“Modernidades alternativas”
O nosso entrevistado desta edição é o
Prof.
Daniel Aarão Reis. Ele fez Graduação em História (Université de
Paris VII, 1975), é mestre na mesma disciplina e na mesma universidade
(História, Université de Paris VII, 1976) e é Doutor em História Social
(USP, 1987). É professor Titular de História Contemporânea (UFF, 1995) e
fez estágios de pós-doutorado na Université de Paris VIII (1992-1993),
na École des Hautes Études en Sciences Sociales (2000-2001) e no Centre
d'Etudes des Mondes Russe, Caucasien et Centre-Europeen (2008). Faz
pesquisa sobre revoluções socialistas, movimentos de esquerdas e
ditadura militar. Escreveu dezenas de artigos em periódicos e outras
dezenas de capítulos em livros. É autor e organizador, sozinho e com
outros autores, de quase três dezenas de títulos que tratam de seus
temas de pesquisa: revoluções socialistas, esquerdas brasileiras e
intelectuais e política.
Em 2008, teve reeditado pela 3a. vez o seu livro escrito em co-autoria
com P. Morais, o 1968, a paixão de uma utopia (Ed. FGV); organizou com
Muzart-Fonseca, Denis Rolland e Marcelo Ridenti, uma obra de quase 1.400
páginas em francês, o L’exil brésilien en France (L’Harmattan) e,
novamente com D. Rolland, organizou um novo título, o Modernidades
Alternativas (Ed. FGV). A nossa entrevista aborda estas publicações,
sobretudo a última. Modernidades Alternativas traz dezenas de artigos
(335 páginas em papel e outras tantas num CD que vem anexado ao livro)
sobre as modernidades e os processos políticos e culturais que
constituem a modernização a partir do século XIX. O livro está dividido
em seis partes: Esquerdas e direitas no Brasil; Modernidades européias;
Modernidades e nuestra América; Artes, música, literatura e história;
Corporativismos, fascismos e nazismo; e Modernidade e socialismos. A
modernidade aparece ali multifacetada, composta por dicotomias,
possibilidades outras, processos constitutivos e complementares,
complexidades, esperanças e incertezas.
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CVA
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Olá
Prof. Daniel, que bela contribuição para a nossa compreensão sobre esse
período complexo e controverso que é a modernidade. A propósito,
podíamos começar por aí: ainda estamos vivendo a modernidade? ou como
você define este período atual? Podemos identificar marcas que sinalizam
as passagens de um período a outro?
Reis -
Trata-se de uma questão sujeita a controvérsias, como digo num texto de
apresentação do livro referido. E, provavelmente, não chegaremos a um
consenso sobre o assunto. Quanto a mim, penso que vivemos, no período
atual, uma nova etapa da modernização. Não aprecio e não utilizo o
conceito de pós-modernismo, embora respeite, evidentemente, e compreenda
as referências dos partidários do conceito. As transformações que hoje
vivemos e a particular aceleração dos processos, surpreendem e inquietam
pelo seu caráter inovador. Entretanto, a análise histórica permite
evidenciar que estas situações já foram vividas em outras conjunturas
históricas.
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CVA
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A
modernidade se apresenta no teu livro como um período plural: uma
história de processos de modernização bastante diversificados. Mas,
afinal esta característica distingue a modernidade de outros períodos?
Reis -
Tentamos mostrar que as modernidades, embora compartilhando
características comuns, sempre foram plurais, principalmente porque elas
se formam em diferentes circunstâncias e em luta e intercâmbio com
tradições marcantes, advindas dos chamados antigos regimes.
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CVA
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Aparece no livro uma relação complexa entre revoluções, liberalismo,
autoritarismo, modernidade e liberdade...
Reis -
O
livro procurar analisar o quadro extraordinariamente complexo dos
processos de modernização de diversos pontos de vista, de diferentes
ângulos (economia, política, cultura), oferecendo um quadro diverso em
todos os sentidos, inclusive porque os autores nem sempre defendem os
mesmos parâmetros de análise e as mesmas orientações. As modernidades
apresentam-se em suas várias feições: revolucionárias, reformistas;
autoritárias, liberais, libertárias; de direita e de esquerda;
construtivas e destrutivas. O mundo sempre em movimento, onde tudo o que
é sólido desmancha-se no ar, evidenciando-se a adequação da frase
emblemática de Marx.
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CVA
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Você
pode nos contar um pouco como se coloca o controverso par modernidades
liberais e modernidades alternativas?
Reis -
As
modernidades liberais, em suas diferentes matrizes: inglesa,
estadonidense e francesa pretenderam, a partir das grandes revoluções de
fins do século XVIII (americana e francesa), monopolizar o conceito de
modernização e de modernidade. Com ambições universais, vazadas
emblematicamente nas Declarações dos Direitos do Homem, as modernidades
liberais tentaram, sem sucesso, apropriar-se exclusivamente dos
processos de modernização. Os que não rezassem pelo seu credo eram
considerados “anacrônicos” ou “passadistas”. É evidente, entretanto,
apesar de retóricas e metáforas nostálgicas que eventualmente as marcam,
que os projetos socialistas e libertários, nacional-estatistas,
corporativistas e fascistas (pela esquerda e pela direita) trazem também
as marcas, os compromissos, as tendências construtivas e destrutivas
inerentes aos processos de modernização.
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CVA
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Como
um estudioso das revoluções socialistas e dos regimes ditatoriais, você
identifica no povo brasileiro alguma mudança ou tendência pra um ou pra
outro? Temos na nossa América Latina um quadro de tensões já importante.
Na tua opinião, o que devemos esperar por aí?
Reis -
A
sociedade brasileira, em sua grande maioria, a partir de fins dos anos
1970, orientou-se pela perspectiva da construção democrática. O país tem
dado, efetivamente, passos importantes neste sentido, embora nossa
democracia continue apresentando grandes problemas e limitações. Não
creio, no entanto, que possamos falar de uma democracia consolidada, eis
que as tradições neste sentido ainda são bastante recentes. Assim,
inclusive porque a sociedade tem feito muito pouco esforço para
compreender as relações complexas que estabeleceu com “sua” ditadura,
nos anos 1960 e 1970, não é de se excluir que possam reaparecer, em
conjunturas críticas, tentações autoritárias, pela esquerda ou pela
direita. Quanto ao socialismo, trata-se de um projeto que, atualmente,
sem dúvida, não está na ordem do dia, mas as tradições igualitaristas na
sociedade brasileira permanecem fortes, também não se podendo excluir,
em conjunturas de acirramento de contradições, a possibilidade que esta
perspectiva possa se reatualizar, devidamente redefinida em relação aos
parâmetros que marcam os socialismos do século XX.
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CVA
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E a
utopia de 1968? Ela ainda permanece? O que foi aquilo na tua opinião?
Reis -
No
ano de 1968, ocorreram importantes manifestações e lutas sociais e
políticas. Foi um ano quente. No entanto, como sustentei num artigo
publicado no ano passado, as forças “frias”, conservadoras, de esquerda
e de direita, acabaram prevalecendo, mantendo-se a Ordem que foi então
duramente questionada. Embora derrotados, os movimentos de 1968 deixaram
importantes legados, atuais, até os dias de hoje: as conquistas das
mulheres e das minorias discriminadas, a proposta do desenvolvimento
sustentável, entre outras, nunca mais deixaram a agenda política dos
povos que vivem neste mundo. Permanecem atualíssimas, uma prova de que o
ano de 1968 não acabou, como lembra o título do livro do jornalista
Zuenir Ventura.
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CVA
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O
tema “alternativo” parece cunhado realmente nos nossos tempos, via de
regra associado a um “outro”, que não o hegemônico, como você o usa?
Reis -
O
termo alternativo é por mim usado no sentido de abranger todas as
propostas alternativas à modernidade liberal. Incluem-se, portanto, os
projetos de esquerda e de direita. Trata-se de construir seu inventário,
de compreendê-los em suas circunstâncias, de compará-los, de examinar
suas virtualidades, o que têm de construtivo e de destrutivo, para
tentar ver melhor os desafios que se nos apresentam neste início de um
novo século.
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CVA
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Esse
livro que você organizou com outros autores, o L’exil brésilien en
France, ainda não apareceu por aqui. Você pode nos dar uma “notícia”
dele?
Reis -
Trata-se de um trabalho originado num seminário que se realizou na
França, em 2005. Ali se tratou fundamentalmente do exílio brasileiro na
França, ao longo dos anos 1970, mas também foi possível efetuar
importantes reflexões sobre o exílio em geral e sobre as complexas
relações construídas entre a sociedade brasileira e a ditadura
civil-militar que existiu em nosso país entre 1964 e 1979. Para além da
tese de Denise Rollemberg, Exílio, entre raízes e radares, publicada
pela Editora Record há alguns anos, pouco se produziu sobre o exílio
brasileiro, em suas diferentes vertentes. Uma pena. A ver, se
conseguimos suscitar interesse pelo tema. Em junho próximo, acontecerá
na UFF, organizada pela Profa. Samantha Viz Quadrat, um importante
seminário sobre o exílio nos países do Cone Sul, reunindo especialistas
de vários países. Quem sabe se este evento não conseguirá suscitar um
interesse duradouro? São os nossos votos.
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CVA
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Professor, muito obrigada pela entrevista, eu e a Comunidade Virtual de
Antropologia te agradecemos. Parabéns por todo o teu trabalho, Gláucia
Reis -
Sou
eu quem agradece a oportunidade deste diálogo, que espero possa ter sido
interessante. Saudações, Daniel Aarão Reis
Maio, 2009
Atualizado em 23/06/09