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Entrevista (Edição nº 45)
"Identidade
e saúde indígena"
O nosso entrevistado desta edição é o professor adjunto do PPG em
Antropologia da UFPE,
Renato Monteiro
Athias, graduado em Filosofia, mestre em Etnologia (Paris X,
Nanterre, trabalhou com a noção de identidade étnica na Antropologia
brasileira); doutor em Etnologia (Paris X, Nanterre, trabalhou com
relações hierárquicas entre os povos do Rio Negro) e pós-doutor (também
na Paris X, Nanterre, 2006-7). Athias é coordenador do NEPE (Núcleo de
Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade) da UFPE; coordenador do
Laboratório de Antropologia Visual do Núcleo Imagem e Som & Ciências
Humanas da UFPE; coordenador nacional do GT Antropologia Visual da ABA;
é diretor da ANPOCS; e leciona também na Universidade de Salamanca, na
Espanha. Ele pesquisa sobre etnologia indígena com ênfase em saúde e
antropologia visual. Tem publicados nove livros (entre autoria exclusiva
e organização de volume), além de dezenas de artigos e capítulos. Dentre
as suas últimas publicações, Povos indígenas de Pernambuco –
Identidade, diversidade e conflito (Recife: Ed. da UFPE, 2007;
coletânia de 11 ensaios, organizada por ele) e Noção da Identidade
Étnica na Antropologia Brasileira – De Roquette Pinto a Roberto Cardoso
de Oliveira (Recife: Ed. da UFPE, 2007; de sua autoria exclusiva)
dão a tônica desta entrevista. Renato disponibiliza na internet um blog
que traz uma amostra do seu perfil intelectual e de sua produção (http://renatoathias.blogspot.com).
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CVA
-
Olá
Renato, obrigada pela entrevista. Já tivemos a oportunidade, em edições
anteriores, de entrevistar outros antropólogos estudiosos dos povos
indígenas: o Prof. Robin Wright (edição no. 30), o Prof. Júlio Melatti
(edição no. 38) e agora será um prazer entrevistar você. Vamos começar
pela teoria antropológica relativa à noção de identidade cultural, tema
privilegiado no teu campo de estudos. Num país de grande diversidade
cultural como o Brasil, o nosso maravilhoso mosaico representa enorme
riqueza cultural e um desafio teórico, não é mesmo? Tem prevalecido no
Brasil, conforme sabemos, o critério de auto-identificação. Qual é a
origem desse critério? Ele foi importado de outra realidade social? Este
princípio é adotado em outros países?
Athias -
Eu
gostaria de iniciar esta entrevista, falando um pouco da minha
trajetória acadêmica com relação à noção de identidade étnica na
antropologia brasileira. E a minha trajetória acadêmica está vinculada
diretamente a atividades que tenho realizado e das quais tenho
participado nesses últimos anos como antropólogo, pesquisador e como
militante da causa indígena no Brasil. Talvez o ponto de partida da
discussão sobre a identidade étnica, e depois a gente fala do critério
do que você está chamando critério de auto-identificação, mas a gente
pode ver as bases dessa discussão sobre a identidade étnica nos textos
de Max Weber, nas ciências sociais. É interessante notar que, já, em
1922, Weber discutia e colocava em evidência um debate a respeito do que
ele chamava de “comunidade étnica”. A comunidade étnica está associada à
questão da auto-identificação e da identidade coletiva; quer dizer, de
um grupo, de uma coletividade, como o próprio Weber falou, de uma
comunidade que se reconhece como tal, com as suas características
históricas, com seus interesses e construções culturais.
Então, eu acho que aí a gente poderia estar colocando o ponto de
partida, nas ciências sociais, para a discussão sobre identidade étnica.
Não quer dizer que tenha sido apenas Weber que tenha iniciado essa
discussão. Nós vamos perceber noutros autores contemporâneos dele que já
se colocava em evidência, não só na área das ciências sociais, mas em
outras disciplinas também, uma interface com a identificação individual
e coletiva, ou, com uma pertença a um determinado grupo. E também acho
que era o tempo, em meados dos anos 20-30, na Europa, quando esta
questão foi fortemente vivenciada pelos diversos povos europeus, em
contato uns com os outros e se relacionando através de um Estado de
força, centralizador, onde todo esse debate sobre identidade vai
desencadear as discussões sobre as idéias de raça, sobre a idéia de
pureza de raça, colocada a partir do nacional-socialismo de Hitler, e
quando a discussão sobre limpeza étnica não era uma coisa nova,
portanto, não é uma coisa que surge no nosso tempo; já na história nós
podemos perceber essa discussão sobre a hegemonia de um grupo étnico
sobre outro.
Então, nesses últimos anos, como pesquisador, eu tenho me dedicado a
essa discussão no Brasil, especificamente em uma região, que é a do Alto
Rio Negro, onde eu tenho trabalhado nesses últimos 30 anos; mais
especificamente, com os povos de língua maku, que fazem parte de uma
zona cultural bastante significativa e que pode servir de exemplo para
nós, quando discutimos questões relacionadas a identidade étnica. Na
questão do que você está chamando de critério de auto-identificação, o
que é importante ressaltar é que comunidades étnicas vêm participando de
um processo grande de negociação, algo que vem sendo conquistado. A
Resolução 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) dá uma
ênfase nessa questão da auto-identificação, o que vai nortear, p.e.,
essas discussões. As identidades vão dar um passo grande nesse processo
do Estado ou dos Estados nacionais e vão fortalecer as comunidades, no
sentido em que o indivíduo determina, se auto-define ou ele coloca em
evidência a sua identidade e ela é reconhecida pelos outros. Eu acho que
essa é uma discussão importante e não sei se temos clareza sobre as
implicações dessa auto-identificação, tal como está formulada naquela
resolução.
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CVA
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E
você acha que o critério de auto-identificação dá conta da nossa
complexidade? ele tem funcionado bem no Brasil em relação às nossas três
grandes matrizes étnicas? Na entrevista do Melatti, ele comentou
rapidamente que entre os povos indígenas pode ocorrer de determinado
indivíduo ter a sua identidade étnica definida a partir da sua
participação em determinado ritual, em determinada idade dele. E a
distribuição de “cotas raciais” nas universidades tem apresentado os
problemas que a gente tem visto, pelo fato do critério da
auto-identificação ter se mostrado elástico ou oportunístico, segundo
alguns. Os teóricos do assunto admitem que possa haver melhor e mais
preciso critério? Discute-se alguma proposta teórica mais adequada nos
estudos sobre identidade no Brasil?
Athias -
Gláucia, sobre esta pergunta, você faz referência ao Melatti. Não
entendi se você está usando “identidade étnica” como sinônimo de papéis
sociais ou identidades em rituais. Na realidade, não sei como comentar
isso. Sobre o critério de auto-identificação nas cotas, nas ações
afirmativas por cotas, que você está chamando “cotas raciais”, eu não
sei se o critério, como você falou, está “elástico”. Eu acho que muitas
das vezes esse critério, ao contrário, está sendo bastante rígido,
colocando a ênfase na cor da pessoa. O critério de auto-identificação
não está associado a uma questão biológica ou fenotípica da pessoa ou da
apresentação da pessoa. A gente vai perceber, por exemplo, em grande
parte da população indígena, não só em Pernambuco, mas eu diria um pouco
no nordeste, existe uma relação muito forte com os escravos fugidos dos
quilombos. Esta “mistura” possibilitou que muitas pessoas identifiquem
os índios como quilombolas e não como índios. Então, a identidade
indígena é forte na medida em que se percebe como estas famílias estão
associadas umas às outras. E aqui eu pego o exemplo dos Pankararu, que
determinam e que são importantes não só na construção e no
fortalecimento da sua identidade, mas no entendimento mais global da
presença indígena naqueles locais.
Portanto, a questão das cotas raciais não deveriam estar restritas à
auto-identificação relacionada à cor do indivíduo. Eu acho que ela
deveria ser mais elástica no sentido das pessoas se identificarem como
índios, ou indígenas, ou como negras associadas a um movimento. Talvez o
que se possa melhorar na questão de seleção, nos processos seletivos
onde se utilizam esses critérios de auto-identificação, seria associar a
inserção dessas pessoas num grupo, na comunidade. Não tenho a menor
idéia de como se poderia realizar isso, mas, em geral, as cotas deveriam
favorecer a inclusão de pessoas menos favorecidas, com menos
oportunidade, e que poderiam aproveitar dessa situação, resultando na
mudança dessa situação com a entrada e o acesso de quilombolas e de
índios em cursos superiores.
As ações afirmativas como estão, são vistas como entrada ou acesso às
universidades e eu gostaria de destacar que as ações afirmativas vão
muito além de um sistema de cotas. Esta é uma possibilidade entre tantas
outras no conjunto das ações afirmativas. Eu volto a insistir, nós
devemos propor ações afirmativas que levem em conta mais o grupo social
e, talvez, menos os indivíduos, o que talvez possa ser um critério. Não
tenho clareza do que seria mais interessante de se colocar em evidência
nesses processos e também não sei se haveria uma proposta teórica mais
adequada a esta discussão específica sobre a identidade étnica no
Brasil. O que estamos trabalhando, e talvez se demore um pouco, nós, os
antropólogos que discutem os processos de etnicidade estão agrupando,
estão produzindo conhecimento não só em relação às populações indígenas,
quilombolas e outras minorias no Brasil, estão associadas principalmente
a um fazer, a uma inserção, ou a uma atividade de inclusão dessas
comunidades na sociedade.
Em outras palavras, as ações que partem, ou numa ação mais efetiva numa
atividade relacionada com essas populações se busca uma maior
participação nos processos de decisão da sociedade brasileira como um
todo. Trata-se na realidade de se diminuir a distância existente entre
uma elite dominante e uma grande massa excluída de participação no
sentido do poder. Então a discussão sobre identidade étnica em geral
termina com uma discussão sobre a inclusão dentro da sociedade. Então,
uma proposta teórica que se está trabalhando vem das proposições de
Weber, passando por outros autores que discutem a questão da identidade,
associada também à questão da inclusão social. Então, o processo étnico,
o processo de etnicização nas diversas regiões do país está associado
não só a uma presença naquele local, uma rediscussão, uma reelaboração
sobre a presença daquele grupo naquela determinada região, mas também no
controle maior dos recursos, está associado também a uma discussão sobre
inclusão e políticas pública para essas populações.
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CVA
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Em
seus estudos indígenas no Brasil, Lévi-Strauss não distingue, em termos
de função, o xamã de um pajé. Ele diz que no Brasil o xamã é o pajé. Já
Eliade distingue xamã e pajé pelo fato do primeiro ser um especialista
em experiências e viagens extáticas através do seu duplo; e o pajé ser
um especialista em cura. Com base no que você tem visto em campo, o que
acha disso? Você acha adequado nomearmos nossos pajés de xamãs? Você tem
conhecimento de xamãs no Brasil na acepção de Eliade?
Athias -
Os
estudos relacionados tanto às práticas tradicionais de cura quanto às
práticas xamânicas entre os povos indígenas no Brasil é de uma riqueza
muito grande; quando você formula o que faz a distinção entre pajé e
xamã, eu penso que não deveríamos fazer essa distinção. Xamã não é
palavra indígena. O termo e a idéia do xamã são usados para incorporar
os papéis sociais do xamã e também algumas atribuições do xamã,
sobretudo aquele que utiliza-se de determinados meios para encontrar o
êxtase. Então, a pajelança sim, a gente pode associar ao xamanismo. Nós
utilizamos o termo xamã e pajé como sinônimos. Mas a gente pode também
entrar numa outra discussão sobre a idéia de xamã entre os diferentes
povos indígenas no Brasil, já que o termo pajé é também um termo
elástico para trabalhos de cura e práticas xamânicas.
Só pra dar um exemplo, a palavra pajé não é utilizada pelos indígenas.
Somos nós que utilizamos essa palavra, quando queremos identificá-lo em
situações de cura ou de práticas xamânicas. Se você chegar lá no Rio
Negro, no Rio Uaupés, e perguntar: onde está o pajé? eles vão dizer:
aqui não temos mais pajé, acabou-se. Então, associa-se a uma pessoa que
tem atribuições que vão além dos especialistas de cura que existe no Rio
Negro. Aí, você sai de lá, pensando: ah, aqui não tem mais pajé. Mas não
é isso. A realidade é que esta terminologia está desvestida, ela não
está com o conteúdo que as pessoas atribuem aos especialistas de cura
entre as populações do alto Rio Negro. Lá, não existe um
especialista com o nome de pajé, existem várias pessoas, geralmente
homens, que têm atribuições específicas relativas à cura ou ao que a
gente pode denominar processos xamânicos. Lá, no Rio Negro, tem o kumu
que é o rezador ou benzedor; tem o yaí, que tem o poder de materializar
e extrair a doença; e tem também o baiá, que também tem certos poderes.
Então, são três especialistas em cura com atribuições específicas entre
os índios do Rio Negro e isso a gente pode encontrar nas diversas etnias
do Rio Negro e elas poderiam ser atribuídas às atividades de pajé.
Mas aí, nós temos, por exemplo, na comunidade Pankararu, se você for até
lá e perguntar onde está o pajé? eles vão te indicar uma pessoa
específica e essa associação ao pajé, nem todas as pessoas que são
denominadas pajés entre os indígenas de Pernambuco são especialistas em
cura. Em geral é uma situação mais política. A denominação de pajé entre
os indígenas de Pernambuco está associada a uma atribuição, a uma
responsabilidade entre as lideranças. Em geral, a gente vai encontrar o
cacique e o pajé, que são instituições colocadas pelo SPI no processo de
identificação das terras e no reconhecimento formal dessas populações
indígenas por parte do Estado. São questões que a gente tem que buscar o
entendimento.
Em geral, nos textos que eu produzo sobre as práticas xamânicas na
região do alto Rio Negro, eu evito usar a palavra pajé porque ela não
traduz na realidade o que se pode entender. Então, em quase todos os
textos a esse respeito, a gente precisa definir o que entende pelo termo
pajé. A definição colocada por Eliade a respeito de xamã está associada
ao xamã tal como vários estudiosos o encontraram na região do Tibeth ou
em outras regiões, onde pessoas se utilizam de poderes e se colocam em
estado de êxtase. Acredito que os estudos sobre xamanismo e pajelança ou
práticas de cura ainda podem ser bastante desenvolvidos na etnologia
indígena do Brasil. Importante ressaltar que alguns índios antropólogos
estão hoje trabalhando esta temática. Inclusive, gostaria de aproveitar
para sugerir uma entrevista com um dos colegas antropólogos que trabalhe
na região do Rio Negro, que são indígenas que discutem processo de cura
na região. Eu acho que a participação desses índios na discussão teórica
sobre a questão do xamanismo no Brasil ou sobre práticas tradicionais de
cura vêm se juntar à necessidade de uma abordagem ou de uma discussão
teórica desenvolvida para a questão nas diversas regiões do Brasil.
Em alguns dos meus textos, eu trabalho justamente essa questão dos
especialistas de cura no Rio Negro. Muitos dos etnólogos que passaram
por essa região não associaram o baiá, aquele que organiza a cerimônia
de música, ao personagem relacionado aos processos de cura. Se você leu
aquele meu texto, como você está referindo, eu falo daquele que tira a
doença do corpo e que são poucos na região. Esse especialista de cura
que tem um nome, alguns chamam de yaí e outros dão outros nomes, tem
vários nomes, dependendo da língua da região, mas, esse que materializa,
que extrai a doença do corpo, que toca na pessoa, é um praticante, é um
terapeuta tradicional. E ele é supraclânico, quer dizer, ele pode atuar
em praticamente todos os clãs. Ele está além da etnia e você pode
procurá-lo. Em geral, ele vem ate você, não é você que vai até ele. Um
yaí, você chama e ele vem pra cuidar de você dentro da tua casa, dentro
da tua maloca. E todo mundo sabe que ele está ali para realizar
determinada cura. Ele está ali pra cuidar de uma determinada pessoa.
Esse é o yaí.
Outro que existe em praticamente todas as aldeias, e não existe um ou
dois, quer dizer, nas aldeias pode ter três ou quatro, é o que o pessoal
no Rio Negro chama de benzedor. É o kumu que está associado às práticas
de cura do seu grupo, do seu clã, e ele acompanha todos os processos na
comunidade. É ele que dá o nome à pessoa na cerimônia do nome. É ele que
acompanha a parturiente durante todo o período de pré-natal, é o kumu
que faz. Lá, não tem parteiras. Quem faz o parto... geralmente a mãe ou
a sogra seguram a criança, mas quem acompanha o parto, quem acompanha
todo o processo de pré-natal é o kumu. É ele que faz a preparação do
corpo quem vem ao mundo. É ele que está no processo de transformação.
Ele diz as palavras transformadoras que fazem com que aquela criança
venha ao mundo com todas as forças vitais, se o pré-natal foi bem
cumprido, se o kumu rezou, recitou as palavras encantadas. Então, esse
especialista existe em todas as aldeias e cada clã tem o seu. E é
preciso que se diga, o kumu não pega na pessoa. Ele não cura, ele não
materializa a doença, como faz o yaí. Ele apenas utiliza a palavra, ele
cura pela palavra.
O baiá, que eu coloco no meu trabalho, que é terceiro especialista em
cura, ele não olha o indivíduo, a pessoa... as palavras transformadoras
que ele utiliza têm a ver com o grupo, com a comunidade. Ele faz a
proteção para a sua maloca, para a sua aldeia, através da música, e
geralmente usa a coca. Já o yaí vai utilizar muito o kaapi, com o qual
ele pode olhar, pode chegar a um diagnóstico. O baiá vai curar o grupo
como um todo, ele vai curar a maloca. Ele vai armar a proteção contra os
diversos espíritos que podem chegar à aldeia. Se o baiá não faz essa
proteção, a comunidade não vai ficar bem, a comunidade como um todo vai
ter problemas, e geralmente acontece. Só repetindo um pouco, o yaí
utiliza o kaapi, mas o yaí está associado a um pó, que é o pariká, que
se utiliza por meio da inalação desse pó. O kumu utiliza a coca e o baiá
vai utilizar o kaapi, que as pessoas chamam de ayahuasca. Então, um
pouco nas descrições que a gente faz, eu procuro como eu te falei,
associar, eu procuro incorporar o baiá aos curadores que não tocam no
corpo dos indivíduos mas no grupo como um todo.
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CVA
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Medicina tradicional, medicina indígena, medicina xamânica, medicina
mágica, como classificar os trabalhos de cura realizados nas aldeias?
Melatti disse, na entrevista dele, que não existe “medicina xamânica”
pelo fato do xamanismo não se ater a ações curativas. No teu modo de
entender; existe medicina xamânica? E o que temos nas aldeias indígenas?
Em que consiste os trabalhos de cura de um pajé na aldeia?
Athias -
Acho
que a medicina tradicional indígena ou medicina xamânica, que a gente
poderia utilizar... nós, aqui, estamos utilizando o termo medicina
tradicional indígena, no qual se procura identificar ou, quando
utilizamos o termo medicina tradicional indígena, significa que nós
estamos aceitando a definição de sistemas médicos, assim sistemas
médicos indígenas, sistemas médicos ocidentais, sistemas médicos
orientais são os diversos sistemas médicos; e a medicina tradicional
indígena está associada aos processos xamânicos, aqui entendidos no seu
mais amplo sentido. A medicina xamânica existe sim, ela é parte
essencial dos processos de entendimentos e cosmologias dos diversos
povos que existem e que se utilizam dessa medicina.
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CVA
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Estive lendo um texto do antropólogo Lobo-Guerrero (1991) no qual ele
apresenta e discute o desafio que o Ministério da Saúde da Colômbia se
colocou a partir dos anos 1980, de aproximar e conciliar a medicina
indígena e a medicina institucional para a Atenção Básica à Saúde
Indígena naquele país; preocupação mais tardia no Brasil (apenas a
partir de 1999, com a responsabilidade da FUNASA) e da qual você trata
em um dos teus textos. Parece-me que as iniciativas de ambos os governos
partiram da mesma preocupação mas procederam de forma diferente. Quer
dizer, buscando respeitar as culturas tradicionais, na Colômbia, eles
tentaram preparar promotores de saúde entre autoridades indígenas
(sobretudo pajés) para atuarem nas suas respectivas aldeias. No Brasil,
me parece, preparam e alocam, sobretudo, agentes de saúde (brancos),
formados pela medicina institucional, para atuarem nas aldeias ou em
distritos próximos delas, além dos AIS (Agentes Indígenas de Saúde), que
são intermediários escolhidos entre índios “normais” (não-caciques,
não-pajés ou outras autoridades indígenas). Ao final de uma década,
aquele antropólogo comenta que a tendência da Atenção Primária às
Comunidades Indígenas na Colômbia tem sido aquela de medicalizar e
institucionalizar as medicinas indígenas, num mal fadado processo de
aculturação. A FUNASA disponibiliza uma página na internet sobre a
estrutura dos serviços médicos às comunidades indígenas; bem, como está
lá, tudo parece muito adequado e eficiente. É assim mesmo? Aquela
estrutura funciona bem?
Athias -
Interessante que você faça referência ao Miguel Lobo-Guerrero, no caso
da a Colômbia. A situação lá é um pouco diferente. Não conheço esse
texto que você menciona, do ano de 1991. Aí, tem que haver um
entendimento que, a partir da Lei 100, na Colômbia, passa a existir uma
privatização dos sistemas de saúde pública, inclusive para os índios.
Hoje, o que existe na Colômbia é uma privatização dos sistemas de saúde
pública. È como se houvesse vários planos de saúde para as comunidades.
Quer dizer, você pode solicitar a abertura de um plano de determinada
empresa que vai realizar o serviço de saúde em determinado local. Ela
exerce as atividades como uma empresa privada e ali existe muito pouca
participação dos índios, sobretudo da medicina indígena nesse processo.
Aliás, nas três vezes em que eu estive na Colômbia, pra discutir o
problema da saúde indígena, através da Rede Siama, da qual o próprio
Miguel faz parte, nós tivemos enormes discussões a respeito da
implementação da Lei 100, que é de em torno de 1993, na Colômbia, e que
coloca em evidência a formalização por parte do Estado das cooperativas
de saúde, das empresas, dos planos de saúde, não só nas comunidades
indígenas, mas também nos bairros das cidades, na vida urbana.
No Brasil, o sistema oficial de organização de saúde para as populações
indígenas se dá também a partir de uma lei, a lei 8080, que coloca uma
rede específica dentro do SUS, que organizaria os serviços de saúde para
as comunidades indígenas. Então, a equipe de saúde que atua nas áreas
indígenas estaria associada a uma organização específica, a uma rede
associada ao SUS, referente ao serviço. No caso do Brasil, esse serviço
de saúde está organizado em territórios específicos, que nós chamamos
territórios distritais, em número de 35. Os serviços são organizados
então através dessas unidades. Atualmente, o distrito não é autônomo,
ele está associado aos recursos que vêm de Brasília, seja por parte da
coordenação geral da FUNASA que é a implementadora desse subsistema de
saúde, seja através de recursos que atuam nas áreas indígenas através
dos municípios. Quer dizer, as prefeituras de uma certa forma assumem a
responsabilidade de contratar os profissionais de saúde para atuar.
Interessante é que grande parte desses profissionais são os próprios
índios. No caso dos quase 3000 agentes indígenas de saúde ou agentes
indígenas de saneamento são todos pertencentes àquela aldeia onde os
serviços estão sendo executados. Os agentes indígenas de saúde são
selecionados em cada uma de suas aldeias. Alguns índios são técnicos de
enfermagem e outros, como, em outros lugares, em que se exige, são
enfermeiros. Então, a forma de organizar o serviço de saúde para as
comunidades indígenas através dos distritos sanitários como um
território específico para organização desses serviços associados a um
fundo, a um recurso financeiro do orçamento na União, é completamente
diferente do que está sendo executado hoje na Colômbia em relação às
comunidades indígenas. Esse modelo de atenção às comunidades indígenas é
um modelo que foi discutido dentro em todas as áreas indígenas para a
sua formulação, quer dizer, para parte da sua formulação, porque as
lideranças indígenas ainda reivindicam para os distritos sanitários
especiais indígenas uma maior autonomia, sobretudo em relação ao repasse
de recursos e à contratação das pessoas que atuam nas áreas indígenas
como profissionais de saúde.
>>
CVA
-
E
afinal: como anda a saúde indígena? Ela melhorou depois que passou para
a responsabilidade do MS/FUNASA? Tem sido possível o diálogo entre a
medicina institucional e a medicina indígena, entre os órgãos e
instituições que atendem os povos indígenas? E a recepção indígena tem
sido positiva?
Athias -
Bem,
você me pergunta se a saúde indígena melhorou depois que passou para a
responsabilidade do MS/FUNASA, bem, acho que é preciso discutir o que
significa uma melhora. O que se percebe, acho que ninguém pode discordar
de mim, é que a saúde indígena está em todas as áreas indígenas, hoje as
comunidades indígenas tem melhor acesso aos serviços de saúde e não sei
se isso pode ser considerado uma melhora. O que se percebe é que se
ampliou a questão da medicalização, quer dizer, a introdução de recursos
nas áreas indígenas, a submissão, a remoção de várias pessoas para
exames, que antigamente não se fazia, mas que havia uma discussão
clínica, isso representou uma grande mudança nas comunidades indígenas.
Nós vamos perceber uma grande movimentação e as casas de passagem, as
casas trânsito dos índios que estão à busca dos serviços de saúde, elas
precisam ser ampliadas porque aumentou o número de pessoas que precisam
ser removidas das áreas indígenas por uma coisa simples ou para o acesso
a um serviço de média ou alta complexidade, mas o que se observa é uma
movimentação maior; se faz exame para tudo e qualquer coisa. Nesse
sentido, não se pode dizer se melhorou ou piorou.
O que se pode dizer é que existe um maior acesso, melhorou a acesso,
mas, por outro lado, aumentou o consumo de determinados medicamentos em
algumas áreas indígenas, o que se tornou corriqueiro. A gente observa no
Estado de Pernambuco que as farmácias credenciadas e as farmácias de
remédios básicos vão aumentar significativamente nas áreas indígenas. Se
por um lado o acesso aumentou, aumentou também todo o processo de
medicalização nas comunidades indígenas. Isso não quer dizer que essa
organização de serviços de saúde, esse sistema converse, dialogue,
articule com os sistemas médicos indígenas, isso não existe, não existe.
O que existe, em alguns casos, algumas pessoas que fazem parte das
equipes de saúde, ao contrário, não respeitam, não reconhecem a
existência de um sistema médico relacionado à saúde indígena. Bom,
Gláucia eu queria te agradecer essa entrevista. Coloco-me à disposição.
Obrigado.
>>
CVA
-
Renato, eu tive enorme satisfação com esta entrevista, te agradeço
imensamente pelos esclarecimentos. Sucesso no teu trabalho, grande
abraço, Gláucia.
Atualizado em 08/10/08
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