"Coisa de cigano"
A nossa entrevistada do mês é a antropóloga
Florencia Ferrari,
nascida em Córdoba – Argentina (1976), mas que, desde os seis
meses de idade, mora em S. Paulo. No Depto. de Antropologia Social da
USP, defendeu a dissertação de mestrado intitulada: “Um olhar oblíquo –
contribuições para o imaginário ocidental sobre o cigano” (2002), que
tratou da presença dos ciganos na literatura ocidental. Doutoranda pelo
mesmo Depto., ela continua sua pesquisa com um grupo de ciganos calon do
interior de São Paulo, em Santa Fé do Sul, com quem conviveu. É, ainda,
editora da revista Sexta Feira – Antropologia, artes e humanidades.
Florencia
acaba
de receber o prêmio de melhor livro reconto de 2005 da Fundação
Nacional do Livro Infanto-juvenil com Palavra cigana. Seis contos
nômades (ilustrações de Stephan Doitschinoff, 2º lugar no prêmio
Jabuti de melhor ilustração. São Paulo: Cosac Naify, 2005, 89 pp.).
Palavra cigana é um conjunto de seis contos da tradição cigana e
explicita ao final traços culturais sucintos da comunidade, fontes e
indicações de leitura, referências teóricas, literárias e artísticas. Os
contos foram destacados em um leque de opções e adaptados pela autora,
preocupada em apresentar um pouco da cultura das comunidades ciganas
ainda tão misteriosas para nós. A pesquisa que ela desenvolveu é objeto
desta entrevista.
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CVA -
Olá Florencia. Adorei o formato do teu livro: parece um livro infantil e
é um livro de antropologia. Não que sejam gêneros excludentes, mas, via
de regra, os antropólogos fazemos livros de letras e, no máximo, com
poucas fotos, o teu é recheado de ilustrações. Qual foi o teu propósito
com esta iniciativa?
Florencia - De fato, eu nunca imaginei que escreveria um livro
infanto-juvenil. A iniciativa foi do Augusto Massi, editor e diretor da
Cosac Naify, que me convidou para escrever um livro de contos para uma
série chamada Mitos do Mundo, em que haviam sido publicados mitos
indígenas, afro-brasileiros, peruanos, indianos, organizados por
antropólogos ou sociólogos. A idéia dessa coleção é interessante pois
trata de traduzir um conhecimento comumente isolado na academia para um
público mais amplo, e mais ainda, para crianças ou adolescentes, quer
dizer, com intenção de apresentar modos diferentes de ver o mundo numa
fase de formação, evitando talvez que se criem estereótipos, ou ajudando
a combatê-los.
Eu fiquei cerca de um ano e meio pesquisando contos ciganos do mundo
todo. Li mais de 300 e os classifiquei por temas, linguagem, estilos
narrativos. No final escolhi seis que me pareceram representar melhor as
características que eu considero mais relevantes do conjunto pesquisado.
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CVA -
Os contos que você selecionou para este livro nos revelam um tanto dos
costumes e dos valores dos ciganos. Eles aparecem ali definidos como
“grupos familiares que levam uma vida nômade, espalhados por quase todos
os países do mundo”, a partir da Índia. Como a maioria das pessoas,
acredito, eu pensava que eles fossem originários do Egito. Naturalmente,
o estilo nômade de vida deles e a tradição oral contribuem para que eles
venham agregando costumes e valores culturais dos locais por onde
passam, mas, é possível supor uma cultura de base comum e inalienável às
comunidades ciganas espalhadas pelo mundo? Ainda que o teu estudo seja
pontual sobre um grupo de ciganos, é possível supor que eles tenham
mitologia, religião, língua, culinária, dança, música, atividades e
valores comuns entre eles?
Florencia - Você toca num ponto que me parece crucial no estudo
dos ciganos, e no qual eu comecei a pensar recentemente. Os antropólogos
mais sérios criticam as grandes generalizações que tratam “os ciganos”
indistintamente, como se fossem todos iguais; no lugar disso, defendem
que cada etnografia só pode falar de si mesma. Ao fazer isso acaba-se
por ter uma idéia de uma unidade isolada, algo que é difícil de
sustentar entre os ciganos.
Esse problema teórico foi tratado pela antropóloga inglesa Marilyn
Strathern com respeito às etnografias da Melanésia. A solução que ela
deu ao problema foi propor traçar “conexões parciais” entre todas as
etnografias, sem, no entanto, nunca formar um todo. Acho que o mesmo se
aplica aos ciganos. Há muitíssimas diferenças internas, e no entanto
todas as etnografias são conectáveis, talvez não por meio de um máximo
divisor comum, mas como num rizoma: as conexões podem ser traçadas de um
ponto a qualquer outro.
Se eu tivesse que arriscar uma característica comum a todos os ciganos
eu diria que todos nos chamam de gadje (as variações são: gajão, gorgio,
gajé, surpreendentemente parecido ao goe dos judeus e o gaijin
dos japoneses), e fazem questão de marcar diferenças em relação a nós, a
nosso modo de vida, de trabalho, de identidade territorial, nacional.
Enfim, o cigano se define, ao meu ver, pela negação, pela linha de fuga
em relação ao central que somos nós.
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CVA -
Você disse que os seis contos que você nos apresenta foram transcritos
entre 300 da literatura tradicional sobre a cultura cigana. Como você
fez esta seleção? O grupo que você estudou te contou muitas estórias?
Eles conhecem os registros antropológicos já feitos sobre eles?
Florencia - Quando fui a campo não recolhi contos. Foi uma pena,
pois eu teria gostado de contrapor à bibliografia que li um conto de
ciganos no Brasil. Mas não foi possível. Trata-se de uma pesquisa
bibliográfica. Mas a seleção foi muito baseada na minha experiência de
campo, na medida em que os assuntos que me chamaram a atenção eram
aqueles que se conectavam com o que eu havia vivido entre eles. Um dos
temas que eu busco dar forma no livro e do qual eu falo na introdução é
o engano. O engano é interessante porque ele tem duas faces. De
um lado, ele dialoga com o imaginário que temos dos ciganos: nos vemos
sempre ludibriados por ciganos que roubam, mulheres que furtam dinheiro
quando lêem a sorte, enfim, todo esse universo de estereótipos
desagradáveis dos ciganos. O outro lado, e isso é o que me parece
revelador nos contos, é o que o engano representa para o cigano.
E os contos são geniais porque mostram que o cigano se vale da imagem
que nós temos deles para agir conosco. Eles sabem o que nós pensamos
deles e usam isso para “se virar” na vida. Nesse sentido, o engano pra
eles é uma estratégia de sobrevivência, de ação.
Quanto à sua última pergunta, posso dizer que os calon de Santa Fé do
Sul não conhecem, não se interessam por escritos antropológicos. A maior
parte da geração adulta não lê nem escreve; talvez isso mude na geração
mais nova que está indo pra escola. Mas se eu tivesse que arriscar, eu
diria que os ciganos no Brasil não conhecem os poucos trabalhos escritos
sobre eles. A situação deve ser outra na Romênia, em que eles são cerca
de 7% da população, e escolarizada. E há ciganos intelectuais que,
certamente, conhecem o que foi escrito sobre eles.
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CVA -
De acordo com a tua pesquisa, os ciganos chegaram ao Brasil a partir de
Portugal, na condição de degredados, e estima-se que somem hoje de 300
mil a 1 milhão de indivíduos, como estes números são estimados?Eles têm
cidadania brasileira? Como acontece o nomadismo entre eles? Este grupo
que você vem estudando, sempre esteve no Brasil?
Florencia - Justamente não se sabe quantos ciganos há no Brasil.
Não há nenhuma pesquisa que permita dizer se são 300 mil ou um milhão.
Nenhum dos índices do censo ajuda a recortar os ciganos. Haveria que
incluir uma categoria no censo e contar com que os ciganos se
identificassem.
Sim, os ciganos são brasileiros, como todo indivíduo nascido no Brasil.
O que ocorre no entanto é que nem sempre são registrados, nem sempre
fazem carteira de identidade.
Uma das questões de minha pesquisa do doutorado é o nomadismo. Creio que
tenho que conhecer mais para saber como ele acontece. Entre os Calon de
Santa Fé do Sul, a “viagem” ocupa de um a dois terços do ano. Eles têm
casas compradas na cidade, mas passam bom tempo na estrada, morando em
barracas ou alugando quartos em pensões. Sei de ciganos que vivem o
tempo todo em barracas já que não têm propriedade. Imagino que o grau e
as condições do nomadismo varie enormemente entre os ciganos.
Quando perguntei ao chefe calon de Santa Fé do Sul de onde eles vinham,
imaginando uma procedência européia, ele me respondeu: “De Guaíra”, uma
cidade não muito longe dali. A resposta sugere que para eles não
interessa muito um lugar do passado, de origem. O passado se estende a
alguns anos, talvez apenas uma geração atrás. Se considerado o conjunto
de indivíduos vivos, eles sempre viveram no Brasil.
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CVA -
Como foi possível a tua aproximação com eles? Como é o sentimento deles
em relação à nossa cultura? Eles aceitam bem a tua presença entre eles?
Florencia - Valéria Contrucci, uma psicóloga muito ligada a
ciganos, hoje minha amiga, tem um irmão em Santa Fé. Foi ele quem me
avisou que haveria um casamento por lá. Como eu fazia parte do LISA,
Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, na USP, eu resolvi oferecer
a eles filmar os preparativos e os três dias de festa. Levei uma câmera
e me instalei na casa deles, à sua revelia. Logo se acostumaram a me ver
entre eles o tempo todo. A vantagem de fazer campo entre ciganos
(diferentemente do que é hoje entre índios) é que não há nenhuma idéia
formada do que seja um antropólogo, então eu pude desenvolver uma
relação pessoal com eles sem estereótipos, sem demandas impossíveis, ou
discursos pré-fabricados no meio. Os primeiros dias foram visivelmente
de uma cuidada adaptação mútua que foi aos poucos substituída por uma
naturalidade cotidiana; fui adotada pela avó da noiva que me levava de
lá pra cá o tempo todo. Aqueles com os quais convivi mais de perto já
não me tratavam de gajin, mas pelo nome.
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CVA -
Quanto tempo eles ficam em cada lugar, quem e como decidem a hora de
partir e que destino tomar?
Florencia - Eles dizem que as circunstâncias decidem. Não há hora
pra voltar. Volta-se quando há dinheiro suficiente, e, atualmente,
quando as crianças voltam pra escola, o que aparentemente vem causando
dificuldades ao modo de vida familiar.
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CVA -
Sobre as artes divinatórias, a quiromancia é prática feminina, não é
mesmo? As mulheres se preparam para ela? Existe algum rito de iniciação
ou de passagem para exercê-lo com maior eficácia? Todas as mulheres
podem praticá-lo ou algumas são autorizadas? Existe para eles relação
desta prática com o sagrado?
Florencia - Não conheci ciganos que lessem a mão.
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CVA -
Sobre a relação entre comunidades de ciganos e de circo, os circenses
são ciganos? Ou são comunidades distintas que se aproximam pela
característica comum do nomadismo...
Florencia - Exatamente, acho que podemos falar de “afinidades
eletivas” entre ciganos e circenses, uma vez que têm um modo de vida
muito parecido: viajam, a atividade profissional é familiar (todos os
membros trabalham juntos), há uma estreita relação com animais como
cavalos e cachorros, há um certo desprendimento e lugar marginal em
relação à sociedade. Eu conheci Zurca Sbano, um rom dono do circo Sbano.
Ele faleceu, mas seus filhos continuam. Ano passado montaram sua lona na
Freguesia do Ó, em São Paulo, onde se apresentaram junto a outros
circenses não-ciganos. Outros filhos trabalham em circos importantes do
Brasil. Lembro que Zurca comentou que um de seus filhos estava no Beto
Carreiro. Os Boiash são tipicamente rom circenses.
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CVA -
Afinal, por quê e como surgiu na nossa cultura a crença de que os
ciganos roubam crianças e tomam para si animais e objetos que não lhes
pertencem? Esta crença tem fundamento?
Florencia - Não é possível saber ao certo, mas na bibliografia do
século XV na Europa, você consegue ver a virada na imagem que se tem
deles. A primeira imagem das caravanas de famílias que chegam às cidades
européias está ligada à nobreza. Eles traziam salvo-condutos dados por
reis para passar entre diversos reinos, e eram tomados por nobres. Mas
em pouco tempo começam as reclamações de que roubam coisas etc. É
possível que o furto acontecesse, mas também o lugar do estrangeiro
genérico é especialmente adequado para atrair todo tipo de mal da
sociedade. Quer dizer, o medo passa também a produzir fatos. Por outro
lado, podemos pensar que a idéia de propriedade privada não lhes é cara,
de modo que cosmologicamente eles teriam um bom álibi para tomar de
outrem sem preocupação. Um dos contos do meu livro fala disso: “São
Jorge e os ciganos”. Eles dão uma explicação divina para a leviandade no
uso de coisas alheias.
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CVA -
Os ciganos ainda sofrem perseguições? Como o governo brasileiro trata os
ciganos?
Florencia - Sem dúvida. O governo brasileiro não trata os
ciganos. Isto é, os ciganos nem sequer são considerados na legislação,
não existem do ponto de vista de direitos especiais que levem em conta
sua particularidade cultural. Este ano, recentemente, foi problematizado
o conhecimento que o governo tem sobre essa parcela da população e
criou-se uma espécie de fórum de discussão ligado ao Ministério da
Cultura, mas ao que parece não foi levado adiante, já que eu tentei
entrar em contato e não obtive nenhuma resposta. As autoridades tratam
os ciganos segundo as leis do estado, sem levar em conta seu nomadismo.
São sistematicamente expulsos das áreas onde acampam.
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CVA -
Finalmente, a que você atribui o descaso dos governos ou dos
pesquisadores pela cultura dos ciganos?
Florencia - No caso do governo, falta de interesse. No caso dos
pesquisadores, acho que falta de tradição nessa área, e a dificuldade de
travar relações com eles, já que as regras de evitação com o gajde
são muito fortes. Não creio que falte interesse e curiosidade sobre
ciganos, ao menos desde que comecei a estudá-los, notei enorme fascínio
das pessoas quando conto da pesquisa.
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CVA -
Parabéns pela pesquisa, Florencia. A Comunidade Virtual de Antropologia
agradece esta entrevista. Gláucia.