"Negro
ou preto, eis a questão"
O nosso entrevistado do mês, Nei Lopes, é autor de artigos,
ensaios, contos e poemas no Brasil e outros países; publicou também
diversos livros: Bantos, Malês e identidade negra; O negro no
Rio de Janeiro e sua tradição musical; Sambeabá e Novo Dicionário
Banto do Brasil. Mais recentemente, publicou uma obra monumental,
intitulada Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana
(S.Paulo: Selo Negro, 2004, 720 p.), objeto desta entrevista.
Nei Lopes nasceu em 1942, no subúrbio carioca. Formado em Direito nos
anos de 1960, na década seguinte abandonou a advocacia para entrar no
mundo artístico como compositor profissional de música popular
brasileira. Aí, tornou-se consagrado, gravado por todos os grandes
intérpretes do segmento samba e por ícones da MPB, como Chico Buarque,
Djavan, Ed Motta, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Zélia Duncan, entre
outros. Sempre fiel em seu viés de brasileiro afro-descendente, a partir
dos anos de 1980 destacou-se na militância pelos direitos dos negros.
A Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana é uma obra de
referência para alunos, pesquisadores, professores e militantes dos
direitos civis da população negra, e traz uma enorme contribuição para
todos aqueles que se interessam pela cultura africana e afrodescendente,
e reconhecem sua importância para a sociedade brasileira. A Enciclopédia
é o resultado de longos anos de pesquisa independente de vínculos
acadêmicos, fruto da sua paixão e engajamento com a problemática negra,
além de sua experiência de vida. Seguindo um rigoroso critério de
pesquisa, o livro contém cerca de nove mil verbetes, abordando os mais
diversos assuntos, que vão de biografias a vestuário, de fatos
históricos e contemporâneos a acidentes geográficos, referências à
flora, fauna, festas, divertimentos, profissões e atividades ligadas à
matriz cultural do mundo africano.
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CVA -
Na
introdução da sua obra o senhor comenta sobre um equívoco que gera
desencontros e divergências: as distinções feitas ora pela etnia ora
pela cor na classificação dos brasileiros. Quer dizer, os movimentos
negros usam as categorias “branco” e “negro”, enquanto o IBGE usa as
categorias “branco”, “preto”, “pardo” e “amarelo”. Gostaria que o senhor
nos esclarecesse a origem deste equívoco. Como acontece lá fora? E qual
o melhor critério a ser adotado aqui no Brasil? Como caracterizar o
afrodescendente?
Nei Lopes - Acho que vale a pena um intróito para esta conversa,
que é o seguinte: à época da escravidão, a classificação dos africanos e
descendentes no Brasil já não era fácil. Categorizava-se por local de
nascimento (africanos ou crioulos); grau de instrução (boçais ou
ladinos); condição jurídica (escravos, libertos e livres); e por cor
também (pretos, mulatos, cabras, etc). Com a abolição e a subseqüente
promoção da imigração européia, restou a aparência externa como única
distinção válida, e aí o grande e prejudicial equívoco. Eu entendo que a
categorização das pessoas, no Brasil, a partir da cor da pele e da
tessitura dos cabelos é prejudicial porque contribui para desafricanizar
a população brasileira. E porque essa desafricanização baseia-se em
estereótipos, como aquele de que todo africano é inferior, e os
perpetua. Quando se esconde a ascendência africana de um grande
personagem do passado, a pretexto de “limpar” sua biografia e
preservá-lo da pecha de inferior, sonega-se um tipo de informação que
pode ser muito útil à emocionalidade e à construção da auto-estima do
afro-brasileiro de hoje. Da mesma forma como se nega as origens núbias
(negras) do Egito faraônico ou não se acredita nelas; e que se prefere
estudar a África a partir do advento do tráfico atlântico e não de sua
rica Antigüidade e de sua pujante Idade Média. Agora, entrando
efetivamente no cerne da pergunta, sei que definir com precisão quem é
descendente de africano no Brasil é extremamente difícil, por várias
razões. Uma delas é que, por conta da presença maciça de africanos
negros em Portugal desde o século XV, descendentes de portugueses, por
exemplo, são também afrodescendentes, embora remotos. O termo “afrodescendente”,
entretanto, aqui só se aplica tecnicamente, como sabemos, àquelas
pessoas comprovada ou supostamente descendentes daqueles africanos que
chegaram ao Brasil, escravizados ou não, no contexto do tráfico
atlântico ou índico de escravos. E essa comprovação é tão difícil quanto
a suposição. Supõe-se pela fenotipia (pele pigmentada, nariz largo,
lábios grossos, cabelo crespo), mas quem sabe se uma pessoa assim
caracterizada não descende de um drávida indiano, de um árabe meridional
ou até mesmo de um melanésio, aqui chegado no “bolo” do tráfico da
contracosta? Restam os relatos familiares, do tipo clássico do “minha
bisavó foi pega a laço”, “meu tetravô lutou na Revolta dos Malês”... Mas
quantos de nós – pelo menos na minha idade, 63 anos – temos acesso à
nossa genealogia, além de umas três gerações? Trata-se de um impasse.
Mas é preciso resolvê-lo. Foi por isso que, na nossa Enciclopédia
Brasileira da Diáspora Africana que tem por objetivo tornar visível
a importante participação da matriz africana na formação da sociedade
brasileira e na civilização universal, usamos um artifício. E assim,
procuramos definir um “negro” como todo descendente de negros-africanos,
em qualquer grau de mestiçagem, desde que essa origem possa ser
identificada historicamente e, no caso de pessoas vivas, ela seja
reconhecida ou autodeclarada pela pessoa, objeto da classificação. Não
sabemos se é boa a definição; mas ela aponta um caminho, que se aproxima
do critério adotado nos Estados Unidos. A partir dela, acho que, no
Brasil, enquanto não acharmos uma melhor, a categorização dos nossos
afro-descendentes como “afro-brasileiros”, entre os quais me incluo, é
boa.
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CVA -
Pode
parecer óbvia esta minha questão, mas eu gostaria que o senhor
desvelasse objetivamente para os nossos internautas o interesse da nossa
sociedade em representar o Brasil com maioria branca; e também que nos
respondesse e explicasse se a “teoria do branqueamento” no Brasil ainda
está em vigor.
Nei Lopes - Agora já dá para ser mais conciso. Os núcleos
familiares que, no Brasil, se revezam no poder há quase 500 anos, sempre
buscaram seus referenciais (bons e maus exemplos) lá fora, nos países de
população caucásica, mediterrânea ou mesmo nórdica: primeiro na
Inglaterra, depois na França, mais tarde nos Estados Unidos e, hoje, na
mistura cultural pop de viés anglo-saxão que sufoca o mundo
inteiro. Dentro dessas referências, o padrão de comportamento diante do
negro sempre foi senhorial, do tipo europeu ou norte-americano: de
inglês e francês na África ocidental; de belga no Congo; de português em
Angola; de dixie no sul dos Estado Unidos. Observe-se que até mesmo o
misticismo oriental em moda nos anos 70 veio através da Inglaterra. Aí,
as “elites” só se orgulham de ser “morenas e bronzeadas”, com “ginga e
samba no pé”, quando interessa ao Departamento de Estado (caso do
sucesso de Carmem Miranda, após a 2ª Guerra) ou em hora de Copa do
Mundo, o que a psicanálise talvez explique melhor. Então, acho que a
resposta a essa pergunta pode estar na observação de um conhecido país,
aqui, vizinho ao nosso. Lá, segundo até mesmo alguns de seus
historiadores, a estratégia do branqueamento, através da eliminação
programada de índios e negros, foi concluída com sucesso. Aqui, apesar
das antigas iniciativas oficiais e do comportamento ainda ao mesmo tempo
colonizado (em relação ao exterior) e colonizador (dentro de casa) das
elites, a estratégia de branqueamento, pelo menos em termos biológicos,
se frustrou. Basta comparar as últimas estatísticas do IBGE.
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CVA -
Sobre
a questão da auto-estima dos afrodescendentes, consciência e confiança
identitária, afora em movimentos negros, como é que elas andam no Brasil
e em que diferem em relação aos negros americanos?
Nei Lopes - Alguma coisa melhorou dos anos 70 para cá, algumas
conquistas ocorreram, temos senadores e um ministro no STF... Mas aí vem
a indústria cultural e começa a dizer que o bom lugar do negro é a
“dança de rua”, a “cultura do gueto”, a “periferia”. E tome de filmes
com jovens negros de arma na mão, um atrás do outro, porque esse
voyeurismo da tragédia dá dinheiro. Negro nos espaços de excelência (em
museus, exposições, lançamentos de livros, óperas, balés, concertos,
restaurantes, etc.) na “Alta Cultura”, enfim, o cinema e a tevê não
mostram. E aí, não há auto-estima que resista. Na época imperial, e até
mesmo durante o escravismo, havia mais possibilidades de ascensão
econômica e até social do que agora. Os Rebouças, Teodoro Sampaio,
Juliano Moreira, Soares de Meireles, os bispos Dom Silvério Gomes
Pimenta e Helvécio Gomes de Oliveira etc, nenhum deles precisou ser
atleta ou entertainer para se tornar célebre e respeitado. Hoje, você
vai assistir a um desfile militar e vê milhares de músicos negros
integrando as bandas das corporações. Mas não vê esses músicos nos
espaços de excelência da música, como se viu até os anos 60. Isso é só
um exemplo, mas, é um tipo de exclusão e precisamos refletir sobre ele.
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CVA -
É
interessante a crítica que o senhor faz em relação aos estudiosos das
culturas africanas e afrodescendentes que tratam da contribuição da
cultura africana para o povo brasileiro. O senhor diz que a maior parte
destes pesquisadores é branca, oriunda de famílias com situação social e
econômica privilegiadas, que toma as culturas africana e afrodescendente
por um interesse etnográfico, uma categoria social, um número
estatístico, escrevem grossas dissertações e teses, as quais não rendem
nada para a consciência popular. Trata-se, sem dúvida, de uma complexa
problemática. O senhor coloca como contraponto para este pesquisador, o
intelectual negro militante. Aparentemente são práticas ou funções
diferentes, quando não deveria sê-lo... O senhor poderia nos expor
melhor o seu ponto de vista e apontar alguma saída desejável?
Nei Lopes - Assim como hoje quase não se vêem mais negros nos
palcos prestigiosos da música instrumental brasileira ( música formatada
por afro-descendentes como Henrique de Mesquita, Callado, Viriato,
Anacleto de Medeiros, Pixinguinha ...); nem como mestres de capoeira;
como sacerdotes das religiões de matriz africana – por conta de uma
exclusão de fundo puramente econômico – os “especialistas” em cultura
afro-originada, com espaço nos meios de comunicação, também raramente
são negros. Então, eu acho apenas que os afro-brasileiros devem ser os
agentes e atores principais do seu discurso e da cultura que herdaram de
seus antepassados. Só isso.
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CVA -
O
caderno “Prosa & Verso” do jornal O Globo, de 18/06/2005, trouxe
uma entrevista com o antropólogo inglês Peter Fry, que trata da
divulgação e exposição de algumas de suas idéias que estão na sua última
obra “A persistência da raça – Ensaios antropológicos sobre o Brasil e a
África austral” recém publicada pela Civ. Brasileira. Entre outras
idéias, este antropólogo se coloca contra a polêmica política de ação
afirmativa do governo em relação às cotas de afrodescendentes nas
universidades públicas. Ele argumenta que, apesar destas políticas
públicas serem teoricamente implementadas para reduzir as desigualdades
sociais, elas só fazem reafirmar a crença em raças, na medida em que se
exige uma identidade racial dos candidatos. O senhor concorda com este
argumento? O senhor é contra ou a favor das cotas?
Nei Lopes - Eu penso que os bons colégios e universidades, mesmo
as públicas, são também espaços privilegiados onde se perpetuam as
relações de cumplicidade que mantém o “tecido social brasileiro” cada
vez mais impermeável e inflexível. Aí, forma-se o círculo: o filho do
banqueiro de ontem, hoje ministro da área econômica, foi colega de
escola do filho do industrial que hoje é presidente da federação do seu
setor, o qual foi colega do cineasta que estudou com o alto funcionário
da Cultura, que é da turma do produtor cinematográfico, que é primo do
executivo da gravadora, que é filho daquele banqueiro lá de cima. E por
aí vai. Como diz o samba do Billy Blanco “quem está fora não entra, quem
está dentro não sai”. Então eu, filho de operário, que não sou
antropólogo nem sociológo e muito menos inglês; que sou apenas um
afro-brasileiro que emergiu de uma condição social adversa e conseguiu,
isoladamente, romper a barreira da baixa escolaridade; eu, então, sou a
favor de qualquer política de ação afirmativa que repare a exclusão da
massa afro-brasileira, como um todo, dentro desse contexto imobilizante.
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CVA -
Ainda
referindo-me à obra de Peter Fry, este antropólogo diz que, numa atitude
extrema, as vítimas podem tornar-se algozes, o que o senhor acha disso?
Nei Lopes - Toda vítima um dia pode se tornar algoz, é lógico. E
o que se costuma chamar de “racismo ao contrário”, Abdias Nascimento
chama de “estratégia de imobilização”, ou seja, quando o negro reage à
discriminação, ele é chamado de racista, para assim ter imobilizado e
anulado o seu discurso. Aí eu me lembro de alguns relatos de
exploradores coloniais portugueses como Capello & Ivens, Serpa Pinto,
etc. No inferno das selvas africanas, quando seus batedores ou
carregadores, submetidos à piores condições, fugiam ou lhes roubavam,
eles lamentavam a “ingratidão, a “maldade”, vistas como características
inatas dos pretos.
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CVA -
O
senhor poderia nos falar um pouco genericamente se temos racismo no
Brasil? Que tipo de racismo é esse? ou talvez tenhamos discriminação
social? Ou as duas coisas? Como o racismo se impõe no Brasil e como ele
é percebido pelas populações afrodescendentes?
Nei Lopes - Veja as chanchadas da Atlântida, na década de 50, e
analise os papéis recorrentemente desempenhados por Grande Otelo, ator
de muitas possibilidades, mas que só fazia papel de “crioulo”. Acompanhe
as seções “Há 50 anos atrás” de O Globo, por exemplo, e você vai ver o
que era racismo explícito. Informe-se sobre a publicação, em 1970, no
boletim do Hospital dos Servidores do Estado, instituição do governo
federal no Rio, de uma monografia sobre cirurgia para correção estética
do “nariz negróide”. Isso é que era racismo! O de hoje é aquele
insidioso – que, em nome do mercado, não escala atores negros nas
telenovelas do horário nobre nem em comerciais de produtos Classe A; que
não programa samba nas rádios da linha “MPB”, mas toca bossa-nova que é
uma forma de samba gerada no seio da burguesia; que proibe shows de
samba nas programações musicais dos shoppings, porque atrairia um
público indesejado; que só valoriza o escritor afro-brasileiro quando
ele escreve sobre favela e crime; que diz que Paulinho da Viola é o
“príncipe do samba” mas paga a ele um cachê menor que o dos artistas
alinhados com o pop, mesmo esses artistas sendo afro-descendentes
também. O programa de cidadania que, ao invés de preparar para o mercado
de trabalho só ensina a bater tambor, dançar “afro” e jogar capoeira, no
meu entender também é racialmente discriminatório. Esse é o racismo de
hoje no Brasil. Racismo de mercado. Cujas sutilezas a maior parte dos
afro-brasileiros quase não percebe.
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CVA -
A
Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana é uma obra monumental
que visa à popularização dos conhecimentos afro-brasileiros, ampliando
grandemente a nossa informação estereotipada, esta obra pretende também
contribuir para a auto-estima do negro. Conte-nos: quanto tempo foi
preciso para realizar uma obra com tamanho fôlego? Como surgiu a idéia?
O senhor teve apoio, colaboradores, como foi isso?
Nei Lopes - Levei uns 10 anos organizando-a como livro, uns cinco
formatando como Enciclopédia... mas, o conteúdo é acumulação de uma vida
inteira. E como se trata de uma obra absolutamente pessoal, a não ser
uma e outra contribuições trazidas por alguns amigos e amigas, fiz tudo,
contando apenas com a força dos meus Orixás. Sem bolsa, sem patrocínio,
com a cara e a coragem. Como disse o Geraldo Vandré naquele festival,
“quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Mas, para terminar, eu
gostaria de voltar um pouquinho à questão da adjetivação a ser usada
para os brasileiros de origem africana. O parâmetro ideal para essa
reflexão talvez seja Cuba, país com quem temos, nesse particular,
afinidades históricas e sociais absolutas. Lá, está provado que a
população afrodescendente alcançou, da década de 1960 até o bloqueio
econômico americano, níveis de desenvolvimento humano que a puseram no
caminho da inclusão completa. O que resta de racismo lá é herança da
época anterior a Castro. E as estatísticas sobre a população negra, que
antes eram informadas com números da ordem de 25%, hoje chegam assim:
eurafricanos: 51%; europeus ibéricos 37%; afro-americanos 11% ; chineses
1%. (dados de 1996). Onde se lê “eurafricanos” e “afro-americanos”,
leia-se, respectivamente, mulatos e negros (62%). Não é bem mais
elucidativo?
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CVA -
Parabéns pela obra e obrigada pelos esclarecimentos. Em nome da CVA,
agradeço a entrevista e desejo sucesso e coragem para o senhor dar
continuidade a esta que, na falta de uma palavra melhor, parece uma
missão política e social. Um abraço cordial, Gláucia.