"Enfoques
teóricos da religião"
Faustino Teixeira (Dudu Teixeira) é doutor em Teologia pela Pontifícia
Universidade Gregoriana (Roma, 1985), com tese sobre as comunidades
eclesiais de base no Brasil; professor do Programa de Pós-Graduação em
Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e consultor
do ISER/Assessoria.
Organizou
o livro Sociologia da Religião. Enfoques teóricos (Editora Vozes, 2003,
270p.), objeto desta entrevista. O livro está composto por dez artigos,
cada um deles apresentando uma síntese de linhas teóricas clássicas e
também de contribuições mais recentes para as ciências da religião. O
resultado é um amplo painel de diretrizes fundamentais que vêm norteando
as pesquisas em religião, um trabalho realizado com competência por dez
diferentes pesquisadores naquele domínio. Além de uma síntese das
principais idéias, cada um dos artigos traz a bibliografia e a
transcrição de um trecho elucidativo da obra do respectivo autor. Assim,
Ivo Lesbaupin (UFRJ e consultor do ISER/Assessoria) apresenta a
contribuição marxista; Pierre Sanchis (UFMG), a durkheimiana; Cecília
Mariz (UERJ), a weberiana;
Renata Menezes (ISER/Assessoria), a de Marcel
Mauss; Carlos Alberto Steil (UFRGS), a de Evans-Pritchard;
Leila Amaral
(UFJF), a de Maurice Leenhardt; Pedro Oliveira (UCB), a de Pierre
Bourdieu; Emerson Giumbelli (UFRJ), a de Clifford Geertz; Faustino
Teixeira (UFJF), a de Peter Berger e
Marcelo Camurça (UFJF), a de Danièle Hervieu-Léger.
Para a sua informação, o livro que é objeto desta entrevista foi objeto
de resenha realizada pela Profa. Sandra Carneiro (UERJ) e está
disponível para consulta de todos os internautas da CVA. Confira:
resenha
n. 18 da CVA. Na formulação desta entrevista, preparei duas ou três
questões para o organizador/autor da obra e uma questão padrão para
alguns dos autores do livro, escolhidos aleatoriamente, em decorrência
da oportunidade que eu tive de entrar em contato com eles. Os leitores
terão, portanto, a oportunidade de conhecer um pouco dos seus
argumentos.
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CVA - Faustino, em primeiro lugar, obrigada pela entrevista e
parabéns pela seleção e organização da obra, que tem o grande mérito de
aproximar sinteticamente algumas das (se não, as) principais correntes
teóricas da religião, permitindo ao leitor identificar aspectos
distintivos, fundamentos e a originalidade das idéias dos autores.
Apesar de estar explicitado na apresentação do livro, você poderia
contar, em poucas linhas, para o leitor que ainda não teve a
oportunidade de ler o livro, sobre os objetivos mais específicos desta
obra e o seu público alvo?
Faustino - Como apontei na apresentação, o livro nasceu de um
projeto ligado ao ISER Assessoria, que vem há mais de uma década
prestando serviços ao Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, na
cadeira de sociologia da religião. O livro pretende servir de base para
as reflexões de estudantes e professores de sociologia, antropologia,
teologia, filosofia e estudiosos da religião. O objetivo foi favorecer o
acesso à reflexão sociológica da religião elaborada por estudiosos
clássicos e recentes, com o apoio de importantes estudiosos brasileiros,
que serviram de guia para este trabalho introdutório. Trata-se de um
livro de sociologia da religião em sentido extensivo, na medida em que
envolve igualmente autores que rigorosamente estariam inseridos no
âmbito da antropologia. São ao todo dez artigos sintéticos apresentando
a abordagem da religião nos autores escolhidos, acompanhados de uma
breve bibliografia e de um texto seleto.
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CVA - Os autores selecionados são o que a gente poderia,
apressadamente, denominar "clássicos" da teoria antropológica e
sociológica geral do fenômeno religioso e são todos estrangeiros. Você
acha que aqui no Brasil já temos produção científica teórica e
etnográfica significativas que justifiquem a organização de uma obra
exclusivamente brasileira?
Faustino - De fato, a maioria dos autores escolhidos são
"clássicos", mas houve também uma preocupação em envolver autores mais
recentes que têm dado uma significativa contribuição ao campo da
reflexão sobre a religião no tempo atual, como Peter Berger e Danièle
Hervieu-Léger. Havia também a intenção de inserir uma reflexão sobre a
contribuição de Roger Bastide, mas isto acabou não acontecendo. Não há
dúvida sobre a importância de se pensar na organização de uma obra sobre
o tema envolvendo a produção brasileira, ou de autores que atuaram no
Brasil. Se nos dermos o trabalho de conferir a produção científica
teórica e etnográfica realizada no Brasil ao longo dos últimos 25 anos,
envolvendo a questão da religião, poderemos verificar sua grande
riqueza. Um passo importante para o apoio desta produção foi dado com a
criação da revista Religião e Sociedade, na segunda metade da década de
70. Há autores fundamentais como Roger Bastide, cujas pesquisas sobre o
candomblé da Bahia remontam à década de 50. Há autores mais recentes,
cujos trabalhos são também fundamentais, como Duglas Teixeira Monteiro,
Maria Isaura Pereira de Queiroz e Cândido Procópio Camargo. A estes
somam-se as reflexões de Rubem Alves, Carlos Rodrigues Brandão, Pierre
Sanchis, Rubem César Fernandes, Pedro Ribeiro de Oliveira, Reginaldo
Prandi, Otávio Velho, Regina Novaes e tantos outros. Penso que estaria
na hora e seria muito oportuno organizar uma obra que pudesse apresentar
aos leitores a riqueza da contribuição dos autores que se dedicaram ou
vêm se dedicando ao estudo do campo religioso brasileiro.
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CVA - No livro, a você coube a síntese da obra de Peter Berger,
sociólogo austríaco que produziu uma importante obra, ainda
relativamente pouco conhecida no Brasil. Se o senhor tivesse que
relacionar 3 ou 4 contribuições importantes deste autor para o conjunto
dos estudos da religião, o que o senhor diria?
Faustino - Peter Berger foi um autor muito presente no espaço
acadêmico brasileiro nos anos 70, sendo quase obrigatório nos exames de
seleção na área de ciências sociais em determinados programas de
pós-graduação do Brasil. Sua influência ocorreu em várias áreas, como na
antropologia, sociologia e teologia. Importantes obras deste autor foram
publicadas no Brasil no ano de 1973 (Um Rumor de Anjos, Perspectivas
Sociológicas e A construção social da realidade) e um pouco mais tarde,
em 1985, sua obra específica sobre sociologia da religião (O dossel
sagrado). Trata-se de um autor controvertido, em razão de seu
posicionamento político mais recente, mas não há como desconhecer a
riqueza de sua contribuição no campo da sociologia da religião. São
clássicas as suas reflexões sobre os três momentos do processo dialético
fundamental da construção social da realidade (externalização,
objetivação e internalização), a sua contribuição sobre as funções
exercidas pela religião na sociedade (legitimação, integração das
experiências marginais e desalienação), bem como sua abordagem sobre a
relação da religião com a modernidade: a questão da secularização e/ou
dessecularização; do impacto do pluralismo religioso moderno sobre a
plausibilidade das convicções religiosas; da dinâmica fundamentalista
etc.
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CVA - Renata Menezes, coube a você, no livro, uma síntese sobre a
contribuição de Marcel Mauss. Se você tivesse que relacionar
contribuições importantes deste autor para o conjunto dos estudos da
religião, o que você diria?
Renata - Vou falar apenas de duas, porque acho que as
contribuições de Mauss são tantas, que seria impossível recuperar todas
elas. Primeiro, Mauss opera com uma concepção de religião como uma
articulação entre crenças e práticas, o que permite que nossas análises
não fiquem só nas formas doutrinárias ou oficiais da religião, mas que
incorporem as formas concretas em que ela é vivida, agregando o ponto de
vista dos agentes e das contradições existentes. Por outro lado, quando
Mauss utilizou dados etnográficos para criticar as teorias vigentes em
seu contexto histórico, ele colocou as religiões das sociedades
primitivas no mesmo grau de legitimidade das grandes religiões
universais. Pode assim demonstrar que os conceitos até então empregados
pelas ciências da religião, forjados na experiência cristã e ocidental,
não serviam para enquadrar fenômenos contemporâneos vindos da África,
Ásia, Oceania, Américas, ou de grupos sociais do passado. Ou só os
incorporava como formas "inferiores", "anteriores" e "primitivas" de
religião (termos com sentidos pejorativos). Ao reconstruir esses
conceitos, tentando liberá-los de projeções e preconceitos, Mauss
mostrou a necessidade de cuidado constante do pesquisador quanto ao seu
instrumental. Numa conjuntura como a nossa, marcada pelo surgimento de
"novas espiritualidades", "novos movimentos religiosos" e outras
práticas não-institucionalizadas, e por um questionamento das fronteiras
da religião que chega mesmo a problematizar sua definição, creio que a
obra de Mauss é cada vez mais atual. Pois ela oferece elementos de
reflexão que estimulam a criatividade, para a construção de objetos e de
instrumental teórico que ajudam a dar conta dessa realidade.
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CVA - Marcelo Camurça, coube a você, no livro, uma síntese sobre a
contribuição de Danièle Hervieu-Léger, pesquisadora do CNRS e do EHESS,
diretora da revista Archives des Sciences Sociales des Religions, ainda
pouco conhecida dos nossos alunos. Se você tivesse que relacionar
contribuições importantes desta autora para o conjunto dos estudos da
religião, o que você diria?
Marcelo - O versátil pensamento de Daniéle Hervieu-Léger recobre
os mais diversos temas sobre a religião na contemporaneidade, como:
transformações no cristianismo atual, relação da religião com a
ecologia, com o feminismo e com a juventude, questão do corpo, do boom
emocional carismático e dos "novos movimentos religiosos". Isso, contudo
não implica numa reflexão fragmentada. O seu mérito é manter a
perspectiva de uma teoria global acerca do papel da religião na
sociedade, que é, por extensão, uma reflexão ampla sobre a própria
modernidade. Ao pensar a religião (na sua forma clássica), como uma
instância que se perpetua através da transmissão de uma "memória
autorizada" que se impõe aos seus crentes/fiéis, ela analisa as
transformações operadas pela modernidade nesse dispositivo, que faz com
que o crente moderno não se reconheça mais na pertença a esta
"linhagem", mas que ele próprio possa escolher a partir do patrimônio da
tradição, a sua subjetividade religiosa. Algo semelhante ao que Giddens
com sua teoria da "reflexividade" fez para a cultura contemporânea da
"alta modernidade" em relação à tradição.
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CVA - Emerson Guimbelli, coube a você, no livro, uma síntese sobre a
contribuição de Clifford Geertz. Se você tivesse que relacionar
contribuições importantes deste autor para o conjunto dos estudos da
religião, o que você diria?
Emerson - Creio que a proposta que Geertz elabora em relação à
religião é uma tentativa de aplicação de sua teoria da cultura. Seu
ponto distintivo é a inspiração weberiana - especialmente quando
lembramos que a antropologia da religião é muito marcada pelo trabalho
de Durkheim.
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CVA - Leila Amaral, coube a você, no livro, uma síntese sobre a
contribuição de Maurice Leenhardt, missionário protestante de origem
calvinista, que realizou importante trabalho etnográfico na grande ilha da
Nova Caledônia, na Melanésia. Se você tivesse que relacionar
contribuições importantes deste autor para o conjunto dos estudos da
religião, o que você diria?
Leila - Sempre que começo a falar sobre Maurice Leenhardt,
voltam-me os sentimentos e as sensações que experimentei ao ler, pela
primeira vez, "Do Kamo: la personne et le mithe dans le monde mélanésian",
seu livro mais conhecido. A impressão, emocional e vividamente sentida
naquele momento, era a de que eu tomara consciência, finalmente, do que
era a Antropologia e o que era ser antropólogo. Nos primórdios de minha
formação antropológica, eu me encontrava diante de um povo completamente
estranho, os "canacas", um povo que não só se comportava como pensava de
uma forma totalmente diferente da nossa, mas eu, por incrível que
pudesse parecer, conseguia entendê-los, porque alguém que também se
distinguia totalmente deles tornava essa compreensão possível. Hoje,
esta constatação nos parece por demais óbvia, mas para mim ela teve o
efeito de uma "revelação". O mundo das possibilidades e das invenções
culturais abria-se para mim, em meu anseio de compreensão do humano, e,
naquele momento, conclui, junto com Maurice Leenhardt, que essa tarefa
só me seria possível se tentasse desenvolver, o mais que pudesse, a
consciência aguda (mais do que a sensibilidade) das diferenças. No
linguajar de Leenhardt, considero que experimentei e continuo a
experimentar, em meu ofício de antropóloga, o "mito vivido" da
Antropologia. E, assim, eu poderia dizer que nesses meus sentimentos de
"iniciante" já se encontravam os dois pontos principais - mas, de forma
alguma, os únicos - da contribuição de Maurice Leenhardt para a
Antropologia e para os estudos da religião, no mundo contemporâneo. É
justo isto que tento sugerir no meu artigo sobre Leenhardt no livro
"Sociologia da Religião: enfoques teóricos". Para mim, o núcleo de sua
contribuição encontra-se no esforço de seus 25 anos de trabalho de campo
para produzir uma compreensão dos "canacas" - um povo da Nova Caledônia
- em contínua colaboração com eles, lançando, nos anos 40, nos
primórdios da Antropologia Modernista, as bases para uma "compreensão
dialógica", o que viria a ser conscientemente discutido e refletido
apenas mais tarde pela chamada Antropologia Pós-Modernista, no final do
século 20. Motivado por sua função de missionário, interessou-se pela
"autenticidade cultural" enfatizando não a "pureza cultural" mas a
"invenção cultural" do povo em questão, isto é, sua capacidade para as
inovações e transformações provenientes das várias modalidades de
contato, em um contexto de "cultura viva". Eu diria que, no mundo
contemporâneo, a consciência aguda das diferenças exige uma postura
metodológica, como aquela que percebemos na obra de Leenhardt, de
entendimento da possibilidade de novos arranjos e de novas formas de
relações como invenções impostas por determinadas mudanças e pela
dispersão da diferença em um mundo transcultural, deslocando do centro
de nossas teorias sociológicas, entre elas as da Religião, as questões
das essências, para focalizar a "invenção da cultura". Leenhardt , ao
defender o papel vital do mito para toda a humanidade, oferece-nos
também o original conceito de "mito vivido", um modo essencialmente
afetivo que não exclui o modo racional do conhecimento, porque lhe é
simplesmente complementar. O "espírito humano" tem sempre a necessidade
de recorrer ao mito para interpretar realidades humanas que não podem
ser formuladas racionalmente, embora sejam experimentadas de maneira
muito viva. Trata-se, aqui, de um modo de consciência que observamos em
algumas experiências religiosas estrito senso, mas que se encontra
também presente em experiências não reconhecidamente religiosas. Em
todas elas, podemos perceber diferentes tentativas de apreender e
enfrentar realidades humanas sentidas como paradoxais e intratáveis pelo
modo racional do pensamento, fazendo expandir, desta forma, a capacidade
humana de apreender a realidade através da participação mítica e de
natureza religiosa, nos diversos domínios da cultura, para além dos
campos religiosos tradicionalmente aceitos como tais.
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CVA - Obrigada e parabéns a todos os autores em meu nome e de toda a
CVA, Gláucia.