 |
Entrevista
(Edição nº 10)

Segue a entrevista feita com
Renato Ortiz, sociólogo e antropólogo
da Universidade de Campinas (São Paulo - Brasil). Entrevistou-o
Samira Feldman Marzochi (*).
>> Marzochi
/ CVA
- O
que o levou a deixar engenharia e cursar ciências sociais?
Renato
Ortiz - Foi uma conjunção de fatores, de
ordem subjetiva e objetiva. Eu havia me mudado da escola agrária
em Pirassununga, equivalente ao colegial, para uma cidade
como São Paulo, na qual o processo de desenraizamento
dos laços locais e gregários é forte,
tinha me adaptado mal à Escola Politécnica,
perdido minha mãe aos dezoito anos, meu pai faleceu
quando era ainda menino, tudo isso em meio à um clima
de agitação política e cultural. Ser
estudante universitário nesta época significava
engajar-se, o que fiz intensamente. Os anos da Poli representaram
para mim muito mais uma abertura de meus horizontes interioranos
do que propriamente um aprendizado técnico. Minha vida
ficou assim esprimida entre o projeto que a família
tinha para mim, e nele se inseriam as carreiras de engenheiro,
médico ou advogado, e o que experimentava na minha
vivência universitária. Esta contradição,
em determinado momento, atingiu uma tensão desproporcional,
e minha forma de resolvê-la foi abandonar tudo, a escola,
a família, o país. Com os parcos recursos que
possuía, comprei uma passagem de ida, não me
preocupei com a volta, terceira classe, num desses navios
da linha C, faziam o circuito Santos-Vigo-Lisbôa, e
sem olhar para trás, rompi meu cordão umbilical.
Não fui bolsista ou exilado político, simplesmente
um desrraigado em busca de si mesmo, derivando à esquerda.
>>
Marzochi
/ CVA -
Por
que escolheu a França para estudar?
Renato
Ortiz - Foi o país que me deu melhores condições
para ficar. Fiz uma tentative tímida em relação
à Inglaterra, mas os estudos eram pagos, não
possuía dinheiro para isso; pensei em mudar-me para
Alemanha mas a barreira da língua inibiu-me. Como os
Estados Unidos, que só vim a conhecer depois, estavam
fora de meus planos, a França terminou sendo uma alternativa
viável. Eles reconheciam meu diploma de técnico
em Zootecnia e Indústrias Pecuárias como equivalente
ao baccalauréat, o ensino era gratuito e a permanência
no país, visto de moradia, relativamente fácil.
>>
Marzochi / CVA
-
Acha que este deslocamento influenciou sua maneira de ver
o mundo?
Renato
Ortiz - Definitivamente. Algumas vezes penso, meu ato
tresloucado, do qual eu tinha pouca consciência de seus
desdobramentos, foi de uma clarividência impressionante.
Saí de um Brasil no qual o debate era estreitamente
vigiado, e limitado pela ditadura militar, para conhecer Paris
num momento fecundo de efervescência política
e intelectual.
>>
Marzochi / CVA
-
Quem foram seus mestres de referência?
Renato
Ortiz - Minhas referências eram um tanto ecléticas
para muitos de meus contemporâneos. Marx, com sua crítica
ao capitalismo e à sociedade de classes, Nietzsche
com sua recusa à toda noção de verdade,
e Sartre, que buscava uma mediação entre o marxismo
e o existencialismo. Mas além dessas referências
abstratas, tive a ocasião de cruzar com intelectuais,
que sem o saber, tiveram um papel dinâmico e mobilizador
em minha formação de cientista social. Em Vincennes
fui aluno de François Chatêlet, de Jean Claude
Passeron, de um semiólogo argentino, Luis Prieto, além
de cruzar com Lyotard e Deleuze. Frequentei vários
cursos de Foucault no Collège de France, no Centro
de Cultura de Massas, fiz minha dissertação
de mestrado (o diplôme da École Pratique des
Hautes Études) com Edgar Morin, e frequentei as aulas
de Barthes, também diretor do centro, por fim, o encontro
com Roger Bastide, que foi para mim de uma enorme riqueza
intelectual.
>>
Marzochi / CVA
-
Cultura afro-brasileira cultura popular indústria
cultual cultura internacional-popular modernidade
mundialização. Pode-se dizer que dizer
que sua trajetória intelectual obedece a esta ordem?
Renato
Ortiz - De uma certa maneira sim, desde que acrescentemos,
muitos desses temas já continham em si germes que no
futuro deram outros frutos. A cultura popular está
contida na cultura afro-brasileira, a indústria cultural
na cultura popular, e minha discussão sobre a mundialização
tem uma conexão clara com a temática da indústria
cultural, embora seja elaborada em outros termos.
>>
Marzochi / CVA
-
Do seu ponto de vista, qual a validade atual de conceitos
como "indústria cultural", "cultura
de massas", "cultura popular" ?
Renato
Ortiz - Os conceitos nas Ciências Sociais são
históricos, sua validade permanece enquanto determinadas
questões são vigentes. Vigência quer dizer,
eles são capazes de compreender, em algum nível,
elementos da realidade. Certamente, os conceitos de indústria
cultural e de cultura popular, desde que redefinidos, reelaborados,
podem render um bom tratamento sociológico. Entretanto
o de cultura de massas, parece ter os seus dias contados.
A discussão sobre cultura de massas pressupunha alguns
passos anteriores, particularmente a idéia de homogeinização,
o que é difícil de se sustentar num mundo globalizado.
Certamente existe hegemonia cultural, relações
de poder, mas sabemos que hegemonia não é sinônimo
de homogeinização. O mundo é assimétrico,
desigual, injusto, mas heterogêneo.
>>
Marzochi / CVA
-
Sobre o conceito de modernidade, assim como sobre a mundialização,
há controvérsias. Alguns optam pela demarcação
do Século das Luzes, outros pela Revolução
Industrial, outros ainda pela modernização do
pós-Segunda Guerra Mundial. Como você marcaria
no tempo e no espaço a "modernidade"?
Renato
Ortiz - Não é fácil demarcar momentos
de ruptura, daí a controvérsia. No que diz respeito
à modernidade, creio que a disputa fica entre, os sociólogos
de um lado, e os historiadores e filósofos de outro.
Os historiadores falam da história moderna (e menos
de modernidade) a partir do Renascimento, os filósofos,
por outras razões, privilegiam o texto filosófico,
apesar desta diferença, coincidem em dizer que os Iluminismo
inaugura a modernidade no pensamento (o que confesso, tenho
dúvidas). Os sociólogos datam a modernidade
como sendo algo pós Revolução Industrial,
por isso eles opõem a sociedade moderna, quer dizer
urbano-industrial, às sociedades tradicionais, cuja
base material seria o mundo rural. Esta sociedade moderna
traria com ela novos conceitos de tempo e de espaço,
constituindo uma outra civilização.
Tendo a concordar com os sociólogos, pelo menos neste
aspecto, embora saiba que o termo sociedade tradicional
seja bastante cômodo, para não dizer inadequado,
para tratar das sociedades passadas. Sempre tive a sensação
de que Marx, quando falava de capitalismo, fazia uma clara
distinção entre um capitalismo de verdade,
ou seja decorrente da Revolução Industrial,
e um capitalismo contido ainda nas malhas da tradição,
vista por ele como feudal. Neste sentido, o feudalismo
teria se prolongado durante todo o estado iluminista para
terminar somente no momento em que a estrutura social, econômica
e tecnológica, sofreram uma transformação
radical. A Revolução Industrial é realmente
uma ruptura, algo que pode ser visto como um ato inaugural,
dando origem à um tipo de sociedade até então
desconhecida.
>>
Marzochi / CVA
-
Por que decidiu adotar o conceito "mundialização"
e não "globalização"?
Renato
Ortiz - Quando iniciei minha reflexão sobre a globalização,
no final dos anos 80, logo após meu livro A moderna
tradição brasileira, a temática
era ainda muito pouco desenvolvida no âmbito das Ciências
Sociais. As referências que eu dispunha eram poucas,
e diziam respeito sobretudo ao lado econômico, tecnológico
e mercadológico da questão. Como minha intenção
era situar-me no plano da cultura, senti um desconforto em
trabalhar a discussão nesses mesmos termos. Havia duas
tendências que dominavam o debate, uma otimista, que
via o mercado como algo planetário e homogêneo,
predominava entre aqueles que discutiam o marketing global,
e outra, inteiramente antagônica, alimentada pelos pós-modernos,
de que o mundo seria fractal, uma série de elementos
heterogêneos desconexos entre si. Eu precisava afirmar,
simultâneamente, que o processo de globalização
era uno e diverso. A forma que encontrei foi cunhar uma distinção,
o que não significa uma separação, entre
o universo da cultura e o universo material da técnica
e do mercado. Dito de outra maneira, a mundialização
pressupõe um desenvolvimento do processo tecnológico
e econômico da globalização mas se distingue
no seu interior. Parecia-me ainda que o termo global
implicava necessariamente na idéia de unicidade, o
que desfavorecia minha perspectiva analítica. Pode-se,
sem maiores problemas, dizer que existe um mercado global,
definido pelo capitalismo, assim como uma tecnologia global,
a mesma em qualquer lugar, mas é certamente pouco convincente
falarmos de uma cultura global com as mesmas características.
Para isso teríamos que supor que o nível cultural
reproduziria o movimento da infra-estrutura econômica
e tecnológica. Como meus estudos anteriores tinham
me afastado de qualquer idéia da cultura como reflexo
da economia ou da ordem material, e como o universo
da cultura é em si, diverso, preferi nomear este espaço
de diversidade utilizando o termo mundialização.
Para mim não existe, nem existirá uma cultura
global, mas sim um processo de mundialização
da cultura, que na sua amplitude planetária e na sua
diversidade, articula-se ao movimento de globalização
da técnica e da economia.
>>
Marzochi / CVA
-
A "mundialização" é para você
um processo histórico, tal como a "globalização"
o é para Octávio Ianni?
Renato
Ortiz - Certamente. Processo no duplo sentido, da história
já nela incorporada, isto é, a história
já feita, e a história que nela se incorpora,
no presente e no futuro. O processo de globalização
constitui assim uma situação, para
usarmos uma expressão da fenomenologia, na qual o novo
se insere, e o velho, longe de desaparecer, redefine-se.
>>
Marzochi / CVA
-
Como compreender as desigualdades sociais, existentes hoje
no mundo, a partir da mundialização?
Renato
Ortiz - Há vários tipos de desigualdades:
entre as nações, que possuem histórias
diferentes e se inserem no contexto global dentro de posições
assimétricas (norte x sul, desenvolvidos x subdesenvolvidos)
até as desigualdes sociais, existentes no interior
de cada país. Não é difícil perceber
este movimento desigual das forças (por exemplo bélicas)
e de distribuição da riqueza. A África
negra é talvez o exemplo mais eloquente, em nível
mundial, desta barbárie social, na qual os países
e os indivíduos situam-se no limiar da sobrevivência.
Mas há outros tipos de desigualdades, menos visíveis,
porque elaboradas simbolicamente no interior do universo da
cultura. Procurei voltar-me para elas, tentar compreender
como em escala mundial, está se constituindo uma legitimidade
e uma hierarquia de valores que interferem diretamente na
conduta dos indivíduos, independente do lugar geográfico
que habitam. Daí meu interesse pelo universo do consumo,
espaço referência na organização
dos estilos-de-vida e fonte de diferenciação
e de desigualdade em escala mundial.
>>
Marzochi / CVA
-
Acredita que o estruturalismo de Lévi-Strauss possa
estar presente como princípio, embora não como
método, em abordagens recentes sobre cultura (comunicação,
consumo, migração, linguagem) em âmbito
mundial?
Renato
Ortiz - Creio que a contribuição do estruturalismo
foi fundamental. Não é necessário ser
estruturalista para se dizer isso. Mesmo sabendo das dificuldades
que o método encerra, particularmente no que diz respeito
à histórica, as questões por ele levantadas
foram decisivas e muitas delas têm validade ainda nos
dias de hoje. As análises de discurso tem um potencial
importante na leitura dos textos que nos envolvem,
sejam eles signos, símbolos ou ideologias. O dilema
é não se deixar aprisionar nas malhas da estrutura
em detrimento da história.
>>
Marzochi / CVA
-
Concorda que, no Brasil, a entrada em cena do PT, no lugar
do PSDB, tenha representado algo como uma reestruturação
da cultura política nacional?
Renato
Ortiz - Creio que a chegada do PT à presidência
da república, contrariamente ao que diz a mídia,
e muitos intelectuais, tem um significado particular. Pela
primeira vez abre-se, no Brasil, a possibilidade de um partido
de esquerda governar a nação, e digo governar
no sentido pleno da palavra, com todas as contradições
que isso implica. Por isso o PT adquiriu uma dimensão
transnacional, que os próprios dirigentes mal tinham
consciência disso. No mundo atual, o PT é uma
exceção, um alento para que novas forças
contestatórias venham a existir, independentemente
de seu êxito ou fracasso (não se deve imaginar
que o PT seja um modelo para os outros). O problema é
que estamos habituados a pensar a política somente
em seus aspectos nacionais e temos dificuldade de inserí-la
num debate mais amplo.
>>
Marzochi / CVA
-
Como definir a Nação na Mundialização?
Renato
Ortiz - Não se trata de definir. A nação
deixou de ser o que significava anteriormente, isto é,
o lugar privilegiado da realização dos valores
universais: igualdade, democracia e cidadania. Ela já
não mais consegue aglutinar a vontade coletiva em projetos
nacionais. Isso não implica no seu desaparecimento,
seria um equívoco pensar desta maneira, mas no seu
enfraquecimento em alguns pontos. A questão das próximas
décadas será, como a nação, ao lado de
outras configurações que venham porventura emergir,
um ator político decisivo no contexto da globalização.
>>
Marzochi / CVA
-
Baseando-se em sua experiência, diria que a atividade
de docente tem relação com a produção
teórica, ou são dois campos paralelos de atividade
profissional?
Renato
Ortiz - Creio que docência e reflexão teórica
são campos paralelos mas distintos. Há um lado
da docência que certamente estimula a percepção
teórica, quando as aulas têm o caráter
de laboratório, de experimentação, mas
os currículos exigem muitas vezes dos professores uma
rotina pedagógica mais compatível com a idéia
de formação do que propriamente com a criatividade
intelectual. Por outro lado, o trabalho intelectual não
coincide inteiramente com a universidade, ele está
misturado com a vida, com a relação que cada
um de nós tem com a sociedade, a política, as
artes. Pensar é uma viagem, sair
do imediatamente dado, é necessário romper a
barreira do cotidiano, e buscar por interpretações
que destoem do que Hegel chamava da aparência,
isto é, a visão consagrada pela mídia e pelos
senso comum universitário. A sala de aula pode eventualmente
ser uma estratégia para se obter esta ruptura, mas
não é a única.
>>
Marzochi / CVA
-
A que atividades tem se dedicado nos últimos meses?
Quais foram suas últimas publicações?
Renato
Ortiz - Estive dois meses e meio, de janeiro à
março deste ano, na universidade de Stanford, Palo
Alto (Califórnia). Pude experimentar a estupidez do
governo Bush e sua pregação evangélica
contra o Iraque, meses e dias antes da invasão do país,
mesmo assim consegui ter tranquilidade para usurfruir a excelente
biblioteca que tinha a minha disposição, pesquisar
e escrever um texto novo sobre as Ciências Sociais e
o predomínio do inglês no contexto da globalização.
Fora isso publiquei ano passado, pela editora Olho dÁgua,
S.Paulo, meu livro Ciências Sociais e Trabalho
Intelectual. Saiu ainda este ano, no mês de setembro,
pela mesma Olho dÁgua, a reedição
do livro sobre Pierre Bourdieu que editei na Coleção
Grandes Cientistas Sociais da Ática. Com uma nova introdução,
justamente sobre o tema do trabalho intelectual e sua relação
com a política.
(*)
Samira Feldman Marzochi, orientanda de Renato Ortiz, é
mestre em Sociologia da Cultura e doutoranda em Ciências
Sociais pelo IFCH/Unicamp, com doutorado sanduíche
em Paris orientado pelo professor Michael Löwy. No IFCH/Unicamp,
faz parte do Conselho Editorial da Revista Temáticas.
|