Notícias da CVA (Edição nº 20)

Discurso de posse proferido pela presidente da ABA, Miriam Pillar Grossi (UFSC) - Diretoria 2004-2006


Associação Brasileira de Antropologia
Sessão Solene de Posse
9 de agosto de 2004


Esta cerimônia é para todos nós, antropólog@s , um momento importante pois nos remete ao sentido de nossa carreira, de nossa profissão, de nossa vida enquanto antropólog@s brasileir@s neste início de milênio.

Gostaria de ser breve em minha fala, mas, ser breve nestes momentos mostra-se tarefa difícil pois é necessário seguir os princípios de todo ritual, regras que nos exigem concentrar em nossa alocução o desejo de muitas pessoas, aquelas que confiaram em nosso projeto.

Muitos são os agradecimentos. Esta sala cheia de colegas, amigos, familiares, alunos, autoridades, é, para além de um sinal de carinho e afeto, a exigência coletiva de compromisso com os rumos da antropologia como ciência, como campo de produção de conhecimento, como lugar de transmissão de saber e de engajamento com uma sociedade mais justa, igualitária e com respeito às diferenças.

Minha vida na UFSC não teria sentido sem a sala de aula, sem meus alunos de graduação e pós-graduação cuja formação é para mim o sentido primeiro de minha profissão de antropóloga professora. Evidentemente não posso agradecer a tod@s mas deixo aqui meus agradecimentos especiais àqueles que deram idéias e sugestões á nossa candidatura a ABA e nos apoiaram incondicionalmente neste projeto. Devo muito aos alunos das disciplinas de Teorias da Reciprocidade Não é preciso dizer que foi junto com vocês que entendi um pouco mais os ensinamentos de nosso mestre Mauss, particularmente no que "dar" significa na política e o quanto não há social sem dom. Não há dúvida que parte deste discurso é fruto deste aprendizado de que só estamos aqui pelo que recebemos.

As linhagens

Falo em Mauss e penso no papel das linhagens teóricas na nossa identidade enquanto antropólog@s. Creio que um ritual como este, reativa em cada um de nós o respeito à nossas linhagens, àqueles que construíram a história que devemos dar continuidade como obrigação ética.

Evidentemente desejo reverenciar aqui minhas principais linhagens. A primeira delas, marca indelével em minha formação é da UFRGS no final dos anos 70, aqui representada com dois de meus professores inspiradores, Ruben Oliven que me abriu as portas da antropologia urbana e do estudo da cultura e Claudia Fonseca que, talvez sem saber me levou para os estudos de gênero, numa já distante disciplina de Família e Parentesco.

A segunda linhagem é a da Escola da UFSC onde estudei nos anos 80 com mestres como Ana Maria Beck, Ilse Scherer-Warren, Zeca, Aneliese e Neusa, no então mestrado em Ciências Sociais, e na qual aprendi a reverenciar Oswaldo Rodrigues Cabral como nosso "pai fundador". Mas a pessoa mais importante para mim aqui é Silvio Coelho dos Santos, professor que teve um papel fundamental em minha opção pela antropologia em meu segundo mês de graduação num seminário histórico realizado em Porto Alegre: "Índios - estes sobreviventes." Fascinada e instada pelo compromisso ético e político de Silvio lembro que saí decidida a ir para uma aldeia indígena nas férias de julho que se aproximavam. Fui com um colega no CIMI pedir para nos engajarmos na luta em defesa dos grupos indígenas. Demanda que foi rejeitada porque "éramos jovens demais para isto". Imputo àquela recusa o final de uma vocação para a Etnologia despertada pelo mestre Silvio. Mais de uma década depois foi Sílvio quem me trouxe como bolsista recém-doutora à Santa Catarina. Devo a ele, entre muitas coisas, este apoio que me fixou até hoje aqui, mas sobretudo tudo que em ensinou no campo da política acadêmica. Sem ele tudo teria sido muito mais difícil neste e em outros projetos que nos engajamos aqui na UFSC.

Minha terceira linhagem "explícita" é a Escola Francesa de Sociologia, cujo respeito e admiração intelectual me foi transmitida na década de 80 por meu saudoso orientador Louis-Vincent Thomas e mais recentemente por Françoise Héritier em sua generosa acolhida no Laboratoire dAnthropologie Sociale.

Um pouco de conjuntura - A ABA de volta a Santa Catarina

Trazer novamente a presidência da ABA à Santa Catarina era um desafio para aqueles como eu que haviam acompanhado de perto em 1992/1994 a gestão de nosso querido professor emérito, Silvio Coelho dos Santos com Cecília Helm e Claudia Fonseca. Assumir nossa candidatura não foi decisão fácil para nós, do departamento de antropologia da UFSC. Com apenas quinze professores nos sentimos hoje sobrecarregados com atividades acadêmicas, didáticas, administrativas. Vivemos um momento intenso nas Universidades públicas brasileiras. Temos poucos recursos humanos e materiais, estamos sob pressão de uma opinião pública que acha que "não trabalhamos" e de um governo despreocupado com o verdadeiro sentido de nosso trabalho, achando sempre que "custamos demais" ao Estado e que portanto é necessária uma "reforma". Muitos de nós aqui presentes que passamos pela ditadura militar e sonhamos com Lula na Presidência, nos sentimos entristecidos com o momento presente. No meio desta greve de servidores que já dura muitas semanas, sentimos que assumir a ABA não é uma tarefa fácil politicamente falando.


Cada Outro e todos nós ou Cada Outr@ e tod@s nós

Quando fizemos nosso programa, hesitamos entre várias palavras de ordem: Respeito à diferença, profissionalização da antropologia, ação e ética. Foi só depois de sermos eleitos que encontramos nossas palavras de ordem à partir da sugestão de uma aluna do Peter. Cada outro e todos nós. Idéia inicial, foi rapidamente se transformando, em Cada outr@ e tod@s nós, tentando incluir nela nossas reflexões de gênero, tendo claro que no masculino universal "o" nós, mulheres, não nos sentíamos mais reconhecidas. É verdade que o "gênero" é uma marca de nossa diretoria pelo número de mulheres que propositadamente fazem parte dela. É verdade que também por se ter uma mulher na presidência - cargo que é universal em sua acepção política - torna-se "engendrado", ou seja, inevitávelmente passa a ser vista como "diferente". Sei que na ABA não precisamos mais provar que "somos capazes e iguais" pois felizmente outras mulheres já me antecederam neste honroso cargo: Eunice Durhan, Manuela Carneiro da Cunha, Mariza Corrêa e Yonne Leite. Devemos à elas parte de nossa história e do reconhecimento das mulheres em nossa disciplina. É justamente porque sabemos que o gênero é importante e estrutura as relações sociais que pensamos poder, em nossa gestão, ir "além dele", ampliando os espaços políticos e a discussão sobre temas ainda pouco abordados na ABA como a sexualidade.

Não há dúvida que a ABA em nossa gestão continuará a atuar na defesa dos grupos étnico-raciais marginalizados com as já tradicionais comissões de Assuntos Indígenas (CAI) e de relações Étnico/raciais (CRER), de Direitos Humanos e com o Grupo de Trabalho sobre Laudos Antropológicos. Muitas têm sido as sugestões que temos recebido nas últimas semanas de ampliações e modificações destas comissões e dos prêmios concedidos pela ABA com o apoio da Fundação Ford e Embaixada da França. Em nossa gestão daremos continuidade ao convênio com o Ministério Público que só contrata antropólogos recomendados pela ABA para a elaboração de laudos para demarcações de terras indígenas e de quilombos. Mesmo sendo reconhecidos enquanto interlocutores privilegiados do Estado para estas questões, sabemos que este reconhecimento, quando se fala em remuneração, ainda é muito inferior ao que recebem outros profissionais envolvidos nestes processos. Lutaremos pela dignidade de nosso saber, que não pode em hipótese alguma ser visto pelo Ministério como de valor do que o de outros profissionais liberais.

Esperamos em breve assinar o convênio já estabelecido pela atual presidência com o Ministério da Cultura. Sabemos que o MINC, que tem na visão antropológica de cultura seu principal eixo teórico de ação, encontra-se num momento de grande necessidade de consultorias antropológicas para as mais variadas ações deste ministério em diferentes campos. O trabalho do IPHAN de tombamento de patrimônio imaterial, sob a liderança de nosso ex-presidente Antonio Augusto Arantes, é apenas um exemplo destes novos campos de ação dos antropólogos que pretendemos criar e regulamentar em nossa gestão.
Mas, se a ampliação do campo de ação profissional fora da academia é uma de nossas metas, queremos deixar claro que continuamos acreditando que é na formação de excelência de pós-graduação que teremos uma antropologia forte e respeitada, lugar que ela ocupa hoje no cenário da política de pós-gradução no Brasil. Somos, com apenas 10 Programas de Pós-graduação em Antropologia (e mais de 20 em Ciências Sociais com antropólogos atuando), uma pequena área na CAPES. Somos, no entanto, a área que proporcionalmente tem maior número de cursos de excelência com inserção internacional. Formamos nos últimos onze anos (1992/2003) 1.025 mestres e 289 doutores em Antropologia, profissionais que hoje atuam nos mais variados cursos e departamentos universitários. Garantir o respeito e o reconhecimento da área de antropologia em sua trajetória histórica de excelência acadêmica pelas principais agências de financiamento da pós-graduação, CAPES e CNPq é também um dos desafios que nossa gestão pretende enfrentar.

O ensino de antropologia é um dos eixos centrais de nosso programa. Queremos ampliar os fóruns de reflexão e troca de experiências didáticas, assim como os campos no qual ensinamos antropologia. Sabemos que somos uma ciência fundamental para muitas disciplinas e queremos que a ABA lidere o processo de criação de um fórum de professores - para aqueles sócios que estão em outras instâncias de ensino e também como forma de influir nas políticas públicas no campo da Educação.

Sabemos que visibilidade e respeito internacional também se constroem com publicações de qualidade, como é o projeto da VIBRANT - Virtual Brazilian Antropology, revista que para aqueles que ainda não conhecem será publicada brevemente pela ABA exclusivamente em meio eletrônico e em línguas estrangeiras. Trata-se de um dos dois projetos do Gustavo de dar visibilidade internacional ao que é produzido por nossos antropólogos. O outro foi a criação do criação do Conselho Mundial de Antropologia, criado em junho em Recife e que estará sob a responsabilidade da ABA nos próximos dois anos.

No campo das publicações queremos apoiar a rede de editores de revistas de antropologia, pequeno número de revistas de grande qualidade acadêmica que hoje dão sustentação indelével a nosso campo como a Revista de Antropologia da USP, Anuário Antropológico, Mana, Horizontes Antropológicos, Ilha, Campus, Antropolíticas, Antropológicas.

Para finalizar queremos lembrar que a ABA fará 50 anos em 2005 e que temos o compromisso de honrar com seu lugar de liderança incontestável da comunidade científica brasileira. Respeitosos da tradição de excelência acadêmica de nossa associação, pretendemos continuar enfrentando os desafios que se apresentam à transmissão do saber, formação, ação e inserção profissional dos antropólogos no país através de uma ampla reflexão sobre os rumos da disciplina e seus diferentes compromissos sociais, acadêmicos e políticos.

O respeito à diversidade faz diferença. Em nome deste princípio ético nos comprometemos a fazer de nossa gestão um espaço coletivo de escuta, diálogo e efetiva participação dos sócios na ABA, em suas lutas e atuações históricas e na consolidação dos novos papéis que temos sido chamados a ocupar. Convidamos portanto todos os antropólogos e antropólogas aqui presentes que ainda não são sócios da ABA a associarem-se nela.

Agradecimentos

Por fim farei alguns agradecimentos. Deveria fazer muitos mais mais o adiantado da hora me obriga a reduzi-los aos mais próximos neste momento.

Inicialmente gostaria de agradecer a presença de meu pai, Sérgio e minha mãe Esther, pais amorosos e exemplos inspiradores de fazer ciência, ética profissional, compromisso social e político.

Em segundo lugar gostaria também de manifestar minha gratidão pela confiança irrestrita que recebemos de nossos colegas da diretoria que deixa hoje a ABA: Gustavo, amigo de muitos anos, que firmemente e com seu entusiasmo avassalador me convenceu a que me candidatasse a este lugar; Antônio, companheiro de um histórico verão em "Lora Del Rio" sob 45 graus na Andaluzia, que tem sido ao longo de vários anos interlocutor fiel em lutas e embates em muitas políticas antropológicas; Henyo, Carlas e Manuel, cada um do seu jeito foram ótimos "transmissores de conhecimento".

Quero igualmente agradecer os colegas desta diretoria que apostaram em nosso projeto e já vêm confiando seu tempo e suas energias para dar continuidade ao sonho de nossos predecessores na ABA. Peter, ícone de minha geração, autor inspirador de minhas primeiras horas na Antropologia que tão generosamente aceitou ser meu vice quase embarcando num avião para a Bahia; Chica/Cornélia, cúmplice de muitos sonhos cancerianos em terras gaúchas e francesas, que aceitou acumular suas responsabilidades administrativas na UFRGS com o "fácil trabalho" da secretaria da ABA; Jean, nossa "titular" na UFSC, intelectual inspiradora por seu saber irradiador e sua paixão por rituais festivos; Antonella, que já havia revelado seus talentos de organização e liderança com a organização do Seminário de Ensino de Antropologia, companheira que veio reforçar a linhagem etnológica de nossa inspiradora mestra Lux Vidal em nosso departamento; Flávio, colega "recém chegado" mas que já se tornou indispensável por seu humor e engajamento em todos nossos projetos coletivos. Elisete, colega das mais próximas no campo de gênero, ex-orientanda que hoje lidera a criação de mestrado em Antropologia em Natal, Jane, companheira do Fórum dos coordenadores e de muitas outras lutas; Emília com quem compartilhamos tantas coisas neste último inverno parisiense e Lia que não pode estar aqui hoje mas que compartilha conosco este momento à distância.

Sou imensamente grata aos colegas do departamento de antropologia da UFSC que não só nos apoiaram neste projeto mas já tem se engajado concretamente nas atividades da "comissão de apoio local". Alicia, atual chefe do depto que tem dado o suporte logístico a não pequena secretaria da ABA, amiga que desde uma ANPOCS em Caxambú no início dos anos 80 compartilha comigo a sala e mil projetos; Alberto, cuja amizade e compadrio já remonta há mais de 30 anos, desde os tempos de nossa militância estudantil secundarista no seio do IEPES em Porto Alegre; Rafael, atual coordenador do PPGAS, mestre e músico inspirador cuja seriedade e sabedoria é um exemplo para todos nós; Ilka, colega das primeiras horas e de muitos sonhos já realizados; Maria Amélia, cúmplice na culinária e no cotidiano do departamento; Regina, amiga do gênero, colega de experiências e profundas descobertas; Theo, que conheci nos bancos escolares da Sorbonne (num curso sobre citações bibliográficas dado por um importante africanista) e com quem hoje compartilho idéias e perplexidades sobre o campo da violência; Oscar, com quem muito troquei e refleti nos "tempos da coordenação"; Marnio e Miriam, quase "recém chegados" mas que trouxeram de Curitiba garra e energia para nosso grupo e por fim Carmen, cujo apoio, dentro e fora da vida acadêmica, tem sido fonte inspiradora e porto seguro desta e outras aventuras.

Muito próximas de meus colegas de departamento estão minhas companheiras do "gênero" que é feito há mais de 15 anos na UFSC: Sônia Miguel, Luzinete, Mara, Joana, Jura, Suzana, Carmem Vera, Zahidé, Claudia, Cristina e tantas outras que na REF, no Fazendo Gênero, na linha de gênero do DICH, têm sido muito mais do que colegas , mas companheiras de muitas lutas acadêmicas e militantes.

É claro que não haveria gênero para mim na UFSC sem o NIGS e tod@s que dele participam: entre elas as do dia a dia dos últimos tempos, Roze, Rita, Juliana, Simone, Flávia, Susi, Bernadette, Karla, Camila, Flávio, Myriam Santin, Miriam Adelman, Marlene, Analba, Ari, Marcelo, Leandro, Eduardo, Adriano, e a mais nova integrante Fernanda. Seria impossível de dizer em poucas palavras o quanto vocês têm sido fundamentais para tantos projetos e, em particular neste momento de transferência da ABA para a UFSC. Vocês sabem o quanto significam para mim.

Para finalizar gostaria de agradecer o apoio de Terezinha aqui na Sala dos Conselhos, que nos deu todo o apoio logístico para esta cerimônia e festa; da direção do CFH, professores João Lupi e José Medeiros; dos Pró-reitores e seus representantes aqui presentes, e muito particularmente pelo apoio da UFSC aqui representada por nosso Magnífico Reitor, Professor Lúcio Botelho.