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Coluna (Edição nº 49)
"A Retomada Kalankó - E a (des) retomada do respeito à indianidade",
por Alexandre Ferraz Herbetta
(*)
Em julho passado, participei de parte do processo de retomada da terra
Kalankó. Os Kalankó se constituem por cerca de 300 pessoas que vivem no
alto sertão de Alagoas, mais especificamente em algumas localidades no
interior do município de Água Branca. Eles são descendentes de algumas
famílias que migraram para a região a partir da dissolução do aldeamento
missionário de Brejo dos Padres/Pe, no final do século XIX e ainda não
possuem uma terra demarcada.
Essa
retomada foi um evento único na região e seus desdobramentos trazem
importantes sentidos para pensarmos a questão indígena no Brasil.
Conheci os Kalankó em novembro de 2001 e desde então nunca mais deixei
de ir para o sertão nordestino, fascinado pelo universo
indígena-afro-sertanejo, já que eles se assemelham física e
culturalmente aos sertanejos, mas atribuem-se e são reconhecidos
principalmente a partir de uma identidade indígena.
Isso
ficou evidente em julho de 1998, a partir da realização de uma
cerimônia/apresentação no centro de Água Branca - baseada no ritual do
toré, que conecta a cosmologia à dança e à música. Desde então, eles
repetem este momento todos os anos, em julho, também como forma de
marcar sua presença/posição política e reivindicar seus direitos,
especialmente a demarcação de sua terra.
Neste
ano, quando fui para lá, buscava justamente presenciar tal ritual de
celebração do grupo, que completava 10 anos de atuação política. Na
primeira noite em que estava em Água Branca, no tradicional ponto de
encontro da cidade, o bar da Marciana, encontrei Tonho, líder indígena e
agente de saúde, que há dois anos não via. Ele me colocou a par dos
últimos acontecimentos Kalankó.
Alguns meses antes, a comunidade planejava a retomada da grande fazenda
que fica bem no centro de todas as diversas localidades Kalankó e é onde
se localiza a plantação de feijão da comunidade, produto essencial para
a sobervivência de todos. Tal decisão foi fruto de muita conversa e de
muitas reuniões do conselho indígena.
Quando estava tudo pronto para a retomada, uma semana antes do ato, um
grupo que pertence ao M.S.T. apropriou-se da mesma área, trazendo
dúvidas e ameaças aos planos indígenas. As mulheres da comunidade,
porém, não aceitaram a situação e por intermédio e incentivo delas, os
líderes Kalankó resolveram agir imediatamente, fazendo a retomada de
outra fazenda – de menor extensão, mas também entendida como parte da
terra tradicional, esta localizada ao lado de Januária, a primeira das
localidades Kalankó – o que indicava, já, o início de um processo de
reconquista da terra tradicional.
Em 12
de junho, então, a comunidade se reuniu no terreiro de Januária para
fazer um toré. Após a meia-noite, enquanto as mulheres arrumavam suas
coisas, os homens marcharam até a fazenda e montaram acampamento. Na
manhã seguinte, a terra já era (de posse) Kalankó. Ao menos para quem
pensa a questão indígena a partir dos direitos e deveres dos mesmos e do
Estado.
Desde
então, a vida na nova aldeia tornou-se intensa. Parentes de todas as
outras localidades dirigiram-se para lá. A lona, material usado
inicialmente, deu lugar à palha, material usado tradicionalmente. A
comunidade se preparava para celebrar os 10 anos de afirmação étnica com
a conquista da nova terra e acertava os últimos preparativos para a
realização do evento.
Neste
ínterim, os líderes Kalankó foram chamados para uma audiência com o juiz
da comaraca de Água Branca e com o (ex?) proprietário da fazenda. Apesar
do clima tenso, ambos acabaram, ao menos, respeitando a atitude da
comunidade e a forma como a retomada estava sendo feita – sem o uso da
lavoura do (ex?) proprietário. A comunidade se comprometeu também a
buscar os direitos do mesmo.
Além
disso, o cacique Kalankó, Paulo, junto com Zezinho Koyupanká, foram
convocados para uma reunião com o Ministério Público, em Maceió, onde
receberam o apoio da instituição. Outros grupos ou instituições também
manifestaram seu apoio à retomada – o sindicato dos trabalhadores
rurais, o CIMI, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e moradores da
cidade – indicando que a retomada foi também um acontecimento que
intensificou a discussão sobre a questão indigena na região. Uma
circunstância local já chegara à capital do estado.
O
poder federal precisava se manifestar. Cabia ao Estado tomar alguma
posição. A opinião do Estado, neste caso, é em parte expressa através da
instituição responsável pela questão indígena no país. A FUNAI,
instituição em questão, em nenhum dos momentos descritos acima
reconheceu e apoiou a retomada Kalankó, desconsiderando-a e ignorando-a
como parte integrante e pontual de um processo mais amplo - de justiça
social. Pior. Ela justificou-se questionando a própria identificação
étnica do grupo - apesar de já existir um reconhecimento oficial desde
2003.
Mesmo
sem o Estado/FUNAI, a aldeia, já coberta de palha de ouricuri, celebrou
o momento nos dias 27 e 28 de julho de 2008, conversando, debatendo e
praticando o toré. O evento que foi batizado como “Encontro dos Povos
Indígenas do Alto Sertão Alagoano”, contou com a participação de
inúmeras entidades e cidadãos de todas as partes do país, além dos povos
indígenas Koyupanká, Pankararu, Katokin e Karuazu – indicando o
fortalecimento do movimento indígena e indigenista na região e a
conscientização de parte da sociedade sobre a questão. O alto sertão
estava em festa – ainda por cima, debaixo de chuva. Festa no alto
sertão, contudo, tem o sentido de reflexão e luta.
O
Estado também foi convidado para a festa, mas não quis participar –
apontando para uma prática ainda ligada a “outros” interesses e
desvinculada do discurso da justiça social e da própria constituição. O
Estado não quis celebrar a festa sertaneja, preferindo se calar.
Tal
ausência mostra que, lá no alto sertão alagoano, ser ou não índio está
relacionado a uma forma de classificação social que exprime a oposição:
índio / não-índio, e na qual a maior parte do contingente populacional é
classificada na segunda opção, eximindo o Estado – tão “festeiro”, mas
lá, silencioso - de suas responsabilidades sociais, principalmente de
garantia da terra.
Logo, festa indígena para Estado brasileiro aponta para a omissão.
Posição cômoda para um Estado que faz suas festas sem convidar os índios
do alto sertão alagoano.
(*)
Alexandre Ferraz Herbetta: Possui graduação em Historia pela
Universidade Federal de Santa Catarina (2003) e mestrado em Antropologia
Social pela mesma universidade. Atualmente é professor do Ensino Médio e
doutorando do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da
PUC-SP. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Etnologia
Indígena, Política e Artes.
Atualizado em 08/05/09
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