"Memória afro e militância brasileira"
Henrique
Cunha Junior nasceu em São Paulo, formou-se em Engenharia Elétrica e
em Sociologia; é mestre em História, fez doutorado em Engenharia na
França e livre-docência na USP. É professor titular na Universidade
Federal do Ceará. Dirigiu grupos de teatro amador do movimento negro na
década de 1970 e foi membro do Grupo Congada de São Carlos (da FEABESP e
da ABREVIDA). Foi criado na militância dos movimentos negros da
Associação Cultural do Negro onde seu pai foi membro fundador.
Participou da fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros
e foi seu primeiro presidente. Publicou em 1987, um livro de contos
intitulado Negros na Noite e, em 1992, Textos para o Movimento
Negro. Fez parte do movimento literário Cadernos Negros de
1978 a 1990.
Mais
recentemente, escreveu Tear Africano. Contos afrodescendentes (S.
Paulo: Selo Negro Edições, 2004, 104 pag.), objeto desta entrevista,
composto por onze contos de sua autoria, recolhidos de sua vivência e
militância em movimentos negros. A maior parte dos contos tem
preocupação histórica e cultural, com o registro de fatos reais. No
conjunto, temos um painel antropológico no qual transparecem problemas
de discriminação e de identidade, expressando valores e formas de
resistência de populações negras que, apesar de representarem uma
parcela significativa do povo brasileiro estão, ainda hoje, abandonados
na marginalidade.
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CVA - Henrique, conte-nos como você reuniu os contos desta obra. À
maneira de Guimarães Rosa, no seu ofício de médico pelas gerais, você
foi registrando o que ouviu e viveu na sua militância? Ou você os
construiu com base nos ressentimentos e discriminação sofridos pelos
negros, valendo-se de arquétipos que lhes são comuns?
Henrique - Nós vivemos uma cultura afrodescendente e,
participando dos movimentos sociais negros, é que foi surgindo o
material de reflexão para os contos do livro. Viagens foram muitas, pelo
Brasil todo, pelas Américas Negras e pela África. A bagagem cultural e
as vivências produzem farto material comparativo reflexivo, que foi
possibilitando a tessitura dos textos.
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CVA - Você pode nos contar um pouco sobre a sua militância nos
movimentos negros?
Henrique - Eu venho de uma família de intelectuais de movimento
negro que remonta ao início do século passado e ao meu avô. A vida em
casa, na infância, foi entre as orquídeas, os livros e jornais sobre
negros. A vida cotidiana sempre teve os elementos da cultura negra. Na
juventude sempre estive à procura das diversas manifestações deste
imenso mundo cultural das afrodescendências. Chega uma hora em que a
vida cotidiana não se separa da militância política, das reuniões e das
festas marcadas pela identidade negra. São Paulo sempre teve um enorme
universo cultural negro a ser explorado. Foi na procura constante dos
significados, das subjetividades e das realidades deste universo que se
formou o contínuo da militância. A minha principal diversão em São Paulo
eram os bailes da negrada, de sexta a domingo. Aí, do baile vinha o
encontro com um enorme pessoal que fazia literatura, teatro, artes
plásticas e política no meio negro. Nós éramos um imenso movimento
cultural que a cultura brasileira se negou a registrar.
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CVA - E sobre a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, a
Associação Cultural do Negro e outras associações do gênero, conte-nos
um pouco sobre estas e outras, onde estão, se estão fortes, se contam
com apoio governamental ou outros....
Henrique - A literatura e as artes sempre tiveram em São Paulo um
forte veio negro, que sempre foi rechaçado pela intelectualidade em
geral, devido à ênfase na cultura de base africana. O projeto
intelectual brasileiro, dado pelo Movimento Modernista e pela visão da
ideologia da miscigenação do Gilberto Freire, sempre foi hostil às
expressões de identidade afrodescendentes. As esquerdas brasileiras
sempre quiseram um movimento popular sem marcas específicas; assim, as
expressões negras se concentraram em grandes movimentos sociais que não
tiveram a consideração devida pelos sintetizadores da informação e da
cultura. Assim, como um grupo de persistência cultural e política de
negros paulista, é que existiu a Associação Cultural do Negro de 1954 a
1968, da mesma forma que outras entidades do mesmo gênero e da mesma
época, também em São Paulo e em outros estados.
A mesma
censura política à manifestação intelectual negra se dá no presente com
relação à constituição de um campo de referência teórica e prática
voltada para as especificidades de pesquisa e do conhecimento da
população negra. Como reação a esta censura e à limitação de expressão
desta visão da realidade é que surge a necessidade de uma Associação de
Pesquisadores Negros. Nós, pesquisadores negros, resolvemos em 2002 pela
realização de um grande congresso no Recife; como resultado deste
congresso é que surgiu a ABPN.
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CVA - E o Grupo Congada de S. Carlos, o que é isso?
Henrique - Teve início no ano de 1972. O grupo Congada faz parte de
um ciclo de teatro negro popular, realizado por grupos amadores,
expressando temas históricos e culturais relativos à população negra.
Estes grupos existiam em várias cidades do interior paulista e a Congada
era o de São Carlos. Um grupo jovem, de uma força teatral
impressionante, que levava mais de 30 pessoas ao palco numa mesma peça
teatral. Estes grupos faziam parte do Movimento Negro, traziam uma
leitura teatral ensinada pela teatróloga e animadora cultural Teresa
Santos. Foi um ciclo totalmente inovador do teatro negro no Brasil,
muito diferente do ciclo do teatro experimental do negro, do Abdias do
Nascimento que tinha, em São Paulo, Dalmo Ferreira e Nair de Araújo como
grandes realizadores. Também diferente do teatro negro feito pelo Solano
Trindade, que tinha como base os temas do Folclore. Era um teatro grupal
com base no teatro de rua africano e fazendo a inserção e intercessão de
diversas linguagens, da dança, da música com o teatro, das artes
plásticas e da política.
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CVA - Na qualidade de militante do movimento negro, como você está
vendo a política quilombola que o governo quer desenvolver e a forma
como os antropólogos vêm abordando este problema sócio-cultural?
Henrique - Não existe uma posição dos antropólogos e tampouco
existe uma política de governo com relação aos quilombos. Este problema
sócio-cultural tem sido tratado apenas pelos movimentos sociais negros.
As ações do governo continuam inexpressivas. O esforço dos antropólogos
não tem sido uma atitude de classe ou de grupo intelectual, e sim, de
pessoas isoladas. A minha opinião é que nada tem sido construído nesta
direção.
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CVA - Você concorda com Darcy Ribeiro, que no Brasil a discriminação
é social e não racial?
Henrique - Esta afirmação do professor Darcy Ribeiro é impensada,
não está à altura da sua intelectualidade. Portanto discordo, mas
explico. Primeiro, não existe esta dicotomia teórica entre um problema
social ou racial. Qual problema racial que não é social, se tomarmos a
hipótese da existência de raças? Agora, a precipitação da resposta se
explica: está na própria formação intelectual brasileira que, por
diversos caminhos, sempre rejeitou pensar seriamente o negro e a
organização social do país. A rejeição às afrodescendências, como
possibilidade política, está dada pela ideologia do desaparecimento da
cultura e da população de descendência africana pela miscigenação.
Outra, não existem raças humanas, construir raciocínio neste sentido é
um equívoco. Daí que não exista per si um problema racial. Mas
existe um sistema que domina e submete o descendente de africano de
maneira particular e metodológica, produzindo desigualdades sociais de
uma forma específica. O pensamento de esquerda sempre foi preguiçoso
para pensar esta realidade como específica do Brasil e de alguns países
das Américas. A esquerda sempre procurou construir uma unidade da
abordagem das questões da dominação, evitando pensar a realidade do
negro como uma especificidade da história de um país construído através
de um escravismo criminoso. Portanto, a presença negra e a nossa
situação ainda carecem de abordagens de força intelectual.
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CVA - Muito obrigada, pelos esclarecimentos e que esta sua mensagem
contribua para sacudir a consciência dos nossos colegas diante da
problemática negra que persiste sem a devida atenção na nossa cultura
brasileira. Que esta luta seja nossa. Parabéns pelo teu trabalho. Um
abraço cordial, Gláucia.