Coluna (Edição nº 43)

"Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico"[1], por Beatriz Caiuby Labate, Isabel Santana de Rose, Rafael Guimarães dos Santos (*)

Nas duas últimas décadas, temos observado uma expansão das religiões ayahuasqueiras, categoria que se refere a movimentos religiosos originários da Amazônia brasileira que têm como uma de suas bases o uso ritualizado da ayahuasca: o Santo Daime (nas suas vertentes Alto Santo e Cefluris), a União do Vegetal (UDV) e a Barquinha. A expansão nacional e internacional do Cefluris e da União do Vegetal estimulou o aparecimento de uma infinidade de pequenos grupos usuários da ayahuasca nos grandes centros urbanos brasileiros e tem sido acompanhada também, sobretudo a partir do início do século XXI, de um verdadeiro boom nos estudos a respeito destas religiões.

O projeto do nosso livro nasceu da necessidade de sistematizar as múltiplas referências que estão sendo produzidas sobre este assunto. Durante mais de um ano, três pesquisadores situados em cidades e países diferentes formaram uma rede de pesquisa e elaboraram uma lista de referências bibliográficas sobre Santo Daime, Barquinha, UDV e neo-ayahuasqueiros urbanos, incluindo a literatura acadêmica especializada e escritos de ordem mais esotérica e vivencial produzidos pelos participantes dos grupos. Uma maratona pela Internet que nos conduziu a países inusitados, amizades virtuais, parcerias intelectuais, outras perguntas e à formação de novas redes de pesquisa, constituindo um verdadeiro estilo de vida, com suas pequenas rotinas metodológicas e rituais próprios. Procuramos com este trabalho estabelecer um diálogo entre pesquisadores e linhas de pesquisa diversas relacionadas ao tema das religiões ayahuasqueiras e criar uma visão de conjunto do que entendemos ser um mesmo campo de pesquisas. Desta maneira, esta publicação pretende oferecer um mapeamento da literatura mundial sobre o tema, desejando tornar-se uma espécie de guia para os pesquisadores da área e ser útil também para os demais interessados no assunto.

O levantamento, intitulado “Bibliografia sobre as religiões ayahuasqueiras”, foi concluído em novembro de 2007 e inclui dez idiomas: alemão, dinamarquês, espanhol, francês, holandês, inglês, italiano, japonês, norueguês e português. Paralelamente produzimos dois textos comentando este trabalho. Em “Panorama da bibliografia sobre as religiões ayahuasqueiras”, procuramos apresentar o perfil destes grupos religiosos e o histórico de sua expansão e, ao mesmo tempo, fazer uma avaliação geral desta bibliografia, procurando identificar as principais características, tendências e perspectivas deste campo de estudos. Já “Comentários da bibliografia farmacológica, psiquiátrica e psicológica sobre as religiões ayahuasqueiras” consiste em algumas considerações sobre as principais pesquisas realizadas com seres humanos no contexto do Santo Daime, da União do Vegetal e da Barquinha, avaliando seus resultados, contribuições e limitações. O artigo busca oferecer também uma reflexão antropológica preliminar sobre o campo de pesquisas biomédicas sobre a ayahuasca.

No Brasil, até cerca de trinta anos atrás, a ayahuasca era uma bebida pouquíssimo conhecida e que tinha aura misteriosa, ligada a cultos “exóticos” da distante floresta Amazônica. A partir da década de 70, essas religiões foram “descobertas” por hippies, artistas, intelectuais, pessoas em busca de cura e curiosos, passando a ser adotadas, no início dos anos 80, por parcelas da classe média dos grandes centros urbanos brasileiros. Não tardou muito para que este cipó de gosto desagradável chamasse a atenção dos intelectuais, que logo batizaram-no de “sacramento”, e classificaram estas atividades de origem popular como “religiosas”. Da mesma forma, estes grupos rapidamente passaram a ser tratados de maneira sensacionalista pela grande mídia. A partir dos anos 90, o Santo Daime e a UDV começaram a atravessar o oceano em direção ao Velho Mundo, sendo que o Santo Daime possui atualmente centros em pelo menos vinte e um países em quatro continentes diferentes, enquanto a UDV conta com grupos oficiais nos Estados Unidos e na Espanha e núcleos incipientes em quatro países europeus. Assim, as religiões ayahuasqueiras têm disputado espaço com outras religiões e transitado entre diferentes fronteiras simbólicas, econômicas e culturais, contribuindo para que a ayahuasca se transforme num verdadeiro “pan-enteógeno” transnacional.

Os trabalhos pioneiros sobre as religiões ayahuasqueiras brasileiras foram realizados no Brasil, na década de oitenta. Na década de 90, também foram produzidos textos que se tornaram importantes referências. Desde então, houve uma progressiva expansão nos estudos sobre esta temática. Segundo nosso levantamento, atualmente existe, no Brasil, um total de cinquenta e dois livros, noventa artigos publicados, setenta trabalhos apresentados em eventos e cinquenta e dois trabalhos acadêmicos sobre o tema, sendo trinta e cinco dissertações de mestrado, sete teses de doutorado e nove pesquisas em andamento. Já no exterior contabilizamos trinta e três livros, cento e vinte e quatro artigos e trinta e seis teses de mestrado e doutorado sobre Santo Daime, UDV e Barquinha.

O grande aumento da produção sobre Santo Daime, UDV e Barquinha está relacionado à sua expansão nacional e internacional. Se num primeiro momento as religiões ayahuasqueiras brasileiras foram estudadas sobretudo a partir de seus aspectos históricos, culturais e simbólicos, com a expansão destes grupos e a inserção da ayahuasca numa lógica de mercado de bens religiosos, a temática do uso religioso da ayahuasca tem sido cada vez mais relacionada ao debate contemporâneo sobre a questão das “drogas”. As negociações nacionais e internacionais a respeito da legalidade do consumo desta bebida e do status jurídico destes grupos religiosos têm contribuído para chamar a atenção da sociedade civil, do Estado e da mídia sobre o fenômeno, ampliando a discussão sobre o tema e motivando o aparecimento de novos estudos acadêmicos. Estes estudos, por sua vez, têm desempenhado papel fundamental no processo de legitimação social destes grupos.

Os estudos sobre as religiões ayahuasqueiras vêm tentando acompanhar as formas de diversificação de consumo da substância, devendo, eles também, proliferar em número e tipo de abordagem. O levantamento que realizamos aponta para a relevância desta temática na contemporaneidade e sugere uma tendência à consolidação deste campo de pesquisas. Tal campo contempla uma ampla gama de temas e dialoga com diversas disciplinas, o que, ao mesmo tempo, pode ser um dos fatores que explica o seu crescimento vertiginoso nos últimos anos.


[1] Este texto consiste em uma apresentação do livro recém publicado “Religiões Ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico”, de Beatriz Caiuby Labate, Isabel Santana de Rose e Rafael Guimarães dos Santos (2008).


(*) Beatriz C. Labate é Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp e Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisicplinares sobre Psicoativos – NEIP; Isabel S. de Rose é Doutoranda em Antropologia pela UFSC e Pesquisadora do NEIP; Rafael Guimarães dos Santos é Doutorando em Farmacologia pela Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha, e Pesquisador do NEIP.

Atualizado em 24/06/08
 

 

Topo