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Entrevista
(Edição nº 17)
"Plantas inteligentes - Entrevista com Beatriz Caiuby Labate",
por Samira Feldman Marzochi (*)
A
antropóloga, que ganhou o Prêmio Anpocs de melhor dissertação de
mestrado em 2001, lança a segunda edição, revista e ampliada, do livro O
Uso Ritual da Ayahuasca (Labate e Sena Araújo (orgs.), Campinas, Mercado
de Letras/Fapesp, 2004, 2ª ed., 736 p.), considerada uma referência para
o campo de estudos da ayahuasca (psicoativo também denominado daime,
vegetal, yagé ou caapi, obtido geralmente a partir do cozimento do cipó
Banisteriopsis caapi e do arbusto Psychotria viridis, que contém DMT). A
bebida tem sido utilizada por populações da Floresta Amazônica
(indígenas, vegetalistas, caboclos e seringueiros) e por três grupos
principais: o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha. A partir do
início da década de oitenta, estas religiões cristãs se expandiram para
os grandes centros urbanos brasileiros e depois para vários países do
mundo.
>> Marzochi
/ CVA
- A
que você atribui o sucesso de seu livro? Acha que há um crescente
interesse acadêmico pelo tema, ou este sucesso se deve mais a uma grande
curiosidade sobre a ayahuasca?
Labate - Fizemos uma tiragem
inicial de mil exemplares que, comercialmente falando, não é muito.
Porém, para um livro acadêmico, é razoável, levando-se em conta o
tamanho (686 páginas). A primeira edição se esgotou em praticamente
cinco meses. Acredito que muitos ayahuasqueiros – população que não
ultrapassa quinze mil pessoas no Brasil – compraram a obra, que tem
também saída no universo new age em geral. Na mídia, o assunto
atingiu seu apogeu nos anos oitenta, mas continua despertando
curiosidade, pois está associado à “questão das drogas” e das “novas
seitas religiosas”. Por exemplo, apenas sobre o Santo Daime estão sendo
realizados, no momento, quatro documentários nacionais e internacionais!
Ao mesmo tempo, embora o tema das religiões
ayahuasqueiras ainda seja visto com certa desconfiança na academia (por
exemplo, é freqüente as pessoas fazerem piadinhas do tipo “vocês vão
servir o chá na defesa?”), há um interesse crescente sobre o assunto. As
pessoas estão se dando conta de que ele está relacionado a importantes
questões teóricas, que ultrapassam as simples descrições de caráter
local. Somando-se os escritos sobre o Santo Daime, nas décadas de
80 e 90, não ultrapassamos os dedos das duas mãos. Até pouquíssimo tempo
atrás, havia somente uma tese na área de antropologia sobre a Barquinha
e outra sobre a União do Vegetal. Nos últimos seis meses, tomei
conhecimento de umas dez pesquisas em andamento sobre tais religiões, em
áreas diferentes. Esperamos, justamente, que o livro seja um marco no
sentido de dar visibilidade e consolidar a legitimidade deste campo
emergente de estudos. Embora pareça
haver um certo entusiasmo com o lançamento da segunda edição, confesso
que é uma incógnita como ela venderá e se haverá outras no futuro.
Espero que sim... Um sonho nosso seria traduzir o livro para o inglês.
Caso contrário, permanecemos mudos. Mas isto é muito difícil.

"Cipó Banisteriopsis caapi"
Crédito: Marco Gracie Imperial
>> Marzochi
/ CVA
-
O que é a ayahuasca para aqueles que estudam os psicoativos, o que é
para os que participam de rituais religiosos que utilizam a bebida e o
que é para você?
Labate -
Recentemente, participei como consultora de uma
série que o programa Fantástico da TV Globo está fazendo
intitulada Ritos Sagrados Brasileiros. Filmamos um episódio sobre
a União do Vegetal (UDV), em Porto Velho (Rondônia), onde este grupo foi
fundado, na década de 60, por José Gabriel da Costa, conhecido como
Mestre Gabriel. Perguntei à Mestre Pequenina, sua viúva,
hoje com setenta e cinco anos e referência para os discípulos da UDV, o
que era a burracheira (termo através do qual se nomeiam, neste
contexto, os efeitos experimentados a partir da ingestão do chá). Ela me
respondeu de forma um pouco cortante: “- Você já bebeu?”; eu disse: “-
Sim”; ela replicou: “- Então você sabe”. É claro que para os objetivos
da entrevista não era importante a minha opinião e sim a dela, mas
aproveito agora para uma vingancinha,
fazendo o mesmo com você... Brincadeiras à parte, a fala da M. Pequenina
indica, por um lado, que do ponto de vista nativo a dimensão
vivencial, subjetiva (portanto individual) é valorizada e, por outro,
que a experiência tem um grau de inefabilidade. É difícil responder de
maneira generalizante o que é “a ayahuasca”. Um amigo curandeiro me
contou que outro dia deu a planta para um cego (ele tinha nascido com
uma doença congênita e perdido a visão aos poucos). Quando terminou a
sessão, o novato estava encantado. Contou-lhe que tinha podido “ver”.
Como terá sido a sua experiência? (O ayahuasqueiro acrescentou,
entusiasmado, que ele “disse que viu a lua cheia... e era noite de lua
cheia!” Indagado, não soube me dizer se o cego conhecia antecipadamente
o calendário lunar).
Como
se sabe, a ayahuasca pode estar associada a contextos de uso tão
diversos como a guerra, a caça, a cura, a feitiçaria, a produção
artística, os ritos de iniciação e de luto, o poder político e cósmico,
os rituais religiosos cristãos etc. Talvez uma idéia que permeie todos
eles é que o mundo da ayahuasca – dos espíritos, do sonho e da morte – é
interpretado como a verdadeira realidade, que controla
esta outra, aparente, ilusória. Ela é considerada uma planta de
conhecimento, de poder – um ser vivo, um espírito-planta – que ensina e
conforta, mas castiga também.
>> Marzochi
/ CVA
-
Em uma resenha sobre seu livro, publicada na revista Horizontes
Antropológicos (Porto Alegre, ano 9, n. 19, pp. 316-322, julho de
2003), Marcelo Simão Mercante defende uma “antropologia da ayahuasca”.
Como é possível a antropologia de algo que não é gente?
Labate -
Não estudamos a ayahuasca em si mesma, mas o
sistema de representações em que ela está inserida. Por exemplo, as
formas narrativas do cego descritas acima, determinada expressão
artística influenciada pelo uso da
bebida, a identidade cultural de um grupo
indígena ayahuasqueiro etc. Não devemos reificar a entidade “Ayahuasca”,
tomá-la como uma realidade pré-existente – inclusive, do ponto de vista
farmacológico, ela não é homogênea: há várias combinações possíveis de
plantas (e variações internas em cada espécie) que recebem, por sua vez,
nomes vernaculares diferentes.
Ao
pesquisar academicamente as plantas sagradas, não tenho a pretensão de
responder às angústias ou mistérios existenciais do ser humano, mas
apenas investigar certos determinantes sócio-culturais da experiência.
Vale notar, contudo, que para alguns esta compreensão intelectual das
coisas pode dar uma sensação de pertencimento, de conforto espiritual,
psicológico, existencial ou coisa que o valha, análoga à experiência
mística. Eu me filio a esse grupo de pessoas. Por isto, não vejo
dicotomia entre participação e pesquisa: creio que elegemos e estudamos
nossos “objetos” para entendê-los melhor, mas também para conhecer mais
a respeito de nós mesmos. Desde criança, tenho esta curiosidade sobre o
outro, e a sensação de que a experiência da alteridade é
também uma forma de encontro com o sagrado. E, no caso da
ayahuasca, há uma alteridade cultural e outra de experimentação de
temporalidades psicológicas alternativas. Enfim, em uma palavra,
considero a antropologia também uma ciência iniciática.

"Folha Psychotria viridis"
Crédito: Marco Gracie Imperial
Marzochi
/ CVA
-
Algumas pesquisas sobre a substância tendem a conferir a ela uma
personalidade. Mais do que isso, é como se a ayahuasca tivesse autonomia
suficiente para caminhar por vontade própria: sair da Amazônia,
firmar-se em centros urbanos brasileiros e daí para o mundo. Nesse
processo, os indivíduos seriam apenas, -utilizando a linguagem da
parasitologia, - hospedeiros para a transmissão e expansão da
bebida (o agente).
Labate - Acho que você captou algo essencial
acerca do mundo ayahuasqueiro, de que já falei antes um pouco: a visão
segundo a qual a bebida é habitada por uma entidade, tem vontade
própria, inteligência e personalidade. A expansão das religiões
ayahuasqueiras brasileiras para o exterior tem sido interpretada, pelos
nativos, a partir de um discurso que muitas vezes adquire contornos
proféticos ou messiânicos (ainda mais se levarmos em conta que não é em
todos os países que a ayahuasca possui status legal ou definido).
É como se tudo fosse conduzido pela “força divina”, pelo “Poder”, pelo
“Mestre”. Tantas vezes escutei narrativas sobre ayahuasqueiros que
viajaram para o exterior levando o líquido poderoso, e foram
questionados e/ou revistados por agentes alfandegários que “reviraram
absolutamente tudo, menos a garrafa, que ficou ali, imóvel. Era como se
ela fosse invisível!”
O próprio processo de legalização do consumo da
beberagem, no Brasil, é recheado de historietas de bastidores que soam
fantásticas, e às vezes possuem um tom igualmente esotérico, como
prisões que se desfizeram por encanto, episódios de autoridades
políticas, militares, legislativas ou mesmo religiosas que inicialmente
perseguiam os cultos ayahuasqueiros, mas acabaram aderindo a eles, ou
oferecendo proteção oficial a seus líderes. Parte da mesma
grade conceitual (talvez mais forte no
contexto daimista) é a noção de que a
ayahuasca possuiria uma forma de controle próprio sobre as diversas
dissidências que surgem a partir dos grupos principais: “fulano abriu um
ponto do Santo Daime, mas a força com o tempo vai mostrar se a
história dele é verdadeira ou não. Se não for, a pessoa não agüenta,
acaba desistindo”. É como se a legitimidade no mundo real fosse
diretamente concedida pelo Astral. No plano social, por sua vez,
a diversificação das formas de consumo da planta é compreendida como
parte de um processo de expansão natural, inevitável, óbvio. Mas sabemos
que naturalizar a cultura não é uma prática exclusiva do mundo
ayahuasqueiro.
>> Marzochi
/ CVA
-
Uma outra possibilidade de interpretação, seria partir da ayahuasca
como “tecnologia intelectual”, um modo particular de produzir
conhecimento. Usando metáforas
da cibernética, é como se a bebida fosse um software que
explora espaços pouco conhecidos da mente, fixa-se como memória e
distribui informações novas por uma rede de conexões, cada vez mais
ampla. Nesse quadro, o hardware não corresponderia à mente
individual mas a uma coletividade de indivíduos que, ainda assim, não
superariam a ayahuasca como sujeito. Qual a sua opinião sobre
essas idéias?
Labate -
Há uma tendência cada vez mais popular de fundir o
universo das drogas psicoativas com o da alta tecnologia. Um tipo de
vertente que se desenvolveu pode ser simbolizada pelo apóstolo do
psicodelismo Timothy Leary. Na década de 60, fez várias experiências com
drogas alteradoras da consciência, aproximando-se de escritores como
William Burroughs, Allen Ginsberg e Aldous Huxley. Acabou sendo expulso
de Harvard, onde lecionava psicologia. Posteriormente, passou a se
interessar pelo desenvolvimento de softwares e pela Internet. De
acordo com Leary, estaríamos próximos de criar um link direto
entre o cérebro e o computador, inaugurando
uma nova espécie ou Era na humanidade. Filmou seus últimos dias de vida
numa “câmara de de-animação”, exposta on line, e deixou
encomendado o lançamento de suas cinzas no espaço sideral.
Todo o universo das raves e da trance
music também evoca esta conexão entre tecnologia, virtual e drogas.
O ecstasy parece ser a “menina dos olhos” do momento. Por fim,
recentemente, descobri que no próprio meio
ayahuasqueiro há experimentações e estéticas e tecnologizantes.
Aqui mesmo no Brasil temos notícia de um
psiconauta que promove seminários internacionais em ciber-xamanismo,
onde há uma fusão de plantas
visionárias,
compostos psicoativos e dispositivos de
neurotecnologia. Estes aparatos tecnológicos interferem (através de
estimulação de som, luz, neuroeltrética etc.) nas ondas cerebrais (por
exemplo, o Nova Photosonix
Pro, um sincronizador de ondas cerebrais). Tal
combinação, argumenta-se, potencializaria a navegação psíquica.
Como conceitos tradicionais das ciências
sociais, como “transe”, “êxtase”, “possessão” e “vôo xamânico” podem ser
reinterpretados à luz destes novos experimentos? Por que os “benefícios
da ciência” são cultuados sem implicarem no abandono ou superação
simultânea das técnicas ditas milenares?; ou: por que cientistas cada vez
mais se autorepresentam como “xamãs” e usam metáforas que descrevem os
últimos como “tecnólogos das sociedades primivitas”? Quais aspectos
terapêuticos e esquizofrênicos podem ser identificados na criação de
novas identidades através da fusão do homem com a tecnologia ou da
viagem do xamã a outras dimensões?
>> Marzochi
/ CVA
-
Não há o risco de, ao lado de estudos antropológicos sobre os
diferentes usos rituais da mesma substância, desenvolver-se,
paralelamente, uma grande mitificação da ayahuasca, legitimada por
instituições de pesquisa em ciências e em antropologia?
Labate -
Com efeito, as pesquisas ajudam, freqüentemente, a
desenvolver uma certa mitificação (ou mistificação) da ayahuasca.
Podemos especular em várias direções para entender isto. Uma delas é
que, ao estudarmos um objeto fascinante (no sentido daquilo que causa
estranhamento), absorvemos parte deste fascínio, viramos uma espécie de
co-autores daquela realidade. Por exemplo, um etnólogo que traduz para
um idioma ocidental um mito indígena até então desconhecido, ganha para
si uma aura especial, que transcende o status de mero pesquisador
ou tradutor. Lembro-me de que uma vez assisti a uma palestra de um
antropólogo na Europa, que criticava as religiões ayahuasqueiras
brasileiras, enaltecendo os
usos estritamente indígenas da planta (os contextos mestiços também não
estavam em alta no seu ranking de autenticidade). Ora, se apenas
remotos xamãs da Amazônia são legítimos legatários desta tradição – e o
pesquisador é um dos poucos que têm a oportunidade de beber naquela
fonte – então ele vira uma espécie de porteiro, de mensageiro, o
“eleito”. Fora da academia, tais discursos têm criado, como sabemos,
antropólogos-magos, bruxos ou gurus. Dentro, podem ter a ver com o
estabelecimento de poder simbólico na luta pela territorialidade
acadêmica, pela posse de certos objetos de estudo, por financiamentos
etc.
Outro aspecto deve ser ressaltado. Às vezes, o pesquisador se vê diante
de um dilema político e ético. Acaba por omitir ou atenuar, consciente
ou inconscientemente, dimensões obscuras da experiência (i.e., eventuais
surtos psicóticos que podem emergir, ou outros aspectos conflitantes
envolvendo personagens e práticas do universo ayahuasqueiro), porque
tais fatores podem ser apropriados de maneira perversa pelos
proibicionistas, incansavelmente dispostos a impedir o direito de livre
expressão religiosa ou, para alguns, de se auto-programar quimicamente.
Assim, na tentativa de mostrar o lado racional, estruturado e “positivo”
destas práticas tão estigmatizadas e perseguidas, pode-se acabar caindo
no erro inverso, que é o de mitificá-las.
Novamente, podemos traçar paralelos com
outros objetos das ciências sociais: imaginemos uma análise etnológica
sofisticada que revele os mecanismos de
construção da identidade e autenticidade de determinado grupo indígena.
Mas tal população está em luta
judicial com o Estado pelas suas terras, que dependem do reconhecimento
de sua “indianidade”... Ao desconstruir mitos fundadores, podemos nos
tornar inconvenientes política e simbolicamente junto aos
nossos objetos. Ao mesmo tempo, ao dar roupagem
científica aos seus anseios ou simplesmente
criar interpretações consideradas interessantes pelos nativos, talvez o
pesquisador vire até uma referência interna, ou tenha suas análises
apropriadas nas disputas simbólicas presentes neste campo. Tudo isto não
é menos válido em contextos legais
que autorizam apenas os usos “tradicionais”, “indígenas”, “rituais” ou
“religiosos” de certas substâncias psicoativas.
>> Marzochi
/ CVA
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Para estudar os rituais que envolvem o consumo da ayahuasca, é
imprescindível bebê-la? Seria superficial um estudo que se limitasse a
compreender o modo como grupos sociais se organizam em torno do elemento
ayahuasca?
Labate -
Discuti isto longamente na introdução do meu livro
[Labate, B. A Reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos.
Campinas, Editora Mercado de Letras, no prelo]. Historicamente, creio
que a maioria dos pesquisadores da área de ciências sociais têm bebido a
ayahuasca (pelo menos uma vez), mas eu não teria uma resposta-padrão
para este tipo de questão: depende da pessoa, do contexto e do objetivo
da pesquisa. Há excelentes obras de
investigadores que têm fama de terem tomado
muito pouca ayahuasca, e também escritos acadêmicos fracos de militantes
usuários. De qualquer forma, observo que parece haver uma pressão dos
ayahuasqueiros, mais ou menos explícita, para que o pesquisador
participe normalmente das cerimônias e, caso não esteja disposto a
fazê-lo, talvez o acesso a dimensões relevantes das comunidades lhe seja
negado.
Uma
coisa que tem me irritado ultimamente é observar uma vulgarização da
prática antropológica. Uma grande quantidade de alunos de graduação de
áreas diversas (que provavelmente têm lá uma disciplina de
antropologia), tem me procurado com a intenção fazer “pesquisa” junto
aos grupos, como se a “observação participante” se reduzisse a uma
visita onde se bebe a ayahuasca, tira-se algumas fotos e se redige um
pequeno relatório da experiência!
>> Marzochi
/ CVA
-
Para Henrique Soares Carneiro, a expansão do uso da ayahuasca tem
sido considerada um fenômeno importante da última década. A que você
atribui esta expansão? Estaria o fenômeno ayahuasca relacionado ao que
se poderia chamar uma crescente “consciência ecológica”?
Labate - A questão da adesão da classe média
urbana aos cultos do Santo Daime e da União do Vegetal, tem sido
estudada por vários autores, que argumentam que a expansão está
relacionada a uma crítica cultural da modernidade, a um acirramento das
contradições da vida moderna e dos princípios que a fundam. No meu
livro, citei autores como Giddens, que afirma existir uma relação
integral entre a modernidade e a dúvida radical. Ligada à
multiplicidade de escolhas, à especialização, a modernidade impõe a
pergunta “como devo viver” em termos cotidianos, fortalecendo um sentido
de “identidade” em cada indivíduo. Há uma busca constante de novos tipos
de terapia – o self se torna um projeto reflexivo. Argumentei que
o uso urbano da ayahuasca está sendo progressivamente vinculado a um
projeto de autoconhecimento, em consonância com a ênfase contemporânea,
quase obsessiva, na “procura de si mesmo”.
Sem
dúvida, um outro aspecto importante da expansão destas religiões para os
centros urbanos, tem a ver com um certo apelo da “natureza” e do
“natural”. Alguns autores têm demonstrado como a consolidação do período
moderno – o aparecimento de uma nova ordem industrial, o crescimento
urbano, a separação entre mundo urbano e rural – produziu uma nova
sensibilidade ecológica. Justamente quando a natureza passa a ser
tratada mais intensamente como objeto, emerge o discurso da
natureza como sujeito, como alteridade, que deve ser
respeitada em si mesma, independente de sua utilidade para o homem.
Especialmente no movimento da Nova Era, ambiente onde estas
religiões têm alguma popularidade, é caro o tema de uma
espiritualidade ecológica e holística. Não é demais lembrar
que os grupos ayahuasqueiros, dentro deste “espírito do tempo”,
autorepresentam-se como ecológicos, amazônicos etc.
>> Marzochi
/ CVA
-
Que tipo de impacto a idéia “nativa” de que a ayahuasca é uma “entidade
espiritual inteligente”, pode causar sobre as ciências sociais?
Labate -
A pergunta é boa, e difícil de responder. As
ciências sociais estão inseridas no pensamento ocidental e como tal
também operam a partir do pressuposto de que existe uma separação entre
natureza e cultura, ou uma natureza universal a partir da
qual se elaboram diversas culturas. Para as ontologias amazônicas, ao
contrário, homens, plantas e animais têm uma essência cultural
comum, são todos humanos: há uma unidade de espíritos
e uma diversidade de corpos (“naturezas”), como apontam autores
como Eduardo Viveiros de Castro. O perspectivismo ameríndio
e outras novas epistemologias, chamam a atenção para a necessidade de
pensar sobre os “contextos fazedores de contextos” ou “contextos dos
contextos de aprendizado”, seqüências mais amplas nas quais todos os
paradigmas se engatam. Levar a sério novas formas de racionalidade e
de comunicação não humanas, implicaria
repensar todas as fronteiras entre humano e natural, animal humano e
máquina, corpo e mente, natural e artificial, físico e não físico,
sujeito e objeto etc. Por exemplo, rever todo o sistema jurídico
ocidental, que parte de um imaginário segundo o qual a consciência (e a
subjetividade) do self tem que eqüivaler necessariamente a um
corpo físico. No caso da experiência com a ayahuasca, o eu pode
se desdobrar e viajar a outras multi-dimensões. Por outro lado, se as
plantas são seres inteligentes, como estabelecer quem é de fato o
“autor” (e proprietário) do saber sobre as espécies vegetais ou dos
cantos xamânicos? Nesta ótica, a identidade pessoal ganha uma espécie de
irrelevância, diluindo-se em processos interativos mais amplos, que
tornam urgente o desenvolvimento de uma noção de interdependência e
responsabilidade universal mais forte.

(*)
Samira Feldman Marzochi, orientanda de Renato Ortiz, é
mestre em Sociologia da Cultura e doutoranda em Ciências
Sociais pelo IFCH/Unicamp, com doutorado sanduíche
em Paris orientado pelo professor Michael Löwy. No IFCH/Unicamp,
faz parte do Conselho Editorial da Revista Temáticas.
Também é colaboradora da CVA.
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