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Entrevista
(Edição
nº
8)
Leia,
nesta edição do informativo, a entrevista com a antropóloga
e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, Leila
Amaral.
Leila fala sobre a
religião na sociedade contemporânea, sobre a Nova Era e
sobre seu livro
"Carnaval da Alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova
Era", que recebeu, no dia 19 de maio de 2001, o Prêmio Jabuti 2001 de literatura na categoria Religião
(veja
o artigo escrito pela antropóloga Léa
Freitas Perez, comentando o livro de Leila).
Para esta entrevista,
contamos com o apoio da professora Léa Freitas Perez da Universidade
Federal de Minas Gerais e da pesquisadora Luciana Oliveira, que
elaboraram as perguntas.
Depois de ler a
entrevista,
clique
aqui e participe do fórum de discussão. Poste uma
mensagem dizendo o que achou dessa entrevista, enviando alguma
contribuição sobre o tema ou fazendo perguntas para a Leila.
>>
Comunidade
Virtual - Qual é para você o lugar da religião na sociedade
contemporânea?
Leila - A relação entre religião e sociedade, na
sociedade contemporânea, envolve dimensões diferentes cuja exposição
mais sistemática exigiria um esforço que ultrapassa o escopo dessa
entrevista. Mas, tentando ser sintética, eu poderia dizer que um dos
aspectos que está em foco, hoje, diz respeito à capacidade ou não das
religiões se apresentarem como recursos simbólicos ou míticos para
enfrentar problemas relativos à nova ordem social. O dilema não é
novo. Poderíamos dizer que é constitutivo da própria humanidade. Porém,
é um desafio que vem se apresentando de forma mais aguda e sistemática
no atual contexto da globalização. Trata-se do confronto com a
alteridade ou o situar-se frente ao "outro". Essa é uma situação
necessariamente provocativa que impele as sociedades, em um sentido
mais amplo, ou grupos sociais, em um sentido mais restrito, a pensar e
a responder perguntas relativas ao diferente e ao semelhante; ao
convívio com o diferente no mesmo espaço social e/ou territorial e à
emergência do diferente interno. Essa situação tem levado às seguintes
atitudes: a) a uma tendência para apagar as diferenças, em busca de
verdades absolutas ou valores universais, mesmo que em nome da luta
contra a intolerância; b) a práticas de refúgio, através da
reafirmação (violenta e agressiva) de identidades, quando essas se
vêem ameaçadas pelo processo de hegemonia cultural; c) ao uso político
das diferenças religiosas como um instrumento utilitário para certas
parcelas da sociedade se fazerem presentes nas relações de força na
disputa pelo controle da nova ordem social global e pela dominação
local e d) a dificuldades em reconhecer universais, na base de
atitudes que se mostram relativistas, desconstrutivistas e
individualistas. Em sintonia com esses desafios, eu poderia salientar
dois tipos de reações religiosas em direções distintas: a) reações
fundamentalistas frente ao deslizamento da verdade, quando o apego a
uma determinada religião apresenta-se como um forte indicador de
identificação grupal ou na forma de religião universal e b) respostas
relativizadoras que reagem contrariamente à formação de identidades
fechadas no sentido coletivo-societal, cuja contrapartida religiosa se
encontra em uma cultura religiosa errante que aponta para a
absolutização de um domínio comunicacional não-societal, representado
em seus rituais como o exato momento da passagem em que o indivíduo,
liberado das amarras culturais, se reencontraria com a humanidade. No
livro, "Carnaval da Alma", trato especificamente desse último caso,
tentando, no entanto, demonstrar que, mesmo entre as práticas mais
relativistas, como é o caso de uma cultura religiosa errante para a
qual mantive o adjetivo "nova era", o desafio não desaparece: como
manter a dialética entre a diversidade e a semelhança, preservando um
nível de diversidade capaz de permitir que as sociedades, atualmente
em confronto global, intenso e sistemático, se fecundem e se estimulem
mutuamente, sem se deixarem esfacelar ou empobrecer em razão de um
relativismo contrariamente radical? Em o "Carnaval da Alma: comunidade,
essência e sincretismo na Nova Era" (Ed. Vozes), trato de um caso
específico em que é possível apreender um esforço, mais performático
do que ritual propriamente dito, para articular os dois pólos do
paradoxo. Experiências religiosas, espirituais ou
terapêutico-espirituais, que a princípio e de acordo com os objetivos
declarados de seus participantes poderiam ser caracterizadas como
respostas relativistas ao paradoxo da globalização, apresentam nelas
mesmas as duas possibilidades, fazendo-as coexistir em tensão e em
cruzamento.
>> Comunidade Virtual
- O que o dito "revival" do sagrado diz sobre a época em que vivemos?
Leila -
Essa é uma boa pergunta, até porque nos ajuda a desenvolver um pouco
mais questões relativas à anterior. O termo "revival" me parece
bastante marcado pela perspectiva da teoria clássica da secularização
ou mesmo de uma variante contemporânea da teoria evolucionista das "sobrevivências".
A partir dessas perspectivas, a pergunta seria: as experiências
religiosas e o trato com o sagrado, que emergem nesse novo contexto
secularizado da sociedade contemporânea, seriam capazes de existir
apenas nos vazios ainda não ocupados pela racionalização moderna? Ou
como um "retorno do recalcado", um impulso irracional que aconteceria
em períodos alternados de crise ou fracassos da modernidade na
realização de seu projeto? Eu proporia, no entanto, uma outra questão,
um pouco distante dessas perspectivas, para apreender os indícios de
uma "nova imaginação religiosa", no mundo contemporâneo, às voltas com
a antiga tarefa humana de fazer e refazer os "mitos", neste caso, de
oferecer um apoio mítico para as transformações em curso. Refletindo
sobre questões desse último tipo, é possível afirmar que a relação
entre religião e modernidade não tem levado nem ao fim da religião,
nem tampouco ao fim da secularização. Assim, por exemplo, o que é
sofisticado nas reflexões de Hervieu- Léger, no artigo “Representam os
surtos emocionais contemporâneos o fim da secularização ou o fim da
religião?”. In: Religião e Sociedade, vol.18, nº. 1, 1997 (p. 31-47),
é a afirmação de que a procura de sentido, hoje, através da religião é
reforçada pela experiência mesma da modernidade; pela incerteza e
complexidade que a caracteriza. As tradições religiosas, diz Hervieu-
Léger, se apresentam ao homem moderno como caixas de ferramentas
simbólicas que são acionadas dado o fascínio que as religiões
conservam numa sociedade que se instaura, na atualidade, na e pela
instabilidade e mobilidade. Contudo, a visão de mundo correspondente
aos elementos acessados não é reconhecida tal como se inscrevia na
linguagem de suas respectivas tradições; surgindo daí novas
configurações religiosas em sintonia com os valores da modernidade. De
forma ainda mais provocativa para os estudos da relação entre religião
e modernidade, Carlos Alberto Afonso, antropólogo da Universidade de
Coimbra, vem desenvolvendo o argumento de que o fenômeno religioso na
sociedade contemporânea, pós-industrial e hipertecnológica, é a
suprema realização da secularização e não uma adaptação a ela. Ao
invés de crise da secularização, é o sucesso dessa secularização que
vem tornando visível a consciência do “sagrado” na sociedade
contemporânea como a própria perplexidade humana frente à constatação
de que a transformação do mundo não corresponde à transformação da
vida humana. A promessa de redenção e transformação do mundo, própria
do projeto da modernidade, se cumpriu nos planos materiais,
tecnológicos e científicos e a atual geração viveu, portanto, a
promessa dessa salvação, da secularização dessa salvação, isto é, de
uma modernidade pós-Deus. Mas é justo essa consciência de que a
modernidade cumpriu sim sua promessa que faz com que o discurso
religioso seja re-instaurado no mundo contemporâneo - hipertecnológico
e pós-industrial. Segundo Carlos Afonso, quanto mais tecnológica é a
sociedade mais o homem contemporâneo se confronta com o “arcaico” da
própria vida humana; com a consciência da natureza intocada da vida
humana, com as aporias da existência, as antinomias do ser e os
imponderáveis da vida, da morte e do amor. A modernidade teria
cumprido o seu projeto, mas o homem (o indivíduo moderno) ainda
perplexo frente aos significados da vida, suspeita que a transformação
do homem, o “homem novo”, não se confunde com a transformação do mundo
operada pela modernidade A modernidade, diria Carlos Afonso, mexeu
poeticamente com o sentido de sagrado no mundo contemporâneo, gerando
um sentimento de que se o significado “não está aí” - não está dado -
então, é aquilo que se põe no coração do homem que terá um efeito
sobre o universo.
>> Comunidade Virtual
- Como se insere a Nova Era dentro deste cenário de reavivamento da
experiência religiosa? O que vem a ser este tipo de religião ou
religiosidade?
Leila - Eu não
diria reavivamento. Segundo a perspectiva que acabei de expor,
aproveitando-me das reflexões de Hervieu- Léger e Carlos Afonso, é a
própria transformação do sagrado e não apenas a constituição social da
religião que se impõe com uma nova autonomia. A atribuição de
significados últimos e de valores à vida e, portanto, os de cunho
religioso, vem se tornando com freqüência de foro pessoal e sendo
alcançado através de experiências emocionais (na "emoção das
profundezas"); função que se instala, por sua vez, nas dimensões
individuais, mas não necessariamente privadas. A religião não tem
desaparecido vagarosamente com a modernidade, ou aparecido como
"revival" ou "sobrevivências", é a sociedade que vem mudando a maneira
pela qual se expressa religiosamente (ou miticamente). Outros domínios
da cultura, como por exemplo o domínio do entretenimento e o da "cultura
pop", no universo da cultura de consumo, têm oferecido muito do que
ordinariamente tinha sido oferecido pelas religiões tradicionalmente
instituídas. Neste campo fluido, poroso e impermanente de experiências
pessoais no universo do consumo, da cultura popular e em
reagrupamentos flexíveis, observa-se a multiplicação de novos valores
e cruzamentos interculturais, numa sociedade "multimítica" e "multimídia"
que favorece a emergência de uma cultura religiosa descentralizada e
errante para a qual reservo o adjetivo "nova era". Novos surtos
religiosos inesperados vêm colocando em intercessão as grandes
narrativas religiosas com as pequenas narrativas, tanto aquelas de
cunho individual como as provenientes de tradições religiosas
desprovidas do estatuto das grandes religiões universais. Eu costumo
dizer que não existe nada que seja absolutamente Nova Era, isto é,
como uma identidade religiosa substantivamente constituída. Nova Era,
como venho utilizando o termo para circunscrever experiências diversas
no mundo contemporâneo, seria essa possibilidade de transformar,
estilizar, desarranjar ou rearranjar elementos de tradições já
existentes e fazer desses elementos metáforas que expressem
performaticamente uma determinada visão, em destaque em um determinado
momento e segundo determinados objetivos que podem variar de um
performance a outra. Não mais circunscritos à sua comunidade de origem
ou a seus "grupos naturais", esses elementos religiosos, espirituais e
míticos e mesmos os não religiosos, mas em combinação com eles, são
recobertos com uma alta diversidade de significados e usados para uma
variedade de propósitos, religiosos ou não. Os elementos religiosos
apresentam-se pois mais como recursos simbólicos, de linguagem ou de
expressividade mítica, com grande grau de flexibilidade e
imprevisibilidade, do que como doutrina ou como um sistema fechado de
significados. Parafraseando Maurice Leenhardt, quando ele se refere ao
"mythe vécu" dos canacas, ou "mito vivido", poderíamos nos
referir a essas experiências como uma "religião vivida".
Assim, segundo o uso que faço do termo, "nova era' não é um
substantivo para definir identidades religiosas bem demarcadas. "Nova
era" é um adjetivo para práticas espirituais diferenciadas e em
combinações variadas, independente das definições ou inserções
religiosas de seus clientes ou consumidores que podem continuar sendo
católicos, espíritas, protestantes etc...
>> Comunidade Virtual - O título do seu livro é
profundamente inspirador: Carnaval da Alma. Fale-nos sobre o que é
para a Nova Era o carnaval da alma. Que relação você estabelece com o
carnaval profano brasileiro?
Leila -
Não é a "nova era" que se percebe como um "carnaval da alma". Eu é que
uso dessa metáfora do "carnaval", no sentido de "carnavalização" e
inspirada no conceito dado por Bakhtin, para me referir àquelas
experiências religiosas ou terapêutico-espirituais que realizam uma
mistura, diríamos, mais anárquicas do que aquelas que vêm sendo
definidas como sincréticas, no sentido apontado por Bastide. São
combinações que não se prendem a nenhuma sistematicidade, porque são
circunscritas por uma lógica que aponta para o deslocamento de
diferenças híbridas - princípio que não permite nenhuma
universalização das práticas e idéias em circulação, nem a apreensão
de um sistema religioso-espiritual unificado ou coerente a partir de
uma lingua franca ou identidade estrutural, seja ela universal ou
mesmo nacional. Como digo na conclusão de o "Carnaval da Alma", os
errantes da Nova Era, com sua religiosidade caleidoscópica, trazem à
tona as ambigüidades das tendências e tradições em confronto nas suas
combinações e encontros provisórios, efêmeros e transitórios, abertos,
portanto, a vários campos de sentido que podem ser experimentados e
contestados, diacrônica e sincronicamente, na trajetória de seus
buscadores. Não me parece que existe, nesse caso, um movimento que vai
do sincretismo à síntese, mas uma espécie de "carnavalização", isto é,
nas palavras de La Capra: "um jogo combinatório de completa liberdade
em estabelecer relações não usuais, gerando uma interação ambivalente
entre todas as oposições básicas na linguagem e na vida - uma
relatividade divertida, na qual os pólos são tirados de seu puro
binarismo e são obrigados a tocarem-se e a reconhecerem-se mutuamente"
(Bakhtin, marxism and the carnavalesque. In: Rethinking intelectual
history: texts, contexts, language. NY, Ithaca, 1983: p. 298). Não
faço nenhuma relação dessa cultura religiosa com o "carnaval
brasileiro", principalmente se for para dar a ela uma conotação de "brasilidade",
algo como "uma Nova Era brasileira", mesmo quando se tratando de suas
realizações locais. A meu ver, uma cultura religiosa que se atualiza
através de uma lógica não sistêmica: a do deslocamento de diferenças
híbridas nos impede de ver em suas práticas, eventos, festivais,
encontros e performances, uma generalização, isto é, um padrão que
seja universalizante, mesmo que local ou nacional. Se não formam
sistemas, não existem, a meu ver, variantes locais ou nacionais.
>> Comunidade Virtual
- A religiosidade de tipo Nova Era é vista por muitas pessoas, leigos e
teóricos da religião, como uma experiência no mínimo lúdica ou, mais
ainda, como expressão da barbárie pós-moderna. Você, por outro lado,
fala das "implicações éticas dos sentidos Nova Era de comunidade". O
que significa isso?
Leila
- Sim, existem interpretações sociológicas, hoje, que aproximam essa
nova imaginação religiosa com a moderna cultura de consumo, associando
as pessoas que participam dessa cultura religiosa, para qual dou o
adjetivo "nova era", como simples produtores-receptores das "delícias
do consumo", inclusive religioso. Utilizar-se-iam de seus produtos
como se fossem psicotrópicos ou com fins meramente utilitário e
hedonista. Isso acontece? Acontece. Mas, leituras que focalizam
exclusivamente essa dimensão da nova cultura religiosa limitam-se a
constatações superficiais e parecem-me um pouco preguiçosas, porque
carecem de um esforço interpretativo em profundidade. Existem, no
entanto, excelentes análises do fenômeno "nova era" que reagem a esse
tipo de interpretação, como o trabalho do brasileiro José Guilherme
Magnani, no seu livro "Mystica Urbe: um estudo antropológico sobre o
circuito neo-esotérico na cidade de São Paulo" (Ed. Studio Nobel), e o
da argentina Maria Julia Carozzi no livro "Nueva Era y Terapias
Alternativas: construyendo significados en el discurso y la
interacción" (Ediciones de la Universidad Cattólica Argentina).
Segundo o meu ponto de vista, já delineado em o "Carnaval da Alma",
especialmente no capítulo "Espiritualidade, Diversão e Consumo", não é
para desconsiderar o fenômeno como um aspecto da cultura do consumo
moderno. Meu esforço é para retirar dessa relação conseqüências em
termos de produção de significados, ao invés de apropriar-me de uma
teoria sobre o "caos semiológico" daí decorrente. Ao invés da
apresentação do universo em questão como um campo da “pura diferença”
(como meu argumento central sobre essa cultura religiosa errante
poderia sugerir numa leitura superficial) e, portanto, como um
impedimento para a linguagem e a comunicação religiosas, eu sugeriria
uma apreensão dessa cultura religiosa menos como um sistema e mais
como um esforço performático para colocar diferentes sistemas
simbólicos em comunicação e apreender daí um sentido de “semelhança”
mais do que um sentido de “identidade” ou diferenças irreconciliáveis.
Essa sugestão, como disse em uma palestra no III Simpósio Nacional da
Associação Brasileira de História das Religiões, em Recife, me parece
produtiva para pensar a comunicação na sociedade contemporânea, não
tanto a partir de um acordo necessário quanto ao sentido do símbolo,
mas, principalmente, quanto ao seu poder semiótico. Algo que acontece,
entre outros exemplos possíveis, com o conceito de “unidade essencial”,
no universo das performances "nova era", nas quais o significado de “unidade”,
supostamente compartilhado, é menos importante do que o poder na
crença em uma “unidade”, quaisquer que sejam os sentidos que ela possa
adquirir nos diferentes sistemas simbólicos em interação (vide,
especialmente, o cap. VII de o "Carnaval da Alma"). Essa "unidade" ou
"essência", sempre buscada mas que nunca se substancializa de forma
definitiva, é experimentada na oscilação permanente das sínteses
provisórias e transitórias das combinações heterodoxas. O sagrado no
mundo contemporâneo é apreendido, assim, nessa oscilação entre sua
presença-ausência, entre seu aparecimento-desaparecimento,
experimentado que é na e pela contaminação ambígua dos diferentes
domínios da existência. Ele, o “sagrado”, não existiria, também, fora
de um mundo em que não exista o “outro”, porque sua possibilidade de
existência depende da relação entre diferenças híbridas. É essa
presença-ausência de um sagrado sempre buscado mas nunca capturado que
eu tendo a reconhecer como o fator simbólico (ou linguístico)
fundamental nas experiências espirituais contemporâneas; responsável
pela eficácia produtiva do trânsito, no sentido amplo de
transitividade. Como presença-ausência, ele só pode ser experimentado
na fugacidade do “entre”, no “através”, a partir de uma retórica
ambulatória, ritualmente dramatizada no e pelo consumo cultural. Por
isso, concluía, naquela ocasião, que a “diferença”, ou melhor, a
produção e a dispersão da diferença, na cultura do consumo e na
cultura popular, pode ser interpretada como constitutiva de e
consubstancial a uma nova linguagem religiosa, que emerge nesse
princípio de século, e não como o seu impedimento.
>> Comunidade Virtual
- Uma vez que a Nova Era é um fenômeno religioso que não está encarnado em
um corpus físico denominado igreja, com um conjunto específico de
crenças e de dogmas que é compartilhado por um grupo, como se dá a
etnografia deste tipo de fenômeno? Realizá-la implica também rever os
cânones da própria
antropologia?
Leila - Freqüentemente
tem-se dito que o ofício do antropólogo se faz numa relação
dialética entre pesquisa de campo e teoria. Por outro lado,
observa-se que as transformações teóricas e conceptuais que
se deram por meio dessa prática não se fizeram numa direção
unilinear ou na forma de revoluções, quando o aparecimento
de um paradigma significaria a ruptura definitiva com um paradigma
anterior. Na Antropologia, como reconheceu Roberto Cardoso
de Oliveira, nunca houve uma situação estável de hegemonia
de paradigmas. Assim, por exemplo, concepções universalistas
e relativistas de cultura mantêm-se em uma relação de permanente
tensão, não só entre os trabalhos de autores diferentes mas,
também, no interior do trabalho de um mesmo autor. Esse é
o caso, por exemplo, dos trabalhos "Uma Teoria Científica
da Cultura" e "Os Argonautas do Pacífico" de
Malinowski. Essa tensão expressa, de uma certa forma, um dos
paradoxos do pensamento modernista (devido à inserção da Antropologia
na - e não devido à sua neutralidade em relação à - história
do pensamento da civilização moderna): o reconhecimento e,
ao mesmo tempo, a dificuldade de aceitação do "diferente".
Colocando o pensamento moderno em perspectiva, os antropólogos
"pós-modernos" parecem dizer que é preciso levar
a sério uma Antropologia da Antropologia, fazendo valer a
dimensão da história também na crítica do próprio "ofício
do antropólogo". Neste caso, percebendo a própria dificuldade
de aceitação da "diferença" - envolta em conceitos
tais como de "universais" e "sistemas"
e de seus correlatos como a de "unidade na diversidade"-
como decorrente de uma "ideologia do progresso",
imperialista e colonial. O que define o princípio organizador
da crítica "pós-moderna" ou crítica "pós-colonial"
é uma crítica dessa unificação da diversidade, da diferença
com a qual o "mundo moderno" teve de lidar mas que
pela comparação entre diferenças procurou estabelecer "identidades".
A ambição pós-moderna é, por sua vez, enfrentar a diferença
que não pode ser reduzida ou evitada, pois ela estaria em
toda parte; é viver em um mundo que não pode ser unificado
e, portanto, vivê-lo na sua contradição, sem gramática, porque,
devido ao excesso de diferenças, a incomensurabilidade é a
lógica das relações. Por isso, não é suficiente dizer que
mudanças teóricas e conceptuais, assim como mudanças na prática
etnográfica, se devem apenas a uma possível relação dialética,
objetiva e neutra, entre pesquisa de campo e teoria, mas se
devem, principalmente, a concepções de mundo bem mais amplas,
para além de uma discussão sobre métodos ou sobre a "realidade"
dos fatos.
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