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Coluna (Edição nº 50)
"De estudante de antropologia a antropólogo de Estado: apontamentos
sobre uma peculiar transição",
por Marcelo Barbosa Spaolonse
(*)
Nos últimos anos, vemos no país um crescente movimento de incorporação
de antropólogos ao quadro funcional de instituições públicas. Em geral,
essas contratações visam preencher uma carência de técnicos
especializados para atuar em situações que envolvam grupos culturalmente
diferenciados, como povos indígenas, quilombolas ou aqueles que se
convencionou denominar povos e comunidades tradicionais - incluindo-se
nesta expressão uma infinidade de grupos, como ribeirinhos,
seringueiros, quebradeiras de côco de babaçu, cipozeiros, faxinalenses e
tantos outros. Nesse contexto, ingressei através de concurso público no
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), para atuar,
como antropólogo, em processos de regularização de territórios
quilombolas. Sendo aprovado durante o mestrado, pude vivenciar uma
peculiar transição, passando, no âmbito da prática antropológica, do
campo acadêmico ao profissional, o que de certo modo atomiza a própria
inserção da Antropologia como saber técnico especializado e com
autoridade reconhecida nas questões de cunho étnico-cultural.
Nessa
transição, o primeiro estranhamento que tive foi em relação ao contexto
do trabalho. A despeito de ambos os campos - o acadêmico e o do
funcionalismo público - apresentarem um arraigado corporativismo
institucional, este se manifesta de maneira específica em cada qual, com
princípios, procedimentos e objetivos diversos. Na Universidade,
enquanto estudantes, estamos predominantemente envolvidos em atividades
de ensino e pesquisa (e extensão, em menor grau), num sistema de
relações hierárquico baseado na titulação acadêmica, na autoridade
científica e na produção de conhecimento, este alicerçado na
experimentação, criatividade intelectual e no debate teórico, e por
vezes constituindo, pelo menos nas ciências humanas, como que um mundo à
parte, com suas próprias motivações, interesses e realizações. Por outro
lado, o que observei a partir do meu ingresso no INCRA, um órgão federal
executor de políticas governamentais específicas, foi um rígido
corporativismo fundado no histórico de atuação do próprio órgão, ao qual
se sobrepõe uma constante reconfiguração conjuntural de ordem política,
vinculada às diretrizes, interesses e concessões do governo em situação.
Além
disso, o trabalho com comunidades remanescentes de quilombo é uma
relativamente recente atribuição do órgão (desde 2003). Até então, não
existia um corpo técnico especializado e qualificado para tal ação, o
qual começou a se criar após os últimos concursos (2004 e 2005), sendo
que o mais recente incorporou, pela primeira vez, antropólogos em seus
quadros. O trabalho ao qual o INCRA (e seus funcionários) está habituado
a executar é a reforma agrária convencional, ou seja, basicamente
fiscalizar e desapropriar grandes fazendas para a implantação e
desenvolvimento de assentamentos de pequenos agricultores. Existem
outras atribuições importantes, como a regularização fundiária e, de
modo geral, a gestão das terras no meio rural, como concessões para
desmembramentos, loteamentos, aquisição de terras por estrangeiros,
etc., porém em nenhuma delas é preponderante o aspecto étnico e
histórico como no caso das comunidades quilombolas. Logo, nesse ambiente
institucional, onde predominam os profissionais das ciências agrárias,
mesclados a diversos outros com funções burocrático-administrativas, ou
políticas, é de se compreender um relativo desconhecimento da natureza
do trabalho antropológico. Portanto, um primeiro esforço a ser
empreendido na sua inserção institucional, e durante algum tempo, é no
sentido de posicioná-lo em tal contexto, deixando claro qual a
contribuição que a antropologia, através de um antropólogo, pode
oferecer. E qual seria essa contribuição?
A
atuação nos procedimentos de regularização de territórios quilombolas,
dentro da instituição responsável por sua execução, possibilitou-me uma
nova perspectiva na compreensão do trabalho antropológico. Além do
aspecto teórico e investigativo da pesquisa, a Antropologia figura, em
tal contexto, como saber técnico especializado indispensável à execução
da referida política pública. Os objetivos são pré-definidos, pois se
espera que o antropólogo forneça determinadas respostas, e não apenas
demonstre sua erudição ou capacidade de argüição e instrumentalização
teórica. Claro que tais habilidades também estão em jogo, mas não se
sustentam por si, como ocorre no âmbito acadêmico, senão dão sustentação
a pareceres conclusivos que desencadeiam ações objetivas. O aspecto
crucial desse tipo de trabalho, que o difere do trabalho propriamente
acadêmico, é sua característica de instrução processual. A regularização
de territórios quilombolas é uma atribuição de Estado, fundamentada em
legislação específica, se realiza por meio de procedimentos
administrativos, que em certos casos se desdobram em processos
judiciais. Logo, o trabalho é fortemente demarcado por exigências
burocráticas e jurídicas, às quais, para se tornar inteligível, o
discurso antropológico necessariamente deve criar uma linguagem de
interface. No entanto, o trabalho de pesquisa (etnográfica,
bibliográfica e documental) também se faz necessário, o que gera certa
fluidez de conteúdo dentro de um necessário formalismo na apresentação.
Nada muito diferente do que se faz academicamente, contudo com estilo e
objetivo diverso, uma vez que adequado à sua função, como peça técnica
para instrução processual (e não mais a formatação monográfica à qual
estamos habituados na academia) contendo uma conclusão propositiva, que
norteará a decisão do órgão nos consecutivos procedimentos para a
identificação, delimitação, demarcação e titulação de um território
quilombola.
E o
que se espera que um antropólogo faça? Basicamente, a atuação do
antropólogo nesses processos se concentra na elaboração de estudos e
relatórios que vão descrever e contextualizar a reivindicação de uma
comunidade quilombola por um território específico, costurando, por
assim dizer, sua identidade étnica, trajetória histórica e
territorialidade. O produto que se espera é uma proposta de
delimitação territorial, na qual se fundamentará o Relatório Técnico de
Identificação e Delimitação (RTID), que por sua vez irá direcionar todas
as demais etapas do processo. Além desta significativa responsabilidade
inicial, o caminho a percorrer até a conclusão do trabalho é quase
sempre longo e conflituoso, já que se trata da restituição de direitos,
no mais das vezes, há muito alienados. Neste percurso, existe a
possibilidade (aliás, bem provável) de interposição de contestações e
recursos administrativos ao RTID, os quais devem ser respondidos através
de pareceres e informações técnicas pelo antropólogo e profissionais de
outras áreas (conforme a natureza dos argumentos), que junto aos
pareceres jurídicos, irão subsidiar os conselhos decisórios do órgão.
Isto sem falar na possibilidade (também muito provável) da abertura de
ações judiciais contra o processo administrativo, nas quais o
antropólogo também é chamado a instruir tecnicamente. Percebe-se assim,
evidentemente, a interface com o campo jurídico, e logo, o já dito
necessário esforço de tradução dos conceitos e métodos antropológicos,
para que se tornem mais inteligíveis e gozem de maior credibilidade
junto aos profissionais do direito.
No
meu ver, o que ocorre é um tipo de objetivação e intrumentalização da
Antropologia, com fins específicos, num movimento de síntese necessário
ao seu reconhecimento enquanto saber especializado. Há décadas, trabalho
análogo é realizado no caso da demarcação de terras indígenas,
entretanto, parece que a antropologia acadêmica reluta em assumir tal
responsabilidade, sistematizando e introduzindo esse campo de atuação
nos cursos, desde a graduação. Com a demanda cada vez maior de
antropólogos para as questões que envolvem os grupos étnicos ou
culturalmente diferenciados, essa situação parece estar mudando,
aproximando o saber acadêmico das realidades sobre as quais ele se
constrói, o que há de ser um fértil terreno para a disciplina.
(*)
Marcelo
Barbosa Spaolonse: Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário
(com habilitação em Antropologia) da Superintendência Regional em Santa
Catarina do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra.
Possui mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de
Santa Catarina - Ufsc (2006) e graduação em Comunicação Social (com
habilitação em Jornalismo) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho - Unesp (2002). Tem experiência na área de Antropologia,
com ênfase em Etnologia Indígena e Identidade Étnica, atuando
principalmente nos seguintes temas: xavante, ritual, performance,
relações interétnicas e territorialidade quilombola. Atualmente (desde
2006), trabalha em processos de regularização de territórios para
comunidades remanescentes de quilombo.
Atualizado em 23/06/09
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