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"Bioética
como novo paradigma" (*)
A entrevista desta edição foi realizada com alguns dos autores de um
livro que nos reporta a uma antropologia da saúde: “Bioética como novo
paradigma. Por um novo modelo biomédico e biotecnológico” (Petrópolis:
Vozes, 2007, 164 pp.). A obra foi organizada por Marcelo Pelizzoli e
traz 8 artigos, a saber: 1. O paradigma energético e os novos
significados do corpo e da cura, por Paulo H. Martins; 2. Repensando o
processo saúde-doença – A que responde o modelo biomédico?, por José A.
C. Barros; 3. Para além da doença – A medicina como promoção de saúde,
por Leandro D. Wenceslau; 4. Da eugenia à algenia e o paradigma bioético,
por Erliane Miranda e Raphael D.T. Filho; 5. Manipulação genética e
reprodução humana, por Gustavo H. de B. A. Cunha; 6. Bases filosóficas
atuais da bioética e seu conceito fundamental, por Ricardo Timm de
Souza; 7. A bioética como novo paradigma – Crítica ao cartesianismo, por
Marcelo Pelizzoli; e 8. Vendedores de doença – Estratégias da indústria
farmacêutica para multiplicar lucros, por Ray Moynihan e Alain Wasmes.
Cada qual abordando um determinado aspecto, tal como sugerem os seus
respectivos títulos, os artigos aportam no geral uma revisão crítica do
modelo biomédico ou biotecnológico hegemônico, ao mesmo tempo em que
apresentam elementos fundantes para um novo modelo complementar, vitalista, integrador. Tal como Miranda e Tenório (p.76) nos explicitam,
“a bioética se apresenta como proposta de um paradigma que seja capaz de
orientar sistematicamente a conduta humana contemporânea sobre todas as
suas possibilidades, para dialogar com o paradigma biotecnológico, com
uma diferença – o exame dessa conduta à luz dos valores e princípios
morais, e não simplesmente econômicos, políticos, técnicos ou
cientificamente viáveis”.
Para esta entrevista, propusemos a reflexão sobre quatro questões
temáticas relativas à bioética a alguns dos autores aos quais tivemos
acesso. Miranda e Tenório responderam tanto individualmente quanto em
conjunto. O resultado apresentamos abaixo: quatro pontos de vista
diferentes sobre a mesma questão proposta. Sobre os autores,
Marcelo Pelizzoli é Dr. em Filosofia, Mestre em Antropologia Filosófica,
especialista em Ciência Política. Prof. do doutorado em Filosofia e do
Mestrado em Gestão Ambiental da UFPE; membro do Comitê de Ética em
Pesquisa da UFPE.
Ricardo
Timm de Souza é doutor em Filosofia; professor da PUC-RS, coord. do
Escritório de Ética em Pesquisa da PUC-RS; membro de CEP do Hospital São
Lucas de Porto alegre; bioeticista, é autor de dezenas de livros e
artigos na área.
Erliane
Miranda é Cientista Social; Pós-Graduada em Bioética pelos
Departamentos de Filosofia e Saúde da UFPE; Mestranda no Programa de
Pós-Graduação em Sociologia; integrante do Núcleo de Ciência, Tecnologia
e Sociedade (PPGS/UFPE), do Grupo de Estudos e Pesquisas Bioética e Meio
Ambiente (Deptº Filosofia/UFPE) e do Grupo de Estudo Corpo, Limite e
Técnica (CPPL/UFPE). E
Raphael Douglas Tenório Filho é mestre em Filosofia, pesquisador Pibic, integra grupo de pesquisa Bioética e Ambiente da UFPE.
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CVA
- Ao contrário do que poderíamos pensar, a bioética não é um campo novo
de estudos, conforme nós aprendemos com a leitura dos textos; trata-se
de um dos campos mais estudados e mais importantes das éticas aplicadas
na atualidade, com caráter essencialmente multi ou transdisciplinar
porque é ética da vida. Como a bioética dialoga com a antropologia da
saúde?
Pelizzoli - O caminho de diálogo da bioética marcada pela ética (bio)médica
ainda está sendo traçado no sentido de incorporar dimensões de sentido e
de atuação para além das boas intenções morais e medidas paliativas em
termos hospitalares e médicos. A antropologia da saúde é convidada a
proporcionar conhecimentos, bases, visões ampliadas, tradições e
práticas em saúde e culturas de saúde, bem como a relação homem-ambiente
para além das marcas reducionistas do modelo biomédico vigente. É uma
tarefa hercúlea a superação do paradigma cartesiano em saúde (medicina
em especial). Uma descrição antropológica em termos de saúde não poderá
ser neutra, mas conter já pressuposições éticas e firmar posições dentro
deste campo tão paradoxal.
Souza - A bioética é pelo menos tão antiga quanto a ética tout
court, como seu próprio nome diz: afinal, não existe ética sem ser da
vida. A bioética pode dialogar com a antropologia da saúde evidenciando
exatamente este fato. Não se pode pensar em saúde, ou em antropologia,
ou em qualquer coisa, sem que a ética proporcione condições para este
pensar. Por isso ela é a “filosofia primeira”, como diz Levinas.
Miranda - Ao pensarmos em ética, inferimos tempo, espaço,
tradição, normas, fixidez. Então, ética para cultura, para política,
para as relações familiares e para toda forma de controle da
subjetividade humana que possa lidar com vida... Com o dês-envolvimento
da ciência e da tecnologia, temos disponíveis novas formas de vida e,
consequentemente, de demandas de uma lida complexa, imbricada e ubíqua
com o não fixo: i) porque comprovou, ela mesma – a ciência, que a vida é
transbordável; ii) porque fez, ela mesma, entender que é da natureza da
vida o caráter herdável, para além de códigos genéticos, também de
códigos éticos. É, pois, a multidisciplinaridade que compreende a
distinção desse transbordo que atravessa nano partículas através de
continentes, ou que desatempa juízos através de hipertextos... A bioética propõe uma inter-ação entre todas as ciências interessadas na
potencialidade ecológica de nosso tempo e a antropologia da saúde é
parte desse movimento.
Tenório - Alguns pensadores questionam a etimologia da palavra Bioética. Ética da vida? Existe alguma ética que não seja
versada à vida? Interrogam eles. Esse vocábulo vem para suscitar uma
questão que já está desvelada brilhantemente pelo filosofo judeu Hans
Jonas. Toda ética clássica abordava apenas o trato de um ser humano para
com outro, trata-se agora, com essa “nova” área do conhecimento humano,
de discutir problemas eminentemente econômicos (oikos, do grego,
morada). Vivemos num presente instantâneo sem avistar o “mais a frente”,
passamos pela existência como se fôssemos a última geração e, desta
feita, zelamos precariamente da morada vindoura das futuras gerações.
Podemos ilustrar aqui a multidisciplinaridade fazendo o seguinte
questionamento em relação a uma ciência em particular: a medicina.
Imaginemos médicos já formados, com anos de prática. Eles, que talvez já
passaram por uma certa “dessensibilização” na profissão, terão paciência
a dar ouvidos aos crescentes debates multidisciplinares, que hoje em
dia, já não concernem apenas às disciplinas da área de saúde? Os médicos
ainda mais antigos, que passaram de um século ao outro na plausível e
necessária prática de salvar e preservar vidas, estarão abertos a
discussões com filósofos, sociólogos, assistentes sociais, entre outros
que não têm conhecimento algum de biologia, medicina legal, etc, mas que
cada vez mais se especializam em ética prática? Por uma resposta
honesta, podemos afirmar: essas e outras respostas, só obteremos com o
passar dos anos, quando os diálogos se intensificarem, quando concessões
forem cedidas, quando muitos expedientes de diálogos forem empreendidos,
quando a área de saúde “der ouvidos” a área de humanas e vice-versa e
quando, principalmente, a legislação também for acionada. Assim, quando
os profissionais de saúde, aliarem-se aos especialistas em ética e estes
por sua vez unirem forças com toda a sociedade, a bioética certamente
será um “instrumento” eficaz para a luta pela cidadania, dignidade,
justiça social, bem estar da população, manutenção das boas condições
psicológicas da civilização e da integridade física da maioria dos
homens e participação de todos no futuro de toda a humanidade. Não se
trata de um arbitrário “discurso edificante”, mas uma re-configuração no
modus operandi das profissões que lidam com a Vida.
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CVA
- Eu gostaria que vocês comentassem uma pequena citação que retirei do
livro em foco, do artigo do Gustavo, o qual interessa especialmente à
antropologia porque coloca em xeque o valor e a importância dos sistemas
de crenças e das tradições, constituidores das culturas...
“A manipulação genética deixa de lado o conceito de cura para dar espaço
à idéia de alterações de características entendidas como negativas, para
serem substituídas por outras, tidas como positivas” (p.96)
Estaríamos caminhando para uma automatização dos seres humanos?
Pelizzoli - Estamos num ápice e em certo estertor do paradigma
positivista de abordagem e manipulação dos sujeitos humanos. Isso gera,
em nome do mercado, acima de tudo, a obsessão de um melhorismo radical
dos desvios da natureza (corpo, ambientes, culturas...) a ponto de tomar
o corpo-mente como mecanismo objetificável e passível de alterações
dentro do viés naturalista ou biologicista, ou mesmo psicologista,
formas todas de positivismo altamente questionadas pelas visões
fenomenológicas, culturais etc dos processos de saúde e do ser-no-mundo
que constitui cada indivíduo. A manipulação genética tem focado um
modelo restrito de olhar, considerado altamente avançado, mas que por
outro lado é altamente reducionista, pois exclui uma série de fatores
ontológicos, culturais, simbólicos, intuitivos, psicossomáticos que
envolvem a cura. Só o mercado é capaz de conceder tanta ênfase e elevar
ao totalitarismo a forma positivista vigente na biomedicina.
Souza - O ser humano já está automatizado pela lógica de produção,
consumo, obsolescência e descarte do sistema capitalista e de suas
instâncias legitimadoras, como a razão instrumental. O que está
acontecendo é a coisificação final, física, deste ser humano, algo já
denunciado em 1966, por exemplo, por Adorno, em uma conhecida entrevista
televisiva.
Miranda & Tenório - Não cremos que sejam foco nem objetivo da
ciência, ou mesmo da técnica, o uso a manipulação genética em prol de
uma ordem que tenha a finalidade de destituir as características humanas
originais, ainda que em prol de alguma substituição de características
negativas por positiva’, uma vez que a própria ciência hoje, reconhece
que alguns ‘desarranjos’ fazem parte do eterno processo de adaptação da
vida, ainda que saibamos que alguns autores consagrados, como Habermas,
atentem a isso[1].
Compartilhamos, porém, com o que nos parece uma pré-ocupação nessa
inquietação, no que tange à defesa da importância da autonomia humana
como condição única e essencial para desenvolvimento de sua própria
espécie. Dessa forma, uma reflexão propícia pode ser realizada sobre a
tese defendida por Morin de a época fecunda da não-pertinência dos
julgamentos de valor sobre atividade científica ter acabado[2],
e isso corroborar com o declínio da ética, mesmo antes da emergência da bioética. A esse exemplo, podemos pensar nas constantes quebras de
acordos ditos de cavalheiro’, em comunidades tantas, inclusive na
comunidade científica, em detrimentos de questões prioritariamente
econômicas e lembrar que tais acordos não são, em tese, menos subjetivos
que a religião ou a filosofia.
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CVA
- Gostaria de abordar a complexidade da medicina contemporânea. Ainda há
pouco, acabo de ler no jornal uma matéria sobre a polêmica criada pelo
americano co-descobridor da estrutura do DNA, ganhador de um prêmio
Nobel, James Watson, que, entre outras opiniões de cunho racista e
discriminatório, afirmou que os negros são menos inteligentes que os
brancos; ora, as pesquisas genéticas vêm provando que não há diferenças
raciais entre os seres humanos. Podemos colocar nesses termos também o
par biotecnologia e bioética? Parece que estamos diante de um
acirramento de posturas, quer dizer, de um lado a resistência dos
defensores do modelo hegemônico, ratificado pelas tradicionais escolas
de medicina e alguns centros de pesquisa de ponta; e, de outro, as
propostas críticas de revisão do modelo biotecnológico, sob a ótica de
novos paradigmas mais humanizados, mais holísticos, mais integradores.
Estamos traduzindo uma crise?
Pelizzoli - Boa avaliação. É um período rico daqueles que T. Kuhn
chama de mudança de paradigma, no entrecruzamento de uma série de crises
ao mesmo tempo que acirramentos e esgotamentos de modelos. O fracasso
mais evidente do modelo biomédico vigente é na constatação de que quase
todos temos doenças crônicas, estados de saúde frágeis, índices de
câncer e doenças degenerativas assustadores, e ainda se fala em aumento
de longevidade – a que custos contraditórios ! Há um engano sério aqui e
muita auto-ilusão. A própria pesquisa em biotecnologia está conduzindo
um tipo de mudança surpreendente de paradigma, com resultados que serão
benéficos, mas, por outro lado, muito disso e a p. base do modelo não
visa uma sustentabilidade. O que se vê quando a medicina não vai à raiz
dos problemas (como ficamos doentes? medicina preventiva, alimentação
natural e nutracêuticos, curas energéticas, naturais, quânticas...). Em
todo caso, creio firmemente que a mais avançada medicina está sendo
aquela feita em boa parte silenciosamente que concilia procedimentos
tecnológicos (como diagnósticos de todo tipo) com os saberes em saúde
naturais, integradores, e que parte tb. de demandas comunitárias locais.
A medicina integrativa, plural e resgatadora dos saberes tradicionais é
a medicina do futuro, se conseguirmos superar o lado demoníaco do
mercado e a burrice epistemológica dos pesquisadores cartesianos e
positivistas.
Souza - Não vamos nos iludir; há modelos bioéticos que apenas
aparentemente aperfeiçoam lógicas de abordagem das questões propostas,
quando, na verdade, justificam em nível profundo exatamente o instrumentalismo científico, expressão, traduzida para cientistas, da
racionalidade instrumental. A questão de fundo não é bioética, mas ética.
Seria fundamental compreendermos isso.
Miranda & Tenório - Não pensamos que estamos traduzindo uma
crise, entendemos que antes disso, somos crise. O fato de a nossa
espécie haver passado por estágios, através de paradigmas dominantes em
determinados segmentos, de crenças contrárias à perspectiva holística
atual, nunca nos desabilitou a saída da condição permanente de mutantes
do tempo. Paradigmas anteriores – como o antropocêntrico e,
posteriormente, o primeiro paradigma moderno, podem, ao menos
atualmente, serem resgatados justamente para cotejar o par biotecnologia
e bioética, no sentido de criticar sim, o simplismo de esse par traduzir
homogeneização, quando é esse par que discute a necessidade da
heterogeneidade e da complexidade, para riqueza do sistema ecológico.
Sobretudo, há de se tomar muito cuidado com o simplismo a que se reduz
tanto a bioética como a biotecnologia.
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CVA
- Na sua opinião, qual é a grande contribuição da bioética?
Pelizzoli - Apontar para esse novo paradigma integrador,
altamente crítico, que vai à raiz, que questiona epistemologicamente,
antropologicamente, filosoficamente os processos vigentes em saúde e
meio ambiente, baseada mais no princípio de justiça do que nas boas
intenções morais do principialismo bioético vindo dos EUA. A bioética
autêntica pressupõe acima de tudo o diálogo e a reflexão crítica, a ação
conjunta com a ética ambiental, com os direitos humanos, com a questão
do feminino (a ênfase androcêntrica e bélica da modernidade é
questionada); com a questão da terra e da moradia. A bioética mostra os
direitos do paciente, e com isso os abusos de autoritarismo
institucional e médico. Aponta também que uma medicina sem humanização,
mas acima de tudo sem integração, sem volta à natureza e volta à cura,
pode ser uma loteria. Alguns autores criticam o modelo biomédico atual
pela obsessão da cura; mas na verdade o cartesianismo dentro deste
modelo deixa a cura, a raiz, e o contexto em segundo plano. Qual é então
o primeiro plano? Olhemos para a maquinaria, para as finanças e
investimentos e o poder da indústria farmacêutica e aí entenderemos.
Souza - Oportunizar discussões sobre as temáticas da vida, no
deserto e na terra devastada do fátuo e da violência.
Miranda & Tenório - A proposta de um diálogo e de uma
reflexão aberta a todas as ciências é, sem dúvida, uma das mais
expressivas contribuições de base da bioética para a sociedade
contemporânea. Percebemos, contudo, a grande validade que têm as
ferramentas com as quais ela se utiliza para a realização dessa
proposta, como a retroalimentação de conhecimentos distintos,
concomitante a prática de reciclagem desses mesmos conhecimentos “da
cozinha ao laboratório”. Essa disseminação de conhecimento que
possibilita o pensamento autônomo e, consequentemente, pré-ocupa a
geração atual em cuidar da sua herança ecológica, parece-nos, por fim, a
grande sacada do que transborda a discussão de uma disciplina ou de um
paradigma, e borra a fronteira de uma discussão epistemológica.
Em nome da CVA, agradeço a entrevista, Gláucia.
[1]
A
respeito dessa discussão em Habermas ver: MIRANDA, Erliane (2005). Da
ética a Bioética: os transtornos da Biotécnica.
Disponível em:
http://www.cchla.ufpb.br
[2]
A
respeito da discussão sobre legitimidade e legalidade versus comunidades
com interesses distintos, ver: MIRANDA, Erliane (2006). Do paradigma tecnocientífico ao paradigma bioético: As propostas das novas
configurações contemporâneas - O exemplo da Lei de Biossegurança
(11.105/05).
Disponível em:
http://www.id.ufpe.br