"Patrimônios
bioculturais"
O nosso entrevistado desta edição é
Alexandre Fernandes Corrêa, Professor Associado I da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA), com Graduação em C. Sociais: Antropologia na
UFRJ (1986); com Mestrado em Antropologia Cultural na UFPE (1993); com
Doutorado em C. Sociais: Antropologia na PUC-SP (2001) e pós-doutorado
em Antropologia na UFRJ (2006). Alexandre faz pesquisa sobre patrimônio
cultural, etnologia regional e urbana, estudos culturais e novos
patrimônios. Tem vários artigos publicados em periódicos e capítulos em
livros. Tem um livro publicado com o título: “Vilas, parques, bairros e
terreiros: novos patrimônios na cena das políticas culturais de S. Paulo
e S. Luis” (S. Luis: EDUFMA, 2003) e acaba de ter publicada uma outra
obra que tem por título: Patrimônios Bioculturais: Ensaios de
Antropologia do Patrimônio Cultural e das Memórias Sociais (São
Luís: EDUFMA/Núcleo de Humanidades, 2008), objeto privilegiado dessa
entrevista.
Essa sua obra coloca em perspectiva as Políticas do Patrimônio Cultural
e da Memória Social e Natural efetuadas nas décadas de oitenta e
noventa, em duas cidades brasileiras, com o objetivo de perceber as
ações de preservação dos bens e acervos culturais nesses contextos
empíricos, diante das atuais exigências políticas e sócio-ambientais. O
livro compõe-se por Introdução, sete capítulos que tratam de Patrimônio
em Perspectiva; Aspectos Sócio-Históricos & Conceituais; Memória Social
& Patrimônio; Patrimônios Bioculturais; Patrimônios, Museus &
Subjetividades; Sociedade Anônima & Urbanidade Enfurecida; Novos
Patrimônios & Novos Museus; e as Considerações Finais – A Gestão
Política do Teatro das Memórias; por fim, tem-se um Prólogo – O
‘Complexo de Dédalo’ em uma Perspectiva Antropológica que sintetiza esse
conjunto de ensaios com uma reflexão teórica e crítica mais abrangente.
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CVA
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Alexandre, eu quero agradecer esta entrevista e parabenizá-lo por mais
este trabalho. Você podia começar nos contando como se desenvolveu o
projeto dessa publicação.
Alexandre - Gláucia, primeiro é uma satisfação participar dessa
entrevista, pois nossa amizade já tem longa data e é uma grande alegria
poder compartilhar com você esse momento. Esse livro é resultado de um
longo trabalho que começou logo após a defesa da tese, na PUC/SP, em
2001, e continuou com a publicação em edição limitada de uma versão
preliminar do texto academista original, em 2003. Esse livro que lanço
agora recebeu um tratamento mais rebuscado. Além disso, ele está
acrescido de textos que foram publicados e apresentados em revistas, em
anais de eventos e congressos, na Internet, etc, no decorrer desses sete
anos.
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CVA
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E
qual é a contribuição original deste teu livro?
Alexandre - Estive lendo recentemente José Ortega Y Gasset. Esse
grande filósofo espanhol escreveu algo que me impressionou pela
sinceridade e verdade. No texto Rebelião das Massas, ele escreveu
que uma “excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais
adequada a nosso tempo é não publicar livros supérfluos”. Eu creio que
esse livro não é supérfluo, pois apresenta uma contribuição original,
genuína e autêntica de um pesquisador independente. Creio que, sem
querer ser desagradável, há muita mesmice e repetição de idéias nos
supostos ‘centros’ do pensamento antropológico, sobre o tema do
patrimônio cultural e da memória social. Nós, da suposta ‘periferia’,
somos um tipo de ‘complexados’ e nós, brasileiros do ‘terceiro mundo’,
tendemos à imitação e à repetição obsedada. Vence quem repete melhor – o
mais talentoso entre nós, é aquele que empreende uma ‘franquia’ da moda,
hoje rentável no capital acadêmico, de algum autor ‘estrangeiro’. Nesse
livro não faço isso; o que certamente decepcionará os ávidos por
simulações ou emulações intelectuais. Nessa publicação, faço um
exercício de imaginação sociológica brasileira e latino-americana e
tento pensar as singularidades da nossa realidade, que as importações
intelectuais não dão conta. Além disso reúno ensaios que são reflexões
acerca de temas que estão em voga no contexto de acelerado processo de
mundialização cultural, na trilha aberta pelas reflexões de Renato Ortiz.
Assim, acredito que se trata de uma boa ferramenta para estudantes e
pesquisadores cultivarem debates fecundos sobre a gestão política das
memórias sociais na atualidade.
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CVA
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Você
pode explicitar um pouco estas tuas contribuições originais?
Alexandre - Primeiramente, o livro procura contribuir para a
superação de um paradigma ainda muito poderoso que é o cartesianismo -
esse modo de pensar que fragmenta, separa e compartimentaliza o mundo.
Daí o título do livro: Patrimônios bioculturais. Encontra-se nesse livro
uma tentativa clara de enfrentar essa visão de mundo que se pretende
perpetuar reproduzindo indefinidamente dicotomias e antinomias do tipo
Natureza/Cultura, Material/Imaterial, Tangível/Intangível e assim por
diante. Essa, eu creio, é uma contribuição que considero importante no
meu livro e não tem sido dada nas publicações mais recentes sobre esses
temas, tão importantes, ligados à política cultural. Outra contribuição
que considero significativa é a ousadia que realizo, apresentando
alternativas a esse paradigma. Não se trata de criticar apenas, e sim,
de apresentar também saídas para essas ‘encruzilhadas do labirinto’ em
que nos encontramos hoje, parafraseando Castoriadis. O livro é crítico,
mas também é propositivo e sugere prospectivas mais democráticas para a
ação cultural.
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CVA
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Nesse
seu trabalho crítico, quais as principais referências teóricas que você
destacaria?
Alexandre - Bem, são muitas as fontes do pensamento crítico
utilizadas no livro, mas eu destacaria o legado da Teoria Crítica, com
incursões no pensamento de Walter Benjamin e também de J. Habermas; nos
textos de Castoriadis, já referido ainda há pouco; Edgar Morin, em
relação à crítica ao cartesianismo, quando se aproxima da Epistemologia
da Complexidade e, nesse mesmo caminho, com muitas afinidades, nesse
livro, com a produção dos autores ligados aos Estudos Culturais, por
exemplo o já citado Renato Ortiz. Não poderia deixar de fazer referência
a Marcel Mauss que, na seqüência dos trabalhos de C. Lévi-Strauss, serviram de base para o enfrentamento da visão fragmentadora.
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CVA
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Alexandre, então, seria o momento para você falar um pouco sobre o
conceito de patrimônios bioculturais, que é a sua novidade mais valiosa
para o debate sobre gestão e promoção dos patrimônios naturais e
culturais e das memórias sociais.
Alexandre - Sim, é verdade. Considero que esse é um ponto forte
do conjunto desses ensaios. De imediato, gostaria de fazer referência ao
professor e pesquisador que fez o prefácio do livro, e que é o grande
responsável pela formação desse conceito no processo da minha pesquisa
de doutorado, realizado no período de 1997 a 2001. Trata-se do professor
Edgard de Assis Carvalho. Foi nas conversas e diálogos com ele que
surgiu esse conceito. As idéias não são propriedades de autores, elas
estão vivas no mundo das idéias, como diz Edgar Morin, na noosfera.
Esse conceito surgiu como uma noção plástica, que incorpora realidades
tidas como separadas pelo paradigma cartesiano fragmentador. Na verdade,
esse conceito tem uma herança que vem desde Marcel Mauss, Lévi-Strauss e Merleau-Ponty, passando por Morin, Bateson, Prigogine, Francisco Varela,
Fritjof Capra e muitos outros que trabalham com a epistemologia da
complexidade e com os estudos culturais. É um conceito que rebate essa
moda triunfante das dicotomias de patrimônios materiais e imateriais,
tangíveis e intangíveis, naturais e culturais – é um conceito formulado
por um pensamento que se insurge contra esses reducionismos. De modo bem
geral, pode-se dizer que se trata de um conceito re-integrador, que
remete a “recomposição do todo”, como afirmava M. Mauss.
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CVA
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E
essa ‘insurreição’ da qual você fala, do que se trata, mais exatamente?
Alexandre - Bem, trata-se de um problema político. Nesse domínio
do patrimônio, da memória e da cultura, tem muito conservadorismo, como
aponta Canclini, em Culturas Híbridas. É nesse campo e espaço
social que as oligarquias mais conservadoras se instalam (veja o caso do
Maranhão, que é exemplar); então, como não poderia deixar de ser, no que
se refere à política cultural, esses conceitos que estamos introduzindo
no debate são instrumentos para uma insurreição do pensamento, contra as
formas domesticadoras e fossilizantes do excessivo processo de
patrimonialização que estamos vivendo. Nesse sentido, esses textos
trilham as veredas da crítica abertas pela reflexão mais recente de
Henri-Pierre Jeudy. Causa muita espécie colocar-se contra esse modismo
patrimonialista atual, que pretende recolher dividendos na onda da
‘turistificação’ e ‘gentrificação’ alucinada dos sítios históricos
brasileiros. Esse livro é uma forma de enfrentamento duro contra essa
ideologia.
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CVA
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Esta
tua posição, me parece, choca-se com a política que está em voga nos
últimos anos, e que comumente se tem como uma renovação e uma novidade
na área da preservação do patrimônio. Como você se coloca nesse
contexto?
Alexandre - Sua pergunta é excelente, pois é esse o centro, o
ponto-chave das distinções que meu trabalho tem aprofundado nesses
últimos anos. A política preservacionista hoje em voga parece ter muitos
apoiadores e entusiastas, mas ocorre que historiadores, sociólogos e
antropólogos estão incorrendo em erro quando pensam que uma ideologia do
‘patrimônio imaterial’ pode vir a ser a salvação para suas pretensões
disciplinares; quando pensam que se tem finalmente o reconhecimento do
nosso trabalho e da nossa importância profissional. O que se constata é
que estão deixando de refletir sobre as conseqüências epistemológicas
desse reducionismo consentido. Afinal, todos nós sabemos que não há bem
material que não seja simbólico e carregado de significados
‘intangíveis’; qualquer objeto material está carregado de simbolismo.
Então, não se tem como separar nem privilegiar uma das dimensões; nem se
alegrar com uma coisa dessas. O antropologismo ou o sociologismo é tão
pernicioso quanto o materialismo ou o idealismo. Não se supera um
paradigma reificando-o e, assim, contribuindo para sua perpetuação. É
necessário um novo modo de pensar, imaginar uma transformação efetiva da
concepção de patrimônio. Creio que a satisfação em tornar-se mais um
tecnocrata do patrimônio, com uma nova especialização reconhecida e
canonizada, produzirá muitos equívocos. E você tem razão, precisarei de
muita paciência, pois esse estado de coisas tende a demorar muito tempo
para se transformar. Apesar de eu achar que o tempo trabalha a nosso
favor.
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CVA
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E
isso tem a ver com a idéia do ‘complexo de dédalo’ que você apresenta no
prólogo do livro...
Alexandre - É realmente isso! O que chamei de ‘dédalos do
patrimônio’ são estes ‘parques’ ‘turistificados’ e ‘gentrificados’ que
estão sendo criados nos centros históricos brasileiros e
latino-americanos. São os novos brinquedos dos ‘tecnocratas do
patrimônio’; o curioso é que parece que os antropologistas e
sociologistas estão aderindo de modo acrítico a essa ideologia. São as
encruzilhadas do labirinto de Castoriadis. Precisamos superar as
heteronomias que estão se impondo de modo tirânico. É preciso mais
autonomia e reflexão independente.
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CVA
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E
como é a aceitação a este teu viés? Você não encontra dificuldades já
que está enfrentando um modo de pensar ainda dominante e muito
disseminado nas instituições de cultura e do meio ambiente?
Alexandre - Já estou detectando muita resistência, é verdade. Mas,
essa é uma dificuldade, ou um risco, que um pesquisador não pode se
furtar de passar, afinal, foi por meio de um trabalho profundo e
criterioso que cheguei a essa hipótese, a essa nova forma de pensar a
política cultural e ambiental. A proposta do livro é uma crítica e é uma
sinalização nova e alternativa, em nome do que poderia ser diferente e
realmente inovador. Ele apresenta um novo paradigma re-integrador, que
defende a re-unificação do campo epistêmico; isso pode provocar muitas
resistências, mas faz parte do processo de avanço do conhecimento: são
os obstáculos epistemológicos que se apresentam no momento. Já estou há
mais de 10 anos nessa trilha, não tem problema se as resistências ainda
são fortes e se as reações são recorrentes: o conformismo é geral.
Importante pra mim é ser honesto com meu trabalho e apresentar à
sociedade alternativas legítimas para uma nova gestão política e
democrática do teatro das memórias sociais e naturais. Nesse sentido
político, uma publicação universitária ganha uma importância enorme.
Diga-se de passagem, apenas numa universidade pública eu consegui
acolhimento para estas reflexões livres e por isso agradeço muitíssimo
essa oportunidade de apresentar idéias independentes e autônomas.
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CVA
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Alexandre, em nome da CVA agradeço esta entrevista. Admiro a tua
iniciativa intelectual e conto que você tenha cada vez maior clareza e
força. Parabéns!
Alexandre - Agradeço muito o verdadeiro espírito universitário e
a UFMA! E a você também e a CVA, pela oportunidade de apresentar essas
idéias e propostas. Oxalá vivamos melhores dias na área da política
cultural e ambiental!
Atualizado em 26/10/08