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Coluna (Edição nº 42)
"Antropologia
no Ciberespaço", por
Jean Segata (*)
Com a
emergência do uso e apropriação cada vez mais cotidiana da internet nos
últimos anos, movimentações em diversos campos científicos têm aberto
mais linhas, campos, meios, ou objetos de pesquisa. Estes têm sido
incorporados, ou mesmo, vêm constituindo muitas de suas atuais
preocupações. De maneira breve, procuro aqui situar as pesquisas
antropológicas entre outras duas disciplinas cujo foco também não tem
sido tão simplesmente o da “tecnologia, pela tecnologia”, mas antes as
relações dos sujeitos com estas tecnologias, ou mesmo nestas
tecnologias: a sociologia e a comunicação.
O tom
mais comum dos discursos dessas duas disciplinas ao se referirem ao
ciberespaço é o de estarmos diante de uma nova tecnologia, novos tempos,
novo mundo. Tom esse, que amplamente tende ainda a se dividir em duas
categorias valorativas: aquelas dos discursos apocalípticos e aquelas
dos discursos apologéticos.
Na
direção destes discursos mais apocalípticos, o ciberespaço aparece como
o complexo fruto colhido, meio tardiamente, após (e ainda durante) anos
de capitalismo bárbaro e individualismo como valores ditos ocidentais: é
o lugar próprio, através do qual, sozinho e enclausurado no seu quarto,
o indivíduo contemporâneo se hiper-individualiza, mas alcança aquela
almejada liberdade transcendental, podendo lançar-se para além de
fronteiras e tempos, ou se desterritorializar-se; é o lugar do
simulacro, da distância, do vazio, da ilusão; das relações que podem se
fazer, ou se desfazer em um clicar de botões; é o lugar das relações
maximamente seletivas, e por júbilo final, o fim ainda da chamada vida
privada[1].
Por
outro lado, os discursos mais apologéticos procuram enfatizar fortemente
o caráter salvador do ciberespaço, da super-democratização, onde tudo e
todos, feito um quadro surrealista, tem o seu lugar e a sua vez; nele,
tudo parece adição: é fluxo maior de pessoas, é mais produtivo, é mais
intenso, é mais rápido, chegando a ser visionado como galáxia, ou como
super cérebro, sempre em escala global[2].
Aquém
ainda desses dos pólos valorativos de discursos, fica ainda a idéia
geral de que o ciberespaço é uma espécie de entidade autônoma, com “vida
própria”, situada, talvez por não ser “material”, como que flutuando
sobre as sociedades – daí de se ter ainda um duplo deslocamento, se se
levar em conta que em parte desses discursos, sociedade, ou cultura,
também são tratados como entidades deslocadas dos próprios sujeitos que
as constituem. Tem-se uma sobreposição de esferas, tratadas entidades
autônomas, cuja aproximação se faz, ou por contexto, ou por resíduo: é a
“ciberespaço no contexto de...”, ou o “o problema do ciberespaço na...”.
Isso, sem contar as pré-categorizações “traduzidas” de uma “entidade”,
para outra, como é o caso de comunidade, que no ciberespaço vem a se
chamar de comunidade virtual, ou on-line. Tudo ainda fazendo
parte do que se tem, nos últimos anos, legitimado como uma grande área
de estudos: a Cibercultura, que remete mais uma vez a se pensar numa
justaposição que categorias que nominam campos como o da “cibernética”,
com o já problemático campo da “cultura”[3].
É no
sentido de romper com esses modelos pré-categorizantes e explicativos
presente em boa parte dos trabalhos da comunicação e da sociologia, é
que a antropologia tem se preocupado com o aspecto vivencial dos
sujeitos com e no ciberespaço. Para além de discussões valorativas de
positividade e negatividade, ou categorizantes, do que é mais ou menos
real, melhor ou pior, individualizante, ou coletivizante, a antropologia
está preocupada coma vida das pessoas no ciberespaço e o ciberespaço na
vida das pessoas, não como entidades separadas, mas como construção
cotidiana e comum. Escrevo isto de dentro de um grupo de pesquisa, o
GrupCiber, que é pioneiro na antropologia brasileira, e nos seus mais de
dez anos de constituição, tem se preocupado com aquilo que em suma, a
antropologia como um todo tem sempre se preocupado: com relações sociais
(dito que sempre preocupados com o que é “o social” e o que é “uma
relação”).
Destarte, é interessante pontuar que, apesar de nas últimas décadas, a
antropologia ter, aparentemente, se subdividido multiplamente em
pequenas porções especializadas em certos campos e objetos, com a
criação de “antropologias da..., do..., ou de...”, quando falamos em
antropologia no ciberespaço, não estamos reivindicando mais uma
especialidade antropológica, que tal como outras tantas e cada vez mais
especializadas se apóiam cada vez mais em disciplinas irmãs, como a
história, a psicologia, a sociologia, ou a filosofia, para darem conta
de seus específicos objetos de estudo, terminando por fazer da
antropologia como um todo, uma espécie de Torre de Babel, onde
antropólogos falam idiomas completamente diferentes[4].
O ciberespaço, aqui, é compreendido não simplesmente como um objeto de
estudo antropológico, mas como um campo antropológico com objetos das
mais diversas naturezas, tais os de “quaisquer antropologias”. Como
campo, certamente há exigências teórico-metodológicas específicas, mas
elas dialogam com a antropologia como um todo – não são conceitos
específicos, com metodologias específicas de “uma antropologia
específica”.
Em
suma, tal o que de maneira geral se faz em outros campos de investigação
antropológica, neste, o ciberespaço, também fazemos etnografias[5].
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Porto Alegre: Sulina, 2003.
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STRATHERN, Marilyn. O Gênero da Dádiva: problemas com as mulheres
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1999.
______. La Fin de la Vie Privée. Manière de Voir 52 – Le
Monde Diplomatique – “Penser le XXIe Siècle”. France, Juillet-Août,
2000, pp 45-56.
[1] Para estes discursos,
conferir os já clássicos trabalhos de autores como Paul Virilio [1999;
2000], ou Jean Baudrillard (2002; 2003).
[2] Para estes discursos,
conferir alguns dos também clássicos trabalhos de Pierre Lévy (2002a;
2002b; 2003a; 2003b; 2004), Sherry Turkle (1997), ou no Brasil, os
trabalhos de André Lemos (2002), especialmente.
[3] Para reflexões sobre
sociedade, ou social como entidades, conferir trabalhos de Adam Kuper
(2002), Marilyn Strathern (2006), Tim Ingold (1996), e especialmente Bruno
Latour (2002; 2005; 2007).
[4]
Para estas discussões,
conferir trabalhos como os de Mariza Peirano (2006), Henrietta Moore
(1999), ou Phillipe Descola (2005).
[5] Conferir, por exemplo,
o meu trabalho de mestrado, recém publicado (Segata, 2008).
(*)
Jean
Segata é Doutorando em Antropologia Social – PPGAS/UFSC e membro do
GrupCiber/UFSC – Grupo de Pesquisas em Ciberantropologia.
Atualizado em 26/05/08
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