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Coluna (Edição nº 46)
"Antropologia
em Moçambique",
por
Marílio Wane
A área de Ciências Sociais em Moçambique é relativamente nova e vem
passando por rápidas e constantes transformações. Para compreendê-las,
talvez seja necessário fazer menção a alguns aspectos da história
recente do país. Moçambique se tornou independente de Portugal em 1975,
duas décadas depois dos primeiros processos de independência no
continente; essa conquista tardia se deve ao anacronismo do colonialismo
português, que tinha nas suas possessões na África a sua única fonte de
riqueza. Desse anacronismo resulta outra característica distintiva de
Moçambique – e outras ex-colônias portuguesas – que é o fato de ter se
libertado por via de uma luta armada e não por acordo com a ”Metrópole”,
como foram as primeiras independências africanas. Além disso, por força
das circunstâncias, logo em seguida, Moçambique se alia ao bloco
soviético no contexto da Guerra Fria e se instaura um regime socialista
no país.
Assim, o colonialismo e o socialismo deixaram marcas profundas na
sociedade moçambicana contemporânea em geral, e como não podia deixar de
ser, também na produção intelectual. Para a Antropologia, isso
significou um longo período de ostracismo no momento imediatamente
posterior à independência porque havia a percepção por parte do regime
socialista de que a disciplina era um “instrumento do colonialismo”... e
realmente era. Aqui, devemos nos reportar ao desenvolvimento da
Antropologia como disciplina acadêmica, que teve nos estudos realizados
no continente africano grande parte do seu impulso criador. A
antropologia colonial (não apenas portuguesa) se pautava pelo velho
“conhecer para melhor dominar”, irmão mais novo do “dividir para
conquistar”; somado a isso, há o fato de que o colonialismo português se
deu sob um regime fascista – a ditadura de Salazar – no qual a produção
intelectual era ideologicamente subordinada aos interesses do governo.
Por sua vez, o socialismo do pós-independência também implicou nesse
tipo de subordinação, desta vez tendo como substrato o materialismo
histórico de Marx. O ostracismo a que a Antropologia foi relegada
durante a vigência do regime foi radical: de 1975 a 1992, a disciplina
simplesmente não constava dos currículos da Universidade.
Voltando ao país em 2005, pude vivenciar na prática as conseqüências
destes processos, no âmbito de um quadro geral de precariedade no
sistema de educação. Já no segundo semestre, tive a oportunidade de
trabalhar como assistente de um professor titular do curso de Sociologia
da principal instituição de ensino superior do país, a Universidade
Eduardo Mondlane e no ano seguinte, em 2006, fui também assistente,
desta vez no ISCTEM – Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de
Moçambique, uma instituição privada. Na UEM, a minha atividade era
absolutamente informal e não-remunerada, o que me abriu portas para um
trabalho formal/remunerado no ISCTEM.
Além de um certo autoritarismo e da formalidade excessiva nas relações
do meio acadêmico – acredito que ambos frutos de colonialismo e do
socialismo -, um aspecto fundamental é a grande carência de quadros
capacitados, o que me permitiu dar aulas apenas com um título de
graduação. Embora fosse assistente, na prática, eu próprio escolhia os
textos, preparava e dava aulas. E não se trata de um caso isolado; no
país, existem poucos doutores, alguns poucos mais com mestrado e um
grande número de docentes universitários apenas graduados.
Fora do meio acadêmico, as principais oportunidades de trabalho para
antropólogos e cientistas sociais em geral são as consultorias
financiadas por órgãos internacionais instalados no país. E isto reflete
aspectos políticos e sociais contemporâneos da África em geral; esse
tipo de estudo se dá, em grande medida, no contexto de dependência
externa em que se encontra a esmagadora maioria dos países do
continente. Tive a oportunidade de fazer trabalhos para órgãos como o
GTZ (Agência de Cooperação Internacional Alemã) e para o PNUD (Programa
das Nações Unidas para a População); em ambos os casos, o caráter do
trabalho é produzir diagnósticos de uma dada situação no país, a partir
dos quais vão se desenvolver políticas públicas. A grande crítica que se
faz a essa “indústria de consultorias” é que esses trabalhos constituem
uma ingerência na política nacional e até mesmo uma ameaça à soberania,
uma vez que se pautam por agendas muitas vezes alheias aos interesses do
país. Por outro lado, os diagnósticos produzidos por estudos dessa
natureza acabam por legitimar a chamada “ajuda internacional”, da qual
países como Moçambique dependem (cerca de 40% do orçamento do país); e
assim se reproduz o ciclo de dependência política e econômica.
Outra opção é o Estado. Desde o segundo semestre de 2007, fui contratado
como pesquisador em Etno-Musicologia pelo ARPAC (Arquivo do Patrimônio
Cultural), instituição homóloga ao IPHAN brasileiro. Ainda assim, só
ultimamente tem se dado importância ao papel da cultura no
desenvolvimento do país; um tema bastante marginalizado nos períodos
anteriores muito em função dos regimes totalitários no controle
político. A partir do estudo sobre Timbila (manifestação cultural
moçambicana que foi recentemente proclamada pela UNESCO como patrimônio
imaterial da Humanidade), desenvolvi um projeto de mestrado cujo tema é
a política cultural em Moçambique e que venho realizando desde o início
do ano (2008) no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade
Federal da Bahia.
(*)
Marílio
Wane
Formação: Ciências Sociais, pela Universidade de São Paulo em 2004
Experiência profissional:
Professor assistente de “Sociologia das Sociedades Africanas” na
Universidade Eduardo Mondlane em Moçambique, de Ago/2005 a Dez/2005.
Professor assistente de “Sociologia Africana” nos ISCTEM – Instituto
Superior de Ciência e Tecnologia de Moçambique, de Fev2006 a Jun/2006.
Pesquisador em Etnomusicologia no ARPAC (Arquivo do Patrimônio Cultural,
de Jun/2007 a Fev/2008).
Atualmente mestrando em Estudos Étnicos e Africanos no CEAO – Centro de
Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, com o projeto
“A Timbila chopi do sul de Moçambique: políticas culturais em contextos
nacionais e transnacionais”.
Atualizado em 26/10/08
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