Entrevista (Edição >> jun - jul 2001)
Sandra Nogueira, antropóloga portuguesa, residente em Cartaxo, cidade localizada a 60 km de Lisboa, foi entrevista pela Comunidade Virtual de Antropologia. Na entrevista, Sandra fala a respeito do estudo que vem desenvolvendo sobre a Cultura Material, mais precisamente, sobre a Tanoaria (arte de fabricar vasilhas de madeira para acondicionar vinhos e aguardentes) e outros ofícios tradicionais portugueses.

O trabalho de Sandra, publicado pela Fundação da Juventude, fjuventudeporto@mail.telepac.pt, com sede na cidade do Porto, partiu de um concurso de bolsas de investigação para jovens historiadores e antropólogos. 

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>> Comunidade Virtual - Sandra, fale um pouco sobre o seu trabalho para os internautas da Comunidade Virtual de Antropologia.  

Sandra - Resido numa cidade a 60 km de Lisboa, chamada Cartaxo - que é simultaneamente sede de concelho -, e que viveu durante séculos da produção vinícola. Apesar de hoje este sector ainda ter fortes tradições, a cultura da vinha já não é o cerne da economia deste Concelho.

A tanoaria é a arte de fabricar vasilhas de madeira para acondicionar vinhos e aguardentes, vasilhas essas que consoante as suas dimensões e capacidade de armazenagem tem várias designações, como: barril, cartola, tonel, etc.

O nome da pesquisa é: "A Tanoaria no Concelho de Cartaxo-estudo etno-tecnológico da actividade". A pesquisa está foi desenvolvida em 1995/96 e é fruto de 18 meses de trabalho de campo e de investigação bibliográfica, distrubuídos por 400 horas de observação directa.

Trata-se de um estudo comparado, já que foi desenvolvido em 2 oficinas de tanoaria em duas freguesias distintas, de seu nome Cartaxo e Vila Chã de Ourique. Os tanoeiros observados tinham na altura 58 e 65 anos, respectivamente.

Na freguesia de Vila chã de Ourique onde foi iniciada a pesquisa, a oficina de tanoaria é parte integrante de uma quinta agrícola- de grandes tradições vinícolas, denominada Quinta da Fonte Bela- e as vasilhas ali produzidas ou reparadas não eram para comercialização, mas sim para uso directo da quinta que produz vinhos de grande qualidade. O que se produz é para consumo interno

Na freguesia do Cartaxo a oficina estudada trabalhava totalmente para o mercado. De salientar que a oficina situada em Cartaxo é a única a restaurar vasilhas de madeira para o mercado das regiões limítrofes. No concelho de Cartaxo, actualmente não se constroem vasilhas de madeira porque em outras zonas do país a Tanoaria é já uma actividade mecanizada em muitas das suas fases e como tal o tanoeiro prefere comprar as vasilhas novas nesses lugares, conseguindo vendê-las na sua oficina por um bom preço e com margem para lucro.

No concelho de Cartaxo, a actividade é totalmente artesanal e dada a complexidade técnica desta actividade, a construção artesanal de um barril é bastante mais dispendiosa - para o artesão que dispende muito mais tempo e mão-de-obra na sua construção, como também para o cliente que derivado do que anteriormente foi dito, tem de pagar o produto final a um preço bastante mais elevado. Assim sendo, a indústria artesanal de Tanoaria neste Concelho limita-se actualmente à reconstrução e/ou reparação dos vasilhames de madeira.

Objectivos deste estudo:

1 - Exploração da vertente técnica, artística, socio-cultural e conómica da Tanoaria;
2- saber se a Tanoaria enquanto ofício tinha ou não sofrido mudanças e adaptações ao longo dos últimos anos, nomeadamente devido à modernização que o sector agrícola português sofreu, mais concretamente o sector vinícola;
3- Saber se apesar de todas as mudanças a Tanoaria ainda seria uma actividade válida economicamente na região;
4- Tentar definir qual o caminho a seguir para a permanência desta actividade na nossa sociedade: a refuncionalização da Tanoaria é uma boa aposta. OU seja, a refuncionalização foi a resposta adaptativa deste ofício às mudanças e exigências dos tempos de hoje. Ao readaptar-se a Tanoaria garantiu a sua sobrevivência. Hoje a Tanoaria não constrói apenas barris ou toneis, mas também fabrica peças de mobiliário ou outros objectos que sejam para além de utilitários, simultaneamente decorativos.

>> Comunidade Virtual - O que a Cultura Material estuda e quais suas especificidades em relação às outras áreas da Antropologia?  

Sandra - O estudo da Cultura Material na abordagem antropológica insere-se dentro da Antropologia Cultural e o ramo que a estuda designa-se por TECNOLOGIA.

A Tecnologia surgiu no século XVIII, conhece novas incursões no século XIX, mas foi sem dúvida o século XX, nomeadamente a Escola Francesa que lhe deu grandes e fortes contributos. Antropólogos como Marcel Mauss, Claude Levi-Strauss, Jean Poirier e mais recentemente André Haudricourt e André Leroi_Gourhan, ficarão para sempre ligados à espantosa evolução que a ciência tecnológica conheceu durante o século XX.

A Tecnologia não é mais que o estudo da actividade material das comunidades. A Cultura Material é composta pelos objectos com os quais lidamos diariamente. As sociedades são desde sempre constituídas e assistidas pelo “material”. Há de facto uma grande diversidade de “mundos” materiais... cada comunidade, região ou país, tem a sua história material. Cada uma delas teve e tem um percurso que assenta sobre aquilo que se cria e que através do gesto se corporiza, ou seja, tem vida.

A Tecnologia estuda, analisa e inventaria os objectos, ferramentas, matérias primas e técnicas que dão origem ao objecto como produto final de uma actividade criativa. Por isso, é que os ofícios tradicionais são uma área de estudo tão interessante, na medida em que se tratam de estudos muito minuciosos, muito tecnicistas e muito descritivos.


>> Comunidade Virtual - Você se utiliza de um termo: "estudo etno-tecnológico". O que é a Etno-tecnologia? A que recorte do objeto de estudo se refere? 

Sandra - Um estudo etno-tecnológico não é mais do que uma pesquisa centrada ou focada numa determinada actividade material de uma determinada comunidade ou região. O objecto de estudo é sempre um determinado produto ou a actividade produtiva que dá origem a esse mesmo produto. Contudo, a ciência tecnológica vai mais além do estudo estritamente material e faz também uma abordagem acerca da relação da comunidade estudada com o meio ambiente envolvente.


>> Comunidade Virtual - Muitos internautas têm manifestado curiosidade sobre aspectos específicos do trabalho de campo. Poderia falar um pouco mais de sua pesquisa de campo? Dificuldades encontradas, metodologia utilizada...? 

Sandra - O trabalho de campo é dos procedimentos mais importantes e mais estimulantes da pesquisa antropológica. Ele é pois, a “pedra basilar” de qualquer trabalho científico. A Antropologia desenvolveu-se, diferenciou-se e obteve estatuto científico através do trabalho de campo. Neste aspecto a ciência antropológica deve muito a Franz Boas, que é considerado o “pai” do trabalho de campo. A particularidade, a singularidade e a riqueza da Antropologia advém precisamente do contacto directo e até certo ponto do observador, com o observado. Mas, para que o trabalho de campo seja frutuoso, credível e científico, este deverá ter método. Da metodologia depende a fiabilidade e a validade científica do estudo.

Por isso, antes de partir para o terreno, defini primeiramente:

  • problema de pesquisa;
  • estudo exploratório da actividade a ser explorada;
  • pesquisa bibliográfica.

A recolha de dados foi baseada em documentos escritos – já tratados por outros autores – e em entrevistas não estruturadas, semi-estruturadas e ainda observação directa. 

Recorri ainda ao método comparativo, na medida em que a pesquisa desenvolveu-se em dois locais diferentes, embora dentro do mesmo Concelho. O trabalho de campo decorreu durante 18 meses e foram feitas anotações manuscritas, para além de ter usado o gravador e a máquina fotográfica.

A única dificuldade encontrada prendeu-se concretamente com a escassa bibliografia existente em Portugal nesta área.


>> Comunidade Virtual - Que autores da Antropologia acompanharam seu trajeto durante a pesquisa? 

Sandra - Sendo apenas uma principiante na área da Antropologia, nunca deixei de me rodear dos autores que considero estarem mais próximos da forma como pretendo fazer qualquer estudo. Marcel Mauss e André Leroi-Gourhan foram os “mestres” inspiradores pela forma como abordam e definem as metodologias da ciência tecnológica. 


>> Comunidade Virtual - Você disse que um dos objetivos de seu trabalho foi explorar a vertente socio-cultural da tanoaria. Fale um pouco mais sobre isto... 

Sandra - O estudo que me propus fazer pretendia ir mais além da pesquisa meramente tecnológica. Como o Homem é um ser eminentemente cultural e social, não pude deixar de enquadrar o problema de pesquisa também nesta vertente. O problema de pesquisa centrou-se especificamente em saber se apesar da modernização do sector vinícola português, a tanoaria tinha sofrido ou não mudanças e/ou adaptações.

Analisada esta questão, tentei perceber porque razão a tanoaria – apesar de escassa -, ainda vive no Concelho de Cartaxo. É claro que a cultura material não se pode entender fora de um contexto cultural. A função e o significado de cada artefacto estão intrinsecamente e inteiramente dependentes de padrões culturais. Por esta razão, os objectos ou os ofícios tradicionais caracterizam cultural e socialmente um povo ou uma comunidade. Eles são sempre fruto de quem os criou e de quem lhe atribuiu determinada função social. Ela não desapareceu porque ainda é válida à comunidade.


>> Comunidade Virtual - Sendo a Tanoaria um ofício artesanal, como vê sua sobrevivência numa sociedade altamente industrializada? Há interesse por parte dos jovens em assumir este tipo de atividades? 

Sandra - A coexistência entre os ofícios tradicionais e a industrialização das sociedades de hoje pode ser difícil, mas não é impossível. Se por um lado, é já raro encontrar-se nos dias de hoje uma actividade tradicional completamente artesanal que de algum modo ainda corresponda às necessidades da comunidade, é por outro lado preocupante pensarmos que este facto pode conduzir o ofício à extinção, uma vez que, no Cartaxo já não se constróem vasilhas em madeira. 

Parece que o mais importante aqui será o apoio à modernização da actividade – em algumas fases -, por forma a torná-la mais eficiente e competitiva em termos de oferta, garantindo assim a sua continuidade. A mecanização de algumas das inúmeras fases da tanoaria, poderia contribuir também para a atracção dos mais jovens para esta actividade, nomeadamente porque a modernização trar-lhe-ia maior competitividade e por conseguinte mais prosperidade. 

Isto não significa que a máquina deva sobrepor-se ao trabalho humano. ao trabalho artesanal, ao trabalho das mãos e principalmente ao trabalho criativo. A máquina deve funcionar como um complemento da actividade artesanal. 

A relação entre o tradicional e o moderno não deve ser contraproducente. Pelo contrário, essa relação cada vez mais estreita, quer ao nível das ferramentas de trabalho, quer ao nível dos materiais, é cada vez mais frequente e imperiosa. 

A execução ou reparação de barris não deve ser desprestigiada, porque apenas durante alguns momentos da sua concepção, lhe são introduzidas as novas tecnologias. O mais importante é saber manter o equilíbrio entre o tradicional e o moderno. Aliás, grande desafio é saber estabelecer esse fio condutor entre o tradicional e o moderno.


>> Comunidade Virtual - A comercialização destes produtos é feita de maneira artesanal, mas o mundo contemporâneo cada vez mais desliga a etapa de produção da etapa da comercialização. Como vê esta questão? 

Sandra - Economicamente a tanoaria ainda é uma actividade rentável, apesar de ser praticada de forma totalmente artesanal, o que origina um encarecimento do produto final. 

Face ao anteriormente exposto, poder-se-á afirmar que, a mecanização da actividade vitivínicola trouxe sem dúvida problemas económicos, tecnológicos e de competitividade para a tanoaria: 

Não se comercializando as vasilhas de madeiras em qualquer espaço comercial, essa situação acaba por ter algumas vantagens, nomeadamente a da relação entre o tanoeiro e o cliente que é sempre directa. Não havendo aqui intermediários - apesar de o aspecto económico nunca ser descurado - a verdade é que o cliente se desloca ao local de trabalho do artesão, podendo constatar directamente como este é desenvolvido, para além de sentir simultaneamente toda a ambiência da própria oficina. Há portanto a possibilidade de o artesão estabelecer com o cliente uma relação mais próxima, de amizade e respeito mútuo, que em outras actividades onde existam intermediários isso não é possível. No caso específico desta tecnologia tradicional, como o produto final não é fácil de ser vendido num qualquer estabelecimento comercial, pensamos que esta situação continuará a ser vantajosa porque a relação entre tanoeiro/cliente será sempre o mais directa e próxima possível.

Sendo esta uma actividade comercial como qualquer outra, o tanoeiro corre os riscos que qualquer empresário tem hoje em dia. Porque afinal, actualmente um artesão deverá ser inevitavelmente também um empresário.


>> Comunidade Virtual - Levando em consideração as preocupações da Antropologia, qual acredita ter sido a maior contribuição de seu trabalho?  

Sandra - O impulso que me levou para o terreno para estudar esta actividade foi: conhecer para preservar. O conhecer permitiu o registo. A actividade pode acabar, mas o registo ficará imortal; melhor ainda, a actividade pode desaparecer, mas sempre que qualquer pessoa abrir a minha pesquisa a actividade estará viva. É esse o meu maior orgulho.


>> Comunidade Virtual - Há um grande interesse pela prática antropológica em outros países. Fale um pouco sobre a Antropologia em Portugal. Há muitas faculdades? Qual a predominância teórica? Que pesquisadores aponta como os grandes nomes da Antropologia em seu país?  

Sandra - A Antropologia em Portugal é uma ciência com alguns anos, mas é ainda muito mal conhecida pela sociedade em geral. Há algumas faculdades com diversos cursos de Antropologia, melhor dizendo, diversas áreas da Antropologia. Está a fazer-se algum trabalho nessa área, mas há ainda um grande caminho a percorrer, quer ao nível da relação Universidade/Empresas, quer ao nível da sensibilização da sociedade em geral da importância da Antropologia, enquanto ciência tão holística e que estuda o Homem sob todas as suas facetas. É por isso que a Antropologia é tão fascinante. Contudo, esta situação é também culpa dos próprios antropólogos, que considero das classes profissionais mais desunidas. Cada um trabalha para seu lado, muitos deles não têm espírito de sacrifício, não são persistentes e após a saída da faculdade, às primeiras adversidades procuram algo, mais estável, mais reconhecido e muitas vezes mais bem remunerado.

Quanto a nomes sonantes da antropologia em Portugal, temos sobretudo, Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira, que marcaram que nas décadas de 40 e 50, com os seus estudos marcaram a história da Antropologia portuguesa no século XX.
Actualmente admiro particularmente o trabalho de Joaquim Pais de Brito – antropólogo e director do Museu de Etnologia, em Lisboa. Joaquim Pais de Brito dedica-se mais à área da etnicidade.

Admiro também o trabalho de Fátima Calça Amante – minha professora na faculdade -, responsável em parte por eu gostar tanto de estudar a Cultura Material. Ela é das pouquíssimas antropólogas portuguesas dedicadas a esta vertente da antropologia.


>> Comunidade Virtual - Você certamente conhece alguma das várias piadinhas sobre portugueses que são contadas no Brasil. Já ouvimos dizer que em Portugal é exatamente o contrário: piadas de brasileiros. Conhece alguma? Vê a possibilidade de se fazer uma investigação antropológica através deste recorte? Ou as piadas serviriam mesmo só para fazer rir?

Sandra - As piadas de portugueses e eventualmente de brasileiros, são fruto dos séculos de convivência entre os dois povos. Nomeadamente, as piadas de portugueses entre os brasileiros, são fruto das reacções do colonialismo. Quanto a piadas de brasileiros em Portugal, não conheço nada de muito concreto. Apenas está generalizada a ideia de que os brasileiros gostam é de futebol e samba. É claro, que estas características advêm do facto de na cultura brasileira estarem muito enraízados estes costumes, o que obviamente não significa que os brasileiros só viva disto e não façam mais nada. Estas piadas são sempre muito exacerbadas, ridicularizando de certa forma comportamentos que são característicos de determinado povo.

É claro, que esta também seria uma matéria muito interessante para ser analisada à luz da ciência antropológica, nomeadamente porque estas piadas são de origem histórico-cultural. 


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