"Migrações
internacionais": Entrevista com Soraya Fleischer e Ana Cristina
Braga Martes, organizadoras da obra: Fronteiras Cruzadas. Etnicidade,
Gênero e Redes Sociais. São Paulo: Paz e Terra, 2003, 300 pp.
Soraya Fleischer é mestre em Antropologia pela UNB e doutoranda também
em Antropologia pela UFRGS. A sua dissertação de mestrado foi publicada
em 2002, com o título: Passando a América a limpo: O trabalho de
housecleaners brasileiras em Boston, Massachusetts (Ed. Annablume).
Atualmente realiza pesquisa sobre parteiras tradicionais na Guatemala.
Ana Cristina Braga Martes, professora da Escola de Administração de
Empresas de São Paulo, FGV, é doutora em Ciências Sociais pela USP. Tem
publicados vários artigos sobre emigração brasileira. Em 2000, foi
publicado o seu livro: Brasileiros nos Estados Unidos – Um estudo sobre
imigrantes em Massachusetts (Paz e Terra).
Pesquisadoras sobre a emigração brasileira para os EUA, as autoras
organizaram uma rica obra multifacetada por doze artigos, com a
contribuição de pesquisadores brasileiros e norte-americanos, estudiosos
deste tema tão importante para as reflexões no campo das ciências
sociais. Aspectos diversos da realidade sociocultural da emigração
brasileira são ali estudados com competência, à luz das teorias sociais,
com base em etnografias realizadas e com enfoque direcionado sobretudo
para a ótica das problemáticas ligadas às questões de identidade, gênero
e formação de redes sociais. Contribuem os pesquisadores brasileiros:
Adriana C. de Oliveira, Ana C. B. Martes, Gláucia de O. Assis, Gustavo
H. Menezes, João Kulcsár, Sylvia D. DeBiaggi, Sonia M. de Jesus, Soraya
Fleischer e Weber Soares; e os norte-americanos: Christopher Mitchell,
Franklin Goza, Maxine L. Margolis e Rosana Resende.
>>
CVA - Soraya e Ana Cristina contem para nós como surgiu a iniciativa
de organizarem esta obra.
Soraya - Antes de tudo, grata Gláucia pela oportunidade de
conversar sobre esse instigante tema e de divulgar nosso trabalho.
Pesquisar os brasileiros no exterior é um tema relativamente recente.
Apesar deste fluxo emigratório ter se acentuado nos anos 80, as
primeiras pesquisas só apareceram na década de 90. Uma primeira
coletânea de artigos sobre o tema saiu em 1999. Nós queríamos organizar
uma segunda coletânea com pesquisas mais atuais sobre esse fenômeno
social. Conhecíamos vários autores que vinham tratando do tema com
competência e sensibilidade e, então, resolvemos organizar o livro.
Ana Cristina - Isto porque, conforme o movimento migratório se
expande, novas questões começam a chamar a atenção dos especialistas:
gênero, redes sociais, raça e etnicidade, que são justamente as questões
abordadas no livro.
>>
CVA - E por que “Fronteiras cruzadas”?
Soraya - A idéia do título foi da Cris. Os brasileiros cruzam
várias fronteiras quando emigram para os EUA, não só as fronteiras
geográficas de seus municípios, estados, país, continente, etc. A viagem
em si (e sua organização prévia ainda na cidade de origem) é o primeiro
passo de uma grande experiência transformadora pela qual o migrante vai
passar. Acho que a Cris acertou em cheio.
Ana Cristina - A idéia do titulo foi minha, mas do livro foi da
Soraya! Foi ela quem me convenceu das possibilidades de contribuir para
as pesquisas sobre a emigração brasileira através da reunião destes
trabalhos.
>>
CVA - Na opinião de vocês, qual ou quais são as maiores
contribuições deste livro para os pesquisadores das ciências sociais?
Soraya - Primeiro, os dados de pesquisa que o livro apresenta
complexificam as noções que tínhamos sobre os brasileiros no exterior.
Segundo, acredito que o livro dê água na boca de quem o ler porque
oferece várias idéias para novas pesquisas. Há muita coisa ainda por ser
pensada e analisada. Por exemplo, há várias cidades cheias de
brasileiros nos EUA que ainda não foram visitadas por olhares de
pesquisadores. Há pouca produção sobre brasileiros em Portugal e Espanha
(recentemente, Igor Rennó, professor da UFSCar, defendeu tese sobre
brasileiros em Porto, Portugal). Terceiro, o livro mostra que é possível
e necessário realizar pesquisas fora do Brasil. Sugiro que mais
antropólogos aceitem esse desafio: viajar, morar e acompanhar os
brasileiros no exterior, como eu e Cristina fizemos, por exemplo.
>>
CVA - A maneira como o brasileiro se reconhece lá fora acaba
perpassando todos os artigos de formas diversas, sugerindo a
característica de um ser ambíguo. Quer dizer, se, aqui, ele nunca parou
para pensar o que é ser brasileiro, lá fora, ele parece perceber-se
depressa um tipo que não é branco nem negro, não se aceita hispano nem
latino (como querem os americanos), não se reconhece americano nem
sulamericano (porque não tem clareza nem elementos que justifiquem essas
raízes). Mesmo vocês, pesquisadores deste assunto, admitem esta
dificuldade. Se eu tivesse que dar a minha opinião, eu diria que somos
sulamericanos (conceito espaço-geográfico), somos latinos (conceito
etnolingüístico, da mesma forma como os portugueses, espanhóis,
italianos, franceses e romenos), somos brasileiros lusitanos (se
“brasileiro” não bastar). Eu não aceitaria tampouco a categoria de
“hispano” (que eu entendo relativa à América espanhola). Vocês não acham
que a categoria “hispano” para os brasileiros seja mais uma
simplificação grosseira dos americanos para uma população importante
como a nossa no continente americano e em terras norte-americanas?
Soraya - Há várias idéias interessantes nesta pergunta, Gláucia,
que merecem ser comentadas. Porém, vou priorizar algumas, por questões
de espaço. Segundo minha pesquisa, realizada com brasileiros na região
da Grande Boston, estes migrantes não estão muito interessados em se
expor. Preferem viver e trabalhar discretamente nos EUA para evitar
qualquer problema com a polícia, com as autoridades de migração, com os
espiões que se infiltram nas comunidades étnicas para delatar os
imigrantes ilegais. Por isso, na minha opinião, há um certo
“desconhecimento” sobre os brasileiros por parte da população
estadunidense. Não creio que seja “uma simplificação grosseira” o fato
de serem confundidos com hispânicos. Creio que os brasileiros optam por
não se mostrarem muito e acabam sendo pouco conhecidos. São associados
aos hispânicos porque os migrantes da América Central e do Sul que falam
espanhol são a grande maioria dos representantes da América Latina. Por
isso também é preciso relativizar a importância que você conferiu aos
brasileiros. Frente aos fluxos migratórios mais históricos e volumosos,
como os mexicanos, cubanos, indianos e chineses, os brasileiros são uma
ínfima e espalhada minoria nesse caldeirão cultural. A confusão que os
estadunidenses fazem entre brasileiros e outros latinoamericanos não
deve ser tida como uma ofensa à nossa identidade. Eles não têm obrigação
de nos conhecer tão bem assim. Se invertermos o jogo, veremos que os
brasileiros têm muita dificuldade de diferenciar um boliviano de um
peruano, um colombiano ou um mexicano. No Brasil, pouco ou quase nada
sabemos dos países vizinhos. Não dá na mesma?
>>
CVA - É verdade, Soraya. E aí, falando ainda sobre o pouco
conhecimento que se tem em relação aos brasileiros nos EUA, os autores,
entre os quais vocês estão incluídas, também concordam quanto à
dificuldade sobre o número de brasileiros naquele país, dificuldade
decorrente do que você acabou de expor sobre a situação de
clandestinidade em que vivem. Esta situação é diferente em relação a
outros imigrantes nos EUA? Quero dizer, obviamente, como aqui no Brasil
ocorre também, existem “categorias” de estrangeiros: uns mais bem
tolerados e outros menos. A condição de menos tolerados dos brasileiros
é a mesma de outros da mesma condição? Cubanos, africanos e outros
sul-americanos vivem nas mesmas condições de clandestinidade e
“invisibilidade” naquele país?
Soraya - Sim, mais e mais, as pessoas que migram para os EUA
tendem a cair nas condições de clandestinidade e invisibilidade, pelo
menos no início da estadia. Este é o mesmo caso de guatemaltecos,
mexicanos, nicaraguenses, caboverdianos, marroquinos etc. Os brasileiros
com os quais convivi, assim que conseguem trabalho, acumulam uma renda
inicial e constroem uma rede social mínima, passam a aparecer um pouco
mais e buscar uma situação legal.
Ana Cristina - Veja que a dificuldade em quantificar o número da
população brasileira é um dado, não exatamente uma opinião. Todos os
dados sobre esta população são, na verdade, estimativas, pois não se tem
o numero exato, por se tratar de uma população não documentada. Há
outros grupos de imigrantes sem documentação, especialmente de origem
caribenha, centro e sul-americana. Os imigrantes bem vindos tendem a ser
brancos, europeus e com alto grau de instrução – como no Brasil. Observe
que também aqui os imigrantes sul americanos tendem a ser explorados e a
sofrer uma série de preconceitos. Em relação à sua ultima pergunta, eu
diria que os cubanos não são de forma alguma invisíveis, nem
clandestinos. Tome como exemplo, Miami; lá, os Latinos, especialmente os
cubanos, têm poder político e econômico.
>>
CVA - As pesquisas ligadas às redes sociais relacionam-nas mais
diretamente com o fluxo migratório, não é verdade? Vocês poderiam nos
contar como elas se formam, se são fortes (visíveis) ou não? Se
representam ameaça, incômodo às autoridades americanas, são ignoradas ou
recebem incentivos? As igrejas neopentecostais brasileiras existentes
nos EUA entram no rol desta rede? Que importância têm? E, por último, os
brasileiros têm interesse na participação política americana?
Ana Cristina - Os emigrantes criam vários tipos de rede; os
movimentos migratórios, eles mesmos, são fruto de um processo de criação
de redes. Para emigrar, as pessoas se conectam porque uma pessoa com
conexões no país de destino consegue, ao deixar o Brasil, ser
recebida/acolhida por alguém lá fora, receber vários tipos de ajuda,
inclusive informação sobre empregos disponíveis. As igrejas evangélicas,
especialmente a Assembléia de Deus, com base no Brasil, estão crescendo
muito rapidamente, acompanhando os brasileiros e estabelecendo-se nos
principais locais de destino. A rede de apoio ao imigrante passa
indiscutivelmente pelas igrejas, quaisquer que sejam elas.
Os brasileiros não podem votar, não têm nacionalidade americana e,
portanto, não votam. Não obstante, as populações brasileiras em Boston,
Miami e Nova York têm recebido a atenção de vários políticos,
republicanos e democratas.
>>
CVA - Ainda sobre a formação de redes sociais, conforme li no livro
de vocês, o nível de solidariedade dos brasileiros lá fora parece dosado
mais por oportunidades e menos por uma consciência de identidade ou de
direitos sociais, contribuindo certamente para a nossa invisibilidade.
Vocês acham que também esta é uma característica dos brasileiros?
Soraya - Glaucia, essa solidariedade utilitarista é mais presente
no início da estadia desse brasileiro em terras estrangeiras. A meu ver,
depois que ele decide construir uma vida, uma família e um futuro ali,
ele passa a buscar relações mais sólidas e afetivas. Ele buscará a
permanência legal (green card), ele passará a participar mais de sua
“paróquia”, das reuniões da escola do seu filho, dos eventos promovidos
pelo Consulado Brasileiro, por exemplo. Mas ainda não estou convencida
de que, mesmo com essa decisão, ele desejará visibilidade. Novas
pesquisas precisam complementar essa discussão.
>>
CVA - Achei muito Interessante, não me lembro mais em qual ou quais
dos artigos do livro, depoimentos de alguns entrevistados que falam da
mudança na consciência e na posição social da mulher brasileira de
classe média baixa chegada aos EUA - ela ganha direitos, autonomia e
auto-estima em oposição ao homem, que perde espaço, privilégios e poder
na estrutura familiar. Vocês acham que trata-se de uma transformação
diretamente relacionada com o desenvolvimento social e urbano?
Soraya - Acho complicado generalizarmos. Há muitas realidades
dentro do que chamamos levianamente de “comunidade brasileira nos EUA”.
Deixe-me apresentar dois exemplos concretos para pensarmos. Eu me lembro
de Rosa, uma mulher branca, na casa dos 40 anos, originalmente de
Criciúma, SC. Ela migrou pra Boston com o marido e os dois filhos
pequenos. Lá, ela começou a trabalhar com a irmã, limpando casas. Logo,
o negócio cresceu e Douglas, seu marido, foi incorporado. Ele era o
responsável por levar Rosa e a irmã de carro até as casas das clientes,
pegar os pagamentos deixados pelas clientes e fazer a contabilidade do
negócio, quer dizer, tarefas tradicionalmente masculinas. Nas visitas
que fiz a eles, só Douglas falava e explicava o negócio do casal.
Vejamos outro exemplo: Mariana já tinha 40 e poucos anos quando deixou
Vila Velha, ES. Ela se separou do marido que, segundo ela, era
mulherengo, alcóolatra e violento, e veio pra Boston com dois filhos
adolescentes. Nos EUA, ela também foi limpar casas, mas optou por tocar
o negócio sozinha. À época da pesquisa, ela tinha um namorado angolano e
sempre repetia pra mim, “não devo satisfação da minha vida a ninguém.
Homem nenhum me controla mais”. Podemos considerar que Rosa “ganhou
direitos, autonomia e auto-estima em oposição ao marido”? E Mariana,
conseguiu essa emancipação só porque emigrou? A meu ver, Mariana já saiu
do Brasil querendo autonomia. (O antropólogo adora complexificar as
realidades. (risos). Estes exemplos servem para pensarmos se as
brasileiras enfrentam mudanças no exterior e que tipo de mudanças são
essas. Pode ser que no espaço público, elas ganhem autonomia, mas, no
espaço domiciliar, apenas reproduzem os papéis de gênero convencionais
que levam do Brasil. Pode ser que a emigração acentue processos
embrionários iniciados no Brasil. Mas eu acredito que, somente em menor
escala, o encontro com a realidade estadunidense inverta por completo a
posição das mulheres brasileiras de camadas médias.
>>
CVA - Nesta obra, parece que vocês tiveram uma preocupação em
atualizar as pesquisas sobre emigração brasileira, marcando um “antes” e
um “depois” do “11 de setembro”, que trouxe tão profundas modificações
nas relações internacionais dos EUA com o restante do mundo. Afinal, o
brasileiro representa um tipo perigoso para os americanos?
Soraya - De forma alguma! A meu ver, os brasileiros que tive a
chance de conhecer em Boston só queriam trabalhar em paz. Eles buscam
nos EUA oportunidades de trabalho, renda e, assim, um futuro melhor. A
ironia disso é que se submetem a situações duras de trabalho e uma
permanente tensão pela condição ilegal de sua permanência. Na verdade,
eu acho que os EUA são um perigo para os brasileiros que para lá decidem
ir. As políticas fascistas que os EUA vêm impondo aos estrangeiros nos
fazem refletir se o sacrifício em busca deste “Eldorado” vale a pena.
>>
CVA - Soraya e Ana Cristina, em nome de toda a CVA, parabenizo a
seriedade e a qualidade do trabalho de vocês e desejo sucesso
profissional. Obrigada pela entrevista, Gláucia.