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Entrevista (Edição nº 50)
"Erotismo
e pornografia numa perspectiva macrossociológica"
O nosso entrevistado desta edição é
Sebastião
Costa Andrade ou, como é mais conhecido, Prof. Sebah. Ele fez
Mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Sociologia (Universidade
Federal da Paraíba). É professor titular na Universidade Estadual da
Paraíba. Faz pesquisa sobre sexualidade, idoso e novas tecnologias. É
poeta (Cânticos eróticos e entrelaçados. R. Janeiro: t.mais.oito, 2008);
publicou seu trabalho de Mestrado O homem e a mulher no cancioneiro
popular: um olhar antropológico (Ed. Manufatura, 2002) e, agora,
mais recentemente, Desejos desvelados. Erotismo e pornografia numa
perspectiva macrossociológica (Curitiba: Instituto Mémoria, 2009,
150p), sobre o qual ele vai nos falar nessa entrevista.
Publicação adaptada da sua tese de Doutorado em Sociologia na UFPB
(2005), em Desejos desvelados. Erotismo e pornografia numa
perspectiva macrossociológica, o autor coloca em foco o erotismo e a
pornografia com o apoio de uma abordagem hermenêutica sobre a
sexualidade, marcada que é por preconceito, mitos e tabus. Nesta sua
obra, Sebastião Andrade investiga a sexualidade que contrata e que se
oferece em anúncios de revistas de gênero e no cibersexo da internet,
com destaque para a marginalidade, a preferência, os preconceitos e a
relatividade do senso comum sobre o tema, desvelado em intimidade,
privacidade e fantasia erótica partilhadas. O seu desafio foi entender o
significado e as fronteiras dos atores e desses cenários na perspectiva
macrossociológica. Mais do que a preocupação com um resultado ou uma
análise conclusiva, o autor nos convida, com esta obra, a investigar
esse universo mais ou menos escondido numa leitura muito interessante,
livre de preconceitos e com caráter científico.
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CVA
- Olá Prof. Sebah, eu nem vou dizer que tive “prazer” em ler os teus
livros porque a palavra prazer neste universo não é inocente rsrsrrsrs
... brincadeira à parte, certamente o tema da sexualidade interessa e
ele é colocado no teu livro de forma prazerosa e científica. Conta essa
façanha pra nós: falar de prazer de forma científica....
Prof. Sebah - Primeiramente quero agradecer pela gentileza e
generosidade em abrir esse espaço para a realização desta entrevista, o
que me honra muito. Pois é, quando nós nos aventuramos num campo de
pesquisa não muito convencional, geralmente pisamos num terreno
movediço. Somos muitas vezes vítimas de certas críticas maliciosas e sem
rigor, mas é justamente por estar buscando o desconhecido que a dose de
prazer é mais intensa. Pesquisar esse universo tão escorregadio e
marcado por preconceitos e tabus foi uma experiência extremamente rica,
tanto do ponto de vista acadêmico quanto pessoal. Foi um espaço bastante
rico para eu poder exercitar a prática tão cara ao ofício antropológico:
a relativização.
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CVA
- Sexualidade, Amor, Pornografia e Erotismo são temas tratados no teu
livro. Dá pra conceituar e distinguir cada um deles?
Prof. Sebah - Esta não é uma questão fácil de responder. Esses
conceitos são complexos e de sentidos e significados múltiplos. Demarcar
o território do erotismo e da pornografia é uma tarefa arriscada. Vou
tentar mirar apenas nos fenômenos do erotismo e pornografia, já que
incluir o amor e a sexualidade demandaria muito espaço. Podemos dizer,
em linhas gerais, que há alguns traços singulares entre o erotismo e a
pornografia que nos possibilitam estabelecer uma diferenciação
razoavelmente aceitável. Uma das diferenças mais comuns diz respeito ao
"teor" mais nobre do erotismo, em contraposição com o caráter "vulgar"
da pornografia. O que confere esse grau de nobreza ao erotismo é o fato
dele não se vincular diretamente ao sexo, enquanto que a pornografia
encontra no sexo e na sexualidade seu espaço privilegiado. Dessa forma,
o erotismo estaria mais próximo do sexo implícito (portanto aceitável) e
a pornografia do sexo obsceno, direto, explícito e comercializável.
Porém, distinções desta natureza podem nos conduzir a práticas
preconceituosas! Afinal de contas, erótico ou pornográfico, depende dos
contextos histórico, cultural ou moral onde esses fenômenos estão
inseridos.
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CVA
- Certamente. Existe a sexualidade feminina e a sexualidade masculina
bem como seus respectivos desempenhos e valores, eu penso; no teu livro,
você não as distingue quando as aborda. Isso foi intencional? E afinal
elas são de fato distintas, quando se trata de pornografia e erotismo?
Prof. Sebah - Posso dizer-te que foi intencional. As sexualidades
masculina e feminina são aparentemente complementares e antagônicas. Os
valores que permeiam essas distintas sexualidades são construídos
culturalmente, daí que homens e mulheres se relacionam distintamente com
o erotismo e a pornografia. Embora seja perigoso generalizar, poderíamos
dizer que a sexualidade feminina por ser mais holística e apelar para
valores mais abrangentes (como o afeto, a sensibilidade, a compreensão,
etc.), estaria mais próxima do erotismo; enquanto que com os homens,
expressando uma sexualidade mais fragmentada, estariam mais próximos da
pornografia. No entanto, não podemos ir muito longe com essas
distinções. Essas fronteiras são tênues, embora em termos de tendência,
minha pesquisa tenha revelado que homens dão preferência e são mais
envolvidos com os apelos pornográficos do que as mulheres. Mas, volto a
salientar, não devemos cair em generalizações.
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CVA
- Eu confesso que fiquei surpresa com a robustez da bibliografia da tua
pesquisa sobre o tema, temos boas contribuições teóricas brasileiras,
inclusive. Ainda assim, me parece que a Antropologia e a Sociologia
falam muito pouco sobre erotismo e pornografia, você concorda?
Prof. Sebah - Sem dúvida, apesar de termos uma bibliografia
considerável, as Ciências Sociais ainda são muito tímidas no tratamento
destes temas. Acredito que os cânones acadêmicos talvez constranjam os
pesquisadores em aventurarem-se por campos menos "nobres". Muitos
pesquisadores preferem ficar adormecidos nos braços esplêndidos dos
temas convencionais a se arriscar em temáticas mais ousadas! Mas posso
assegurar uma sensação de prazer por ter realizado uma pesquisa que
provoca polêmicas, desagrado e interesse.
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CVA
- É muito interessante pensar a sexualidade como um desejo de
completude, uma experiência sagrada, de união e plenitude; lembrar como
ritos pagãos e muito da filosofia oriental sempre associaram a
sexualidade e o sagrado pela origem comum que têm e pela relação
estreita que mantêm. E pensar como elas foram inteiramente apartadas e
mesmo polarizadas na nossa sociedade ocidental. Devemos este
distanciamento à nossa moral religiosa apenas?
Prof. Sebah - Quando imagino que a sexualidade já foi vivenciada
e pensada como completude ou uma experiência sagrada, de união e
plenitude, e hoje, no Ocidente, vejo como ela está associada a pecado e
a moralismos, não posso deixar que pensar que, embora muitos outros
fatores possam ter contribuído para a cisão, a religião (principalmente
o Cristianismo) exerceu um papel, se não preponderante, decisivo!
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CVA
- A sua pesquisa mostra que muitas das pessoas que oferecem e buscam
prazer em revista e na internet são casadas e declaram que são. Afinal,
por que as pessoas oferecem e buscam prazer em revista e na internet?
Qual é a natureza desse prazer?
Prof. Sebah - Se fôssemos uma sociedade que minimizasse as
interdições no campo das práticas sexuais, talvez não precisássemos
buscar vivências alternativas. Quem sabe se a monogamia não está em
crise? Não sei afirmar com certeza. Quem sabe se a natureza do prazer
sexual entre esses atores sociais não seja uma forma de questionamento
das práticas convencionais? Quem sabe não seja uma busca ou uma forma de
romper com a monotonia que, muitas vezes, se instaura no casamento?
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CVA
- Você acha que a grande quantidade de oferta de sexo e prazer nas
revistas e na internet indica maior interesse do que em outros tempos?
Li em matéria d’O Globo (28/06/09) um artigo que refletia exatamente o
contrário: notícia de um site de gente assumidamente assexuada, que
declara que não faz e não quer sexo. A assexualidade pode ser entendida
como desvio ou tendência? O que você acha disso?
Prof. Sebah - Não sei se o interesse de hoje é mais intenso que
noutras épocas. Talvez pela maior possibilidade de acesso à informação,
tenhamos essa impressão. Quanto a esta reportagem que você cita, não
posso afirmar que a assexualidade seja uma tendência ou um desvio. As
pessoas e as culturas vivenciam suas sexualidades de diferentes formas e
padrões. Seria arriscado chegar a algum tipo de conclusão sem cair na
malha fina do etnocentrismo!
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CVA
- É verdade! Prof Sebah, em nome da CVA, agradeço e parabenizo por tua
pesquisa. Gláucia.
Prof. Sebah - Querida Gláucia, eu que agradeço pela consideração
e deferência.
Atualizado em 20/11/09
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