Entrevista (Edição nº 40)

"Banalização da violência urbana na mídia e no imaginário social"

A nossa entrevistada desta edição é a professora e pesquisadora titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ) MARIA CECÍLIA DE SOUZA MINAYO. Cecília Minayo é graduada em Sociologia (UFRJ) e em Ciências Sociais (State University of New York), mestre em Antropologia Social (UFRJ) e doutora em Saúde Pública (FIOCRUZ). Ela pesquisa na área de Saúde Coletiva, com ênfase nas Ciências Sociais em Saúde, atuando principalmente nos temas: violência e saúde, sociologia da saúde, antropologia da saúde e metodologias de pesquisa em saúde. É editora científica da revista da ABRASCO Ciência & Saúde Coletiva; membro do conselho editorial de várias revistas; consultora do Ministério da Saúde, do Ministério da Justiça, do Ministério da Educação, da Secretaria Especial de Direitos Humanos e da OPAS/OMS. Tem uma centena de artigos publicados em periódicos, quase quatro dezenas de livros (dos quais ela é autora ou organizadora) e quase outra centena de capítulos de livros publicados.

Cecília Minayo é coordenadora científica do CLAVES - Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde. O CLAVES é um centro de pesquisa, ensino e assessoria criado em 1989 na ENSP, com o objetivo de investigar o impacto da violência sobre a saúde das populações brasileira e latino-americana. O centro dispõe de nove linhas de pesquisas interdisciplinares, interdepartamentais, interinstitucionais e intersetoriais. Em dezembro passado, no calor da exibição do filme Tropa de Elite (portanto, antes que o filme de José Padilha ganhasse o maior prêmio no Festival de Berlim) e na qualidade de socióloga e antropóloga, estudiosa da violência urbana, Cecília concedeu uma entrevista ao RADIS (Comunicação em Saúde, disponível no endereço www.ensp.fiocruz.br/radis n. 64, dez./2007, pp. 8-9) para Marinilda Carvalho. Naquela entrevista, ela comenta que trata-se de ficção, um filme “provocador”. Na entrevista, estão em destaque as repercussões do filme na mídia e a estranha reação daqueles que assistiram ao filme. Nesta nossa entrevista, retomamos um pouco do que foi dito lá e conduzimos a discussão da violência para o campo da antropologia e da sociologia urbanas.

>> CVA - Na sua entrevista, a senhora argumenta alguns equívocos no imaginário social como justificativa para o sucesso do filme: a violência aumenta apenas no nosso imaginário; crença de que a delinqüência só poderá ser controlada pela ação de algum “justiceiro” ou pela repressão muito forte do Estado; a corrupção e a impunidade são sempre vencedoras. Há alguns dias atrás (20/02/08), eu assisti na TV Brasil, no programa Diálogo Brasil, a uma entrevista/debate de Florestan Fernandes Filho (entrevistador) com o sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares e mais dois outros entrevistados, sobre a cultura da violência no cinema. Naquela entrevista, estiveram em foco os filmes “Cidade de Deus”, “174” e, principalmente, o “Tropa de Elite”. Na entrevista, o sociólogo disse que, para a diminuição da violência e para o apoio à criança abandonada, três instituições têm importância fundamental: a família, a religião e a escola, dos quais ressente a população de rua e de desfavorecidos. Sabemos que temos um problema complexo de ordem econômica, política, histórica e social. Como pesquisadora do assunto, como a senhora pensa esse problema? Temos solução a médio prazo?

Minayo - A questão da violência social no Brasil é secular, vem desde a Colônia e se assentou desde o início na escravização dos índios, depois dos negros e, nesse contexto, na instauração de profundas desigualdades e “desprezo” das classes dominantes coloniais pelo povo pobre e escravo. Muitos até acreditavam que eles não tinham alma. O povo brasileiro como mostra o sociólogo e filósofo Roberto Gambini (escreveu junto com a jornalista Lucy Diaz o livro Outros 500: uma conversa sobre a alma brasileira, publicado pela Editora Senac) nasceu de um estupro dos portugueses contra as índias (desses portugueses que eram na sua maioria degradados e enviados para cá) porque não valorizavam a alma do povo autóctone e tratavam suas mulheres como objeto de desejo sexual. São raízes. É claro que essa situação não explica a situação atual. No entanto, temos hoje a continuidade histórica e estruturante da desigualdade social, econômica, política e cultural, ao mesmo tempo em que adquirimos uma crescente consciência de direitos.

No período mais próximo, temos concomitantemente uma sociedade em profundas transformações, sobretudo nos últimos 50 anos, em que as cidades incharam, em que o emprego não foi suficiente para abranger a todos, em que muito pouco se investiu em educação, em que as periferias urbanas não foram incluídas nem nos direitos e nem na ordem pública.

Nos últimos 30 anos, vivemos um período de reestruturação produtiva a que muitos chamam pós-industrial, em que estão ocorrendo mudanças culturais profundas no mundo inteiro, aprofundando em vez de amenizar, as cicatrizes estruturantes do passado e afetando as tradições familiares, religiosas e de lealdade. A violência que vivemos hoje não tem um remédio que a cure imediatamente. Ela é uma “dramatização de causas”, para usar um termo de Hannah Arendt em relação a tudo o que construímos de iniqüidade, de exclusão, de dificuldade de inclusão pelo emprego, educação e pelo diálogo. A sociedade brasileira atual, de um lado tão plural, acolhedora e civilizada; de outro, continua a se dividir e a excluir parte de sua totalidade. O não-reconhecimento e a exclusão são o contexto da violência.

Continuando com a idéia de que a violência dramatiza causas, podemos dizer que os dados de criminalidades que são uma pequena fração da realidade brasileira, realmente aparecem magnificados pelo nosso medo e pela nossa perplexidade. É como se o país fosse tomado por essa dolorosa realidade. Temos que correr atrás da inclusão pelos direitos, pela educação e pela oferta de oportunidades criando uma sociedade saudável e abrangente. Não acredito que apenas a polícia dê conta disso.

>> CVA - Vi no jornal (O Globo, 05/02/08) uma notícia curta, relativa ao relatório da ONU, criticando a atitude do Brasil no combate ao tráfico, por manter uma situação complacente em relação ao usuário de drogas. Na mesma entrevista que mencionei acima, o mesmo sociólogo também falou sobre isso. Na opinião dele, a nossa sociedade é hipócrita: ou se libera as drogas ou se pune igualmente os dois lados, afinal quem compra, alimenta o comércio ilegal das drogas e, conseqüentemente, a violência. Qual é a sua opinião sobre isso?

Minayo - Este é um assunto muito complexo e específico e tenho até medo de falar dele apenas como uma opinião. Vou dar algumas pinceladas. Primeiro, o uso de drogas não é um problema em si. Ele é um sintoma de mal estar da sociedade e dos indivíduos como muito bem já colocou Freud e, nesse sentido, ele também “dramatiza causas”. Segundo, os estudos internacionais clássicos mostram que em todas as sociedades humanas sempre houve e há o uso de drogas legais e ilegais. Inclusive, alguns estimam que cerca de ¼ da humanidade faz uso de substâncias que produzem alteração na consciência. Portanto, se esse é um fenômeno eminentemente humano, ele precisa ser tratado sociologicamente, do ponto de vista médico, e politicamente. Não tenho uma opinião formada sobre se a sociedade brasileira deveria optar pela liberalização total. Mas sou totalmente a favor de que o tema seja discutido, debatido, estudado e pesquisado pelos mais diferentes fóruns, especialistas e atores. O “tabu” das drogas, baseado na idéia de “guerra às drogas” – um conceito americano que se desenvolveu após a Guerra Fria – engessa a sociedade e prejudica decisões fundamentadas na razão e na cultura do país. Mais que isso, prejudica estudos que poderiam ajudar nas decisões dos poderes públicos e das famílias.

>> CVA - A senhora deve conhecer o livro da antropóloga Alba Zaluar, Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas (Ed. FGV). Trata-se de uma obra volumosa que cobre vinte anos de pesquisa daquela antropóloga sobre violência e crime organizado. Entre as conclusões parciais do mesmo problema, perpassa ali a compreensão quanto à discriminação e truculência do nosso sistema policial e jurídico em relação ao delinqüente miserável ou às classes populares aliadas à omissão e inoperância do Estado e à complacência do mesmo Estado em relação ao criminoso de classe alta. Ao final de sua leitura, o livro sugere que as classes populares e desfavorecidas são vítimas do nosso sistema. A senhora identifica isso nas suas pesquisas?

Minayo - Eu concordo com a opinião de Alba até certo ponto, pois o tema da exclusão e da falta de perspectivas foi de certa forma a tônica de minha fala acima. No entanto, eu quero deixar minha opinião bem clara quanto aos “atores envolvidos”. Existem o contexto, a história e as oportunidades de envolvimento dos jovens no crime. No entanto, existem sempre possibilidades de escolhas quanto ao envolvimento da subjetividade nos atos criminais. Nesse ponto sou profundamente sartreana. Se fosse de outra forma, todos os jovens pobres que residem nas favelas onde há gangues armadas de narcotraficantes seriam delinqüentes. Ao contrário, é apenas uma minoria que, frente às condições dadas, opta pelo crime como caminho de vida.

>> CVA - É claro que o nosso leitor pode e deve consultar a página do CLAVES para maiores informações, mas a senhora poderia nos avançar bem resumidamente um pouco quanto às pesquisas sobre violência realizadas no centro que a senhora coordena: equipes, aplicações, resultados, parcerias...

Minayo - Nosso Centro, neste ano, por exemplo, está envolvido em 18 projetos. Eles versam sobre (a) avaliação de programas de prevenção à violência, sendo que um deles diz respeito a ações específicas com jovens que tentam deixar o envolvimento com grupos armados do tráfico; (b) avaliação das ações de implantação da política nacional de redução de acidentes e violências; (c) avaliação de núcleos locais nos municípios voltados para monitoramento da violência; (d) estudo nacional em 9 capitais brasileiras sobre violência nas relações de namoro entre jovens escolares; (e) pesquisa de monitoramento temporal sobre violência em escolas; (f) pesquisa sobre violência e masculinidade; (g) pesquisa sobre suicídio em idosos; (h) pesquisa avaliativa sobre implantação, monitoramento e de resultados sobre Núcleos de Direitos Humanos voltados à prevenção da violência contra idosos, dentre outros. Também abrigamos uma biblioteca virtual sobre violência vinculada à BIREME e ao ICICT, e estamos começando um Observatório Nacional da Pessoa Idosa, voltado para a prevenção das várias formas de violência.

O Claves hoje trabalha articulado com o Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e com o Instituto de Ciência da Informação em Ciência e Tecnologia em Saúde (ICICT/Fiocruz), é centro colaborador do Ministério da Saúde e da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, além de ser consultor e parceiro da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Parabéns pelo trabalho que vem realizando e agradeço, em nome da CVA, a entrevista gentilmente concedida. Abraço cordial, Gláucia.

Atualizado em 01/04/08

 

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