"A
invenção das raças"
(*)
A nossa entrevista desta edição é com o geneticista italiano Guido
Barbujani, que vai nos falar um pouco sobre o seu livro
recém-publicado na Itália e no Brasil (BARBUJANI, Guido. A invenção
das raças. S. Paulo: Contexto, 2007, 175p; trad. Rodolfo Illari;
originalmente publicado na Itália, L’invenzione delle razze.
Libri SPA, Milan, 2006).
Guido Barbujani é um dos mais importantes geneticistas contemporâneos. É
professor de Genética da Universidade de Ferrara. Dá conferências e
publicou: Questione di razza (2003); Dilettanti, quattro viaggi nei
dintorni de Charles Darwin (2004).
No seu livro, ele sustenta que o conceito de raça (diferenças genéticas
marcadas entre grupos humanos) é uma construção social e não um dado
biológico; que nós as inventamos e as levamos a sério por séculos. Ele
argumenta que “a palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica
reconhecível no DNA da nossa espécie” e que, hoje em dia, não é possível
ver em nenhum de nós um membro de uma espécie diferente. Portanto, no
seu entender, resta conhecermos até que ponto somos diferentes no
interior de uma única espécie e o que significam essas diferenças. Ele
não vê nenhum motivo prático, concreto, para continuar usando categorias
raciais.
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CVA
- O senhor argumenta com base científica que, geneticamente, somos todos
iguais, pertencentes à mesma raça humana. Podemos falar em identidade
racial e diferenças étnicas?
Barbujani - Não. Etnia e raça são realmente a mesma coisa. Ambos
os conceitos estão baseados em uma idéia que se provou errada, ou seja,
que nós podemos representar a diversidade genética humana como um
conjunto de unidades distintas, cada uma diferente das outras e
homogêneas em si mesmas. Isto é verdade com relação aos orangotangos,
cujas populações de Borneo e Sumatra são bem distintas e são, na
realidade, raças. Como os orangotangos, nós, os humanos, somos
geneticamente diferentes e às vezes muito diferentes. Porém, diferente
dos orangotangos, em nós humanos, estas diferenças não vêm em pacotes
raciais nítidos, sendo cada um geneticamente diferente. Diferenças
humanas formam uma série contínua em espaço, e cada população humana
abriga uma grande fração (85% em média) da diversidade genética global
das espécies. Assim, nós podemos dizer que todas as populações humanas
em grande parte compartilham as variantes genéticas transmitidas a nós
por nossos antepassados africanos, e diferem-se principalmente pela
freqüência destas variantes.
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CVA
- Quais são os fatores determinantes para as diferenças físicas entre as
populações?
Barbujani - Genes têm uma importância determinante em nosso
aspecto físico. Exemplo claro disso é o fato de que as crianças se
assemelham aos seus pais. Entretanto, nós temos dietas, exercícios
físicos e também muitos outros fatores que são parte de nosso ambiente,
não de nosso genoma. Como resultado, uma vez mais, diferenças físicas
são freqüentemente grandes entre membros da mesma população (compare
Prince e Ella Fitzgerald), e são geralmente pequenas entre as médias de
populações diferentes.
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CVA
- O senhor argumenta no seu livro que a idéia de raça é uma construção
social e não um dado biológico. Temos visto, no entanto, como a idéia de
raça é ainda vigorosa e tem justificado práticas de xenofobia e racismo.
Como o senhor entende a militância de segmentos sociais marginalizados,
como aquela dos movimentos sociais negros, que se afirmam no resgate da
identidade negra?
Barbujani - Uma vez mais isto mostra como a idéia de subdivisão
racial tem suas raízes mais na política, na economia e na psicologia do
que na biologia. Defender os movimentos negros (ou gays) me parece a
resposta de setores da sociedade que vêm sendo discriminados há muito
tempo. Se, como acontece no EUA, o rótulo racial é acompanhado por
pequenos privilégios, como o acesso mais fácil à universidade (para
negros e latinos) ou a possibilidade de se abrir um cassino (para os
nativos dos EUA), é compreensível que estes grupos aderirão a estes
rótulos. Mas este é um fenômeno norte americano e às vezes conduz a um
paradoxo. Para entender isto, eu recomendo a leitura do extraordinário
romance de Philp Roth, A Marca Humana (Cia. Das Letras).
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CVA
- Nas fronteiras de identidade e nacionalidade, vemos, sobretudo nos
países europeus, os critérios de solo e sangue como diferenciadores e
classificadores de populações humanas geograficamente localizadas. O
senhor concorda com esses critérios?
Barbujani - Eu concordo que um dos piores legados que nós
europeus deixamos para o mundo é a ênfase na identidade nacional,
geralmente entendida para representar uma pessoa, um idioma, um
território e uma bandeira. Neste contexto, “povo” quer dizer que o
território é ocupado pelos descendentes de antepassados, que têm vivido
ali por muito tempo. Estudos modernos de DNA demonstram claramente que
esse conceito está incorreto porque todas as populações, e europeus em
particular, são altamente misturadas. Eu não posso concordar com
critérios que perpetuam tal mito. Ao invés disso, eu concordo com Amin
Maalouf, (que nasceu no Líbano e mora na França, é árabe mas não
muçulmano) quando ele defende suas identidades múltiplas e insiste que
cada de nós tem identidades múltiplas que não são e nem precisam ser
correlatas. Se nós reduzimos nossa riqueza cultural a uma única
identidade (" eu sou um escocês " ou " eu sou inglês ", " eu sou um
católico " ou " eu sou um muçulmano ", etc.), nós perdemos muito e não
ganhamos nada.
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CVA
- A nossa história nos ensina como arbitrariedades e injustiças sociais
e culturais têm sido cometidas e justificadas por colonialismos com base
na “diferença racial”. Podemos dizer que a construção social da idéia de
raça seja uma invenção dos regimes e governos fanáticos, despóticos ou
totalitários?
Barbujani - Eu diria que os governos provavelmente não são tão
poderosos para criar problemas globais como racismo e xenofobia. De
certo modo, o potencial para o racismo está em todos nós. Nós
naturalmente suspeitamos das pessoas que não se parecem conosco; pense
na distinção clássica entre os gregos e bárbaros. Porém, aumentar o
conhecimento também significa, em geral, um aumento na compreensão
mútua; a desconfiança em pessoas que não se parecem muito conosco
desaparece quando percebemos que temos algo em comum. Então eu diria
que, nestes anos, os que dizem que uma guerra de civilizações está
acontecendo, que falam de barreiras profundas entre grupos humanos,
sejam elas biológicas ou culturais, têm uma meta política em mente, que
não vai trazer qualquer benefício para a humanidade.
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CVA
- E quanto aos cientistas? Por que um segmento deles insiste em
conservar a idéia de raça, quando as pesquisas mostram que este conceito
não se sustenta cientificamente, que essa noção reforça a violência e a
injustiça sociais e não traz contribuição científica alguma?
Barbujani - Primeiro quero esclarecer que se nosso DNA mostrasse
evidências para diferenças raciais, os cientistas deveriam dizer isto.
Aqueles que, como eu, pensam que preconceito e discriminação são uma
coisa ruim não mudariam de idéia por isso. Porém, nosso DNA mostra
evidências para o contrário. O problema é que estas evidências estão em
conflito com estereótipos que vêm há muito tempo influenciando o modo
como muitos de nós vê o mundo. Segundo Jonathan Marks, hoje, convencer
as pessoas que as raças humanas não são uma realidade biológica é tão
difícil quanto convencer as pessoas no século 17 que a Terra gira em
torno do sol e não vice-versa.
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CVA
- O senhor argumenta no seu livro que a biodiversidade humana deriva em
uma pequena parte da nossa herança biológica e muito das nossas relações
sociais, o que nos leva a entender a responsabilidade da antropologia
para os estudos sobre as diferenças entre as populações. Efetivamente,
os estudos sobre identidade e diversidade culturais são centrais para os
antropólogos. O senhor considera que, na prática, a antropologia e a
biologia têm andado juntas? A antropologia tem realizado bem a sua
tarefa?
Barbujani - No último capítulo de meu livro eu tento dizer que o
que nós percebemos como nossa identidade só depende, em pequena escala,
de nossas diferenças biológicas, e está arraigado muito mais em nossa
cultura e em nosso caráter individual. Em outras palavras, nós não somos
escravos de nossos genes. Eu penso que alguns biólogos e antropólogos
estão fazendo bem o seu trabalho, alguns um pouco menos, e alguns não
estão realmente fazendo um ótimo trabalho: bem como qualquer outro grupo
humano profissional.
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CVA
-
Dr. Guido, em nome da Comunidade Virtual de Antropologia, agradeço
imensamente a tua participação e desejo sucesso crescente nas tuas
pesquisas. Parabéns pelo importante trabalho realizado! Gláucia.
Barbujani - Muito obrigado.
[Clique
aqui para ler o primeiro capítulo e o sumário da obra.]
(*) A tradução inglês-português das respostas de
Guido Barbujani foi feita por
Maria
Cristina - telefone para contato: +55 31 9138-9680.