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Coluna (Edição nº 48)
"A Lévi-Strauss: pelo Sim, pelo Não",
por Oscar Calávia Sáez
(*)
A ultima leva de homenagens a Lévi-Strauss –ele, se alguém não sabe,
cumpriu cem anos em novembro de 2008- tem um atrativo raro nesse tipo de
solenidades. Ela invita a se perguntar quem é afinal o homenageado, ou a
descobrir uma obra que supostamente já deveria ter essa evidencia
superlativa dos monumentos.
A
homenagem tem o tamanho oficial que se espera para uma figura destinada
ao Panteão dos Grandes Homens. O presidente da Republica Francesa foi
dar os parabéns ao sábio em seu domicilio no dia do seu centenário. Os
diretores do Quai Branly deram seu nome ao teatro incluído no Museu.
Representantes dos mais diversos âmbitos da cultura se revezaram em
Paris na leitura publica de suas obras. Exposições, livros e
monográficos comemorativos, matérias nos principais jornais pipocaram um
pouco por toda a parte, sugerindo que essa identidade esta clara:
Lévi-Strauss, o criador do estruturalismo, o antropólogo do século, o
acadêmico cultivador das letras francesas, um intelectual consagrado.
Mas ao longo destes últimos dez anos, e à margem desse reconhecimento
oficial, têm proliferado outras avaliações da sua obra que a apresentam
como algo quiçá não tão próximo do panteão. Como um autor a ser
descoberto, como uma ruptura: como a obra em que o pensamento indígena
entra de vez na filosofia, passando por cima das hierarquias de sempre;
como uma historização radical da antropologia; como a irrupção do
poético no cientifico; como a desagregação dos essencialismos
ocidentais; ou como um humanismo interminável, irredutível a qualquer
idéia completa do humano; em soma, como algo que se situaria melhor na
barricada que no panteão. Muitos poderiam se perguntar que Lévi-Strauss
é esse, tão inverossímil, tão diferente do estereotipo corriqueiro. Será
que alguns autores (relativamente) jovens estão se apropriando, ainda em
vida, de um nome ilustre para por em sua boca blasfêmias que nunca
pronunciaria um homem antiquadamente adepto da ordem e das honrarias?
Será que ninguém antes tinha compreendido as obras de Lévi-Strauss; ou
será, ate, que ninguém antes tinha lido as obras de Lévi-Strauss?
A ultima e pior das hipóteses tem sem duvida muito de verificável. Os
redescobridores de Lévi-Strauss referem-se, sobretudo, à sua obra de
maturidade –por dizer pouco, já que a escreveu entre os cinqüenta e os
oitenta anos - a saber, Mitológicas, entendendo por tal os quatro
volumes publicados com esse titulo e os três livros, algo menores, que
seguiram abordando o mesmo tema (A Via das Mascaras, A oleira
ciumenta, Historia de Lince). Mitológicas é uma obra
monumental, e sabemos que na academia o tempo não sobra para a leitura.
A imagem mais comum de Lévi-Strauss esta associada a textos muito
anteriores e mais breves, muito especialmente a textos programáticos
como os que compuseram a coletânea Antropologia Estrutural, a algumas
obras maiores mais suscetíveis de resumos, como Estruturas
Elementares do Parentesco, a alguns excertos de suas obras menos
resumíveis (a Obertura e o Finale do primeiro e quarto
volume de Mitológicas, por exemplo), e naturalmente a sínteses,
compêndios e resenhas escritas com um grau de simpatia variável, e
muitas vezes com demasiada pressa. O Lévi-Strauss que emerge desse tipo
de leitura, a mais corriqueira na academia, é um Lévi-Strauss ilustre e
arrogante que tem pouco a ver com esse Lévi-Strauss levemente
anarquizante de que antes falávamos. Por que não dizer, é também um
Lévi-Strauss muito mal-afamado, um desses epítomes da sobranceria e da
cegueira da ciência ocidental moderna, uma ominosa figura paterna útil
sobretudo para marcar distancias, focar revoltas e ser pixada por
esquerdistas, feministas e antropólogos críticos. Fazer o que? Forca é
reconhecer que não ha historia da ciência, ou historia sem mais, que
avance regularmente sendo justa com o passado. A vontade de criticar,
superar, deconstruir, inovar e seguir adiante encontra muito mais
incentivo nas caricaturas que nos retratos matizados dos ancestrais. Mas
ha um limite alem do qual perde-se uma parte excessiva da herança. O
Lévi-Strauss dos pixadores –e, porque não, também, o de muitos
aduladores - é um Lévi-Strauss pouco e em geral mal lido, de praxe
reduzido a uma lista de equívocos.
O
mais popular desses equívocos pode ser o do Lévi-Strauss avesso à
historia, aquele que negou a historicidade das sociedades primitivas,
por ele batizadas como “sociedades frias”. Uma simples leitura dos
textos em que esse rótulo aparece deixa claro que para Lévi-Strauss não
ha nada fora da historia, e que um dos modos em que pode se estar dentro
da historia é tentando nega-la. Falar em sociedades “frias” é postular
outros modos de viver a historia diferentes desse grande relato entoado
pelo historicismo ocidental. Mas os textos em questão –já demasiado
antigos- são preteridos em favor do papagueamento de juízos velhos e
deficientes.
Outro
mal-entendido, ou melhor, outro juízo leviano, tacha Lévi-Strauss como
antropólogo que jamais fez trabalho de campo ou –em versões melhor
informadas - que se satisfez com uma rápida etnografia, não
especialmente brilhante, dos Nhambiquara, e breves visitas aos Kadiwéu,
os Bororo e um grupo de Tupi-Kawahiw, sem nunca ter voltado ao campo e
sem nutrir nunca um verdadeiro interesse pela etnografia. Aparte outras
considerações –os três meses com os Nhambiquara não eram tão
insignificantes assim na sua época, menos ainda nas condições em que
foram realizados; por descontado ninguém leu a monografia a que deram
lugar - esse juízo, muitas vezes repetido, tende a confundir a qualidade
da etnografia com a sua extensão. Basta ler algum dos breves ensaios de
Tristes Trópicos para notar que os poucos dias de visita de Lévi-Strauss
deram muito mais que pensar que os anos despendidos em campo por alguns
outros pesquisadores. Pensemos na muita tinta que etnógrafos curtidos
fizeram correr a partir de duas ou três observações Lévi-Straussianas a
respeito das aldeias bororo. Ou nas longas dissertações de Derrida a
respeito de uma anedota –a “lição de escrita” do chefe nhambiquara - que
muitos veteranos do campo teriam descartado como insignificante. A
qualidade etnográfica, de resto, seria algo limitado à pesquisa de
campo, ou seria antes função de uma capacidade de perceber o concreto?
Afinal, vem principalmente de Lévi-Strauss a atenção da antropologia
contemporânea ao sensível –os sabores, os cheiros, a preparação dos
alimentos, os dados corporais. O menosprezo do Lévi-Strauss etnógrafo
vem, em boa medida, de uma concepção burocrática da etnografia.
Não
menos lamentável é a idéia de um Lévi-Strauss semeador de dicotomias,
cuja principal diversão seria dividir toda e qualquer questão em duas
grandes colunas com grandes rótulos –natureza-cultura, frio-quente,
sistemas elementares e complexos, etc. Não são poucos os autores que se
sentem estruturalistas o dia em que perpetram uma boa tabela binária.
Pouco importa que o homenageado centenário tenha dito repetidas vezes
que as dicotomias nunca passam de recursos propedêuticas, ou inclusive
que os sistemas dualistas são sempre ideologias aptas para esconder
outra ideologia de diferente numero. Na esteira dessa mesma noção,
podemos citar também o fantasma do Lévi-Strauss mentalista, embora não
se saiba bem o que isso quer dizer de um autor que se delicia em
encontrar as mesmas estruturas do pensamento humano inscritas na
matéria.
Podemos contar também com o Lévi-Strauss lingüista, que teria subjugado
a antropologia com a ajuda de um exercito estrangeiro, o da lingüística
estrutural, ou, numa variante ainda mais penosa, da matemática. Dessa
idéia deriva outra, a do Lévi-Strauss formalista, pronto a abstrair do
material humano seqüências narrativas fixas, diagramas e equações. Bom,
o próprio Lévi-Strauss se encarregou de marcar distancias a respeito do
formalismo na sua polemica com Vladimir Propp, se manteve alheio aos
muitos ensaios formalistas que proliferavam no estruturalismo dos anos
60, e nunca parece ter tomado da lingüística e da matemática mais do que
alguns conceitos e algumas inspirações –cada vez menos visíveis. O texto
lévi-Straussiano tem densidade literária, e, seja qual for a relevância
dos seus diagramas e das suas equações, por eles passa, não deságua
neles. Mas o anátema lançado contra o formalismo lévi-straussiano tem
pelo menos isso de formalista: não permitem que alguns fatos vis
perturbem uma bela tese.
Mas a
caricatura mais abrangente é a que faz de Lévi-Strauss o representante
máximo do modernismo cientifico, ou do positivismo, empenhado em levar
as ciências humanas para a geladeira das ciências naturais, em reduzir a
riqueza da experiência humana a invariantes formularias, e em afogar o
sujeito criador em estruturas predeterminadas. Um cientista sem coração
disposto (felizmente em vão) a transformar a antropologia numa espécie
de entomologia desprovida de sutilezas e de interesse pela subjetividade
do pesquisador e, é claro, do nativo. Essa imagem quadrangular segue
firme e forte, por muito que na obra de Lévi-Strauss seja impossível
encontrar essas reduções, por muito que no lugar das invariantes só se
encontrem por toda parte variações e, enfim, por muito que esse
cientista tão fleumático tenha sido um dos primeiros antropólogos a
publicar os meandros da sua intimidade de pesquisador, com uma pungência
que seria vão procurar nas paginas de muitos arautos da subjetividade.
Mas não deveríamos caricaturizar as caricaturas, tomando-as pelo seu
lado mais fraco. Toda essa leitura pobre de Lévi-Strauss pode ser
exagerada, tendenciosa e desproporcional, mas isso não quer dizer
necessariamente que erre no ponto: é possível encontrar, nos próprios
escritos de Lévi-Strauss, declarações que fundamentariam sem duvida
nenhuma todos esses retratos que acabamos de descartar. Com certeza,
Lévi-Strauss expressou, sobretudo em alguns textos de Antropologia
Estrutural, sua aspiração a que a antropologia –a rigor, a etnologia
- pudesse ascender ao rigor epistemológico das ciências naturais, e
contava para isso com a ajuda da fonologia, que já havia elevado a
lingüística a esse patamar. Imaginou grandes calculadoras ou equipes de
matemáticos que poderiam realizar as analises necessárias, inacessíveis
a uma mente só e nua. Sem toda essa parafernália, ele já foi capaz de
reduzir todos os sistemas de parentesco a dois regimes de troca e três
opções de casamento, e toda a fantástica proliferação dos mitos a uma
única formula canônica, uma simples equação. Igualmente é notória a sua
retranca perante o contexto etnográfico, muitas vezes invocado para por
sob suspeita suas analises baseadas em informes de segunda mão. Ele
chegou a se defender desse argumento por uma redução –ou ampliação- ao
absurdo da pesquisa de campo: o campo é potencialmente infinito, e a
fidelidade ao contexto acaba numa balburdia demasiadamente prolixa. Se
ele começou suas Mitológicas pela América do Sul e não pela América do
Norte foi –ele mesmo disse- porque a respeito da primeira havia na época
menos dados, que permitiam pensar melhor. Quando os dados a mão não
apóiam suas deduções transcendentais, ele prefere supor que o problema
esta na empiria: basta explorar mais um pouco para que a confirmação
apareça. Em outro capitulo dessa galeria de retratos, é inegável a
atração de Lévi-Strauss pela primitividade, seu amor às sociedades
“simples” ou “frias”, dotadas de algum privilegio intelectual ou moral.
Pelo menos é possível abrange-las e pensa-las no seu conjunto, pelo mais
elas são melhores representações do humano que esses formigueiros
estocásticos que chamamos grandes civilizações. Não por acaso,
Lévi-Strauss manifestou sempre uma grande estima por Rousseau e sua
obra. Ou, em outros termos, é inegável sua visão decididamente
pessimista da historia –da historia em si, e do viver na historia, ou
seja, da historia para si, como signo do humano. Um autor que escolhe a
revolução francesa como exemplo de mito europeu, e que despreza o charme
de maio do 68 desde o momento em que os estudantes cortam arvores para
fazer barricadas, deve ser conservador, por dizer pouco. Ainda, é claro
seu desprezo pelo sujeito, ou pelo sujeito como valor. Não sei se
Ricoeur pretendia injuria-lo quando definiu o seu estruturalismo como um
kantismo sem sujeito transcendental, mas é sabido que o destinatário
dessa tirada a assumiu com entusiasmo. Lévi-Strauss se dedicou aos mitos
com a esperança de demonstrar que mesmo nesse campo onde todo parece ser
possível, o narrador humano se sujeita a uma combinatória que o
transcende. E, mesmo assim, Lévi-Strauss não se privou de definir a
antropologia como um tipo de psicologia –se não uma psicologia
individualizante, então, podemos supor, uma psicologia próxima a uma
teologia, feita de princípios universais. Caberia maior idealismo, ou
pior mentalismo que esse? Enfim, foi ele mesmo quem, cansado de rotular
como Antropologia Estrutural as suas duas primeiras coletâneas, escolheu
dar à terceira o titulo de O olhar distanciado, a pior negação
possível desse abraço caloroso entre outros que a antropologia
dialógica gostaria de patrocinar.
Não é impossível compor dentro de uma mesma obra os motivos dos críticos
e dos vindicadores de Lévi-Strauss; luzes e sombras, talvez. Mas eles,
enfim, apontam em conjunto para dois horizontes bem diversos, ou para
dois modos divergentes de encarar o saber antropológico. Um positivismo
musculado (adaptamos aqui uma gíria francesa muito popular) e, se dermos
credito às releituras, um antipositivismo não menos musculado. As
alternativas parecem o bastante controversas para sugerir que, nestas
alturas da sua longa vida intelectual, haveria não um, mas dois
Lévi-Strauss; ou ainda melhor, para ser fiel à sua suspeita a respeito
das organizações dualistas, três Lévi-Strauss.
Talvez seja possível identificar esse terceiro Lévi-Strauss com uma obra
em particular, Tristes Trópicos, isolada das outras (com as relativas
exceções de alguns textos menores, entrevistas, etc.). O próprio autor
tem explicado, não sem uma certa dose de cinismo, que escreveu Tristes
Trópicos num momento em que alimentava serias duvidas sobre o seu
destino profissional, e procurava novos caminhos para a sua carreira. Em
outras condições, não o teria escrito; e de fato lhe custou o olhar
reprobatório de muitos colegas e a amizade de alguns: essa exibição de
sensações e sentimentos não era na época adequada ao ethos do cientista.
Tristes Trópicos é uma obra literária, confessional, subjetiva,
melancólica, romântica, reflexiva. O Lévi-Strauss de Tristes Trópicos
não esta ausente do resto de sua obra. Ele reaparece constantemente cada
vez que se esboça –especialmente em Mitológicas- uma reflexão, prenhe de
sentido moral, sobre a hybris ocidental, sobre a morte dos mitos ou das
culturas, sobre a superpopulação, sobre a feiúra do serial que prevalece
sobre a beleza das diferenças discretas. Mas ele reaparece como um
harmônico que se escuta sob a melodia, sem nunca ocupar o primeiro plano
nem virar objeto de mais reflexão. Os trópicos são degradados por essa
infecção ávida que é o progresso, mas o seu relato contempla, não
convoca a algum tipo de resistência nem sugere vacinas. Lévi-Strauss
conta que o etnógrafo não esta verdadeiramente lá quando esta no campo,
e que, no entanto, de volta a casa, ele trafica com esse ouro exótico do
ter estado lá; mas não sente que deva fazer alguma coisa com esse
paradoxo, nem reformas nem jejuns penitentes da antropologia. O terceiro
Lévi-Strauss monologa, não conversa com ninguém, nem sequer com as suas
outras encarnações.
Mais e quanto aos dois Lévi-Strauss que restam, o positivista e o
antipositivista por assim dizer? Poderíamos pensar em coloca-los em
seqüência, um depois do outro. É comum distinguir fases na obra de
autores relevantes. Esta o Marx juvenil dos Manuscritos e o Marx maduro
do Capital; ha ainda um Marx tardio que não chegou a escrever quase
nada, e que se interessava pelo modo de produção dos grandes impérios
orientais, estudando russo e turco para poder se debruçar sobre eles.
Esta o Wittgenstein do Tractatus e o Wittgenstein das Investigações
Filosóficas; ou por saltar de época e de arte estão o Mozart e o Goya
adocicados dos divertimentos rococós e o Mozart e o Goya tenebrosos do
Réquiem e das Pinturas Negras. Os humanos não costumam permanecer
inalterados ao longo de toda uma vida –ainda menos quando a dedicam a
investigações que podem perturbar suas convicções - e apresentam assim
faces diferentes. Que os comentaristas rotulem essas faces como fases,
que prefiram uma à outra, ou uma contra outra, faz parte do seu oficio.
Mas essas periodizações, realizadas em geral depois da morte do autor,
não seriam necessariamente endossadas por ele próprio –uma autoridade
digna de consideração, embora não absoluta. É, com certeza, o caso de
Lévi-Strauss, quem nunca, em nenhuma das numerosas entrevistas que
concedeu, esboçou algo assim como um arrependimento das suas convicções
iniciais, e que, pelo contrario, gosta de contar anedotas que indicam
que ele, por assim dizer, teria nascido já estruturalista. Se acaso,
podemos ouvir dele que determinados procedimentos de sabor cientificista
–por exemplo, os gráficos que povoam as primeiras entregas de
Mitológicas, mas vão rareando nas sucessivas - passam a segundo plano
uma vez cumprida sua função ilustradora, sem precisar ser esgrimidos
constantemente; ou que com o tempo tem preferido processos artesanais de
analise às grandes maquinas de pensar com que sonhava antigamente. Mesmo
assim, a formula canônica do mito, praticamente invisível em Mitológicas, volta a ser tematizada pelo seu autor muito mais tarde, em
A oleira ciumenta, lembrando que os ideais anteriores podiam permanecer
num segundo plano, mas não tinham sido em absoluto descartados. Queira
ou não Lévi-Strauss, poderíamos de todos modos diferenciar –Louis Dumont
já o fez - um Lévi-Strauss funcionalista, que se expressa em Estruturas
Elementares do Parentesco, e um Lévi-Strauss propriamente
estruturalista, que surge a partir de Pensamento Selvagem e se
desenvolve em Mitológicas. Ou poderíamos diferenciar um Lévi-Strauss
programático, que expõe projetos exorbitantes, do Lévi-Strauss que
finalmente realiza de modo bastante diferente seu próprio programa.
Todas essas distinções introduzem matizes necessários dentro de uma
biografia intelectual, mas não dão conta da dimensão, bem mais radical,
dos contrastes antes expostos.
Se a
periodização não nos permite ordenar a diversidade fundamental da sua
obra, força é concluir que Lévi-Strauss é os dois Lévi-Strauss ao mesmo
tempo. Eis aí, precisamente, o fulcro deste artigo.
Para entende-lo devemos retroceder um pouco até esse positivismo ao qual
as más línguas filiam a obra do autor centenário. Em origem, como
sabemos, o positivismo vinha anunciar a substituição de uma era
teológica por uma era cientifica. À margem dos métodos e dos recursos
com que contava realizar essa empresa, é importante notar que o do
positivismo era um projeto intelectualmente totalitário. Dia antes dia
depois, numa progressão talvez interminável, mas certa, a ciência daria
conta de tudo (como a religião já o fizera outrora). Dos mistérios do
universo, da origem da vida, da doença e da morte, das emoções, dos
labirintos das relações humanas, das fontes da invenção e da inovação,
das preferências estéticas. De tudo, repitamos. Não é necessário citar
autoridades: esse totalitarismo esta presente na noção extremamente
popular de que basta dar-lhe o tempo suficiente para que a ciência
resolva o problema do envelhecimento, do esgotamento dos recursos
naturais, do aquecimento global, da violência, do desemprego, do tédio.
Sempre haverá um especialista ao qual recorrer para que explique o que a
Ciência tem a dizer sobre o matrimonio gay, a eutanásia, a pesquisa
sobre células tronco, os transgênicos ou a corrupção política; talvez a
ciência não tenha avançado ainda o suficiente para dar respostas
categóricas, mas antes ou depois haverá de encontra-las. Atitudes
desconfiadas perante essa missão são facilmente margeadas como posturas
fracas, mais ou menos comprometidas com as trevas teológicas.
Os
antipositivismos, que surgem com abundancia no século XIX, e continuam
florescendo sem parar, são de fato, em sua maior parte, fracos e
reativos. Filhos afinal do positivismo, temerosos ou ciumentos da sua
maquina, tendem a ser subalternos e complementares ao positivismo antes
que alternativos a ele. Pensemos na sua expressão hegemônica, a que
designa as ciências humanas como um saber ideográfico ou hermenêutico.
Em síntese, isso quer dizer que a ciência positivista, com o seu
complexo teórico-metodologico-conceitual, não é capaz de dar conta de
toda uma enorme parcela do universo, por sinal a sua parcela humana.
Esse domínio só poderia ser atingido mediante um arsenal especifico, o
das ciências humanas, por definição mais vago e impreciso. A relação
entre os dois grandes blocos da ciência se estabeleceu de um modo
parecido ao que contrastou capitalistas e comunistas durante a guerra
fria. Um certo consenso sobre áreas de influencia predefinidas –grosso
modo correspondente ao divisor natureza-cultura-, unido a um menosprezo
dos princípios do outro bloco, raramente proclamado em publico. Para os
praticantes das hard-sciences as ciências humanas são um bla-bla-bla
inócuo; para os humanistas, o outro lado esta sempre à beira da
blasfêmia de lesa humanidade. Uma atitude bem mais irada surge quando as
fronteiras são violadas: os sicários das ciências exatas (veja-se o
affaire Sokal) dizem finalmente o que pensam dos tagarelas quando estes
ousam se aventurar na física ou na vida de laboratório; e os letrados
olham como cobras peçonhentas aqueles agentes do outro lado mais
proclives a se aventurar no seu território (geneticistas, ecólogos,
etólogos e outras alimárias). Mas se nos elevamos um pouco acima dessa
região belicosa que disputa sobre linguagens e métodos, e olharmos para
a missão geral da ciência, o contraste se dissolve em colaboração. Isto
é, as ciências humanas, ciências afinal, são peões entusiastas no grande
projeto positivista de dar conta de todo. O que não possa ser dominado
pelos métodos bruscos e diretos da ciência natural, poderá ser aliciado
com a conversa mole das soft-sciences. A ciência sempre terá algo que
dizer –algo mais ou menos exato, mais ou menos vago - a respeito de
tudo. Sempre haverá algum tipo de especialista do qual possa se esperar
uma opinião douta ou uma solução, e o principal imperativo ético da
contemporaneidade –algo deve ser feito/algo deve ser dito - não ficara
nunca desatendido. E por muito cético ou deconstrutivista que o
cientista seja, de portas adentro, a respeito dos critérios de verdade,
será difícil que ele admita, cara ao publico, uma diminuição correlativa
da sua autoridade.
Pois
bem, a peculiaridade de Lévi-Strauss esta em que ele foge a esse
equilíbrio gnoseopolitico, e se desenvolve perfeitamente fora dele.
Lévi-Strauss –leitor assíduo do Scientific American - tem ficado
regularmente sob suspeita por receber com simpatia as incursões da
raposa no galinheiro (ele mesmo usou essa analogia). Seja quando invocou
os avanços da genética para argumentar contra o racismo; seja quando
aceitou, com um espírito excepcionalmente gentil, a discussão com um
ecologista tosco como Marvin Harris; seja nas muitas outras ocasiões em
que se arriscou a merecer as acusações de cientificismo –um dos seus
últimos escritos tratava de amebas. Mas embora Lévi-Strauss tenha sido
denunciado como uma quinta-coluna das ciências naturais ou do
positivismo dentro das ciências humanas, ha um ponto em que só ele
encarna uma verdadeira ruptura com o positivismo, a saber, quando
declara explicitamente que não ha nada a dizer sobre determinado tema,
ou mais ainda quando suas investigações ditas positivistas deságuam em
algo que, para ser coerentes, só poderia ser chamado de negativismo. Se
o positivismo é uma opção imperativa pelo SIM –a ciência sabe- a obra de
Lévi-Strauss combina opções pelo SIM e pelo NAO.
Podemos fazer, em proveito desta proposição, uma pequena lista não
exaustiva da negatividade lévi-straussiana.
a) Já
na sua primeira grande obra, Estruturas Elementares do Parentesco, o
fundamento da socialidade humana não é qualquer razão positiva, mas uma
regra negativa, a saber, a proibição do incesto. Junto a ela não da as
caras nenhuma boa razão para celebrar tal efeméride. O estado de
sociedade dos humanos não é uma necessidade da ou para a natureza
humana; ha muito se tornou imprescindível, mas Lévi-Strauss nada diz de
que fosse inevitável. A regra fundadora só podia ser negativa: ela
simplesmente levou as coisas para um lado diferente dos outros lados que
estavam disponíveis.
b) O
tantas vezes comentado inconsciente Lévi-Straussiano não é o domínio de
um impulso recalcado, não é um conjunto arquetípico, nem um padrão
cultural escondido, nem um molde transcendental, senão, muito
simplesmente, o lado escuro das possibilidades combinatórias, aquela
historia não realizada que, com tudo, ecoa de muitos modos na que veio a
se realizar.
c) A
historia é, assim, a mais vultosa dessas negações. Tudo o que se pode
dizer sobre a historia não é mais historia. É um naco de simetria ou
regularidade, um modelo enfim (mecânico ou estatístico) extraído de um
magma fluido e indizível. As regras da historia, quando alguém tenta
elucida-las, equivalem às especulações numerológicas que poderiam ser
arrancadas de uma seqüência de lances de roleta. Na melhor das
hipóteses, nada nos dirão sobre o próximo lance. A historia propriamente
dita esta do outro lado da fronteira do saber, é um território de
informação caótica.
d) O
significado, nas obras de Lévi-Strauss, nunca é enunciado positivamente.
Nunca ha um fruto final da hermenêutica. O significado é apenas o
conjunto de relações que um termo mantém com todos os outros termos. É
só correr atrás dele que ele corre de nos, se deslizando de umas
relações a outras. A interpretação de um fenômeno –de um mito, por
exemplo - é apenas mais uma variante desse fenômeno, mais um elemento
que o pesquisador devera considerar na sua tarefa interminável.
e) O
que Lévi-Strauss chama de invariante é mais um exemplo ilustre dessa
negação. Por dizer de algum modo, a invariante nunca esta ai quando é
invariante, ela só se deixa ver em forma de variação em outro contexto.
A proibição do incesto é a invariante dos sistemas de aliança, mas não é
–como é para Freud - uma pedra angular do humano. Se considerarmos as
políticas de parentesco, essa negação performativa será uma das
variações possíveis, junto com a instrumentalização do incesto (casar em
graus de parentesco proibidos a outros significa poder), a cegueira (nas
endogamias estremas) ou a paranóia para o incesto (praga do cristianismo
medieval, que levava o tabu ate o oitavo grau de consangüinidade). A
invariante é o eixo virtual em torno do qual giram as variações; ela
mesma só poderá ser vista como variação girando por sua vez em volta de
outro eixo. Nunca poderá ser capturada e disposta como tal invariante
num Tratado sobre a Natureza Humana.
f) A
analise estrutural –dos mitos, por exemplo - não é algo assim como uma
destilação, da qual sairá a essência desse mito ou de todos os mitos,
mas algo assim como uma dissolução. Os mitos se desfazem entre as minhas
mãos enquanto os analiso, diz Lévi-Strauss em algum momento de
Mitológicas, e o Finale do quarto volume é o lugar onde ele enuncia de
um modo mais despudorado o seu negativismo. Embora sem nenhuma falsa
modéstia –afinal, diz Lévi-Strauss, nada de muito sensato tinha sido
dito antes sobre os mitos, desde Plutarco - o autor se recusa a esboçar
uma conclusão. O mito, esse magnífico objeto, não tem nada a nos dizer,
não significa nada senão a si mesmo, e os quatro volumes que ele acabou
de publicar compõem por sua vez um grande mito.
As formulações e os exemplos usados são, salvo indicação em contrario,
meus e não de Lévi-Strauss. Ele, evidentemente, não se esforça em
formular essas figuras do vazio em torno das quais organiza suas
construções, esse zero recorrente de sua matemática: apenas, ao passar,
nos indica uma e outra vez que o caráter angular das suas pedras
angulares consiste em não ser - antídoto infalível contra qualquer
pretensão essencialista. Mas esse valor negativo é confirmado, desde
outro angulo, porque Lévi-Strauss, com muita freqüência, enuncia uma
doutrina herética: (a ciência) nada tem a dizer sobre tal ou qual coisa.
Quase sempre sob pretexto da sua especialidade: ele é um etnólogo
americanista que não pode pontificar sobre outros assuntos. Mas em algum
lugar da sua longa entrevista com Didier Eribon esse silêncio revela um
alcance mais geral: tudo que a antropologia estrutural tem a dizer está
limitado a algumas ilhas de estrutura nadando num caos oceânico que
engloba toda ordem imaginável –como a entropia, em ultimo termo, engloba
toda ordem possível. Essa declaração de limitação do saber, uma
limitação categórica e não circunstancial (do tipo “a ciência ainda não
alcançou...”) é muito incomum no discurso intelectual, menos ainda no
discurso cientifico modernista. E tem, na minha opinião, uma relevância
especial para entender o lugar do seu autor.
A obra de Lévi-Strauss não é nem um positivismo naturalista nem um
antipositivismo humanista, senão uma composição entre afirmação
positivista e renuncia intelectual. Decerto, essa condição não é
exclusiva do nosso autor; ela marca também outros autores não menos
famosos. Lembrarei aqui dois, ambos personagens carismáticos da
filosofia na época do positivismo: Nietsche e Wittgenstein. Não os
lembrarei como precursores, ou coisa semelhante, de Lévi-Strauss. Não é
necessário se esforçar em diferenciar Lévi-Strauss de Nietzsche, um
autor nas antípodas do seu estilo vital e intelectual, dos seus temas e
das suas preocupações. Quanto a Wittgenstein, que freqüentou territórios
um tanto mais próximos, o próprio Lévi-Strauss manifestou (numa
entrevista vinte anos atrás a Eduardo Magaña) uma total falta de
interesse por um autor em cuja leitura não tinha avançado por
encontra-la extremamente tediosa. Mas ambos podem se aproximar de
Lévi-Strauss em algo que poderíamos chamar a sua comum condição de
renunciantes. No caso de Nietzsche, a afirmação do caráter perspectivo
do ser e do conhecer exige em contrapartida a negação de um universo
neutro. Isto é, não ha realidade nenhuma independente dos pontos de
vista, e, portanto não ha nada que dizer do mundo em termos absolutos
(nem sequer ha essa possibilidade de arbitragem que se insinuaria atrás
de um mundo de pontos de vista relativos –relativos sempre a algo). No
caso de Wittgenstein, lembrarei apenas a famosa e ultima proposição do
seu Tractatus Logico-Philosophicus, um marco do neopositivismo, que
pretendia definir as regras do discurso filosófico-cientifico: “sobre o que não pode ser dito –cito de cor-, é preciso calar”. Isto é, definir
as regras da ciência não equivale a controlar o mundo, mas a assinalar
os limites que nele à ciência correspondem.
Isto
nos leva de volta a nossa questão inicial, sobre o contraste entre o
Lévi-Strauss cientificista e positivista dos manuais e o Lévi-Strauss
dos seus redescobridores, pensador dedicado a explodir certezas. Os dois
Lévi-Strauss não se opõem como um jovem e um velho Lévi-Strauss, nem
como duas interpretações contraditórias e excludentes, nem como matizes
negociáveis de uma mesma obra, mas como uma alternância abrupta de fundo
e forma. Lévi-Strauss não propõe uma ciência positiva que na periferia
de sua eficácia continue sua ação por outros meios; mas uma ciência
positiva que linda com sua própria negação. Todo e qualquer conhecimento
não pode se dar sem a sua correspondente área de sombra, e, por assim
dizer, sem um aumento correlativo, e ate exponencial, do que não pode
ser conhecido. Essa visão, não desprovida de um certo aroma místico, é
consistente com a analise dos mitos de criação ameríndios que ele aborda
no Interlúdio do Discreto do primeiro volume de Mitológicas: eles não
falam de uma produção de ser a partir do nada, mas da seleção que o
demiurgo opera a partir de um excesso original. Criar é reduzir, crescer
é descartar, saber é ignorar. E tudo isso, por muito que Lévi-Strauss
assuma os critérios de conhecimento do positivismo, rompe –a diferença
do que acontece com os antipositivismos mais conhecidos - com o desígnio
central do positivismo, a saber, a onipotência da ciência como
instrumento de um ser humano ambicioso e avesso a qualquer tipo de
limite. Seria demasiado cômodo identificar ai apenas algo assim como um
neoconservadorismo filosófico, um abstencionismo político, um ceticismo
elitista. O que emerge dessa limitação da ciência é um enorme território
liberado para o arbítrio do sujeito humano, sem a tutela (ou sem o
álibi) de uma ciência de dimensões teológicas, que, entre avanço e
avanço, tem justificado em mais de um século as mais deslavadas
devastações da humanidade e do planeta. Lévi-Strauss, vulto consagrado
na galeria de grandes homens do século, permite também uma leitura
radical. O ecologismo de Lévi-Strauss, facilmente detectável nas suas
paginas, não é um ornato romântico, mas a expressão mais reconhecível de
um Não –oposto à suposta necessidade da Historia, à fé no Progresso
Único - que para ser consistente deve se situar também dentro da ciência.
(*)
Palestra proferida pelo Prof. Oscar (PPGAS/UFSC)
no "Seminário
'Lévi-Strauss faz 100 anos'", promovido pelo Departamento de
Antropologia e pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da
UFSC no período 4 a 12 de dezembro de 2008.
Atualizado em 02/03/09
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