"Chico Xavier e a cultura popular brasileira”
O nosso entrevistado do mês é o prof.
Bernardo Lewgoy, do
Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro
do Núcleo de Estudos da Religião da UFRGS. Mestre em Antropologia Social
pela UFRGS (1992) e doutor em Antropologia pela USP (2000), Bernardo
Lewgoy (1963) publicou vários artigos sobre antropologia da religião e,
por último, o livro cujo título: O grande mediador: Chico Xavier e
a cultura brasileira (Bauru: EDUSC, 2004, 136 pp) é objeto
privilegiado desta entrevista.
O grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira traz uma
análise antropológica sobre a influência do mineiro (Pedro Leopoldo-MG)
Chico Xavier na nossa cultura, redefinindo o espiritismo kardecista no
Brasil. Chico Xavier, um dos grandes líderes religiosos do século XX,
devotado como santo popular, é autor e psicógrafo de mais de 400 obras,
traduzidas em várias línguas. Nesta obra, Lewgoy localiza a atuação do
médium espírita a partir da era Vargas e analisa a sua influência
nalguns setores da população brasileira, com destaque para a simpatia
dos militares em relação ao espiritismo, e ainda, o imbricamento que
Chico Xavier acabou por promover entre espiritismo, cristianismo e
catolicismo. Enquanto indivíduo, Chico Xavier é analisado como um grande
mediador em sentido bem amplo – seja pelo mediunato, seja pelo poder de
agregar ao espiritismo a camada popular, seja por conciliar religiões e
práticas importantes no Brasil nos setores da religiosidade popular.
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CVA -
Olá Bernardo, parabéns pela obra, gostaria de começar, perguntando sobre
a importância do espiritismo no Brasil: número de espíritas, de centros,
se existe alguma região brasileira onde eles estão mais concentrados...
B. Lewgoy - Olá Gláucia, o espiritismo é um daqueles casos em que
a importância qualitativa parece superar em muito a mensuração
quantitativa. Então, essa é uma questão muito importante cuja resposta é
complexa e cheia de nuances. Ás vezes, os intelectuais querem isolar um
espiritismo ideal, que até corresponde a percepções e modelos “nativos”,
mas que não resistem ao exame empírico. Então, a precaução é mais do que
nunca necessária na análise de uma religião que não se reconhece
inteiramente como tal.
É preciso frisar que o espiritismo é produto de uma crise de
representação do objeto “religião”, no século XIX francês. Então, ele
nasce como uma religião que estigmatiza a idéia consagrada de “religião”
e lega aos sucessores os impasses e ambigüidades da identificação desse
objeto. Nesse sentido, ele se assemelha à idéia da “religião da saída da
religião”, de Gauchet. O próprio espiritismo é, desde sempre, uma
“questão disputada” por envolver uma espécie de interpretação de uma
fenomenologia naturalista, tomada como alicerce de um sistema de crenças
e práticas religiosas.
Historicamente, o espiritismo é uma das primeiras alternativas
religiosas especificamente modernas a canalizar a insatisfação de
setores emergentes e organizados da sociedade brasileira - militares,
livre-pensadores, funcionários públicos - que se libertam da tutela
eclesiástica, sem querer engrossar os quadros do ateísmo, adotando a
linguagem da ciência, da razão e do progresso; bandeiras identificadas
com a modernidade. Além disso, o espiritismo brasileiro apropriou-se
positivamente da noção católica de caridade, o que redefiniu seus
limites e objetivos, conquistando a simpatia de muitos católicos. E
ainda, criou uma tradição própria e original, aprofundada por mais de
cem anos de trocas e sincretismos com a cultura católica brasileira.
A dificuldade em mensurar os espíritas relaciona-se à maneira como a
população utiliza o serviço terapêutico de práticas espíritas, sem
necessariamente adotar crenças espíritas sistematizadas e, por último,
mas não menos importante, sem assumir uma identidade social espírita.
Isto ocorre porque as estruturas públicas do atendimento espírita têm
grande capacidade de comporem-se e permitirem participações efetivas,
aliadas à ausência de identidade nominal; quase como um espelho
invertido da tradição católica.
Há também a questão da presença matricial do espiritismo, da Umbanda aos
grupos new age e, de um modo geral, em todo uma espécie de
“nebulosa espiritualista”, para adaptar uma expressão de Françoise
Champion.
O último censo indicou pouco mais de dois millhões de auto-declarados
espíritas, boa parte dos quais situados em segmentos sociais de renda e
escolaridade superior, nas grandes cidades do sudeste brasileiro. Isto o
caracteriza como religião de elite. O problema é que, por debaixo da
estrutura institucional, você tem autonomia organizativa das casas
espíritas, um sem-número de divergências entre elas e uma grande
penetração social de um imaginário (em boa parte divulgada por livros e
telenovelas de caráter espírita) e de um serviço de atendimento a uma
clientela de origens sociais variadas.
Assim, a dificuldade de avaliação da real importância do espiritismo
pode ser organizada se considerarmos a existência de três conjuntos que
se interseccionam, mas que não se justapõem, dentro de uma “língua
franca espiritualista”: a) crenças espíritas de alta ressonância social,
mas não necessariamente vinculadas à participação em centros espíritas
(posto que há outros grupos que reivindicam essa identificação, além dos
kardecistas); b) práticas espíritas dentro e fora de centros, mas que
não cobram compromissos com identidades espíritas exclusivas; c)
finalmente, há o plano identitário mais rígido e articulado, mas que,
mesmo assim, não se reflete necessariamente numa declaração formal ao
Censo, posto que há espíritas auto-proclamados que se alinham entre os
“sem-religião”. Ou seja, o espiritismo é todo ele assediado pela
sub-representação. Por isso, dada a imprecisão dessas variáveis e
conjuntos, acho que o kardecismo é um caso de importância qualitativa
muito superior à quantitativa.
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CVA -
E sobre a Fundação Espírita Brasileira? Como, quando, onde surgiu?
Representatividade hoje...
B. Lewgoy - Há duas questões que precisam ser pesquisadas, quando
se fala do espiritismo da FEB: a história da questão nacional e a
história da Igreja Católica, sua influência como instituição e como
cultura, desde a passagem do Império à República.
A Federação Espírita Brasileira surgiu em fins do século XIX, como uma
entidade local, no Rio de Janeiro, e atravessou mais de meio século, sem
conseguir a hegemonia no movimento. Mas ela foi a principal responsável
por transformar o espiritismo na cara que ele teve depois. Relação forte
com a homeopatia, atendimento à população, terapias de passes e
desobsessão, moralização da conduta, palestras, grupos de estudo,
publicação de jornais e livros, sistematização de práticas e normas para
o funcionamento de casas e sessões; tudo isto está associado às
intervenções da Federação Espírita Brasileira. Em verdade, a FEB foi por
muito tempo dirigida por pessoas oriundas de profissões urbanas,
associadas à construção missionária do Estado Nação, como médicos,
militares, engenheiros e advogados. Assim, é preciso notar que, ao longo
do século XX, o espiritismo é uma religião envolvida com um ciclo
histórico de formação da Nação e cujas transformações teológicas
acompanham quase como uma cópia carbono os principais momentos da
história do Estado, desde a Primeira República. Por exemplo, se ele era
um espiritismo mais liberal e universalista em seus inícios, nos anos
30, ele cortejou o pensamento autoritário e nacionalista, época em que
suas referências principais, além de Allan Kardec, estavam praticamente
‘nacionalizadas’, em boa parte, por causa da promoção da obra do médium
Chico Xavier, símbolo deste tipo de proposta.
O espiritismo da FEB congregava uma alternativa religiosa minoritária ao
catolicismo, dentro de um espírito “associativista”. Aliás, as
associações e federações eram o espaço, por excelência, do que
poderíamos qualificar de pluralismo possível nesta época de insipiente
democracia republicana.
Historicamente, a FEB moveu-se numa dialética de oposição e sincretismo
com a Igreja Católica. A valorização primordial da caridade, o
atendimento assistencialista aos pobres, a ênfase numa “religiosidade
interior” acima de “rituais vazios” e a implantação de alguns cultos
familiares decorrem de trocas sincréticas paradoxais do espiritismo da
FEB com uma Igreja Católica romanizada (e não com um catolicismo
genérico) que, a despeito de grandes diferenças doutrinárias, convergia
em seu programa com aqueles pontos.
No interior do espiritismo, a FEB adquiriu hegemonia a partir de 1949,
depois de campanhas nas quais a atuação e promoção de Chico Xavier
cumpriram um papel central. A FEB continua, sem dúvida, hegemônica no
período; mas, há um amplo debate interno entre os espíritas e diversas
organizações e dissidências, além da própria influência do
individualismo psicológico da Nova Era. É preciso frisar que a série
história, que ligava o espiritismo de um lado à Igreja Católica e, de
outro, ao nacionalismo estatista, esgotou-se com o Concílio Vaticano II
e com o fim da ditadura militar brasileira. Esse esgotamento promoveu
curiosas reações puristas de volta às origens kardequianas, assim como
movimentos opostos em direção às terapias novaeristas, à intensificação
do psicologismo na reflexão de espíritas e, por último, mas não menos
importante, a afirmação de um compromisso de envolvimento social e
educacional nas campanhas das federações espíritas regionais.
Além disso, a antiga ética do carma como sacrifício e aceitação do
destino parece estar suavemente acomodando-se aos imperativos de
bem-estar e auto-estima, característicos da religiosidade pós-moderna.
É preciso não se esquecer ainda que a FEB atualmente capitaneia a
transnacionalização do espiritismo brasileiro em diversos países,
basicamente latinos, onde o espiritismo é uma religião universalista,
embora de pequena expressão demográfica, e em países com uma
significativa imigração de brasileiros, como os EUA, a Austrália e o
Japão. Neste segundo grupo, o espiritismo kardecista é fundamentalmente
uma religião de imigrantes brasileiros. Enfim, é preciso reconhecer que
o espiritismo participa de uma nova configuração religiosa global, onde
a FEB desempenha um papel de vanguarda.
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CVA -
Bernardo, o espiritismo não faz culto a santos, não é mesmo? Como é que
ele entende a transformação de Chico Xavier em santo popular? Podemos
pensar em espiritismo popular da mesma forma como pensamos o catolicismo
popular?
B. Lewgoy - Esta é uma das facetas do que chamei de “sincretismo
invisível” do espiritismo com a cultura católica. O espiritismo
institucional e erudito tem um discurso desmistificador da santidade.
Considera os santos como médiuns. O curioso é que na história do
cristianismo, os santos são os únicos mortos autorizados a
comunicarem-se com os vivos: a noção de médium como criatura elevada,
com poder e missão religiosa consagrada, é algo derivado dessa noção de
santidade. Se, no cristianismo tradicional, o santo explica o médium, no
kardecismo, é o médium que explica o santo, até chegarmos em Chico, que
é simultaneamente, médium e santo, um personagem que foi capaz de
agregar e articular várias crenças e posicionamentos aparentemente
contraditórios, estatismo e piedade popular, santidade e racionalismo
burocrático, mundo letrado e devoção doméstica, espiritismo e
catolicismo, história brasileira e história do cristianismo. Por isso, o
denominei grande mediador - por sua capacidade ímpar de conciliar os
contrários e mediar alteridades.
Com Chico Xavier – que tem suas origens familiares num catolicismo do
interior mineiro, que queria seguir a palavra do padre, mas tinha um
forte elo com as rezadeiras, a benzeção e culto popular a santos - a
aproximação com o catolicismo popular é operada de várias formas: desde
a inclusão elementos religiosos novos, como a valorização da intervenção
espiritual mediadora da mãe, passando por uma catolicização no estilo
discursivo, na possibilidade de intercessões para conseguir curas e
alívio de dívidas cármicas, e no ethos altamente piedoso e
renunciante que caracteriza a sua vida. O próprio médium, quando vivo,
passou a ser visitado, num ritual de peregrinação popular, apesar da
própria opinião contrária e das posições da Federação Espírita
Brasileira. Além de visitado, ele sistematicamente fazia pequenas
peregrinações a bairros pobres de Uberaba, onde pregava ao ar livre.
Chico é cultuado, mas também sistematiza devoções, como o Culto do
Evangelho no Lar, assim como confere um caráter matrifocal ao
espiritismo, tirando partido religioso do tradicional papel mediador das
mães, na religião. Não foi preciso um grande esforço para que a ética do
carma acabasse se compondo com o circuito da intercessão e da graça, que
caracteriza o catolicismo popular.
Esse “culto a Chico Xavier” não foi algo institucionalizado, não se
originou de um projeto de deliberação de cúpula, mas é fruto do encontro
de uma história peculiar com diferentes apropriações do personagem Chico
Xavier. Mas nem sempre foi assim. Nos anos 30 e 40, Chico Xavier é
divulgado como um médium poderoso a serviço de um projeto nacional de
fundo cristão e letrado. A figura de Chico como santo popular fora do
catolicismo ganhou força nos anos 50, quando a história de sua vida
passou a ser divulgada em livros de caráter hagiográfico, que mostram
sua vida toda feita de sacrifício, renúncia e milagres. Nestas histórias
míticas, os principais personagens são católicos piedosos num drama de
santidade e conversão, que tem elementos de uma teologia popular mariana
(a mãe aparece para o filho sofredor no jardim da casa e anuncia a sua
salvação), assim como de valorização de vultos da história nacional,
como o mentor de Chico Xavier, anunciado como Manoel da Nóbrega, jesuíta
evangelizador do Brasil.
Um dos principais marcadores simbólicos dessa passagem, de um tipo de
ênfase à outra no kardecismo, é a transformação do apóstolo Paulo – o
santo criador da religião cristã, o sistematizador doutrinário, o
funcionário em serviço, o primeiro “estadista” do cristianismo -, nos
textos espíritas, em São Francisco de Assis - ídolo da renúncia e do
amor fraterno, representante de um cristianismo mais simples e místico.
A passagem de Paulo a Francisco deve ser lida como uma mudança de
proposta e estratégia do espiritismo, em que não se nega completamente o
passado, mas este é suavemente substituído. O próprio Chico é insinuado
como sendo uma espécie de São Francisco, o que sinaliza a proposta de um
espiritismo mais religioso e piedoso, englobando, sem suprimir, os
aspectos nacionalistas e proféticos das décadas anteriores.
Nos anos 30, o espiritualista italiano Pietro Ubaldi teve o seu livro
A Grande Síntese – onde discorre sobre a evolução social de forma
organicista - publicado nas páginas do Reformador, jornal da
Federação Espírita Brasileira. Ubaldi foi influente na sistematização do
espiritismo nacionalista de Chico Xavier, em obras como Brasil,
Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Se não me engano, Ubaldi foi
um dos responsáveis pela idéia de que o Brasil era o novo centro do
Evangelho. Quando ele visita o Brasil, nos anos 50, é recebido com
honrarias pelos espíritas, mas, quando decide morar aqui, estes lhe
viram as costas. Não havia mais lugar para ele porque o nacionalismo
extremado do Estado Novo de Getúlio já pertencia a uma outra época e o
ideal de Nação, como centro de uma profecia, foi lentamente sendo
substituído por um outro tipo de religiosidade, algo entre uma piedade
familiar e um culto de santos - época de início da hagiografia em torno
de Chico Xavier.
Dos anos 60 em diante, época de máxima oposição entre Catolicismo e
Estado, Chico é um “grande homem” e um “ídolo da caridade”, inúmeras
vezes feito cidadão honorário e candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Essa é
justamente uma imagem importante de santo no século XX, uma imagem quase
laica, onde a renúncia compõe mais com a bondade e a caridade do que com
o milagre, como Madre Teresa de Calcutá. Sem esquecer-se o seu lado de
cidadão modelo, de pequeno funcionário público, altamente legalista e
disciplinado, muito importante em sua persona pública. Inspirado
em Roberto Da Matta, chamei estas duas faces de Chico de Santo e de
Caxias.
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CVA -
Você poderia nos contar sobre a relação do espiritismo com a Umbanda?
Quer dizer, tenho ouvido umbandistas ressentidos dizerem que o
espiritismo é “Umbanda de branco” e testemunhamos um forte preconceito
popular que coloca a Umbanda como “baixo espiritismo” ...
B. Lewgoy - A Umbanda foi retratada pelos cientistas sociais como
uma “religião autenticamente nacional”, que sincretiza elementos do
kardecismo, do catolicismo e do candomblé. Concordando no atacado com
essa classificação, eu diria que, no varejo, todas as religiões do
Brasil dialogaram com a República, a Cidade e a Modernidade, todas
“sincretizaram-se” em formas mais ou menos explícitas, mas nenhuma foi
eleita como tão boa para pensar o conceito de sincretismo e a Nação,
como a Umbanda.
Criada por dissidentes do kardecismo, ela foi primeiro “inventada” e
“sistematizada” e, só depois, ela se “tradicionalizou”. Dizer que algo é
inventado tem sentido desmistificador apenas para quem imagina que uma
invenção é só projeto e não bricolage, para usar uma dicotomia
cara a Lévi-Strauss. Eu penso que a criação de uma nova religião tem
doses variáveis e imprecisas dos dois termos da dicotomia. O mesmo se
aplica ao espiritismo. Se tomarmos o relato espírita, Kardec
simultaneamente “compilou” (teve um papel ativo e projetivo) e “recebeu”
as mensagens dos espíritos (teve um papel subordinado e passivo). Aliás,
é interessante ver que a Umbanda teve, desde o começo, os seus
intelectuais preocupados em produzir uma literatura própria – de
primeiro grau, preocupada com a sistematização ritual.
Lembro-me dos livros populares da editora Eco, que falam em pontos
riscados da Umbanda, formulam a uniformização das práticas, etc. Basta
ler esta literatura como o trabalho religioso de intelectuais
umbandistas, mais na chave do ritual do que da doutrina que passaremos a
respeitar a relevância deste dado. Houve também figuras na imprensa de
Porto Alegre que, por décadas, levaram pontos de vista da Umbanda aos
jornais, diferenciando-a do espiritismo pelo interessante termo
“universalista”. Mas a tradição acadêmica sempre a representou como se
fosse uma religião apenas tradicional e oral.
A história que ainda precisa ser melhor investigada é a da circulação de
médiuns entre Umbanda e kardecismo. Digo circulação, para me contrapor
aos relatos de desistências e conversões de mão única, numa espécie de
mito de origem acadêmico da Umbanda. Conversando com antigos adeptos do
kardecismo, a imagem do vai-e-vem de médiuns entre espiritismo e
Umbanda, ignorando fronteiras e recomendação de líderes, é um dado
importante e que desconfio ser condicionante do acirramento de
competição e acusações dos dois grupos religiosos, pelo menos nos anos
50 e 60 do século passado.
A questão do “baixo espiritismo” remonta ao início da República e foi
estudada por Yvone Maggie e Emerson Giumbelli. “Baixo-espiritismo” é o
espiritismo praticado pelas classes baixas em terreiros de macumba e
tendas de feitiço. Trata-se de uma categoria que tem circulação jurídica
e psiquiátrica, ao mesmo tempo em que demarca pretensões de dominação no
campo religioso, pelos efeitos supostos da classificação no espaço
social. Aqui, entramos no problema complexo da classificação e temos que
cuidar para não endossar pretensões de verdade de diferentes grupos
religiosos, tampouco desrespeitá-las. Como sói acontecer, categorias de
acusação como esta, exercem a dupla função de desqualificar o grupo do
“outro” para empoderar o meu próprio grupo religioso. Nesse sentido,
dizer que espiritismo é “Umbanda de branco”, além da óbvia tradução
metafórica do “outro” como variação tipológica do Eu, é uma estratégia
retórica para empoderar a Umbanda; aliás, comum em discursos da história
desta religião que, sincrética para os intelectuais, percebe-se como
superação de suas matrizes e de maior alcance como proposta.
No âmbito de uma reorganização de divisões e identidades, o próprio
termo “branco” pode, teoricamente, ser visto como suspeito e dotado de
menos poder. “Brancos” e “negros” constituem, assim, realidades que só
fazem sentido a partir de princípios classificatórios, que podem não ser
os mesmos de época para época, de lugar para lugar e de religião para
religião. As próprias categorias de cor que poderiam marcar divisões
religiosas significativas são hoje postas sob suspeita quando, por
exemplo, Reginaldo Prandi caracteriza o candomblé como religião
universal e não, mais étnica.
Muitos espíritas têm falado da Umbanda em termos ecumênicos não mais
como “baixo-espiritismo”, mas como uma outra religião, simplesmente; que
deve ser respeitada em sua diferença. Mas rejeitam peremptoriamente o
uso do termo “espírita” para as outras religiões mediúnicas. O curioso é
que a Umbanda mostrou sinais de declínio demográfico no último Censo, ao
contrário do espiritismo kardecista, que tem crescido. É preciso ter em
vista que discursos de identidade anti-sincréticos passam a ter mais
prestígio na sociedade brasileira, abrindo caminho para adesões mais
reflexivas ao candomblé e ao espiritismo kardecista, em suas vertentes
mais puritanas. Mas, isto é ainda uma conjetura que precisa ser melhor
investigada.
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CVA -
Você poderia estabelecer para nós, em poucas linhas, a relação entre o
saber científico e o espiritismo? A relação de Alan Kardec com a ciência
e com o cristianismo...
B. Lewgoy - Kardec pertence à época cientificista do Iluminismo,
quando a ciência, a filosofia da história e o determinismo passaram a
tomar o lugar do voluntarismo subjetivo na imaginação moral. Muito da
sua figura tem a ver com a austeridade burguesa da época, o seu ideal de
ciência aplicado à religião é profundamente marcado pelo positivismo: a
importância transcendental do método, a ontologia naturalista, a
unicidade da verdade garantida através da concordância intersubjetiva
dos experimentos, a exposição didática das respostas. Nesse primeiro
sentido, Kardec foi um homem das Luzes, que criou uma religião altamente
relacionada com os ideais de sua época: a laicidade, o progresso e o
espírito científico. Por isso, o espiritismo atraiu tanto os cientistas
e literatos num primeiro momento. Nesse sentido, o espiritismo
anunciava-se como uma religião natural. Mas, isso também é,
paradoxalmente, o seu calcanhar de Aquiles, pois, ancorou a fé na
demonstração científica e não mais na revelação. Funciona enquanto a
comunidade científica tem simpatia pelo fenômeno.
Só para nos mantermos no exemplo brasileiro, houve dois deslocamentos
importantes em relação ao cientificismo kardequiano: o deslocamento da
ênfase na mensagem para a ênfase no carisma do médium, e o deslocamento
da comunicação espírita entre indivíduos desconhecidos num mesmo “espaço
público” para a mediação relacional entre seres já ligados por nexos
anteriores, geralmente familiares. A sessão espírita no Brasil é, assim,
mais um espaço familiar do que um espaço impessoal; por isso, as mães e
mulheres, figuras centrais na mediação familiar, são tão importantes no
desenrolar das sessões.
Quanto à relação com o cristianismo, os espíritas pensam-se
simultaneamente como ruptura e renovação do cristianismo, quando situam
a codificação de Kardec como “Terceira Revelação”. A doutrina da
reencarnação como motor do progresso (logo depois retraduzida em termos
da teodicéia do carma) e a negação do dogma da trindade promoveram
ruptura com uma leitura idealizada do cristianismo e causaram uma certa
confusão na hora em que os cientistas sociais classificaram o kardecismo
e situaram sua relação com o cristianismo.
Ocorre um problema semelhante com a classificação de Mórmons e
Testemunhas de Jeová, que as religiões dominantes insistem em chamar de
seitas e que acaba sendo contrabandeada às ciências sociais. Nesse
sentido, os critérios de classificação são relativos e prestam-se
facilmente a disputas de poder no campo religioso. Pessoalmente,
concordo com Marcelo Camurça, ao pensar o espiritismo como uma religião
neo-cristã; mas, não sou dado a envolver-me em disputas por
classificação.
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CVA -
Você concorda que o espiritismo seja fortemente marcado pela teoria
científica evolucionista?
B. Lewgoy - Acho que o espiritismo e a teoria da evolução são
frutos do mesmo clima intelectual, de um mesmo imaginário de referência
– as filosofias deterministas da História, Hegel, Comte, etc. - com as
mesmas conseqüências anticlericais. Acreditar que a história não tem um
sentido é tão absurdo para os homens do século XIX, quanto ser ateu no
século XVI. Assim, isso era um dado comum a espíritas, positivistas,
marxistas, etc.
Evolucionistas e espíritas compartilham alguns pressupostos, mas não são
exatamente a mesma coisa. O mesmo podendo dizer-se do evolucionismo
cultural em antropologia. Os graus de evolução pensados em termos
triádicos e unilineares pelo espiritismo lembram mais Comte e Morgan do
que propriamente um Darwin. A teoria da evolução de Darwin coloca a
transformação, e não o “progresso”, no centro da reflexão. Por outro
lado, até o neo-evolucionismo em antropologia, você não pensa o
evolucionismo cultural e o evolucionismo sem as idéias de progresso e de
unilinearidade.
Agora, se você examinar a difusão da ideologia darwinista mais do que
propriamente da teoria da evolução, vai entender a facilidade com que se
comunicam teorias e doutrinas que parecem simbolizar a modernidade do
seu tempo, embora em outro plano de análise devam ser separadas.
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CVA -
Além de Chico Xavier, a prática da caridade e da cura no espiritismo
parece marcar carismaticamente alguns de seus praticantes ou expoentes;
estou pensando particularmente em Bezerra de Menezes e no Dr. Fritz,
quem foram estes homens?
B. Lewgoy - Como sempre, as figuras mais influentes do kardecismo
brasileiros são personagens mediadores. Não se pode pensar o espiritismo
brasileiro sem o papel de Bezerra de Menezes. Ele veio da elite política
e social do Império, era militar, médico e parlamentar, liderou um
movimento simultâneo de aproximação do espiritismo a uma prática
religiosa, constituindo seus rituais próprios, como o de desobsessão,
que não tinha um estatuto autônomo no espiritismo francês. Bezerra
sintetiza em si os elementos que não cessarão de se articular no
espiritismo posterior: a influência do habitus católico na
formulação do estilo discursivo e reflexivo, a disciplina militar, a
piedade católica, a retórica dos bacharéis, a idéia de que os médicos e
militares são missionários do progresso, a especialização do trabalho
religioso de formação de médiuns, a intensificação do assistencialismo e
da prática da caridade.
Com Bezerra, o espiritismo entrou na República como um grupo organizado,
com um projeto de inserção e uma proposta religiosa própria,
influenciado de forma não explícita pelo catolicismo. Com o tempo,
Bezerra passa a encarnar de forma emblemática a figura do
“médium-médico” ou médium de cura, porque o espiritismo é um movimento
terapêutico, como mostram Marion Aubée e François Laplantine. Assim,
Bezerra é personagem constante em sessões espíritas, conhecido como o
“doutor Bezerra”.
O Dr. Fritz é uma outra história. Ele foi estudado por Sidnei Greenfield,
que mostrou que ele é visto com reserva pelos dirigentes espíritas, por
fazer intervenções no corpo, na contramão da ênfase espiritual de
tratamento por passes, cerne da proposta dos médicos espíritas, para os
quais a intervenção no corpo é domínio da medicina terrestre. O próprio
Chico Xavier recusou-se a operar sua catarata com Zé Arigó, médium que
incorporava o doutor Fritz, na época.
De alguma forma, os alemães são tão convocados para chancelar
espiritualmente a medicina de intervenção – cirurgia pensada como
atitude masculina, cortante e áspera, como a personalidade do Dr. Fritz
-, quanto os franceses são identificados com a arte. O curioso é que
vários médiuns que diziam encarnar o Dr. Fritz tiveram morte trágica.
Acho que casos como o do Dr. Fritz mostram que a riqueza popular do
espiritismo brasileiro tem muito a ver com a influência dos médiuns,
mais do que dos dirigentes, como é também o caso de Chico Xavier.
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CVA -
Para encerrar, uma perguntinha provocativa: o recente falecimento de
Chico Xavier representa ou vai representar uma falta muito importante
para a cultura brasileira?
B. Lewgoy - Com a morte de Chico Xavier, algo do seu carisma
também morre, porque ele foi um tipo particular e muito ambíguo de
santo, cujo suposto poder se expressa em vida, através da mediunidade;
pois, a santidade espírita precisa da “mediunidade encarnada” para
realizar-se plenamente. Para Chico mandar mensagens, ele precisaria, de
acordo com o espiritismo, utilizar-se de um médium confiável e forte.
Dizem que ele combinou um código com pessoas do seu círculo mais próximo
para evitar uma epidemia de mensagens apócrifas, mas Istoé também um
sinal de eleição de sucessor. E é aí que começam os problemas, por causa
das lutas internas por hegemonia dentro do movimento espírita
organizado.
O problema da “sucessão” de Chico inscreve-se com dificuldade dentro dos
moldes da doutrina espírita, porque ele mesmo é um fenômeno que
extravasou coordenadas doutrinárias estabelecidas. No kardecismo, o que
pode ser substancialmente legado por um indivíduo após a sua morte,
assim o é através da reencarnação. Não há sucessão dinástica de sua
santidade, mas uma disputa pelo legado de seu carisma, que é muito
curiosa. Enquanto os seus supostos sucessores propalam que ele teria
sido “Allan Kardec reencarnado”, seus críticos negam essa possibilidade,
com base nas diferenças de personalidade, evolução e pelas vidas
passadas reveladas de cada um, virando uma questão interna disputada.
Trata-se da concorrência entre uma estrutura de “filhos-médiuns” a
partir das instituições de Uberaba – há muito tempo um espiritismo
autônomo, diga-se de passagem - e adeptos de outros lugares. Criou-se,
assim, uma interessante batalha apologética entre partidários do carisma
e da santidade de Chico, e partidários da igualdade entre os médiuns, ou
seja, uma disputa entre o carisma e sua rotinização.
Creio que ingressamos numa nova série histórica, em termos de país e de
campo religioso. O espiritismo passa a ser uma alternativa religiosa,
mais do que uma minoria com comportamento reativo. Sua unidade de
práticas e concepções passa a ser mais aberta e fragmentada, menos
polarizada por referências únicas, e um grande e diversificado mercado
de bens culturais alimenta a sua existência como cultura e não mais
apenas como um corpo organizado de instituições. De outro lado,
movimentos de recuperação de sua “pureza” ou de volta à credibilidade
científica – como as Associações Médicas Espíritas - passam também a ter
mais força, sinalizando uma busca de novos caminhos para essa religião.
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CVA -
Muito obrigada, Bernardo Lewgoy, Gláucia.