"Humor judaico e psicanálise"
Entrevista com Liana Feldman, por Samira Marzochi (coordena a
seção coluna da CVA)
Liana Feldman, graduada em psicologia pela Universidade Católica
de Pernambuco (Unicap), desenvolve pesquisa de pós-graduação sobre Humor
Judaico no Laboratório de Psicophatologia Fundamental e Psicanálise sob
a orientação do Prof. Dr. Zeferino Rocha, filósofo e psicanalista. Nesta
entrevista, que entrelaça ciências sociais e psicanálise, discute o
conceito de humor judaico como categoria analítica e suas relações com a
questão da identidade, muito cara à antropologia. Para ela, “é preciso
observar que o humor judaico não é somente uma piada, é uma narrativa
que gera uma reflexão”. Liana investiga se este traço cultural pode ser
compreendido como forma de “resistência”.
>>
Samira
/ CVA -
Por que o interesse em pesquisar o "humor judaico"?
Liana - Desde pequena ouço as piadas do meu avô, do meu pai, e
nos eventos da comunidade judaica. Também vejo estudos acadêmicos que
freqüentemente focam o judaísmo como ponto relevante na teoria
psicanalítica. Mas o interesse formal para uma pesquisa surgiu quando
entrei no mestrado de psicologia clínica com um tema completamente
diferente, e percebi que lá há espaço para trabalhos que pretendem unir
psicanálise e religião. Então mudei o tema, fiz outro projeto e segui em
frente com a nova idéia.
>>
Samira
/ CVA
- Há outras pessoas que pesquisam o mesmo tema em sua área?
Liana - Aparentemente há poucas pessoas, por enquanto. Aqui no
Brasil, conheço Renato Mezan, Daniel Kupermann, Abrão Slavutzky e
Antônio Ricardo. Todos eles pesquisam o humor e suas variações com base
na psicanálise, independente de ser o humor judaico. Deve haver outros
pesquisadores com textos em andamento ou até mesmo publicados, mas que
eu ainda não tive acesso. Além disso, há trabalhos psicanalíticos que
falam do riso e de outros temas próximos do humor.
>>
Samira
/ CVA
- Quais são as suas referências bibliográficas mais importantes?
Liana - Em primeiro lugar, Freud. Especialmente o livro "Os
chistes e sua relação com o inconsciente", de 1905. É um texto que por
muito tempo não teve sua importância esclarecida ou compreendida pelos
psicanalistas. Agora começa a existir uma preocupação com ele, mesmo por
quem não estuda diretamente o humor.
Outra referência de primordial importância é a Torá, livro sagrado dos
judeus, bem como suas interpretações. Eu preciso estudar a religião para
compreender melhor a cultura judaica, e também para tentar encontrar
trechos ou citações dos sábios judeus que falem do humor. Sei que a
alegria no judaísmo é considerada uma mitzvá, uma boa ação. Mas sobre o
humor, ainda preciso me aprofundar. A religião judaica e a cultura
judaica andam juntas, portanto a Torá e todos os outros livros sagrados
do judaísmo são parte do meu campo de pesquisa.
>>
Samira
/ CVA
- Estão entre elas referências das ciências sociais?
Liana - Formalmente, não. Porém, a psicanálise entende o sujeito
como inserido em um laço social, na cultura.
>>
Samira
/ CVA
- Durante a sua formação acadêmica fez cursos de antropologia ou
sociologia? Foram interessantes para a sua pesquisa?
Liana - Infelizmente, a graduação em psicologia clínica só contém
uma disciplina chamada Introdução à Sociologia, no ciclo básico, ou
seja, primeiro ano de curso. Já no final, estudamos Cultura e
Subjetividade, onde o elo entre psicanálise e cultura pareceu mais
estreito. Não sei se a grade curricular mudou, mas de qualquer modo esse
modelo não tem muito tempo, visto que ingressei na graduação em 2000. No
mestrado, voltamos ao mesmo tema de modo mais proveitoso. Fica claro que
essas disciplinas permeiam o meu trabalho. Debatemos no mestrado se o
meu projeto tem mais aproximação com os estudos da cultura ou da
religião. Não chegamos a uma resposta, nem acho possível chegar, ainda
mais se a filosofia resolver entrar no páreo, por conta das referências
ligadas a Henri Bergson.
>>
Samira
/ CVA
- Como definir o "humor judaico"?
Liana - O humor judaico tem as características comuns a todo tipo
de humor. Segundo Freud, o humor em geral permite ao sujeito preservar o
ego em situações extremas ou não, liberar a agressividade e gerar
prazer. Assim, contar uma piada sobre o presidente do Brasil é uma forma
de ser agressivo dentro dos padrões, de sentir algum prazer e continuar
íntegro mesmo com as adversidades, por exemplo. O que diferencia o humor
judaico das demais formas de humor é o endereçamento da piada, a
auto-referência vista nos chistes do povo judeu. O humor judaico se
caracteriza por fazer piada sobre si mesmo, envolvendo a cultura e a
religião nas temáticas, como também questões políticas e históricas do
povo. Nesse caso, pouco importa as piadas sobre loiras e portugueses,
nossos colonizadores.
>>
Samira
/ CVA
- Como explicá-lo?
Liana - Explicar o humor judaico significa todo o meu trabalho,
que não está pronto. Mas, preliminarmente, posso dizer que se trata de
uma transmissão oral auxiliar, ou até mesmo fundamental, na tradição
judaica. É preciso observar que o humor judaico não é somente uma piada,
é uma narrativa que gera uma reflexão. Moacyr Scliar diz que esse humor
é agridoce, que faz pensar e não gargalhar. Concordo plenamente, não
vejo as pessoas morrendo de rir por conta de um chiste judaico, mas vejo
por trás da contação de piadas um momento que passa de geração a
geração, especialmente entre os homens. Não pretendo me aprofundar na
questão de gênero, mas é notório que os homens judeus contam as piadas,
enquanto as mulheres têm outros atributos. E assim esse tipo de
narrativa se sustenta há tantos anos, séculos, por alguma razão.
Resistência? Vamos ver, quando o trabalho ficar pronto eu aviso.
>>
Samira
/ CVA
- Todo humor entre judeus ou sobre judeus é necessariamente "humor
judaico"?
Liana - Não. Meu avô pode contar piadas de papagaios, de
portugueses, ou sobre qualquer outra temática que deseje. O humor não
passa a ser judaico porque vem dele. E até onde pensei, nem todo humor
sobre judeus entra na categoria de humor judaico, mas isso ainda pode
ser revisto ao longo da minha pesquisa. O que confere a nomenclatura
"humor judaico", em minha opinião, é quando o narrador contempla
fragmentos da religião e cultura judaica, mesmo que estereotipados. Na
verdade, totalmente estereotipados, pois o cômico vem de um exagero da
imagem. Falar da mãe judia é quase como falar da mãe italiana, tem uma
carga dramática que sufoca os filhos, então a piada "contra" elas surge
como forma de fazer uma barreira. As piadas sobre os algozes e sobre as
perseguições também se mostram minimamente eficazes na manutenção da
dignidade de um povo que, muitas vezes, pareceu perdê-la.
>>
Samira
/ CVA
- Se o "humor judaico" pode ser construído como uma categoria
independente, é possível identificá-lo em situações de humor entre
não-judeus e sobre temas não judaicos?
Liana - Entre não-judeus talvez sim; entre temas não judaicos,
não. A especificidade do humor judaico é justamente falar sobre os
judeus, portanto não poderia ser encontrado em meio a outros temas. Se
uma pessoa que não é judia e não integra a comunidade judaica em nenhum
aspecto, fizer uma piada sobre judeus, pode até ser humor judaico, mas
geralmente soa como discriminação. É preciso ter muito cuidado ao fazer
piadas sobre judeus, porque os temas abordados não são leves: mães
neuróticas, economia excessiva, filhos infantilizados, aspectos
marcantes da religião... Parece que tudo isso pode ser criticado apenas
por alguém inserido nesse laço social. É como falar de um irmão, só nós
mesmos podemos falar mal, ninguém mais.
>>
Samira
/ CVA
- O que é o judaísmo: uma cultura, uma religião, uma tradição, uma
história, um estado de graça?
Liana - O judaísmo é uma religião, a primeira religião monoteísta
do mundo. A partir da crença num D´us único, e escrevo a palavra
incompleta porque não se deve falar o nome em vão, surgiu a cultura. A
cultura judaica muitas vezes deixa a religião meio à parte, embora isso
pareça impossível. Como exemplo, posso citar as comidas típicas: todo
judeu já deve ter comido um fluden, doce de massa folhada feito com
nozes, passas e damasco. É uma delícia, no Rio de Janeiro e em São Paulo
é possível encontrar em vários locais. Mas, não significa que esses
fluden vendidos no shopping sejam kasher. Não necessariamente passaram
por um processo de preparo onde de maneira alguma se mistura carne e
leite, crustáceos, carne de porco, onde a cozinha segue os preceitos de
higiene mais rígidos que as recomendações da Vigilância Sanitária. Mas
fluden, mesmo fora dos padrões da alimentação kasher, é cultura judaica.
A mesma coisa ocorre com a dança. Há muitos grupos de dança judaica
juvenil que se apresentam em vários países, e nessas organizações os
rapazes e moças ensaiam e dançam juntos. Pela religião judaica, não
deveria. A moça e o rapaz devem ter recato e dançar separados e, quando
casados, poderão dançar como acharem devido, na sua intimidade. Mas,
ainda assim, esses encontros de dança logo se transformam numa grande
festa adolescente, e a dança é um rico aspecto da cultura judaica.
Além disso, pode-se citar que nem todo judeu é um violinista no telhado.
Há os judeus sefaradim, askenazim e até mesmo os falashas, que são
judeus etíopes e negros que habitam Israel. Os primeiros são originários
de Portugal, Espanha, de países do Oriente Médio e da África. Os
sefaradim têm costumes muito parecidos com os árabes, bem como os traços
físicos. Já os askenazim vêm do Leste Europeu, trazendo ao ocidente os
hábitos de países frios, das aldeias russas; por fim, os falashas são
geralmente etíopes, e com toda a bagagem cultural do seu país de origem,
conservam o judaísmo. Essa imensa variedade de hábitos e formações
culturais está presente em cada judeu, pois vivemos espalhados pelo
mundo. Não há um rosto ou um jeito que caracterize o judeu. Judeu é quem
nasce do ventre de uma mãe judia, diz a Torá. Logo, se uma moça judia
quiser casar com um japonês, terá um filho judeu japonês.
Além de toda a cultura herdada dos antepassados, nós, judeus
brasileiros, também comemos feijoada kasher na sinagoga. É feita sem
carne de porco, mas muito saborosa, e mostra que somos adaptáveis a
qualquer lugar, pois podemos nos integrar ao local sem deixar de seguir
os preceitos sagrados.
Com isso, os dialetos, os costumes próprios, as interpretações da Torá,
a culinária, a aparência física e as vestimentas de cada grupo judaico
são incorporados ao cotidiano das novas gerações. E mesmo aqueles que
moram em Israel podem ter um pai que veio do Marrocos, a mãe do shtetl
(aldeia) russo, uma das avós alemã ou francesa e um primo argentino que
vai passar as férias lá. E no fim das contas, todos comem falafel e
fumam narguila, do mesmo modo que os árabes. É uma salada cultural, mas
todos se entendem e são ligados pela crença monoteísta.
Assim, o judaísmo é primeiro uma religião, que originou uma vasta
cultura e está inserido na história. Embora muitas vezes a cultura
judaica não dê conta de todos os aspectos, lições e mandamentos da
religião.
>>
Samira
/ CVA
- Como você relaciona "humor judaico" e psicanálise/psicologia?
Liana - Freud começou esse trabalho em 1905 com o livro Os
chistes e sua relação com o inconsciente. É um trabalho lindíssimo,
onde ele fala dos tipos de humor e classifica suas formas mais vistas. A
relação do humor judaico com a psicanálise é toda a minha dissertação de
mestrado e muito mais, por isso não será possível descrever em espaço
tão curto. Mas é possível pontuar que o humor judaico auxilia o povo
judeu na transferência da tradição, é uma tradição oral, como eu disse
anteriormente. Quando se faz uma piada sobre Hitler, o propósito não é
somente xingar aquele algoz como parece, mas também tornar o repúdio
público e passar isso para as novas gerações. O mesmo em relação ao
louco, ao pedinte, ao sapateiro, que são figuras folclóricas do
anedotário judaico. Hoje em dia não vivemos mais em aldeias isoladas,
onde a prática da religião, quando permitida, era discreta. Mas, mesmo
assim, é preciso dar sustentação aos ditos do próprio povo, de modo a
ensinar que o humor também está a serviço da manutenção da cultura
judaica, do mesmo modo que o jornalzinho e a revista mensal da
comunidade.
Anexo: piadas
Álcool:
- Por que as mães judias não bebem?
- Porque o álcool prejudica o seu sofrimento.
Cara de judeu:
Um judeu brasileiro foi conhecer uma sinagoga no Japão. Lá, um judeu
japonês lhe pergunta:
- Você é judeu, non?
- Sim, responde o brasileiro.
- Non palece.
Terra prometida:
D´us encarregou Moisés de escolher a terra prometida que quisesse.
Moisés, que sempre ficava gago diante do Senhor, não pensa duas vezes:
- Ca... cana...
- Canaã? - Pergunta D´us, surpreso. - Você é quem sabe.
E retira-se para a sua morada celeste, enquanto Moisés, aflito, grita
para as nuvens:
- Ca... Cana... dá, eu disse Canadá!
Música:
Perguntaram certa vez a Isaac Stern por que escolhera o violino como
instumento.
Respondeu ele: "Em caso de pogrom, é mais fácil de carregar que um
piano."
Profissões:
Uma mãe judia passeia com dois filhos. Alguém pergunta a idade das
crianças:
- “O médico tem quatro, o engenheiro dois e meio”.