"Índios
do Brasil"
A entrevista desta edição aborda um complexo campo das pesquisas sociais
e culturalistas na área da etnologia indígena. Estamos entrevistando o
professor titular do Instituto de Ciências Sociais da UNB, Julio Melatti
(doutor em Ciências Sociais pela USP, com estágio de pós-doutorado na Smithsonian Institution). Ele vai nos falar um pouco da sua experiência,
da sua visão política sobre o tema e do seu livro recém-reeditado
Índios do Brasil (S. Paulo: EDUSP, 2007, 304 pp.). Além deste livro, Melatti tem outros livros publicados, produtos das suas pesquisas:
Índios e criadores (1967); O messianismo Krahó (1972);
Ritos de uma tribo Timbira (1978); organização do volume
Radcliffe-Brown, da Série Grandes Cientistas Sociais (1978), e ainda,
dezenas de artigos e capítulos publicados. Tendo iniciado os seus
estudos sobre os índios brasileiros em 1962, Melatti realizou estudos e
pesquisas, sobretudo junto aos índios Krahó e Marúbo.
O livro, objeto privilegiado desta entrevista, Índios do Brasil,
apresenta-se como uma referência fundamental da etnologia indígena
brasileira por apresentar um estudo bastante completo sobre a
localização e identificação dos povos indígenas brasileiros, nos
permitindo visualizar um panorama criterioso e diversificado dos
costumes e realidade dos mesmos; do índio pré-histórico, passando por
noções de identidade, quantificação, línguas, alimentos, relações
sociais, casamento, vida doméstica, política, os ritos, mitos, crenças,
saberes, arte e política indigenista. A primeira edição deste livro
apareceu em 1970; desde então, até 1994, houve 8 edições em português e
uma em espanhol. Para esta nova edição, o livro recebeu acréscimos e
alterações maiores, alguns capítulos foram reescritos, desdobrados,
acrescidos ou apenas atualizados. Para atender a interesses mais
ampliados, o autor sugere consulta na Enciclopédia dos Povos
Indígenas no Brasil, disponível no endereço
http://www.socioambiental.org, site do Instituto Socioambiental,
onde poderão ser consultadas outras fontes bibliográficas e mapas de
terras indígenas; e também em sua própria página, disponível no endereço:
http://www.geocities.com/juliomelatti.
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CVA
- Obrigada pela entrevista. Prof., considerando as sucessivas reedições
deste seu livro, a que você atribui o seu sucesso?
Melatti - O livro foi bem recebido porque na época de sua
primeira edição, em 1970, não havia nenhum outro sobre o mesmo tema
dirigido a um público amplo. Nos dias de hoje já circulam vários livros
de divulgação sobre os indígenas, sem dizer que estes constituem tema
assíduo das revistas de ampla tiragem e da televisão. Os próprios índios
já começam a produzir livros sobre os povos de que fazem parte,
principalmente a respeito de sua mitologia, assim como DVDs.
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CVA
- Ainda que sejam discutíveis, quais são os critérios que prevalecem
hoje para a identificação de povos ou indivíduos indígenas no conjunto
da população brasileira?
Melatti - Atualmente o critério que prevalece é o da auto-identificação.
Vale dizer também que, a par da identificação como “índio”, há critérios
mantidos por diferentes povos indígenas para identificar seus próprios
membros. Tais critérios são importantes para a identificação dos filhos
de casamentos interétnicos. Por exemplo, participar do rito do Ouricuri
logo no primeiro ano de vida é requisito para ser considerado fulniô. No
caso de uma sociedade dividida em clãs patrilineares, é difícil a um
filho de pai não-indígena ser considerado como membro da mesma. Há
também aquelas que aceitam um filho de casamento misto como membro, se
ele viver em seu seio segundo seus padrões culturais.
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CVA
- Você pode nos esclarecer como se dá a condição de proteção,
subordinação e tutoria do índio em relação à Constituição Brasileira e à
FUNAI?
Melatti - Não sei lhe dizer mais do que escrevi no capítulo 18 do
livro.
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CVA
- Vamos consultar. Na sua opinião, a FUNAI tem cumprido bem o seu papel?
Melatti - Da FUNAI foram desvinculadas a instrução escolar e a
assistência de saúde. Ficou-lhe o cuidado de garantir as terras
indígenas. Apoiada por outras instituições simpatizantes da causa
indígena, a FUNAI tem conseguido pouco a pouco o reconhecimento,
demarcação e homologação das terras indígenas.
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CVA
- Os índios no Brasil eram muitos e diversos. Com a invasão dos europeus,
eles foram muitíssimo reduzidos e hoje eles começam a ser mais
representativos, apesar de extinta a maioria dos povos originais. A
gente sabe que as doenças, sobretudo, concorreram para aquela redução; e
hoje, como vai a saúde indígena?
Melatti - Somente quem lida de perto com este problema pode lhe
responder. No livro, eu tive a oportunidade de mostrar que a população
indígena atual (ainda que eu não tenha usado os números mais recentes,
pois o livro demorou muito nos trâmites dentro da editora) supera de
muito a estimativa otimista de Darcy Ribeiro, feita em 1957, de quase
cem mil índios (a pessimista era de 67 mil). Não sei se a assistência
médica melhorou; mas, pelo menos, a maior facilidade de transporte
permite que os índios saiam mais facilmente de suas terras em busca de
socorro.
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CVA
- E a medicina xamânica?
Melatti - Não creio que xamanismo seja medicina e nem que
medicina seja xamanismo. O xamanismo não se atém a ações curativas.
Apóia as atividades de caça e, no passado, os empreendimentos guerreiros.
Mas, sobretudo, o xamã faz contato com o mundo sobrenatural, proporciona
experiências religiosas, atualiza a cosmologia e a mitologia.
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CVA
- Na tensão que sofrem alguns povos indígenas com a construção de
hidrelétricas, na sua opinião, quem ganha a briga? Existe uma solução
boa pras partes envolvidas?
Melatti - Se a construção de grandes represas for considerada
inevitável, certamente os índios perdem. Mas se for possível
substituí-las por represas de pequeno porte e, sobretudo, se houver
opção por uma política de conservação da energia, índios, não-índios e o
meio ambiente só têm a ganhar.
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CVA
- A vida nas aldeias é uma experiência inconcebível para nós, urbanos.
Você gostaria de contar algum episódio marcante?
Melatti - Temos usado o nome “aldeia” de modo muito elástico,
aplicando-o a formas de estabelecimento muito diferentes: pode ser um
certo número de casas em torno de um pátio; ao longo de um caminho; uma
grande casa isolada; um aglomerado em torno de uma missão ou de um posto
indígena; pode estar no centro da floresta; encostada a uma cidade; pode
ter uma cidade não-indígena no centro, como Águas Belas em Pernambuco; e
hoje a própria aldeia indígena pode estar se transformando em núcleo
urbano, como Iauareté, no alto rio Negro (ver livro recente de Geraldo Andrello), ou Omariuaçu, junto ao aeroporto internacional de Tabatinga,
na beira do Solimões. Para um antropólogo do passado, a experiência
marcante era certamente viver longe dos seus numa aldeia isolada; para
os antropólogos de hoje a novidade é viver numa cidade indígena. Embora
no início dos anos 1960 os gaviões (os quais visitei como auxiliar de
Roberto DaMatta) e os craôs não estivessem extremamente isolados, os
meios de comunicação e de transporte eram muito precários. Lembro-me que
cartas que eu enviei das aldeias para meus pais ou amigos, eu mesmo vim
a recebê-las do correio ao retornar a minha residência.
Prof. Julio Melatti, parabéns pelo trabalho! Muito obrigada pela
entrevista. Gláucia.