“Antropologia do Corpo”
O nosso entrevistado desta edição é Jose Carlos Rodrigues. Na sua
formação, ele fez Graduação em Ciências Sociais (1970) e em Direito pela
Universidade Federal Fluminense (1972), é Mestre em Antropologia pelo
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1975), é
Doutor também em Antropologia pela Université Paris VII (1981) e tem
Pós-Doutorado na Indiana University (1987). José Carlos é Professor Associado na Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), foi
Professor Titular de Antropologia na UFF e pesquisador do CNPq. Tem
vários artigos, capítulos e sete livros publicados: Comunicação e
significado (2006); O corpo na História (1999); Higiene e
ilusão (1995); Ensaios em Antropologia do Poder (1992);
Antropologia e Comunicação (1989); Tabu da morte (1983) e
Tabu do corpo (1979). Nesta entrevista, ele vai nos falar um pouco
sobre a sua produção intelectual e, de forma privilegiada, sobre uma
antropologia do corpo e sua relação com outras disciplinas. Contamos
aqui com a participação de Fátima Cecchetto (Fiocruz) na elaboração das
perguntas.
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CVA
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A sua
obra Tabu do corpo se apresenta como a primeira publicação
brasileira que tratou da análise do corpo enquanto sistema simbólico.
Como você chegou a uma antropologia do corpo nos seus estudos
acadêmicos?
JCR - Bem... É preciso situar-nos no tempo. Eu precisava definir
um tema para minha dissertação de mestrado. Queria que fosse um problema
caracteristicamente antropológico, no sentido de apresentar ao mesmo
tempo universalidade e especificidade culturais... Algo que girasse em
torno de certos eixos de estruturação das sociedades, problematizados
pela antropologia da época, sob forte influência de Lévi-Strauss: natureza e cultura, indivíduo e sociedade, conformismo e desvio,
consciente e inconsciente, razão e afetividade e assim por diante.
Mas o
gatilho que efetivamente desencadeou o tema e a pesquisa foi uma
conversa com um amigo, em um botequim, em que ele descrevia situações
nas quais tinha sentido nojo de corpos alheios e de manifestações
corporais. Refletindo posteriormente sobre a conversa e incluindo nela
os meus próprios sentimentos, veio-me a idéia: isto dá samba! Como
costumo dizer, o laboratório do cientista social é (ou deveria ser) a
própria vida social.
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CVA
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Como
podemos caracterizar e distinguir os campos da Antropologia e da
Sociologia do Corpo?
JCR - Os limites e distinções entre as ciências sociais
constituem um problema insolucionável. Talvez uma dessas questões
constitutivas, sem as quais o próprio campo deixaria de ter sentido.
Pessoalmente, sempre que sou forçado a enfrentar essa questão – como
agora – prefiro recorrer ao que Lévi-Strauss sugeriu no capítulo XVII de
Antropologia estrutural.
Segundo seu pensamento, as ciências sociais poderiam ser sistematizadas
a partir de cinco pontos de vista básicos, que chamou de etnografia,
história, etnologia, sociologia e antropologia. Dessas, em torno das
quais estariam situadas as demais disciplinas (economia, política,
arqueologia, lingüística, etc.), as duas primeiras estariam voltadas
preponderantemente para o trabalho empírico. As duas seguintes para o
trabalho de teorização sobre os resultados das duas primeiras. A última
estaria dedicada prioritariamente às grandes generalizações sobre as
sociedades e os seres humanos. Além disso, Lévi-Strauss apontou que as
duas primeiras preocupam-se principalmente com a sociedade do observado,
com os pontos de vista nativos, ao passo que as duas outras se aplicam
preferentemente à sociedade ocidental (da ciência, do observador). Por
seu turno, a antropologia, alimentando-se de todas as outras
perspectivas, estaria interessada em teorias de longuíssimo alcance.
Para
suprimir polêmicas ociosas ou corporativas, poderíamos abandonar os
nomes das disciplinas e ir adiante, dizendo que estes cinco pontos de
vista não constituem disciplinas distintas. Configuram modos de
raciocínio e habilidades que deveriam ser fundamentais, necessários e
mesmo obrigatórios para os cientistas sociais, bem como para o ensino de
ciências sociais, quaisquer que sejam as especialidades e as
circunstâncias diversificadas de seus exercícios profissionais: não se
teoriza sem dados, não se colhem dados sem teorias, não se concebe o
outro sem contrastá-lo a si - e vice-versa -, não se particulariza sem
pressupostos gerais, não se generaliza senão a partir de
particularidades.
Pois
bem, feito este intróito, retorno à pergunta para dizer que não vejo
separação ou distinção de princípio entre os campos da antropologia e da
sociologia do corpo. Se esta separação acontece aqui e ali, nunca pode
se dar como questão de princípio. É como resultante circunstancial das
escolhas dos pesquisadores individuais ou de suas filiações
institucionais que pode ocorrer. O ofício de cientista social exige a
conjunção das perspectivas mencionadas: qualquer que seja o registro na
carteira profissional ou o departamento universitário a que se pertença,
é preciso ser simultaneamente historiador, antropólogo, etnógrafo...
Mais do que isto: querendo ou não, por ação ou omissão, consciente ou
inconscientemente, todos praticamos estes pontos de vista. Ou, dito de
outra forma, estes pontos de vista operam em nós.
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CVA
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Você
deve ter encontrado muitas dificuldades na abordagem de uma antropologia
do corpo... preconceito... resistência... Você pode nos contar um pouco
sobre isso?
JCR - Voltemos ao tempo em que a antropologia no Brasil não
desfrutava do reconhecimento e do prestígio que hoje lhe são tributados;
um tempo em que antropologia e antropólogos ainda não haviam sido
promovidos a instâncias de consagração cultural e de legitimação
política, como tem acontecido com freqüência. Pois bem: naqueles idos em
que se confundia antropologia com arqueologia, tempos nos quais os
antropólogos eram vítimas do infame trocadilho com “antropófago”, os
meios leigos encontravam compreensivelmente grande dificuldade em
entender o que poderia pretender, estudando o corpo, um pesquisador que
não fosse médico, biólogo nem enfermeiro.
Não
acontecia muito diferente no ambiente dos cientistas sociais. Naquela
época, em geral os cientistas sociais estavam preocupados com questões
mais “sérias”, mais ostensivamente políticas ou institucionais. Entre
antropólogos, contudo, a receptividade do tema normalmente foi bastante
boa. Talvez isso se desse porque grande parte conhecesse bem o artigo
clássico de Mauss sobre as técnicas corporais, assim como o grande
reforço de Lévi-Strauss, no seu texto introdutório à obra do mestre, a
propósito da relevância do tema “corpo” e da urgência de alguém se
debruçar sobre o mesmo.
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CVA
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Como
é a relação entre uma antropologia do corpo e a antropologia da saúde?
Quais são as contribuições da primeira para a segunda?
JCR - O desconhecimento empírico sobre aspectos específicos da
relação corpo-cultura ainda é muito grande. Contudo, os trabalhos
existentes já nos permitem afirmar de modo bastante peremptório alguns
princípios gerais norteadores, que podem ser úteis para uma reflexão
sobre saúde: que o corpo humano é menos biológico do que normalmente se
pensa; que ele é menos individual do que estamos acostumados a pensar;
que ele é socialmente construído e variável cultural, historicamente;
que existe uma espécie de concretude visceral da cultura; que uma
sociedade se faz fazendo os corpos em que existe e que, portanto, a
questão do corpo é indissociável da do poder...
Em
relação à antropologia dita “da saúde”, primeiro é preciso cuidado com o
qualificativo. Há o perigo de o termo qualificador prevalecer sobre o
qualificado, como parece ter acontecido algumas vezes com domínios como
antropologia política, econômica, médica, clínica, visual, com a
antropologia do consumo, do corpo, da literatura, etc. Freqüentemente
perde-se a perspectiva própria de antropologia e pratica-se muito mais
economia, política, medicina, literatura, fotografia...
Dito
isso, penso que seja possível uma colaboração entre os domínios. Por
exemplo, é possível ir bem além do já sabido, de que as medicinas e os
tratamentos variam culturalmente e tentar compreender também como e por
que são quase sempre eficazes. Pode-se ser incisivo na direção de
superar a crença tácita de que as doenças, por serem “biológicas” ou
“naturais”, sejam idênticas por toda parte. É possível considerar que as
doenças também são variáveis com as culturas e ir bem fundo nesta
direção. É possível ir muito mais longe na teoria e na prática em
assuntos como eficácia simbólica e aspectos mágicos ou rituais dos
tratamentos, dos remédios e do pessoal médico. É importante aprofundar o
conhecimento de como certas doenças estão articuladas com signos de
identidade social. Enfim, entre muitos temas é desafiador compreender
melhor o papel do suicídio na vida e na saúde dos seres humanos.
Sobretudo, é possível combater preconceitos e discriminações, a partir
da consciência da diversidade cultural relativa a corpo, doença,
tratamento, saúde, etc. explicitando as relações de poder. Na outra
direção, a antropologia dita “da saúde” pode municiar a antropologia –
“do corpo” ou tout court: é interessante verificar como as
práticas de saúde podem ser reveladoras de princípios e crenças morais,
políticos e cosmológicos de uma sociedade; igualmente, o consumo de
medicamentos na nossa sociedade, por exemplo, pode ser visto quase como
uma sintomatologia sociológica.
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CVA
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E
sobre a aproximação destes estudos com aqueles sobre magia? Existe?
Esses dois campos estabelecem diálogo? Representam contribuição um para
o outro?
JCR - Quando comecei a pesquisar sobre o corpo, lá pelos idos de
1972, não havia muitos trabalhos sistemáticos sobre o assunto. Ainda por
cima, eu era muito jovem e não conhecia grandes coisas da teoria
antropológica. Tentei fazer uma espécie de adaptação, meio improvisada,
buscando aproximação entre a análise simbólica do corpo e a literatura
antropológica sobre magia – esta, sim, já bastante madura e consistente
(Mauss, Hertz, Lévi-Strauss, Leach, Mary Douglas, Evans-Pritchard,
Victor Turner, entre outros). Na época, este me pareceu o melhor
caminho. Vigiar e punir, que muito influenciou meus trabalhos
posteriores e os desviou um pouco da literatura sobre magia, foi
publicado em 1975 - se a memória não me trai.
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CVA
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Uma
contribuição importante do seu trabalho é a abordagem simbólica, você
poderia situá-la no campo das representações sociais?
JCR - Sem dúvida. Mas, pelo menos no caso específico dos estudos
sobre corpo, é necessário ter muito cuidado com a idéia de
“representação”. Uma coisa que acredito ter aprendido é que com as
culturas variam não apenas as representações sobre o corpo, isto é, as
imagens, os conceitos, as teorias, os pontos de vista, as idéias, as
premissas, as opiniões, os discursos... Variam também muitas vezes os
próprios corpos em sua materialidade: os limites de resistência, de
força, os automatismos corporais, a precisão dos órgãos dos sentidos, as
habilidades corporais, a dor, o prazer, as doenças... O perigo,
portanto, está em que a noção de representação aplicada aos estudos
sobre corpo muitas vezes convida a esquecer a concretude da cultura, a
minimizar a solidariedade entre o inteligível e o sensível, a desprezar
o fato de que freqüentemente o “abstrato” existe de modo visceral.
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CVA
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Além
do marco que representa a tua obra, você poderia nos apresentar um
pequeno panorama dos estudos sobre a antropologia do corpo no Brasil?
JCR - Desculpem-me, não tenho esta competência.
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CVA
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Você
identifica alguma concentração desses estudos nalguma universidade ou
região brasileira, em especial?
JCR - No momento, não. Tenho a impressão de que houve uma
concentração importante de trabalhos em Porto Alegre, durante os anos
90, que resultaram em artigos e coletâneas bastante interessantes.
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CVA
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Os
estudos sobre a antropologia do corpo no Brasil têm relevância lá fora?
JCR - Talvez no âmbito dos pesquisadores que costumam freqüentar
as reuniões de antropologia do Mercosul.
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CVA
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O que
é e como você pensa o embodiment?
JCR - Não estou seguro de que haja necessidade de importar
neologismos, ou de traduções esquisitas (“corporificação”, por exemplo)
para pensar a relação corpo-cultura. Em geral sugerem novidades não tão
novas assim. Também não estou certo de que esta noção seja muito útil
além do estrito contexto de perspectiva fenomenológica em que nasceu. Em
algumas apropriações, mais radicais, parece-me que a idéia de
embodiment beira o determinismo biológico; em outras, mais brandas,
namora com o individualismo sociológico.
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CVA
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José
Carlos, eu, Fátima e a CVA agradecemos imensamente esta entrevista,
Gláucia.
JCR - Eu é que agradeço a honra.
Atualizado em 03/03/09