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Entrevista
(Edição nº 15)
Stélio Marras é
antropólogo pela USP, doutorando pela mesma universidade, pesquisador do
Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da Universidade de São Paulo
(LISA/USP) e membro do corpo editorial da Revista Sexta Feira –
Antropologia, Artes e Humanidades. A sua dissertação de mestrado, A
propósito de águas virtuosas – formação e ocorrências de uma estação
balneária no Brasil, defendida em abril/2002, ganhou o prêmio de
Melhor Dissertação de Mestrado de Ciências Sociais em 2003 no Concurso
Brasileiro Cnpq-Anpocs de Obras Científicas e Teses Universitárias em
Ciências Sociais. Já no prelo, será publicada em co-edição pelas
editoras da UFMG e do Instituto Moreira Salles ainda neste primeiro
semestre de 2004. Nela, o nosso autor nos convida, em texto
esteticamente primoroso e com rigor científico, a acompanhar a sua
investigação histórica e antropológica sobre a gênese da cidade mineira
de Poços de Caldas, melhor definida pelo autor como “cidade nascida sob
o signo da cura por águas e do veraneio elegante”.
>>
CVA - Stélio, as
águas estão na origem de muitas cidades. O caso brasileiro remonta à
descoberta do Brasil e às promessas com a abundância delas que Caminha
entreviu e mencionou na sua famosa Carta ao Rei D. Manuel, como você
sugere no título de sua introdução, “Águas fundam cidades”. Lançar mão
deste viés, da riquíssima inspiração simbólica das águas fecundas, me
parece de enorme felicidade. Conte-nos por que ou como você chegou à
escolha das águas de Poços de Caldas.
Stélio
- Poços é minha cidade natal. Vivi permanentemente lá até meus 22
anos e ainda hoje volto com muita freqüência, por conta de família,
trabalho, amigos e porque gosto muito da cidade – embora não sem
reservas, como é normal acontecer. Essa presença muito marcada da cidade
em mim fez com que, em boa medida, eu mais fosse escolhido do que
escolhesse. Ou é assim que sinto hoje. Me lembro que, à época de prestar
o exame de mestrado, eu vacilava entre três propostas de pesquisa. Uma
era continuar as pesquisas de Iniciação Científica que fiz sobre Machado
de Assis e o tipo brasileiro de sociedade de corte. Outra era aprofundar
um trabalho de graduação sobre o cancioneiro popular e o tropicalismo. A
terceira proposta, finalmente, era esta de Poços de Caldas, sobre a qual
não havia escrito quase nada (ou nada rigoroso ou maduro, como uns
artigos que publiquei, antes de entrar na faculdade, no jornalismo local
de Poços). No entanto, era a temática que decerto mais me incomodava,
por razões mais ou menos evidentes. É que vendo um pouco
retrospectivamente, acho que ali já se manifestava esse típico caso de
“acerto de contas” que a gente faz com o próprio passado, a própria
formação, nossos fantasmas também. Não por isso, tive o pudor e o
cuidado de evitar, ou o quanto pudesse, me colocar pessoalmente na
história e na análise que eu gostaria de empreender. De fato, o uso da
primeira pessoa é algo muito residual na tese. Mas a estratégia talvez
mais importante para me “retirar” da narrativa foi recortar
historicamente o período de pesquisa, que começa nas primeiras notícias
sobre aquele lugar meio perdido no sertão do século XVIII, até meados da
década de 1940. Portanto, desde quando para lá afluíam romeiros e toda
sorte de gente ávida por aquelas águas milagrosas de enxofre, irrompendo
a mais de 45 graus da terra, até a concepção dos sonhos e
projetos de transformação daquele lugar rústico, enlameado de barro e
tomado pelo pastoril, numa autêntica estação balneária, conforme o
modelo civilizado e europeu, e que iria conhecer o declínio a partir do
fim do mundanismo das estações de águas a par do advento em grande
escala da farmacoterapia.
>> CVA
- Você poderia traçar
um breve resumo do seu trabalho?
Stélio
- A tese está dividida em três partes. A primeira trata do tipo de
formação social do lugar, a aliança entre os coronéis locais, os
políticos ligados aos interesses de Minas Gerais e os médicos que logo
se interessaram pela vila das águas sulfurosas termais, sua importância
científica e medicinal, junto dos frutos políticos prometidos por esse
lugar onde ocorriam abundante e livremente as já famosas “águas
virtuosas”, curativas de tantos males impossíveis. Foram interesses
cruzados que se tornaram claros na segunda metade do século XIX. A
divergência reduziu-se a um plano mais ou menos comum entre aqueles
homens de poder. Tal redução não aconteceu, contudo, sem conflitos, já
que a mentalidade e os interesses das elites locais, donas das terras
dos poços, não eram necessariamente os mesmos que dos governantes e
médico-cientistas.
É
importante notar que aquele era um tempo de higienismo, tempo de
promover, quase obsessivamente, o “saneamento” médico, mas também
social, do país. Lembre-se, por exemplo, a virulenta campanha da
vacinação de Oswaldo Cruz nos primeiros anos do século XX no Rio de
Janeiro, que se tornou famosa pela reação que gerou nas classes
populares, a chamada Revolta da Vacina. O fato é que houve um amplo
projeto das elites nacionais para transformar o Brasil num país
civilizado, à imagem da Europa, e assim reinseri-lo no concerto das
nações modernas do Ocidente. (E eu diria que esse projeto, em boa medida,
permanece operando ainda hoje no Brasil. É como uma parte constitutiva
do senso comum elitista). Eu entendo que a pequena vila de Poços de
Caldas prestou um importante papel nesse processo médico, político,
científico e sociológico. Pode-se bem imaginar o destaque simbólico que
as águas, sobretudo estas especiais, alcançavam num imaginário
higienista e civilizador, neste tempo de higienizar corpos, vestuário,
alimentação, casas, ruas, população, raça. A história, que é sempre
política, casou a cientificidade daquelas águas a um projeto brasileiro
de modernidade. Ademais, aquele era também um momento da formação
burguesa das elites nacionais, que encontraram naquela vila balneária do
sul de Minas Gerais um eco das já festejadas estações de águas da Europa,
como Vichy, Aix-les-Bains, Luchon ou Baden-Baden, onde se encenava, às
épocas do alto veraneio, toda a ritualística burguesa do Ocidente e seu
nascente individualismo, com suas cocottes parisienses, seus elegantes
de smoking, suas “artes do luxo”, bem como a crença aferrada no
progresso, na ciência, na medicina, na modernidade, na civilização. Ora,
em Poços se passou, por sucessivas décadas, uma espécie de salão ao ar
livre destinado ao deleite das elites da Belle Époque brasileira – estas
que eram, no entanto, em boa parte remanescentes dos salões
aristocráticos do império de D. Pedro II. A particularidade dessa
ritualística, em especial a partir do ponto de vista de sua encarnação
brasileira, é o que tento descrever e analisar na segunda parte da tese.
Já do
ângulo da medicina das águas, retomo na terceira parte o embate entre o
rústico do Brasil antigo e o civilizado do Brasil moderno. Essa oposição,
ao meu ver, se dá entre um modo terapêutico mágico-religioso e um modo
científico-naturalista. A comparação entre estas duas modalidades gerou,
entre outras conseqüências, subsídios para que eu notasse a importação
da política na medicina, assim como da medicina na política, ao mesmo
tempo em que me permitia interpretar a ascensão e a decadência de uma
estação balneária no Brasil – e arrisco dizer que além do Brasil.
>> CVA
- A propósito, a tese
destaca essa tensão entre a tradição popular e a modernidade, que tem
como resultado a hegemonia desta última com a expulsão da primeira. Está
correta esta interpretação?
Stélio
- Está correta. Metodologicamente, eu selecionei, a partir de todo
tipo de fonte que pude encontrar (crônica, historiografia, textos
científicos, literatura), três classes de doença que eram normalmente
tratadas naquelas águas sulforosas quentes: a lepra, os males de
articulação e a sífilis. Correlacionando etiologia (origem da doença) e
terapêutica (modos de tratamento), pude sugerir as razões da lógica e da
eficácia (tão material quanto simbólica) das curas, especialmente as
relativas às medicinas populares de signo mágico-religioso, já que estas
foram sistematicamente atacadas e anuladas pela historiografia de cunho
médico e científico – em quase todo lugar e talvez especialmente na
memória histórica de Poços de Caldas, que foi escrita em grande parte
por médicos.
Se o
mágico-religioso e o científico-naturalista foram duas modalidades que
concorreram na cura pelas águas, a última venceu historicamente – embora
não por muito tempo. Diabos e santos foram expulsos das razões de cura
para prevalecer a razão científica, com seus parâmetros físicos,
químicos e “naturais” no uso e na terapêutica das águas. Mas a própria
evolução da medicina científica culminou na farmacoterapia do pós-guerra,
cujo rápido desenvolvimento acabaria, de sua vez, por desvalorizar as
razões medicinais e científicas da cura pelas águas (mesmo que ela já
então estivesse plenamente laica, ilustrada e desenvolvida), enviando-a
para o antiquário da modernidade. Quase simultaneamente, os ritos das
pequenas rodas burguesas da sociedade brasileira foram se debandando
para outros sítios, mas também se transformando diante dos novos tempos.
Dissolvia-se aquele caráter concentrador e exclusivista das rodas, como
as descritas magistralmente por João do Rio nas cartas ficcionais de seu
A correspondência de uma estação de cura, fruto de uma temporada
que o autor passou em Poços de Caldas, por volta de 1917. A par disso,
os jogos de cassino, que eram uma importante atividade ritual dos
veranistas em estação, foram proibidos pelo então presidente Gaspar
Dutra, em 1946. Ou seja, marcava-se desde então o início da decadência
de uma estação de águas no Brasil. Eram já novos tempos de medicina,
cultura e sociedade brasileira.
>> CVA
- Entre os grandes
feitores da cidade, a sua pesquisa destaca a importância de Pedro
Sanches. Você poderia nos contar a saga deste senhor?
Stélio
- Foi Antonio Candido, no prefácio com que me honrou para a edição
da tese em livro, que notou muito bem a centralidade deste personagem no
trabalho. De fato, Pedro Sanches de Lemos, como médico e cientista (numa
época em que era normal confundir-se numa só pessoa essas duas funções),
foi o grande promotor das águas de Poços de Caldas, desde aí por 1873,
quando ele chegava na vila. Nele se fundem praticamente todos os temas
que tratei na tese. Por exemplo, ele foi pivô da aliança entre os
interesses dos coronéis da terra, os da medicina das águas (a crenologia),
e os dos sucessivos governantes de Minas. Ele mesmo casou-se com uma das
filhas do coronel local mais importante, gente da família Junqueira, que
lhe deu meios de operar de dentro os passos para as transformações
daquele arraial caipira em vila balneária de signo moderno. Esta sua
inserção no familismo da terra fez dele um tradutor especial entre dois
mundos, o rústico e o civilizado, contemporizando conflitos e diluindo
tensões entre os de dentro e os de fora. Ele foi o grande visionário
daquela que um dia figurou entre as cidades balneárias mais importantes
e freqüentadas da América do Sul. Depois de formado médico no Rio de
Janeiro, resolveu fixar residência em Poços, ali empreender um pioneiro
estudo científico das águas e estabelecer clínica regular. Foi também
ele que legou à posteridade o primeiro texto historiográfico de maior
fôlego e importância sobre Poços de Caldas. Deu corpo a uma linhagem de
médicos-políticos e políticos-médicos que marcaria, talvez para sempre,
o destino da cidade. Foi ainda ele, por volta do ano de 1900, quem
viajou longamente às estâncias européias para colher notícias e modelos,
registrados em livro que publicou em seguida, para que servisse
diretamente à edificação de uma vila balneária moderna no Brasil. Sabia,
desde então, que era preciso, sob pena de fracasso, aliar o mundanismo
das estações ao curismo hidrológico, como quem unisse o espírito de Baco
ao de Esculápio. Sabia que para custear os pesados investimentos e
manter os serviços de infra-estrutura de uma estação balneária, era
preciso contar com o financiamento advindo da moda veranista. Por isso
não se opunha à vida frívola que se passava nas temporadas, com seus
teatros e suas damas, os footings nos bulevares ou tampouco os rendosos
jogos de cassino. Ademais, ele soube mesmo enxergar função terapêutica
nessas “distrações”.
Homem de
larga influência e erudição, prestou uma importante função de cicerone
para visitantes ilustres da incipiente, mas já arrojadamente planejada,
vila balnear. Pedro Sanches recebeu, por exemplo, a visita de D. Pedro
II, quando da inauguração, em 1886, do ramal de Caldas da estrada de
ferro da Mogiana. Recebia freqüentemente em saraus, banquetes e passeios
os nomes nacionais mais festejados da época, como Coelho Neto e Olavo
Bilac, que se tornaram amigos próximos, habitués de estação e
divulgadores da estância entre os altos círculos da elite brasileira de
então. O próprio Antonio Candido, cuja família se liga intimamente a
Poços de Caldas, e onde tanto tempo ele mesmo viveu, teve a oportunidade
de conhecer o tesouro da biblioteca de Pedro Sanches. Assim diz ele, no
prefácio do meu livro:
“Nos anos
de 1930 ainda pude conhecer a sua biblioteca praticamente intacta. Além
dos livros médicos, sobre os quais não saberia opinar, tinha o que havia
de melhor no tempo em matéria de filosofia, sociologia, história,
literatura. O maior conjunto estava entregue às moscas numa sala da
Prefeitura, onde apenas duas pessoas iam de vez em quando: meu colega
Spartaco Vizzotto, que descobriu o tesouro e me deu notícia dele, e eu.
Foi nos livros de Pedro Sanches que li, por exemplo, o teatro de Ésquilo,
na tradução francesa arcaizante de Leconte de Lisle, e os quatro volumes
da História do povo de Israel, de Ernest Renan. Boa parte dos volumes
tinha belas encadernações, trazendo na lombada as iniciais Dr. P S L.”
A figura
de Pedro Sanches tornou-se ainda emblemática para a pesquisa também no
que se refere à imputação de cientificidade das águas contra os modos
antigos de uso. Filho dileto desse tempo de higiene, ciência e
civilização, colaborou decisivamente, portanto, para a desvalorização da
mentalidade mágica e religiosa que, ainda a seu tempo, insistia em se
fazer ali presente através de romarias, pagas de ex-votos e
“superstições” das pessoas que, de origem variada, para lá afluíam em
busca de cura. Foi ele, portanto, o mais importante codificador da
terapia científica das águas (a crenoterapia, que já teve cadeira fixa
nas faculdades de medicina), definindo parâmetros de ingestão, banho,
utensílios e técnicas balneoterápicas, dieta alimentícia, modernidade
dos costumes públicos e privados. Nele, encontrei ainda contradições que
me revelaram a história desse embate entre as duas modalidades
terapêuticas através dos resquícios da mentalidade mágico-simpática em
seus costumes íntimos e pessoais ligados à obsessão pela higiene do
corpo.
>> CVA
- O que seria o valor
simbólico que você discute no que denominou a “experiência curista
agenciada pelas águas”? Você poderia retomar o percurso que o levou a
esta problemática da cura no seu processo de investigação?
Stélio
- O problema era o seguinte: durante a pesquisa, eu descobria muitos
relatos antigos, e não apenas em relação ao Brasil, sobre a graça da
cura em fontes de água. Mas eram relatos que me chegavam enviesados e
cifrados. Enviesados porque, na maior parte das vezes, vinham citados
pelos médicos (não raro historiadores e cientistas ao mesmo tempo),
interessados justamente em desqualificar a veracidade e o valor daquelas
práticas de cura em favor da terapêutica científica hídrica que então se
inaugurava. Cifrados porque para compreender sua lógica seria preciso
enfrentar a razão das evocações ora aos santos ora ao próprio diabo em
pessoa, toda uma ritualística mística e fantástica, entender enfim o
sentido das romarias, das peregrinações ou da prática dos ex-votos que
acompanhavam a esperança da cura; numa palavra, considerar a importância
da fé que parecia encerrar a principal prerrogativa para o alcance do
sucesso terapêutico naquelas águas num período pré-científico. Era assim
que eu poderia tentar devolver razão aos sentidos daquelas práticas
antigas de cura e à lógica de um imaginário pesado sobre a água, essa
incrível substância plástica, vital e tão simbolicamente impregnante.
Sugeri que o apelo do simbólico na modalidade terapêutica mágica e
religiosa era muito superior à empregada na modalidade científica, e que
esta força deveria ser levada em conta quando considerássemos aquelas
formas antigas de cura. Assim, se de um lado o engajamento subjetivo era
estratégico para terapias mágico-religiosas; de outro, para o ideário da
ciência médica positivista e naturalista (ideário afinal recente no
imemorial uso terapêutico de águas), a subjetividade (ou variáveis
arbitrárias e insubmissas ao controle e estabilização) deveria ser
rechaçada. Não que um ou outro modo prescindisse tanto dos processos de
simbolização quanto de investimento material e objetivo. Apenas que a
ênfase nas relações entre o simbólico e o material, ao que bem parece,
seriam invertidas para uma e outra modalidades terapêuticas concernentes
às águas medicinais. E como a eficácia simbólica da ciência dependia de
uma precedente partida material, bastou que essa partida debandasse para
outros produtos – tais os medicamentos de alta elaboração química, como
a penicilina de Fleming, já largamente difundida nos anos 1940 — para
que as águas se enfraquecessem a um só tempo simbólica e cientificamente.
>> CVA
- A título de
curiosidade, conte-nos um pouquinho sobre as façanhas do diabo na terra
das águas sulfurosas.
Stélio
- O caso é que o Diabo é um velho conhecido nosso, tão antigo quanto
os primeiros passos europeus no Brasil. Lembre-se, entre outros, o
excelente trabalho de Laura de Mello e Souza, O diabo e a terra de
Santa Cruz (Companhia das Letras, 1996). Como se sabe, o imaginário
cristão aportou nas novas terras da América com suas utopias e distopias
ligadas tanto a Deus quanto ao Diabo, tanto ao Paraíso quanto ao
Inferno. Em Minas Gerais, a aparição do Demo não seria menos freqüente e
se enraizaria na tradição, como se pode notar largamente, por exemplo,
na literatura de Guimarães Rosa ou de Carlos Drummond de Andrade. Pois a
sua figura deu o ar da graça também naquela região de “águas virtuosas”.
O registro mais importante encontrei numa missiva emitida pelo
governador da capitania de Minas Gerais, Luis da Cunha Pacheco e Meneses
(o famoso Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas), que dava notícia ao
Ministro do Reino em Portugal sobre o tal sítio encontrado meses antes
por seu comandante do distrito de Sapucaí, João de Almeida da Fonseca,
por lá, em junho de 1786. Com entusiasmo, ele informava desse achado
“dos mais úteis”, que eram “umas águas termais tão virtuosas, e úteis,
que têm curado entre várias moléstias a do grande mal de Lepra que tanto
persegue este Continente Americano”. Menos entusiasmado, entretanto,
alertava que “do mesmo lugar já havia uma ignorante notícia, e bem
própria do povo pouco iluminado, de que naquele mesmo Sítio andava o
diabo por se ter visto aparecer por várias vezes. Lanças de fogo tão
fortes, e tão enxofradas, que haviam chegado a queimar os matos de uma
grande parte de sua circunferência, e com o terrível cheiro de enxofre,
das quais não se pode prazenteiramente tomar outro conhecimento mais do
que a experiência das suas curas for mostrando.”
Ora,
expulsar o diabo e, com ele, o povo místico e imprevidente que teimava
em evocar o maldito para alcançar a cura, tornou-se profissão de fé da
parte dos homens ilustrados, médicos e governantes à frente, para que
assim se livrassem as águas dos encantos sobrenaturais e atrasados
provenientes da mentalidade rústica e fantasista. De minha parte, o
desafio foi recusar reproduzir essa visão elitista e cientificista para
compreender as razões que presidiam aquelas evocações, bem como os
mistérios curativos que deviam se alojar nas terapêuticas populares
religiosas, com suas técnicas de lógica mágico-simpática. Lógica tal
como a que sugeri existir na relação entre aquelas águas enxofradas
quentes, qual imagem de um inferno dantesco, e as doenças de origem
igualmente maldita, como a lepra, os males de articulação e a sífilis.
Aquelas águas, enfim, apresentavam especial aptidão para curar estas
classes de doença percebidas, na origem (daí o interesse pela etiologia
das doenças), como associadas a pecados morais e, portanto, associadas
ao domínio do Diabo. Para curar tais doenças, de acordo com a técnica
mágico-simpática, segundo a qual o semelhante cura o semelhante, seria
preciso recorrer a uma terapêutica que evocasse os mesmos princípios que
estão na causa da doença.
Para
resumir, a história acabou praticamente enxotando o Diabo daquele lugar
que depois se tornou uma estação de águas luxuosa, embora também
luxuriosa (uma pequena obra do mesmo Diabo), que alcançaria o esplendor
da ciência médica e do mundanismo elegante, até que, lá pelos anos 1940,
a estância fosse sendo esquecida pela mesma ciência e pelos mesmos
elegantes. Certamente que a crenologia matou a fábula, as ninfas, bem
como os santos ou diabos das águas. Não sabia, contudo, que aos poucos
matava a si mesma. Vista de hoje, a terapêutica das águas científicas,
pelos princípios que a regem, surge natimorta – ou trazendo dentro de si
o germe que a derrocaria adiante. Porque a epistéme cientificista que a
ergue é a mesma que depois irá solapá-la. Sua eficácia e recomendação
duraram enquanto tais princípios físicos, químicos ou radiológicos,
evocados para provar sua superioridade em relação ao uso popular, não
revolucionassem na farmacoterapia, tornando antigas, porque menos
eficazes (nesse mesmo registro objetivista de equacionar a cura) suas
práticas balneoterápicas ou de ingestão científica das águas. Como um
paradoxo aparente, foram esses princípios medidores de ácidos e básicos,
íons e ânions, calor e magnetismo, que doravante fizeram arruinar as
modernas estações hídricas de cura. Era, talvez, a grande e vingativa
obra do mesmo Diabo.
>> CVA -
Obrigada, Stélio. Parabéns e sucesso!!!
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