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Coluna (Edição nº 41)
"Da
difícil arte de elaborar o óbvio"[1], por
Pedro Gondim Davis (*)
Eu,
aluno de graduação do curso de ciências sociais, aprendi muito da arte
da “feitura antropológica” com um tal Pedro Archanjo Ojuobá. Doutor
formado nas ruas, sem nunca ter entrado em uma universidade (a não ser
pela “porta de trás”: era bedel da Faculdade de Medicina), viveu entre
livros, mulheres, festas e amigos. Das sistemáticas anotações em seu
pequeno caderno (que com certeza foram vários, sendo sempre o mesmo)
tirou todo o sumo de sua obra. Meticuloso e devoto de seu trabalho,
conseguiu organizar seus escritos em quatro volumes: A Vida Popular
na Bahia, Influências Africanas nos Costumes da Bahia, Apontamentos
Sobre a Mestiçagem das Famílias Baianas e A Culinária da Bahia – origens
e preceitos, todos publicados a custo de muito suor, pouquíssimo
dinheiro e apoio incondicional de certos companheiros. Publicados na
primeira metade do século XX, época na qual o pensamento sociológico
brasileiro estava se constituindo como tal, Archanjo abarcou em sua
obra, mesmo sem se ater a uma base metodológica ortodoxa, grandes temas
pesquisados pela Antropologia – tendo, inclusive, cada qual a sua
maneira, contribuído decisivamente para que se tecesse o pano de fundo
sobre o qual se deu o desenvolvimento dessa disciplina, a saber: os
mitos, a magia e as relações de parentesco.
Archanjo buscava suas histórias e seus personagens com o mesmo apetite
que buscava as mais belas mulatas que subiam e desciam as ladeiras do
Pelourinho - sendo este mesmo lugar, sua casa, seu quintal e seu campo
de pesquisa. Autor e personagem de acontecimentos fantásticos, fazia da
sua vida sua ciência e da sua ciência uma grande arte. Mulato baiano,
bom de prosa e encantador, querido por toda a gente das ruas, Pedro
Archanjo continua despertando reações das mais diversas naqueles que
vieram depois dele; conseqüência dos muitos homens que foi sendo sempre
ele mesmo.
Dito
tudo isso, há de se destacar o que eu particularmente mais gosto em
Archanjo: o fato de ele ser uma personagem literária. Aqui, a linha,
muito tênue, entre o real e o imaginário; entre o que um autor escolhe
contar e o que não nos é revelado, ou ainda, entre aquilo que se vê e o
que é dito a respeito do que foi visto; faz-se de invisível perante
nossos olhos – olhos sedentos por uma ordenação objetiva das “coisas
reais”. É intrigante notar como estamos sempre transitando de um lado ao
outro dessa linha (muitas das vezes nos equilibramos em cima dela; ou
caminhamos com inadvertida desenvoltura, pisando com um pé em cada um de
seus lados) sem nunca nos preocuparmos com a condição híbrida de nossas
vidas, e como, no entanto, toda vez que nos propomos a discorrer
cientificamente acerca do essencialmente humano, que afinal
de contas é o que se propõem a antropologia, acabamos, muitas das vezes,
deixando de lado toda essa potência onírico/afetiva que nos habita. Daí,
acredito eu, dá-se o árduo oficio do antropólogo: tentar dar conta
desses aspectos (muitas das vezes) frouxos e fugidios que constituem as
relações simbólicas e afetivas entre os homens; tão simples de serem
vivenciadas e tão penosas de serem “agarradas”. E como não bastasse a
delicadeza do conteúdo abordado, a forma pela qual ele é apreendido é a
escrita, ou seja, o exato momento no qual se cristaliza em uma folha de
papel toda a espontaneidade que é experimentada na vida. Todavia, se por
um lado o fato de termos de escrever parece soar como um fator
dificultador, por outro é exatamente ele que nos possibilita o acesso a
um universo ilimitado de possibilidades e significações; o que,
convenhamos, é privilégio de poucos. Afinal, quantos são os que podem se
dar ao luxo de dizer que compartilham do mesmo oficio dos poetas, ou
seja, escrever. Será, portanto, que temos como fugir do que estou
considerando aqui como nossa vocação primeira? Será que existe outra
forma de ser antropólogo que não sendo também um artista, um artesão?
Ao
brincar aqui com a figura de Pedro Archanjo (antropólogo/personagem),
tento ressaltar o caráter “fluido constitutivo” (acredito eu) das
relações entre a vida, a arte e a ciência. Visto sob esta ótica, pelos
olhos de Archanjo, a antropologia é, ao mesmo tempo, vivência, arte e
ciência; três protagonistas em um espetáculo onde o importante não é
descobrir qual dos três triunfa no final, mas sim o contrário disso: a
tomada de consciência da coexistência fundamental e complementar dessas
três esferas.
Sendo
assim, é sob a égide de Pedro Archanjo, brasileiro, mulato, sábio
formado nas ruas, feiticeiro e, acima de tudo, uma personagem literária
– que não deixa de ser real pelo simples fato de ter nascido da cabeça
de um autor –, é que eu, também Pedro de nome, pretendo continuar
escrevendo e exercendo meu oficio de antropólogo e artista.
[1]
O
título foi inspirado na bela frase do colega André Tavares que certa vez
definira a antropologia como “a difícil arte de elaborar o óbvio”.
Data do texto:
03/03/2008.
(*) Pedro
Gondim Davis:
GRADUAÇÃO: Curso: Ciências Sociais (9º período). Universidade Federal de
Minas Gerais - UFMG. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: (03/2004 até 06/2004)
Voluntário no projeto de capacitação de conselheiros para o Conselho
Estadual de Assistência Social – NUPASS (Núleo de Projetos em
Assistência Social) – UFMG. (04/2005) – Voluntário no projeto
Literaterras – UFMG. (Desde 07/2007 até presente momento) – Voluntário
na pesquisa sobre Formas alternativas de resolução de conflitos em Belo
Horizonte, pesquisa esta que integra o projeto “Sistemas de Justiça
Criminal e Segurança Pública, em uma perspectiva comparada:
administração de conflitos e construção de verdades” do PRONEX 2006
CNPq/FAPERJ.
Atualizado em 16/04/08
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