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Entrevista
(Edição nº 13-14)
Segue a entrevista com Peter Greenaway, realizada por Evelyn
Schuler e Thomas H. Lehmann e publicada na Revista
Sexta Feira - Número 4
- Corpo
(edição esgotada).
[Campo e
Contracampo] Corpo
e cinema pela boca aberta de Peter Greenaway
Evelyn
Schuler e Thomas H. Lehmann
(*)
Comer e
beber, sexualidade e secreção, viver e morrer, ler e escrever, imagem
e observação: Peter Greenaway comenta em seus filmes, traço por traço,
os rituais com os quais a sociedade oculta o corpo. E ele o mostra de
uma maneira raramente vista no cinema alhures: nu em sua abundância
formal barroca, como teatro de milagres, como origem e objeto da
caligrafia, como paisagem, como possessão, como campo de batalha da
luta das classes e dos sexos.
Uma mulher
com um revólver na mão. Seu marido. Na famosa cena final de O
cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, ela o obriga a
saborear o corpo do amante que ele mandara assassinar engolindo as páginas
de seu livro predileto, uma história da Revolução Francesa. Para o
ladrão, a cultura é um bem que pode ser comprado e consumido – e é
precisamente quando não consegue incorporá-la, que a usa para destruir
os outros. Há de se tomar as metáforas literalmente nos filmes de Greenaway. Sua maneira de imaginar – pensar com imagens – mostra o
perigo do mundo ordenado pelas palavras. Trata-se de um mundo imagético
que quer revolucionar o cinema, invertendo o domínio da história dos
textos escritos sobre a história das imagens. Excessivamente, o
cineasta cita a tradição visual e procede com a câmera como se
estivesse com um pincel na mão – foi, pois, à pintura que ele
dedicou sua primeira formação.
As referências
a imagens da memória cultural nos filmes de Greenaway são muito freqüentes.
Com um sorriso manhoso, apetece-lhe citar Pauline Kael, crítica de
cinema norte-americana, que o denominou um “onívoro que come com a
boca aberta” – ou que fala com a boca cheia. Ao gesto falar,
Greenaway opõe o gesto canibal, que leva ao extremo o consumo em seus
dois sentidos: digestão e destruição. Sua crítica cultural não se dá
pela restrição, mas pela avidez e pelo excesso.
A boca
cheia e os olhos bem abertos revelam a instigação do cineasta em fazer
um cinema que ainda não vimos: um espetáculo imaginado que, num
sentido modernista, promova uma visualização de imaginações. Em
suma, um cinema que tem mais afinidade com Méliès, Eisenstein ou Walt
Disney do que com Lumière e a tradição do realismo.
Greenaway
começou a formar seu olhar como editor no British Film Institute, onde
aprendeu as técnicas por meio das quais as imagens parecem verdadeiras,
estratégia que usa em filmes de ficção.
Por via do excesso organizam-se serialmente vários de
seus filmes. Quando a estatística deixa de ser um meio e se converte
num princípio de afirmações, o documentário revela-se como ficção.
São doze desenhos que estruturam O contrato do desenhista.
Em Afogando em números aparece uma numeração de 1 a 100, que
vai do início ao fim do filme – como se o contar pelos dedos de um
jogo de criança tivesse deixado rastros. E em A última tempestade
são os livros do feiticeiro que determinam a ordem dos acontecimentos.
Um filme de
Greenaway convida a se deixar seduzir por uma embriaguez visual e
intelectual. Pede para ser tratado como uma conspiração: incitando a
decifrar o que é mostrado por meio de vestígios e insinuações, mas
cuja investigação é acompanhada pelo perigo de que, finalmente, tudo
se revele uma alucinação extraordinariamente nítida.
O editor é
o rei, nas palavras de Greenaway. Foi de um de seus castelos, uma ilha
de edição em Amsterdã, que o rei – que sabe da transparência de
suas roupas e quer mostrar-se desnudo – nos concedeu gentilmente a
seguinte entrevista por telefone, na sexta-feira de 19 de fevereiro de
1999.
Como você
define a relação entre cinema e corpo de forma geral?
Para mim, a
posição de uma materialidade muito intensa do corpo humano sempre
esteve presente nos termos da arte ocidental. Nesse sentido, enfatizo o
fato de que a pintura foi e continua sendo muito importante na constituição
do meu olhar. Nessa tradição da representação imagética, o corpo
– especialmente o corpo nu – ocupou um papel central certamente
desde o Renascimento e, provavelmente, mesmo antes. Diria que nos últimos
dois mil anos as duas imagens mais significativas da arte ocidental
cristã são o Cristo Crucificado e o Menino Jesus, ambos vistos e
representados praticamente nus.
É muito
importante considerar as profecias do Velho Testamento que anunciam a
vinda de Deus à Terra como homem, para provar sua corporalidade. Na
maioria das pinturas do Menino Jesus (sobretudo depois do século XIV)
seus órgãos genitais são mostrados para indicar tanto sua humanidade
quanto sua masculinidade. E são famosas as imagens sadomasoquistas do
Cristo Crucificado, repetidas ad nauseam por tantos pintores,
certamente desde 680 até Salvador Dalí.
Essas duas
imagens, fortemente orientadas pela imagem do corpo masculino, estiveram
freqüentemente diante dos olhos ocidentais nos últimos dois mil anos.
Assim também ocorreu com a pintura do corpo nu da tradição das Belas
Artes, que persistiu nestes anos todos apesar das crises mais diversas,
passando de períodos de puritanismo aos de serenidade. Cabe lembrar
que, nos meados do século XVI, com o Conselho de Trento, a própria
Igreja católica definia se o corpo podia ser representado na
iconografia ocidental.
Passando
para outra representação imagética ocidental, eu diria que o cinema
– de modo geral, o cinema tipicamente hollywoodiano – sempre
promoveu, sobretudo, noções do corpo vestido. Nesse tipo de cinema, são
poucas as representações da nudez e do corpo nu. Acho
importante diferenciar essas duas concepções: o corpo nu (nude)
com uma conotação positiva e um aspecto sereno e exibicionista, e
a nudez (nakedness) carregando o peso da culpa e da vergonha.
Geralmente
vemos a noção do corpo nu representada como prelúdio ao sexo, nas
cenas em que as pessoas tiram a roupa – basicamente mulheres entre 16
e 30 anos. Novamente estamos diante de uma concepção muito patriarcal
do corpo feminino, pois trata-se de um corpo feminino jovem. Sabemos,
porém, por nossas vidas privadas, que as condições gerais da civilização
humana são outras. As noções de nudez e de corpo nu
abrangem muito mais que simplesmente o prelúdio ao sexo. Eu quero ver
se conseguimos, no cinema, as liberdades, os interesses e a curiosidade
iconográfica que fizeram e fazem parte da pintura ocidental.
Quais noções
de corpo estão presentes em seus filmes?
A materialidade do corpo humano sempre foi de suma
importância nos meus filmes. E houve diversas abordagens: como uma rica
simbologia no filme O cozinheiro ..., segundo as noções de Adão
e Eva, o tormento do Inferno, a Ressurreição; ou como um manual de
diferentes tipos fisiológicos em A última tempestade, no qual
Prospero deve repovoar uma ilha no cenário de uma iconografia do corpo
nu voltada ao Renascimento e ao maneirismo. Mas essa materialidade também
pode ser vista em Zoo
- um z e dois zeros, relacionada à parte interna quanto à parte externa
do corpo – suponho que isto também esteja presente em O
cozinheiro..., no qual as noções de comida e digestão e o canal
da alimentação estão associados às concepções de sexualidade. Se
pensarmos em termos darwinianos, as noções de digestão e o canal da
alimentação foram substituídos em estágios evolutivos lentos, por noções
de sexualidade. Não é por acaso que os moralistas associam excreção
e reprodução a partes de uma anatomia explicitamente física, o que
obviamente possibilita críticas às noções de corporalidade.
Nesse
contexto, você poderia comentar o tema do canibalismo em seus filmes?
Bom, o
principal filme que aborda esse tema é O cozinheiro..., no qual
o canibalismo aparece primeiro metaforicamente e depois literalmente.
Eis como muitas vezes construo meus filmes: por exemplo, em O livro
de cabeceira, a corporalidade e a escrita no corpo aparecem no início
como uma metáfora que depois se transforma, perigosamente, em uma
realidade literal.
Para mim, a
noção geral do canibalismo como metáfora está fortemente associada
ao fato de que, quando tivermos comido tudo que existe no mundo – ou
seja, quando tivermos explorado tudo e colocado tudo na boca como uma
criança –, terminaremos comendo-nos uns aos outros. Nesse sentido, o
filme foi uma crítica à Grã-Bretanha de Mrs. Thatcher, cuja política
se baseava na avidez e no egoísmo e era eminentemente negativa em relação
a idéias de comunidade. Essa política obteve, rapidamente, vários
seguidores na sociedade inglesa, egoístas ao ponto de praticar aquele
tipo de canibalismo das formas extremas de exploração.
Mas também
existem outras conotações: por exemplo, na cena da Última Ceia Jesus
diz: “Tome! Este é o meu corpo que será entregue por vós. Tomai-o
em comemoração minha”. Tanto o capitalismo quanto o catolicismo
giram em torno do canibalismo como metáfora e da noção de comer um eu
físico. Jogo com todas essas atitudes, com todas essas idéias e com
todas essas imagens nos meus filmes, especialmente em O cozinheiro...
Seus filmes
abordam a sexualidade e a morte de maneira bem específica. Prazer e dor
estão sempre relacionados, o prazer passa sempre pela mutilação. Você
poderia elucidar essas abordagens?
Acho que
todos nós somos – qualquer que seja nossa percepção, como
sul-americanos, japoneses, australianos, africanos ou europeus – muito
fascinados pela nossa corporalidade. O eu físico é a base dos nossos
sentidos e da nossa apreciação do mundo. As noções do intelecto, as
noções da alma e as formas de sensibilidade variam bastante de cultura
para cultura e são, em certo sentido, muito, muito efêmeras. O corpo
permanece conosco. O intelecto e o espírito mudam constantemente e com
tanta freqüência que, de fato, temos praticamente um novo conceito
intelectual a cada dia. Na filosofia francesa dos últimos sessenta
anos, por exemplo, as opiniões intelectuais sobre moda mudam a cada fim
de tarde.
Assim, o
centro de nossas questões é o nosso próprio eu físico. Acho que
devemos insistir nisso, apesar de essa imagem sempre ter feito parte da
tradição ocidental e de fazer parte do fim do século XX. Nos últimos
tempos, o culto ao corpo é extremamente forte num sentido comercial e
capitalista, nas noções de corpo como fonte de dinheiro ou do que
entendemos ser saúde, medicina e longevidade. Por exemplo, a idade do
homem perfeito e da mulher perfeita é a de Cristo ou de Alexandre, ou
seja, 33 anos. Trata-se de uma idade que permite acreditar ainda num
futuro otimista...
A noção
do corpo físico é, absolutamente, de suma importância para nós.
Acredito, sinceramente, que minha tarefa principal, que é o cinema,
deve sempre procurar refletir sobre essa idéia – não de maneira
asseada ou de forma sentimental e romântica, mas com os nossos olhos
muito abertos. Há atualmente uma grande atividade – fora do cinema,
nos âmbitos da literatura, da pintura e da escultura contemporâneas
– profundamente interessada no corpo em seus múltiplos aspectos.
Gostaria que o meu cinema fosse parte dessa atividade.
Gostaríamos
que você comentasse as representações do corpo em seus filmes.
Acho que o
cinema – e o que digo não é válido necessariamente para o cinema
europeu, mas certamente para o cinema dominante, hollywoodiano, que
percorre o mundo todo, de Pequim a Tóquio, Sidney, São Francisco –
sempre promoveu a representação do corpo feminino jovem. São
ignoradas, em sua grande maioria, as pessoas com excesso ou com falta de
peso, as demasiadamente velhas ou novas, as aparentemente “feias” ou
que não correspondem aos estereótipos que a civilização ocidental
desenvolveu no final deste século XX. Quero pôr todo mundo no meu
cinema.
Sou um
homem de idade mediana, meu corpo não é mais tão jovem, bonito e
estruturalmente perfeito como talvez tenha sido, se é que alguma vez o
foi. De certa maneira, eu quero ser representado. Todos nós fazemos
parte de um mesmo fenômeno da corporalidade e não quero particularizar
e, menos ainda, corresponder aos estereótipos que a moda e a cultura
contemporâneas exigem. O que eu quero é
um uso onipresente do corpo em todos os seus aspectos, contendo tanto o
de dentro quanto o de fora, o doente e o sadio, o mutilado, o deformado,
o cego... É toda uma enciclopédia fisiológica da humanidade.
Vejo isso
realizado em algumas pinturas do século XIV, como naquelas representações
do céu e do inferno. Para criar essa enciclopédia no cinema,
inspiro-me nas pinturas anteriores ao Renascimento, no qual foram
criadas as noções do Super-homem e da Supermulher. Inspiro-me
particularmente na obra de Van Eyck, na qual encontro uma grande tendência
para os conceitos não-idealizados do corpo humano. Eu gostaria de gerar
estes conceitos no cinema.
Colocamos
essas idéias em jogo no último filme, O livro de cabeceira, no
qual chegamos ao ponto de dizer que todos os textos do mundo foram
criados pela materialidade de um corpo humano. Agora, porém, rompemos
com esse laço mágico, pois estamos todos escrevendo em computadores. A
conexão da imaginação e da inteligência com a cabeça e o ombro e o
braço e a mão e a caneta e o papel está rompida. De certo modo, o
filme fala desse rompimento entre a noção do corpo e do texto. E, se o
corpo cria o texto – ironicamente, claro, e como metáfora –, então,
em O livro de cabeceira, o texto deveria permanecer no corpo.
O livro de cabeceira
representa elementos de uma cultura oriental. Qual foi a sua motivação
para se aproximar dessa cultura? Como foi esse encontro?
Busco um
meio para juntar texto e imagem de maneira mais satisfatória. No
Ocidente, perdemos a tradição oral: nossas idéias foram geradas –
ao menos desde a invenção da imprensa – por textos escritos em oposição
a tradições orais. Ainda existe no Oriente, certamente no Japão, a
tradição da caligrafia e da escrita em hieróglifos, nos quais não há
esse tipo de divisão, pois um hieróglifo japonês é, ao mesmo tempo,
imagem e texto: pode ser lido e pode ser visto. É muito sofisticado e a
noção de imagem é muito próxima à de texto.
Em O
livro de cabeceira, eu queria examinar a relação entre o que pode
ser lido e o que pode ser visto e experimentar, concomitantemente, o
potencial de juntar texto e imagem no cinema. Não tenho certeza se pude
levar essas idéias muito longe, acho que é preciso ser muito mais
experimental. Nos próximos filmes, quero ver se há um modo pelo qual
esse intercâmbio pode ser mais sofisticado para formar a base de um
novo cinema.
O seu trabalho pode ser considerado uma pesquisa sobre
o cinema e sua relação com outras mídias?
Após 104
anos de existência, acho que o cinema perseguiu todo tipo do que
considero irrelevâncias, e não chegou a desenvolver-se de maneira
verdadeiramente cinematográfica. O cinema ainda imita muito o teatro e,
mais ainda, a literatura. De tal forma que eu diria, num momento
pessimista, que ainda não vimos cinema... Vimos até agora teatro
filmado e, principalmente, textos ilustrados.
Eu me
formei como pintor e acredito que o cinema seja, sobretudo, uma arte
visual, e não uma arte literária ou textual. Por isso, lamento ver com
freqüência que o cinema não se inspire na produção de imagens, mas
pretenda simplesmente ilustrar um texto. O que não é suficientemente
bom para a literatura e menos ainda para o cinema. Sou muito cético em
relação à narrativa, pois não considero o cinema não uma mídia
narrativa. Se você quer escrever uma história, seja um escritor ou um
romancista, não um cineasta. Acho também que as restrições do que eu
chamo de tirania do quadro, que prende tudo num espaço bi-dimensional,
geraram uma situação lamentável que felizmente, graças às novas mídias,
está sendo explodida agora.
Gostaria de
encontrar uma maneira de introduzir no cinema todas as coisas que têm
uma tradição histórica muito mais longa de produção de imagens
ocidental, pois não conheço profundamente a arte oriental. Certamente
em relação à tradição imagética ocidental, deveríamos examinar
todas as centenas de milhares ou dezenas de milhares de imagens dos últimos
três mil anos. E deveríamos utilizá-las no cinema com a mesma
intensidade que dedicamos a textos escritos.
Como o seu
cinema contribui para as práticas da representação no começo do século
XXI?
Potencialmente,
o cinema é uma mídia extraordinária. Porém, esse potencial não está
sendo suficientemente aproveitado. O cinema vem sendo usado basicamente
para ilustrar textos, para criar noções de naturalismo e de realismo.
Certamente gostaria de ver essas coisas todas, porém transmutadas num
novo tipo de cinema.
Acho que
existem quatro tipos de tiranias que devemos superar. Já mencionei
duas: a do quadro e a do texto. Penso que há também a tirania do ator.
Mas a mais importante é a tirania da câmera. A câmera sempre nos diz
como o mundo real é atraente, real e fascinante, que nunca podemos pôr
na tela. Em certo sentido, devemos começar novamente do início. Posso
oferecer duas citações: Picasso disse que pintou o que pensou e não o
que viu; e Eisenstein, quando encontrou Walt Disney na Califórnia,
disse que Walt Disney era o único que verdadeiramente fazia filmes.
Podemos deduzir de ambas citações que devemos começar a fazer cinema
a partir de uma tela negra vazia. Ou seja, não se deve partir,
essencialmente, do mundo real, mas das nossas imaginações ou do mundo
real concebido pelas nossas imaginações. Acredito, sinceramente, que,
com todas as novas tecnologias, o editor é o rei e que o câmera não
é mais tão importante porque o editor pode remanipular o mundo
completamente. Estamos diante do início de todo um metacinema novo que
pode criar uma nova mídia e um novo produto. Esta criação deve
ocorrer de forma totalmente autônoma, sem estar associada a noções
preconcebidas da cultura ocidental do século XIX.
Gostaríamos
que você comentasse a idéia de que a pintura eletrônica é a única
capaz de processar emoção, memória e imaginação simultaneamente.
Penso que há
potenciais enormes da nova mídia para abordar essa idéia. A noção de
uma mídia misturada se aproxima de nossas vidas complicadas, mas isso não
quer dizer, de maneira alguma, que seja excludente: em torno de 1430, a
pintura narrativa de Van Eyck foi capaz de abordar muitos significados
simultaneamente. Cada artista deve tomar muito cuidado e usar e
experimentar a tecnologia de seu tempo. Em nossa era revolucionada pela
TV, a tecnologia está essencialmente associada à eletricidade.
As novas
tecnologias me atraem porque nos oferecem novos meios para analisarmos a
condição humana. Mas isso se refere apenas a um lugar particular, histórico.
Tenho certeza de que em cem anos a tecnologia atual estará
ultrapassada. Penso que as invenções tecnológicas deste século são
apenas meios que não são mais sofisticados que a caneta no meu bolso.
A imaginação humana será a força diretriz – uma força real e
preciosa – qualquer que seja a tecnologia.
Quais são
seus projetos atuais?
Há vários
projetos. Você me ligou aqui numa ilha de edição em Amsterdã, onde
estamos editando uma versão complicada da ópera Rosa que fiz no
ano passado e que aborda a morte de um compositor uruguaio em 1953.
Estou também fazendo uma série de pinturas para uma minha exposição
agendada para o final deste ano em Bruxelas. Mas o projeto mais recente
é bem grande, tanto em relação ao conteúdo quanto à forma e, de
fato, quanto à distribuição. Esperamos fazer quatro filmes de duas
horas cada, uma série de CD-ROMS, entrar na Internet e também realizar
séries para a TV. O nome do projeto é A maleta de Tulse Luper (Tulse
Luper’s suitcase); Tulse Luper é um alter ego que inventei
há muitos anos, quando comecei a fazer filmes. Mas o projeto terá
ainda um outro título, que será simplesmente Urânio (Uranium).
Tudo se baseia no número atômico de urânio, que é 92: 92 eventos, 92
episódios, 92 personagens e também 92 maletas – com a maleta do título.
Sinto que a
maleta é uma metáfora extraordinária para o fim do século XX, no
qual tantas pessoas estão no caminho. Na América do Norte dificilmente
se encontra alguém que ainda mora no lugar onde nasceu. Supõe-se que
na China há 25 mil jovens que se mudam para as maiores cidades todos os
dias do ano. E sabemos do tumulto no centro da Europa: quando o muro de
Berlim caiu, as pessoas começaram a se mudar, colocando suas coisas
numa maleta e viajando rumo a novos lugares. Estamos falando de um mundo
em movimento.
Suponho,
porém, que ao analisarem o século XX daqui a duzentos ou trezentos
anos, talvez os historiadores vejam o século XX como o século do urânio:
responsável pelas ansiedades, pelo fim da Segunda Guerra Mundial com a
bomba de Hiroshima, mas também pelos anos todos da Guerra Fria de 1945
a 1989, quando o muro de Berlim caiu.
Não quero
fazer um documentário histórico, de maneira alguma. Como em romances e
filmes históricos, estaremos tomando um canto muito muito pequenino da
posição global geral: no meu caso, serão 92 personagens para
exemplificar todo tipo de noções sobre o século XX. Trata-se de um
projeto gigante que iniciaremos em breve.
Ainda tenho
outra ópera em Amsterdã, que se chama Escrevendo para Vermeer
(Writing to Vermeer), o holandês que pintou principalmente mulheres
escrevendo ou recebendo cartas. Para este novo milênio queremos fazer
uma ópera que fala da serenidade e da calma contra o contexto da violência.
Por isso nos baseamos em Vermeer, que conseguiu gerar uma grande aura de
serenidade e de ordem em suas 26 pinturas, uma obra pequena que produziu
em torno de 1670. Como você pode perceber, temos vários projetos e
muitos deles têm algo em comum.
curtas e médias
caro
telefone (Dear phone) 1977, duração: 17
min., produção: Peter Greenaway
H
is for house 1973, duração: 9 min.
Intervalos
(Intervals) 1969, duração: 7 min., produção:
Peter Greenaway
Janelas
(Windows) 1975, duração: 4 min., produção:
Peter Greenaway
o
aperto de mão de hubert bals (Hubert bals handshake) 1989,
duração: 5 min., produção: Allarts Enterprises
refazendo
detalhes verticais (Vertical features remake) 1978,
duração: 45 min., produção: Peter Greenaway, Arts Council of Great
Britain música: Michael Nyman
uma
caminhada pelo "h" (A walk through "h") 1978,
duração: 41 min., produção: BFI música: Michael Nyman
longas
a
barriga do arquiteto (The belly of an architect) 1987,
duração: 105 min., produção: Callender Company, Film Four
International, British Screen, Sacis, Hemdale
a
última tempestade (Prospero’s books)
1991, duração: 123 min., produção: Llarts, Cinea, Camera One, Penta
Film co-produção em associação com Elsevier Vendex Film, Film Four
International, Vpro, Canal Plus e NHK
afogando
em números (Drowning by numbers)
1988, duração: 108 min., produção: Allarts Enterprises, Film Four
International, Elsevier Vendex Film
o
bebê santo de mâcon (The baby of mâcon)
1993, duração: 120 min., produção: Allarts Enterprises, Ugc-la Sept,
Cine Electra, Channel Four, Filmstiftung Nordrhein Estfalen, Canal Plus
o
contrato do desenhista (The draughtsman’s contract) 1982,
duração: 108 min., produção: BFI e Channel Four Television música:
Michael Nyman
o
cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante
(The cook, the thief, his wife and her lover) 1989, duração:
120 min., produção: Allarts Enterprises, Erato Films Inc.
O
livro de cabeceira (The pillow book)
1995, duração: 123 min., produção: Asander & Wigman Productions,
Woodline Films and Alpha Films em associação com Channel Four Films,
Studio Canal Plus e Delux Productions
the
falls 1980, duração: 185 min., produção:
BFI música: Michael Nyman
zoo
- um z e dois zeros (A zed and two noughts) 1986,
duração: 112 min., produção: BFI, Channel Four Television, Allarts
Enterprises e Artificial Eye música: Michael Nyman
(*)
Evelyn
Schuler é integrante do corpo editorial da Sexta Feira e Thomas
H. Lehmann é o docente responsável pelo estúdio de vídeo da
Universidade de Basel (Basel/ Suiça) e recém-doutor com uma tese sobre
o olhar em Goethe e em Greenaway.
(Agradecemos ao corpo editorial da Revista Sexta Feira por disponibilizar a entrevista com Peter Greenaway nesta edição do informativo da CVA.)
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