunidade de questionar o que
chama de visão do gueto como um universo “desorganizado”, e nos
lembra que o falso conceito underclass, é analiticamente
insuficiente para a compreensão da realidade do gueto. Insuficiente
porque sob essa marca degradante estariam circunscritas, de modo
indistinto, pessoas em situações muito diferentes, como beneficiários
da assistência social, desempregados de longo termo, mães solteiras,
famílias monoparentais, criminosos, membros das gangues, drogados e
sem-teto.
O
desafio de aprender um esporte, dentre todos, considerado o mais
exigente, e ao mesmo tempo ser capaz de retraduzir essa compreensão dos
sentidos em linguagem sociológica, sem com isso minimizar suas
particularidades mais distintivas, foram alguns dos percalços também
anotados pelo autor, sublinhando a maneira decisiva como influenciaram
no desenvolvimento desta experiência etnográfica. No entanto, são
também o que constitui a possibilidade de realização de uma
sociologia do boxe. Como observa, mais adiante na página 22, “tudo
deve ser feito para escapar ao objeto pré-construído, ao exotismo
pré-fabricado da profissão, seus mitos de heroísmo e ascensão
social, tão presentes na mitologia sobre as lutas, que trazem a ameaça
de excesso de sociologia espontânea”. Por isso, o objetivo de
Wacquant neste trabalho foi apreender a lógica social e sensual que
informa o boxe, pelo seu lado menos conhecido e espetacular, percorrendo
os ritos ínfimos e íntimos da vida do gym, atividade levada a
cabo pelo pesquisador inserindo-se na realidade nativa com a qual se
confrontou. Durante três anos, Loic Wacquant integrou uma equipe na
academia, iniciando-se nos rudimentos do ofício de boxeador e onde
cultivou relações de amizade com treinadores e boxeadores do lugar,
observando in vivo a gênese social e o desenvolvimento das
carreiras pugilísticas.
Para
compreender o ofício do boxeador, o desafio e a proposta que Wacquant
se coloca é em primeiro lugar tematizar o corpo, não apenas de uma
posição distanciada, mas partindo do próprio corpo como instrumento
de investigação e vetor de conhecimento. Neste empreendimento, o autor
lança mão da noção operativa de habitus, um dos conceitos
centrais que preside a obra de Marcel Mauss (1974), desenvolvido anos
mais tarde por Pierre Bourdieu, autor que irá ressaltar mais a questão
do habitus [ou hexis] como uma forma pré-reflexiva do
corpo introjetar as experiências do mundo, transmutando-se em uma “política
incorporada”. Desse modo, Wacquant situa o boxe tanto como uma
técnica corporal, resultado das montagens biopsicossociais dos
atos mais ou menos habituais na vida do indivíduo e na história da
sociedade, quanto como uma “disposição incorporada".
Para Wacquant, pôr fisicamente em jogo o corpo nesta investigação
consistiu em uma dimensão tanto mais enriquecedora quanto permitiu novas
possibilidades interpretativas.
Em
A Rua e o Ringue, o texto mais denso do livro, o autor articula
três níveis de discussão, bastante imbricados, para demonstrar a
aquisição da aprendizagem do esporte: 1) as representações sobre o
mundo do boxe, suas “leis” e suas “promessas” 2) a regulação
da violência, a cultura da rua e a masculinidade 3) A “gestão” do
corpo do boxeador, enquanto uma pedagogia visual e mimética.
Para
descrever como se dá o trabalho de conversão ginástica,
perceptiva, emocional e mental do boxeador na sociedade norte-americana
contemporânea, o autor retoma Émile Durkheim para abordar o boxe como
uma escola de moralidade, isto é, como “uma máquina de fabricar o
espírito de disciplina, indispensável à eclosão da vocação
pugilística" (:32). Assim, desde logo, afirma ser o habitus
pugilístico, uma empresa que se funda sobre uma dupla antinomia: uma
atividade que parece estar situada na fronteira entre natureza e
cultura, mas que exige uma gestão quase racional do corpo e do tempo de
modo muito complexo. Uma outra contradição diz respeito ao boxe
apresentar-se como um esporte extremamente individual, mas que não põe
só em causa o indivíduo, sendo
obra da razão prática coletiva e individual. Parafraseando seu
mestre Bourdieu, nos lembra da importância do esporte como uma prática
corporal que encerra um conjunto de questões teóricas de primeira
importância, pois “o esporte é junto com a dança, um dos terrenos
em que se coloca com acuidade máxima o problema das relações entre a
teoria e a prática, e também entre a linguagem e o corpo” (: 34).
Uma
contribuição importante desse estudo é mostrar como é necessária
alguma integração sócio-econômica para levar a cabo o regime e a
moral do treinamento exigidos para obter este aprendizado. O autor
assegura como fundamental uma boa dose de ascetismo físico e mental
para enfrentar os desafios do esporte, pendor que os jovens saídos das
famílias mais despossuídas têm de desenvolver para ganhar
competência esportiva, sob a pena de serem sumariamente eliminados
pelos treinadores, os verdadeiros senhores dos templos pugilísticos.
Paradoxalmente, as “leis” da disciplina espartana do boxe
penitenciam severamente os mais excluídos. Em suma, contrariando a
mitologia coletiva sobre os lutadores como seres situados nas escalas
mais baixas da hierarquia social, a análise de Wacquant mostrou que o
perfil socioeconômico dos pugilistas profissionais é mais elevado que
o do segmento mais empobrecido da população masculina do gueto.
Não
é fácil escrever sobre os boxeadores sem esbarrar em estereótipos
sobre sua “natureza selvagem”, e esse é um dos pontos altos do
livro: a forma como Wacquant vai montando episódios que trazem
depoimentos desses homens que sacrificam seus corpos, nos oferecem as
categorias de julgamento que ordenam o mundo dos afetos e dos desejos
dos lutadores entrelaçados à possibilidade de ascensão social - da
exclusão e da pobreza ao estrelato, freqüentemente efêmero, mas que
ainda assim os instiga a uma vida diferente. A partir de dados
etnográficos detalhados, Wacquant descreve, em terceiro plano, a
apropriação, por impregnação progressiva, de um conjunto de
mecanismos corporais e de esquemas mentais que informa o boxe como
ofício do corpo, para além de sua descrição como esporte puramente
bárbaro. Diante das questões que dão ao capítulo sua unidade, a
gestão do corpo é o tema em que o autor mais se detém. Como afirma na
página 78, “as regras da arte pugilística remetem a movimentos do
corpo que só podem ser apreendidos completamente em ato”. Somente
através disso, pode-se entender um pouco da pedagogia peculiar do boxe,
que se faz pela repetição e imitação e, paulatinamente redefine um a
um todos os parâmetros da existência do lutador. Disso resulta um saber prático,
composto de esquemas corporais, emocionais, visuais e mentais,
relacionado essencialmente a um processo rigoroso de educação do
corpo, constantemente remodelado segundo exigências próprias ao campo.
Não é à toa que o autor assinala como indispensável ao conhecimento
adequado do objeto, a apreensão indígena da embriaguez sensorial
do boxe, domínio no qual a teoria tem pouca utilidade, uma vez que a
compreensão pelo corpo ultrapassa e precede a compreensão visual e
mental (: 89). Sua posição no campo tem como base o “abandono”,
colocando em xeque antigos pressupostos que tentam focalizar
racionalmente uma distinção entre o corporal e o mental, modos
típicos de consciência que, segundo Wacquant, estão fora de
propósito no universo do boxe, onde não há uma “razão raciocinante”.
Por isso, ele qualifica a aprendizagem bem sucedida do boxe, como um
processo que se inculca de modo lento, uma sensibilidade
pugilística incorporada feita da combinação de disposições
quase antinômicas: pulsões e impulsos inscritos no mais profundo do
indivíduo biológico no limite do cultural e do selvagem, modificada a
cada instante pelo seu agente, embora não inacessível ao cálculo
explícito da consciência individual (:119).
No
segundo texto, Uma Noitada no Studio 104, o autor nos fala mais
detidamente de dois anos de submersão intensa, descrevendo desde uma
jornada, reuniões de boxe e festividades em bares do bairro até o
comparecimento às etapas dos torneios, lutas e comemorações sociais.
Sua contribuição neste capítulo é nos conduzir aos meandros da
realidade nua e crua dos pugilistas, seus treinos prolongados, as
penúrias enfrentadas como moradores do gueto negro, as privações
familiares, sexuais e alimentares vividas por estes seres, suas alegrias
e êxtases nas conquistas diárias, enfim a uma descrição densa da
história da vida privada do lutador, vivenciando batizados, casamentos
e funerais. Aqui ele assinala mais uma vez que realmente estava lá.
A riqueza deste capítulo repousa nas inúmeras transcrições de
trechos de seu diário de campo. Surpreende o modo como pôde captar o
panorama, os antecedentes e o contexto de onde emergem os pontos de
vistas desses homens e os conhecimentos práticos acerca desse
ofício. Trata-se do testemunho de um pesquisador que participou
do cotidiano da Rua 63, a ponto de lançar dúvidas sobre sua
verdadeira missão ali como sociólogo. É o que demonstra o
comentário de seu companheiro de treino duro (sparring) Curtis,
que se espanta ao ver o pesquisador agindo como tal, tomando notas em
seu diário e usando o gravador: “um dia, você vai se suicidar Louie,
porque você escreve demais”. Na noitada do bar Studio 104. Wacquant
pôde também compartilhar de um contexto cultural específico da
sociabilidade da classe popular afro-americana, com direito a conversas
furtivas sobre mulheres, brigas, boxe, prisão, futebol americano e rap music.
Isso ocorreu graças aos longos anos em campo que forneceram os fios com
os quais teceu a camaradagem com os companheiros deste circuito.
O
terceiro texto Busy Louie, descreve passo a passo sua preparação
e a apresentação na temporada de 1990, em um campeonato importante, o
Chicago Golden Gloves. Para este evento nosso sociólogo boxeador
condicionou, ao longo de sete semanas, suas costelas e sua mente para
agüentar os treinos duros, deixando que seus parceiros o golpeassem
centenas de vezes. Segundo Wacquant, só um raro estado de corpo e mente
permite a um ser humano empreender tal atividade. Não se consegue isto
por um simples estado de vontade. Só isso o fez compreender o que
realmente significa preparar-se para um combate: dia após dia,
submetendo-se aos rigores intratáveis e incontornáveis do treinamento.
E este pode ser comparado a um verdadeiro ritual de mortificação, ao
modo de uma religião em que o sacrifício é a palavra de ordem (:272). O
resultado desta luta de muitos meses, não significa propriamente o
final, segue sendo um desafio à imaginação, à originalidade da pesquisa,
e serve como modelo de prática etnográfica.
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Dados do resenhista:
Fátima
Cecchetto é doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina
Social da UERJ.
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