"'Pouca
saúde e muita saúva' no Brasil, na América Latina e no Caribe"
Gilberto
Hochman é pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ e Diego
Armus é argentino, professor do Swarthmore College em Swarthmore,
Pennsylvania, EUA; ambos organizaram o livro Cuidar, Controlar,
Curar. Ensaios históricos sobre saúde e doença na América Latina e
Caribe, da “Coleção História e Saúde”, publicado no Rio de Janeiro
pela Editora Fiocruz, 2004, 568 pp., objeto da entrevista abaixo que nos
foi gentilmente concedida por Gilberto Hochman.
Cuidar, Controlar, Curar. Ensaios históricos sobre saúde e doença na
América Latina e Caribe traz 14 ensaios históricos apresentados e
introduzidos pelos organizadores, que são também autores. Trata-se de
uma obra interdisciplinar, com interesse para professores e estudantes
das áreas de história, saúde coletiva, medicina, ciências sociais e
humanidades em geral; nela, discute-se as relações entre saúde, doença e
sociedade na América Latina e Caribe em perspectiva histórica. Os seus
artigos são: “Profissões da saúde e lutas de poder no México,
1821-1917”, por Ana M. Carrillo; “Febre amarela e a Instituição da
Microbiologia no Brasil”, por Jaime L. Benchimol; “Luta antialcoólica e
higiene social na Colômbia, 1886-1948”, por Carlos Ernesto Noguera;
“Anemia, bruxas e vampiros: figuras para governar a colônia”, por
Benigno Trigo; “Fragmentos de um mundo oculto: práticas de cura no sul
do Brasil”, por Beatriz Teixeira Weber; “Saúde imperial e educação
popular: a Fundação Rockefeller na Costa Rica em uma perspectiva centro-americana, 1914-1921”, por Steven Palmer; “Poder, ideologias e
saúde no Brasil da Primeira República: ensaio de sociologia histórica”,
por Luiz A. de C. Santos; “Tifo, varíola e indigenismo: Manuel Núñez
Butrón e a medicina rural em Puno, Peru”, por Marcos Cueto; “Eugenia no
Brasil, 1917-1940”, por Nancy L. Stepan; “‘Queremos a Vacina Pueyo!!!’:
incertezas biomédicas, enfermos que protestam e a imprensa – Argentina,
1920-1940”, por Diego Armus; “Estratégias anticoloniais: sífilis, raça e
identidade nacional no Brasil do entre-guerras”, por Sérgio Carrara;
“Doença mental e democracia na Bolívia: manicômio Pacheco, 1935-1950”,
por Ann Zulawski; “‘Pouca saúde e muita saúva’: sanitarismo,
interpretações do país e ciências sociais”, por Nísia T. Lima e Gilberto Hochman; e “Mandando doença: feitiçaria, política e mudança nos
conceitos da Aids no Haiti rural”, por Paul Farmer. O resultado é um
amplo painel da saúde social e das políticas governamentais que lhes
concernem, uma importante obra de referência.
>>
CVA -
Olá Gilberto, obrigada pela entrevista e parabéns pelo fôlego da obra!
Podemos começar pelo título? Por que “cuidar, controlar, curar”?
Gilberto - Obrigado pela oportunidade! O título pretende instigar
o leitor a refletir sobre as várias dimensões implicadas nas relações
entre saúde, doença e sociedade. As vírgulas são propositais. O livro
pretende apresentar as possibilidades de combinação, em contextos
históricos e nacionais específicos e variados, entre as dimensões dos
cuidados, do controle e do curar. Nesse sentido sugerimos que o processo
de medicalização das sociedades latino-americanas, intensificado a
partir do final do século XIX, é complexo e diverso e não traz apenas um
sinal negativo. Essas dimensões produzem “positividades” tais como
autoridade pública, instituições, profissões, identidades etc.
>>
CVA -
E, quanto à proposta do livro? você podia desenvolvê-la para nós? quer
dizer a idéia de que os estudos históricos sobre a saúde e a doença
estejam se afirmando como um campo de identidade própria e definida ...
Gilberto - O livro é parte de um emergente movimento
internacional – latino-americano – de construção de um campo
profissional de estudos históricos sobre saúde e doença, que é por
definição multidisciplinar. A proposta é oferecer o que consideramos
como estudos exemplares sobre saúde e doença no campo das ciências
sociais e da história, realizados por latino-americanos e latino-americanistas.
A história da saúde e das doenças é uma atividade essencial tanto para
a história social como para a saúde pública em particular para nossa
região (sudeste). Para a saúde pública, os estudos históricos podem
servir para produzir identidade, compromisso e compreensão tanto da
origem e evolução dos problemas que enfrenta como da complexidade dos
processos de negociação, fragmentação e descontinuidade que se produzem
no fenômeno saúde-doença. É uma história que pode contribuir para
incorporar uma perspectiva social de longa duração na formação e nas
atividades dos profissionais de saúde, transcendendo a formação
biomédica tradicional e, eventualmente, oferecendo sugestões sobre os
principais desafios e sobre as perspectivas da saúde coletiva e da
medicina social na América Latina e no Caribe. A própria agenda
sanitária latino-americana mais recente também deve ser alvo das
análises históricas em todos os seus aspectos, destacando-se as
políticas sanitárias nacionais, as campanhas de controle e erradicação
de doenças, o papel dos organismos internacionais e intergovernamentais,
a atenção primária da saúde, a promoção à saúde, a chamada emergência e
reemergência de doenças infecto-contagiosas e as reformas do setor
saúde.
Como parte integrante da história social, a história da saúde é um
espaço vital para entendermos dimensões ainda pouco estudadas de nossos
países, tais como as interações entre os processos sanitários e os
contextos sociais, culturais, econômicos e políticos; a continuidade e a
mudança nas condições de saúde e de vida das populações urbanas e
rurais; as relações entre o Estado e diferentes grupos sociais e étnicos
no campo sanitário; as relações entre saúde, enfermidades e processos de
construção do Estado e da Nação. Uma história social da saúde pode
auxiliar na compreensão e elucidação das relações entre Estado, saúde e
sociedade na América Latina e no Caribe, possibilitando comparações e
indicando semelhanças, diferenças e aspectos distintivos no continente.
Também nos permite inserir a experiência histórica latino-americana em
contexto internacional e estabelecer um diálogo mais consistente com a
também crescente produção em história social da saúde e doença em outros
continentes. Os estudos históricos sobre saúde e doença são
constitutivos das novas áreas de interesse da história e das ciências
sociais, tais como gênero, raça, nacionalismo; as tensões entre práticas
de cura e discursos sociais; a herança das sociedades pós-coloniais; as
experiências de adoecimento e da morte; as percepções populares da
ciência e da natureza; os processos de profissionalização; a interação
entre história natural e a construção social da doença e do conhecimento
biomédico, a medicina e os aspectos da vida material da sociedade.
>>
CVA -
Você destacou no entrecruzamento das diferentes ênfases, objetos e
estilos narrativos dos ensaios apresentados no livro três entendimentos
fundamentais, ligados à compreensão de que saúde e doença são mais que
fenômenos biológicos; de que os cuidados e mecanismos de controle e de
cura são dimensões relevantes da história da saúde e da doença na
América Latina; e de que o processo saúde-doença vai além da salubridade
e insalubridade de nossos países. Poderia desenvolver um pouco estas
diretrizes?
Gilberto - Compartilhamos da convicção que saúde e doença não são
apenas a ausência ou presença de patógenos e que a doença existe a
partir de uma espécie de negociação e acordo entre múltiplos atores, que
resulta em sua nomeação como entidade patológica específica, passível de
ser reconhecida e diagnosticada, e este evento biossocial – sua nomeação
– é motivador de ações de saúde pública ou privada específicas com
profundas conseqüências na vida social. É um processo coletivo de
atribuição de sentido, no qual existe sempre claras interseções entre os
estilos apresentados, cognitivo e social, a um evento biológico.
Diferentes espaços geográficos, períodos históricos, grupos sociais e
indivíduos produzem seus próprios meios de definir a etiologia, a
transmissão, a terapêutica e os sentidos de uma doença. Assim, também é
um processo político, social e culturalmente contingente a transformação
de uma doença ou evento biológico em um problema de saúde pública.
Essas definições – marcadas por tensões, disputas e conflitos -
refletem não apenas as mudanças no conhecimento e na tecnologia médica,
mas também influências mais amplas tais como crenças religiosas,
divisões de gênero, nacionalidade, etnicidade, estrutura de classes,
sistemas políticos e responsabilidades estatais. Portanto, para nós e
para os autores que integram esse livro, a doença não pode ser analisada
fora de uma moldura social que, ao mesmo tempo em que a circunscreve,
também é por ela estruturada. Porém, também concordamos que não é tarefa
simples, nem do ponto de vista conceitual nem de sua aplicação empírica,
a associação entre fatores socioculturais e os conteúdos do conhecimento
acerca dos processos biológicos que caracterizam as doenças.
>>
CVA -
Você poderia nos apresentar, grosso modo, a situação da saúde pública e
social no Brasil no contexto latino e caribenho, quer dizer, como o
Brasil se apresenta neste cenário?
Gilberto - Não tenho um resposta precisa, pois, uma avaliação do
quadro sanitário da região e do Brasil foge um pouco à minha área de
competência. Aproveito para falar sobre o nosso esforço de integrar
analiticamente o Brasil em estudos históricos sobre saúde e doença no
cenário da América Latina e Caribe. De certa forma, o livro resulta de
um esforço coletivo de aproximação pessoal, profissional e analítica
entre as diferentes experiências nacionais, buscando superar barreiras
que nos têm sido impostas e reproduzidas, tais como a consideração de
que o Caribe inglês e francês nada tem com o Brasil e são
“incomunicáveis” com o restante da América Latina. Evidentemente que a
aproximação e a comparação implica também em contraste e diferenciação.
Porém, ao reconhecermos saúde e doença como elementos constitutivos da
formação do Estado e da Nação e como recursos analíticos para refletir
sobre a sociedade, verificamos – por meio dos textos publicados – o quão
próximas estão as experiências nacionais, quando apontamos os dilemas
comuns e questões cruciais (e tão distantes dependendo das respostas) da
história e das sociedades latino-americanas e caribenhas: o papel do
Estado na produção do bem-estar da população, as possibilidades e os
modos de inserção da América Latina no mundo moderno e civilizado, as
relações com os demais latino-americanos e com os norte-americanos, os
padrões de políticas públicas em diferentes ordenamentos constitucionais
e políticos, a constituição de movimentos e ideologias nacionalistas, os
processos de construção de autoridade pública, de centralização,
burocratização e profissionalização, os possíveis arranjos
institucionais das ciências, os impactos do autoritarismo e as
possibilidades de uma ordem democrática, o papel dos intelectuais e do
pensamento científico e a dinâmica das relações raciais.
Em especial, a questão que perpassa todas as narrativas do livro,
relativa aos desafios do controle, da incorporação e da integração de
vastos contingentes populacionais, de imigrantes e de grupos sociais e
étnicos. De modo mais direto, o desafio da construção de uma identidade
nacional frente aos múltiplos recortes identificadores em meio às
sociedades em geral, caracterizadas pela desigualdade, pela pobreza e
miscigenação e com marcas históricas de colonialismo, violência e
escravidão. Nesse sentido, o Brasil não é uma experiência singular e
única. Suas particularidades e diferenças podem ser discutidas na
comparação, no contraste. Por isso mesmo, escolhemos para o livro
artigos que falam do Haiti, de Porto Rico, da Colômbia e do Brasil,
entre outros.
>>
CVA -
Percebe-se na obra uma preocupação com a realização e o interesse por
um trabalho interdisciplinar que conta com as contribuições de várias
ciências humanas. Nós temos uma antropologia da saúde (ALVES, P.C. &
RABELO, M.C. (org.) Antropologia da saúde: traçando identidade e
explorando fronteiras. Rio de Janeiro: Relume Dumará) e uma
antropologia da doença (LAPLANTINE, François. Antropologia da doença.
S. Paulo: Martins Fontes), você poderia destacar a importância da
contribuição da antropologia? Na tua opinião, como a antropologia, mais
especificamente, deve contribuir para os estudos sobre a saúde e a
doença?
Gilberto - A antropologia é parte integrante e constitutiva dos
estudos históricos sobre saúde e doença, em particular nos trabalhos que
implicam em análise desses processos no tempo e espaço. Não faz sentido
uma separação escolar entre o que seria uma antropologia da saúde e
doença com uma história sociocultural da saúde e da doença. Assim, os
trabalhos que publicamos de antropólogos como Carrara e Farmer, que
versam sobre construção de identidades (sífilis/Brasil; AIDS/Haiti)
dialogam com os trabalhos de historiadores, como Armus, que aborda os
tuberculosos como categoria política (Argentina) ou Noguera, que analisa
a luta contra o consumo de bebidas alcoólicas populares como caminho
para salvação da nação (Colômbia). Buscamos indicar o caminho da
multidisciplinaridade a partir de trabalhos disciplinares.
>>
CVA -
Jeca Tatu e Macunaíma, no seu artigo em co-autoria, vocês enfatizam
naquelas personagens caricaturais da primeira metade do século passado,
a literatura social e as diferentes preocupações dos sociólogos e dos
sanitaristas, relacionando sertão e indolência à doença e sugerem a
relação entre modernidade e esperteza à saúde. É assim?
Gilberto - Você fez uma leitura original de nosso texto!
Fundamentalmente o nosso ponto é, primeiro, que os textos
médico-higienistas foram fundamentais para diluir ou no mínimo contestar
justamente a relação sertão-doença-indolência, diagnosticando-a como
resultado da ausência de ação do Estado e descaso das elites e não como
inexorável atributo de um povo miscigenado e de um clima infernal.
Segundo, essa contestação tem impactos importantes tanto na continuidade
do tema agrário como nas interpretações do Brasil pela sociologia
crescentemente institucionalizada a partir da década de 1930, em
particular, em Freyre, Sérgio Buarque, Florestan e Antônio Cândido. A
exclamação de Macunaíma sobre os problemas do Brasil está afinada com as
constatações do movimento médico-sanitarista brasileiro, que converteu
Lobato à sua causa: a associação entre doença e improdutividade do
trabalho, resultados de opções políticas e sociais das elites. O Jeca
Tatu ressurecto, descrito por Lobato, em 1918, é o caipira, o homem do
campo, que, uma vez educado e medicalizado, livre da ignorância e das
verminoses, torna-se um fazendeiro, prospera e até fala inglês etc. A
diferença me parece estar na maleabilidade do personagem de Mário, mais
afinado com um projeto que se pretendia original e nacional, enquanto
que o Jeca Tatu renovado seguiria um caminho imaginado por Lobato como
natural: a do farmer norte-americano.
>>
CVA -E
afinal, Monteiro Lobato ou Mário de Andrade? “pouca saúde e muita saúva,
os males do Brasil são”?
Gilberto - Se constatam a mesma coisa, seus personagens
simbolizam coisas muito diferentes. Se eu tivesse que escolher, ao menos
o coração preferiria Macunaíma....
>>
CVA -
Prezado Gilberto, em nome da CVA, agradeço a sua participação e desejo
sucesso nas pesquisas da saúde social, Gláuci.