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Coluna (Edição nº 44)
"Ruth,
raízes e asas",
por
Regina Novaes
Durante todos estes anos que me separam de 1989, quando defendi na USP
minha tese de doutorado, pude observar o quanto um orientador pode
facilitar ou complicar a vida de um orientando. Isto tanto em termos das
funções estritamente acadêmicas, que dizem respeito à confecção do
trabalho que vai ser apresentado e julgado por uma banca examinadora,
quanto no que diz respeito à trajetória de vida do futuro doutor. A
relação orientador- orientando não se circunscreve aos anos dos cursos e
aos muros da Universidade.
As fronteiras da Academia são porosas. Mesmo quando evoca a neutralidade
científica, o mundo acadêmico não está inume aos embates do campo
político. Ao contrário, via de regra, vozes vindas de lá retro-alimentam
controvérsias e legitimam tomadas de posição política. Neste sentido, os
anos 80 foram marcantes para as assim chamadas ciências sociais
brasileiras. No final da década anterior, em contraposição à ditadura
militar, reinava um considerável consenso sobre a importância e o papel
aglutinador e democratizante dos “novos movimentos sociais”. Porém, após
a campanha em favor das eleições diretas, a Nova República provocou
reposicionamentos: explicitaram-se dissensos sobre criação de centrais
sindicais, sobre o papel das comunidades eclesiais de base, sobre a
rearticulação partidária e fundação de novos Partidos Políticos.
Imaginem, então, o que, naquele momento, poderia ter significado para
mim pesquisar e produzir costuras interpretativas sobre o caráter e o
papel dos movimentos sociais de berço católico, majoritariamente
engajados na fundação do PT, tendo como orientadora a antropóloga Ruth
Cardoso, sabidamente engajada na construção do PSDB.
Tive sorte: minha orientadora era uma destas pessoas que realmente
valorizava resultados de pesquisa de campo e a convivência com a
diversidade. É verdade que estas ênfases fazem parte de nossa tradição
disciplinar. Porém, falar sobre diversidade é muito diferente de
exercitá-la cotidianamente. Não é fácil separar nossas escolhas teóricas
e políticas das de nossos orientandos. Poucos sabem que, para além de
seus méritos históricos, o relativismo cultural pode ser um excelente
antídoto para os autoritarismos disfarçados e crenças arraigadas nas
hierarquias acadêmicas. Ela sabia. E me deu liberdade para fazer minhas
apostas e correr riscos acadêmicos e políticos.
Após a eleição de Fernando Henrique Cardoso, a encontrei algumas vezes.
Ela começava montar o Comunidade Solidária e chegou a me convidar para
as primeiras discussões. Naquele momento, compartilhávamos da mesma
crença de que havia um Brasil que não era levado em conta nem pelos
clássicos parâmetros da ciência política nem por indicadores
estritamente econômicos. Associações de todos os tipos, redes religiosas
e culturais, iniciativas locais deveriam ser convocadas para desencadear
ações solidárias e dinâmicas integradoras. Discordássemos apenas em um
ponto: ela apostava mais no voluntariado e eu acreditava na necessidade
de mais presença indutora do Estado. Não por acaso, – já no início do
governo do governo Lula – em um encontro promovido pela ONG Comunitas,
quando enfatizei as continuidades entre o que havia sido feito nos anos
FHC e as propostas de política social em curso, Ruth expressou sua
preocupação com o que seria um atual viés estatizante. Uma vez mais
houve um diálogo respeitoso e instigante.
Mais tarde, durante o tempo que estive em Brasília colaborando com o
desenho e a implantação da política nacional de Juventude, os diálogos
só aconteceram por meio de textos, lembranças, eram discussões
imaginadas. Sempre com pontos polêmicos e previsíveis discordâncias. Mas,
como pano de fundo, havia uma convergência que me fazia almejar
encontros reais. Muitas vezes tive vontade de lhe contar sobre os Brasis
– com suas redes, movimentos, segmentos - que se encontravam no Conselho
Nacional de Juventude. Aquilo era uma demonstração da riqueza e do
potencial da sociedade civil, tão valorizada por Ruth Cardoso. Portanto,
neste momento de perda, não se trata de restringir sua memória aos mais
próximos acadêmica e politicamente. Trata-se de tornar vivas suas idéias,
sem economizar polêmicas e reflexões. Esta é minha homenagem. Obrigada
Ruth, pelas raízes e pelas asas.
(*)
Regina
Novaes é antropóloga,
foi professora do IFCS/UFRJ, é pesquisadora do CNPq.
Atualizado em 28/07/08
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