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Entrevista (Edição nº 42)
"Hipermídias
para as Ciências Sociais"
O nosso entrevistado desta edição é
Javier
Alejandro Lifschitz, professor e pesquisador do curso de Ciências
Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da
Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Javier é graduado em
Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (1987), Mestre em
Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (1992) e Doutor em Sociologia pela Sociedade
Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1999). Tem diversos artigos
publicados; entre os trabalhos mais recentes tem tratado de questões
culturais associadas a comunidades tradicionais em processo de
transformação no Brasil e na América Latina, com destaque para:
“Neocomunidades: reconstruções de territórios e saberes”. Estudos
Históricos. Rio de Janeiro, v. 38, 2007: 67-85; “Neocomunidades no
Brasil: uma aproximação etnográfica”. Antropolítica. Niterói, v.
20, 2006:109-130; “Neocomunidades no Brasil : entre a tradição e a
modernidade”. Interseções. Revista de estudos Interdisciplinares,
vol 16, 2008, Rio de Janeiro: EdUERJ.; “Percursos de uma neocomunidade
quilombola: entre a “modernidade” afro e a “tradição” pentecostal”.
Revista Afro-Ásia (UFBA) (próximo numero).
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CVA
- Javier, você acaba de apresentar na última reunião da ABA (26a, em
Porto Seguro, junho/2008) um audiovisual interativo muito interessante
sobre comunidades da Mata Atlântica. Gostaria que você nos falasse um
pouco sobre o desenvolvimento deste trabalho.
Javier
- Bom, em realidade esse material é bem mais um desdobramento de
pesquisas que tiveram início com a minha chegada a Campos (RJ) como
professor associado da UENF. Eu sou argentino, mas moro há vinte anos no
Rio e queria entender o novo lugar onde estava, tão diferente do Rio e
de Buenos Aires. Campos é um território plano que lembra a Pampa
Argentina, mas, ao invés de vacas, plantações de trigo e uma população
branca, descendente de migrantes europeus, tem-se cana-de-açúcar e uma
forte presença de população negra descendente de escravos. No século
XIX, Campos era uma das regiões com maior proporção de população escrava
do país. É também uma cidade que fica próxima de uma área montanhosa de
Mata Atlântica, por onde se deslocavam os índios Goytacaz e Puris,
fugidos das missões dos capuchinhos de São Fidelis. Logo, a imigração
européia e as plantações de café se expandiram por aquelas serras. E há
também populações ribeirinhas de pescadores artesanais e assentamentos
do MST. Conclui, portanto, que para eu entender onde eu estava,
precisava transpor os limites da UENF e percorrer as comunidades
quilombolas, de mateiros, pescadores e assentados.
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CVA
- E quais foram seus primeiros trabalhos desse período?
Javier
- A primeira pesquisa foi realizada em uma comunidade de
remanescentes de escravos chamada Machadinha, no município de Quissamã,
onde os moradores ainda vivem nas senzalas enquanto a antiga Casa Grande
está praticamente em ruínas.
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CVA
- Como assim? Vivem ainda em senzalas?
Javier
- É um dos poucos casos no Brasil, mas a partir de uma ação do IPHAN
tiveram início obras de restauração das senzalas e os moradores passaram
a habitar em casas construídas pela Prefeitura. A questão é se voltarão
ou não às senzalas. Na época que fizemos a pesquisa, os moradores
queriam voltar, embora tivessem mais comodidade nas novas casas. É
significativo o valor que davam às telhas das senzalas “construídas nas
coxas das escravas”.
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CVA
- E esse trabalho foi feito a partir de pesquisa etnográfica...
Javier
- Sim. Realizamos trabalho etnográfico por mais de dois anos. E foi
a partir desse estudo local que desenvolvemos uma problemática mais
ampla. Durante o trabalho observávamos com uma certa apreensão que não
éramos os primeiros, muito menos os “descobridores” da comunidade.
Freqüentemente cruzávamos com representantes de ONG's, funcionários da
área de cultura, jornalistas e outros pesquisadores.
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CVA
- O que atraía instituições tão diversas?
Javier
- Em realidade, cada uma delas ao seu modo, estava participando na
“reconstrução” de uma comunidade quilombola. Dessa experiência
desenvolvemos o conceito de neocomunidades para dar contas dessa
situação singular.
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CVA
- E afinal, o que são neocomunidades?
Javier
- São comunidades tradicionais em que agentes externos participam
ativamente em processos de reconstrução de saberes e práticas através de
meios modernos. Como meios modernos, entenda-se: equipamentos, técnicas
e epistemes que estão em tensão com o universo tradicional dessas
comunidades.
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CVA
- Que tipo de tensões?
Javier
- Vou dar um exemplo: a Prefeitura local contratou uma ONG para
“reconstruir” o jongo da comunidade, visando ao turismo cultural. Assim,
o jongo foi se reconstituindo como uma técnica repassada através da ONG
aos mais jovens, os quais conformaram um grupo para apresentações.
Entretanto, sabemos que o jongo não é somente uma dança. É um saber
ritual e religioso que se transmitia entre gerações. Como efetuar a
transmissão desses saberes entre gerações, considerando estes novos
mediadores? Este é um tipo de tensão presente em neocomunidades
quilombolas. Em outras neocomunidades quilombolas onde realizamos
pesquisa, a Conceição do Imbé, por exemplo, as tensões eram de um outro
tipo: a comunidade foi convertida a uma Igreja evangélica e isso
constituía um bloqueio para as ações do programa Brasil Quilombola a
nível local, o qual exigia da comunidade o auto-reconhecimento de sua
matriz afro-brasileira. A saída proposta também foi moderna: reconstruir
aspectos da cultura, deixando de lado a religião, ou seja, uma versão da
separação entre religião e estado na modernidade.
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CVA
- Mas isso é uma dilapidação cultural, uma atrofia, um reducionismo, ou
não?
Javier
- Geralmente atribuímos o reducionismo ao poder, mas, neste caso, o
sujeito desse reducionismo é a comunidade, que pode aceitar a
reconstrução da cultura afro-brasileira; não são os casos da Umbanda ou
do Candomblé. Acho que temos que ver essa questão do ponto de vista do
processo de atribuição de identidades. A identidade quilombola emerge no
debate jurídico com expectativa de direito a terras coletivas.
Atribuímos às identidades, principalmente às étnicas, um poder de
interpelação profundo, nem transferível nem negociável, enquanto que as
identidades atribuídas emergem como interpelação do estado. Daí que
estas identidades possam ser colocadas “em negociação” na disputa de
recursos: o estado garante terras e serviços, e a comunidade torna-se
quilombola. Se isso é bom ou ruim não me sinto com capacidade para
julgar. A comunidade, esta sim, não abre mão de sua “nova” identidade
religiosa se rejeita as representações da ritualística afro-brasileira.
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CVA
- E quais foram os desdobramentos dessas pesquisas?
Javier
- A expansão do universo das pesquisas a outras comunidades em
processo de transformação, viabilizando a realização de estudos
comparativos no Brasil e na América Latina, uma vez que acreditamos que
as necomunidades configuram uma nova trajetória cultural na região.
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CVA
- E o trabalho audiovisual? Como ele foi inserido neste ambiente de
pesquisa?
Javier
- Partimos da constatação de que o universo acadêmico é cada vez
mais especialista. Tendemos a ler aquilo que interessa ao nosso universo
específico de pesquisa. Portanto, temos muitas publicações e poucos
leitores. Pensamos o audiovisual como um meio de divulgação comprometido
com a vocação pública da Universidade.
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CVA
- São audiovisuais informativos?
Javier
- Pretendemos ir além do informativo, pesquisando novos canais de
expressividade e conhecimento que o audiovisual viabiliza. Até o
momento, produzimos quatro: um documentário longo sobre Machadinha, com
a participação de um cineasta cubano; dois CD's interativos, um também
sobre Machadinha e o outro sobre as comunidades de mateiros do Parque do
Desengano, apresentado na ABA, e, por último, um outro documentário
também apresentado na ABA, sobre a comunidade negra de “Barrinha”.
Nestes trabalhos, exploramos a relação entre pertença a um território
geográfico e cultural e conteúdos de evidência e estranheza existentes
em toda identidade cultural.
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CVA
- Você pode nos falar mais um pouquinho sobre o cd relativo aos
mateiros?
Javier
- O cd que denominamos “Árvore de Conhecimento em comunidades” é um
software que desenvolvemos junto com pesquisadores da área de design
gráfico da PUC-Rio e do CEFET-Campos. Trata-se da representação de uma
árvore – figura associada ao conhecimento na tradição ocidental - em
cujos galhos existem links com depoimentos de moradores em
distintas áreas de saber popular. São saberes sobre plantas, animais,
garrafadas, tocas, artesanato e outros. Nas raízes da árvore, colocamos
informações sobre o contexto histórico e outras referências locais. Este
projeto foi financiado pela FAPERJ. Nós desejávamos distribui-lo em
instituições de ensino e de meio ambiente, considerando a importância da
discussão sobre neocomunidades na Mata Atlântica, principalmente aquelas
localizadas em Unidades de Conservação – se elas devem permanecer ou se
devem ser deslocadas para as periferias.
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CVA
- Podemos saber qual é a tua opinião a respeito desta discussão?
Javier
- É a velha discussão sobre saber e poder, que colocamos agora às
avessas. Como dizia Foucault, a arqueologia dos saberes ocidentais está
associada ao poder, de interpelar, de classificar, de controlar. O saber
ecológico constitui um outro capítulo dessa arqueologia. Esse saber nos
diz que o homem não é compatível com a preservação da mata nativa.
Ancorado nesse saber, surgem as primeiras Unidades de Conservação não-
habitáveis nos EUA e, posteriormente, no Brasil, as quais começam a
deslocar as comunidades tradicionais nativas dos parques. Entretanto,
essas comunidades possuem saberes não-legitimados que participam dessa
natureza. Expulsando esses moradores, estamos expulsando também seus
saberes sobre plantas, animais, cosmologia, etc. Esses moradores,
argumenta-se, praticam atividades extrativistas e a caça. Isso é certo,
mas também são práticas passíveis de serem recicladas em um outro
conceito de sustentabilidade, que inclui os saberes sobre a natureza
como aspecto expressivo da própria natureza, além de existirem muitas
formas de “domesticar” alguns desses saberes predatórios. O cd apresenta
alguns desses saberes dos mateiros não-legitimados pelo poder.
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CVA
- Javier, em nome de toda a nossa comunidade virtual de antropologia,
agradeço imensamente a tua entrevista, Gláucia.
Javier
- Gláucia agradeço muito tua entrevista e espero que possamos
continuar nosso diálogo e que possamos estendê-lo a outros grupos de
pesquisas afins.
Atualizado em 26/06/08
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