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Coluna (Edição nº 39)
"Uma
etnografia selvagem?
—o
que Helena Valero teria a nos dizer sobre a narrativa etnográfica—", por
Bruno Ribeiro Marques (*)
A
etnologia selvagem que nossa heroína pratica chega mesmo à
contestação... (Pierre Clastres)
Em
São Gabriel da Cachoeira, cidade do Noroeste amazônico, no início da
década de 1960, ocorreu o encontro entre Helena Valero, uma mulher
ribeirinha[1]
que havia sido raptada por índios Yanomami aos treze anos, passando ao
todo vinte e quatro anos entre eles, e Ettore Biocca, etnobiólogo
italiano. O resultado seria posteriormente o lançamento de “Yanoáma:
the narrative of a white girl kidnapped by amazonian indians”, livro
esse cuja primeira publicação foi em 1965 e contou com traduções em
várias línguas, fazendo o caso de Helena Valero ser conhecido ao redor
do mundo. Do prefácio do livro (Biocca 1971: 11), podemos inferir que o
que guiou o encontro entre Biocca e Valero foi um interesse etnográfico
da parte do etnobiólogo, que buscava informações sobre os Yanomami.
Entretanto, chama a atenção de Biocca como as perguntas feitas a Valero,
com vistas a uma pesquisa científica, eram respondidas através da
narrativa de sua experiência pessoal entre os índios, expondo o que o
pesquisador via como dados em uma sorte de relato performático, em suas
palavras.
Deste
cruzamento de perspectivas —um pesquisador procurando dados sobre os Yanomami; uma mulher ribeirinha contando sua experiência de captura e
vida entre os índios— surge um produto de autoria controversa, “Yanoáma”.
Mesmo sendo estruturado como uma autobiografia (de Helena), logo,
narrado na primeira pessoa do singular, a autoria não é plenamente
imputada ao biografado, mas a quem coletou o relato (Biocca). Agora, não
cabe aqui tratar da autoria do livro, tema este já aprofundado em alguns
textos (Pratt 1986, Valero 1984). Considerável tinta já foi derramada
acerca da injustiça que Biocca teria cometido com Helena Valero ao não
lhe conferir a autoria plenamente. Outra questão que comumente surge é
acerca do caráter etnográfico (ou não) de “Yanoáma”.
Quanto à polêmica em torno da autoria, acredito que a suposta autoria de Biocca já foi contundentemente questionada e, em contrapartida, a de
Helena Valero reforçada, tendo a afirmação definitiva com o lançamento
de “Yo soy Napëyoma: relato de una mujer raptada por los indígenas
Yanomami”[2]
(Valero, 1984), publicação baseada em uma regravação mais recente da
história de vida de Valero, estabelecendo com justiça a autoria do livro
a ela. Pois bem, o que eu gostaria de delinear aqui é algo mais próximo
da questão acerca do caráter etnográfico do relato de Helena Valero,
todavia sem a pretensão de encerrar a controvérsia (como foi feito na
questão da autoria). Ao invés de fechar com uma resposta taxativa,
gostaria de abrir a discussão com uma pergunta um pouco diferente da que
comumente se faz. Proponho aqui um brevíssimo experimento na seguinte
direção: o que a narrativa de Helena Valero pode nos dizer sobre o
gênero etnográfico se, como exercício, considerarmos essa sorte de
relato performático, ao qual Biocca se refere, como uma “etnografia
selvagem” no dizer de Pierre Clastres? O que poderíamos apreender da
forma narrativa de Valero como inspiração para nosso próprio estilo
etnográfico? Ou seja, não se pressupõe aqui o caráter etnográfico como
um limite-contorno do relato de Valero —o que encaminharia para a
pergunta de se é uma etnografia ou não—, mas sim um limite-tensão:
Ou,
para usarmos ainda uma outra imagem, ela se tornaria aqui um puro
limite — mas não no sentido geométrico de limitação, isto é, de
perímetro ou termo que constrange e define uma forma... e sim no sentido
matemático de ponto para o qual tende uma série ou uma relação:
limite-tensão, não limite-contorno. (Viveiros de Castro
2002:9)
Enfim,
a questão deste ensaio é: no que o relato de Helena Valero pode nos
elucidar acerca do que o gênero etnográfico é virtualmente capaz?
Helena Valero não tinha gabinete, mas sabia contar histórias
Algo que assombra os que se debruçam sobre a narrativa de Valero é sua
incrível memória e talento narrativo (Clastres 2004, Fuentes 1984). Mas,
alguns autores, como Clastres (2004) vão um pouco mais fundo na questão,
delineando a posição privilegiada da qual emerge o relato de Valero. Em
linhas gerais, podemos dizer que Clastres apresenta o relato contido em
“Yanoáma” como uma sorte de elo perdido da antropologia: um
relato fundado em uma situação ideal, formando algo mais próximo de uma
representação perfeita, uma cópia fiel do mundo indígena. Para Clastres,
Helena, que fora capturada com treze anos de idade, enquanto navegava
com sua família pelo rio Dimití, já tinha idade o suficiente para ter
sido conformada como “uma branca, uma pessoa do Ocidente”, mas era nova
o suficiente para agüentar o choque estrondoso de sua captura e
assimilação pela realidade Yanomami. Vinte e quatro anos depois, Valero
volta ao mundo dos brancos; de alguma forma, ela nunca saiu, e é esse o
ponto de Clastres. Helena, devido a essas condições favoráveis, teria
conseguido ao mesmo tempo mergulhar no mundo indígena, mas mantendo uma
distância fundamental: “uma certa liberdade em relação aos índios, que
ela sempre se esforçou para manter entre eles a sua diferença”. Valero
seria, assim, capaz de narrar “o limite, o além de nossa civilização, e
assim talvez o espelho de sua verdade”. O desgosto expresso com as
“desencarnadas categorias do pensamento etnológico” de seu tempo fazia Clastres vibrar diante de tal relato biográfico, que ao mesmo tempo dava
corpo ao mundo indígena sem, entretanto, enredar-se em sua sintaxe de
forma a tornar-se virtualmente incompreensível.
Penso
que, dessa forte imagem pintada por Pierre Clastres, o mais importante é
compreender que o que qualifica o relato de Helena Valero seria,
portanto, um certo distanciamento que fazia em relação aos índios. Não
importa quanto tempo passasse entre eles, inclusive casando-se e tendo
filhos, ela permaneceria Napëyoma, a “mulher estrangeira”,
segundo a tradução de “Yo soy Napëyoma” (1984). Entretanto, cabe
delinear brevemente alguns diferenciais entre o distanciamento praticado
por Helena e o distanciamento praticado pelos antropólogos[3].
O caminho percorrido por Helena desde a captura até a volta é um tanto
distinto do descrito por Malinowski no capítulo introdutório de “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, mito de referência primordial do
método etnográfico. Ainda, se, conforme Evans-Pritchard, “o que se traz
de um estudo de campo depende muito do que se leva para ele” (1978:
300), pode-se deduzir que a bagagem conceitual de um antropólogo quando
vai a campo e, conseqüentemente, o que traz de campo, é muito distinta
da bagagem de Valero em sua experiência entre os Yanomami. Até aqui nada
mais do que o óbvio. Agora, o interessante é ver como algumas dessas
diferenças implicam formas distintas de narrativa que podem iluminar uma
à outra.
Como
Pierre Clastres bem expôs, Helena não era uma tabula rasa ao ser
inserida entre os Yanomami. Creio que está aí a chave para entender um
pouco da descrição feita por Helena de sua experiência. Da forma em que
a narrativa transcorre, Helena não parece estar preocupada com visões
panorâmicas, sobrevôos sobre o território Yanomami. Em certo sentido,
sua narrativa é plana, traçada sempre a partir de elementos muito
concretos, de vivências pessoais. Os Yanomami têm sempre nomes próprios
e agências particulares, não estando preocupados com generalizações sob
a imagem da “cultura”, “sociedade”, “ethos”, “instituições sociais” etc.
Exemplo disso é que, diferencialmente da tendência geral das etnografias
sobre povos indígenas, “Yanoáma” não começa com uma
contextualização territorial e/ou histórica do povo em questão. O começo
é brusco, repentino e violento, uma captura. E a partir disso o
território Yanomami se abre aos olhos do leitor por outros caminhos que
não o sobrevôo, a contextualização: o conhecemos por entre as árvores,
igarapés, montes e pedras, pelas dores, fugas, risadas, gritos, cantos,
suor, medos, fumaça, feridas, sangue etc. Por exemplo, o xamanismo não é
apresentado como uma instituição social que vai sendo pouco a pouco
assentada no relato etnográfico a partir de casos e personagens. O que
se poderia chamar de xamanismo, em “Yanoáma”, é os personagens,
está sempre colado na descrição. Enfim, sua descrição não parece estar
pautada por uma chave que transite numa dinâmica entre micro fenômenos e
macro estruturas.
Helena segue em sua aventura entre capturas, fugas e deslocamentos
sucessivos, passando pelos Kõhõrõshi-thari, Karawë-thari, Shama-thari,
cada qual com suas divisões. De um a outro desses coletivos, que no
fazer etnológico seriam classificados como grupos Yanomami, ela passa
através de eventos muito concretos, sempre envolvendo uma rede de
relações entre esse conjunto de pessoas. Ou seja, no transcorrer da
narrativa de “Yanoáma”, não é apresentada uma figura conceitual
anterior às ações, de forma que englobasse todos esses coletivos e os
transformasse em partes de uma totalidade possível. Apesar do fato de
ela ser Napëyoma, “filha de brancos”, na tradução de “Yanoáma”, e
“mulher estrangeira”, na tradução de “Yo soy Napëyoma”, ter
estado constantemente presente, marcando uma oposição entre ela e “os
índios” —oposição essa enfatizada por Valero (cf. nota 1)—, na narrativa
isso não aparece como uma totalização. Em outras palavras, havia a
diferença entre ela e os outros, mas na bagagem que Helena levou em sua
empreitada entre os Yanomami, o conceito de Sociedade, enquanto
totalidade, não estava presente, ou melhor, não tinha os mesmos efeitos
em sua descrição que em uma etnografia convencional.
O
ponto do texto é justamente narrar a passagem de um a outro destes
coletivos em sua concretude; o que conecta estes coletivos são
justamente eventos como os narrados por Valero: guerras, trocas, saques,
fugas etc., envolvendo processos de fissão e fusão mais ou menos
transitórios. Aliás, esse relato da participação de Napëyoma e
como ela transita de um a outro destes coletivos, apresenta dados
bastante interessantes acerca das relações entre o que se entende em
etnologia como grupos e subgrupos Yanomami e suas formas de
constituição. Neste ponto, cabe um paralelo com o que Bruno Latour
(2005) chama de “definição performativa de grupo” (2005: 34,35), a qual
se opõe à “definição ostensiva” por não tomar o grupo como algo dado,
mas continuamente constituído. Sendo assim, acredito que esse esforço de Latour em deslocar-se do cânone durkheimiano da Sociedade anterior às
ações teria, parece-me, grande rendimento através da descrição de Helena Valero. Desta concretude com que narra as relações entre os coletivos Yanomami, podemos apreender indicações de como os próprios atores
definem as fronteiras do social, performativamente.
Ainda
como nota comparativa, cabe apontar que, ao contrário da “antropologia
do consenso” malinowskiana, em “Yanoáma”, apesar da narrativa
estar centrada em Helena, podemos provar um pouco da eterna controvérsia
que parece ser a vida entre esta população. A chefia indígena entre os Yanomami, não tendo efeitos de Estado, separadas chefia e coerção (Clastres,
2004), estabelece uma interessante relação com o coletivo, que, segundo Clastres, seria um “jogo perceptível nas entrelinhas do relato de
Helena” (2004: 65). A controvérsia tem aí solo fértil, posto que não há
autoridade possível que encerre a certeza e deslegitime os discursos
dissonantes, o que é magnificamente bem traçado na narrativa de “Yanoáma”.
Bom,
por fim, que este breve texto seja, mesmo em (ou justamente devido) sua incompletude e caráter experimental, um estímulo à leitura e à admiração
dos relatos de Helena Valero, bem como à criatividade na reflexão
acerca de técnicas descritivas, de forma que a antropologia reflita
sobre suas relações possíveis não apenas com o conteúdo dos discursos
nativos, mas também com sua forma narrativa.
REFERÊNCIAS
BIOCCA, Ettore. Yanoáma: the narrative of a white girl kidnapped by
amazonian indians. New York: E.P. Dutton, 1971.
CLASTRES, Pierre. Uma etnografia selvagem. In: Arquelogia da Violência.
São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
EVANS-PRITCHARD, E. E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande.
Rio de Janeiro: Zahar Editores. Apêndice IV: “Algumas reminiscências e
reflexões sobre o trabalho de campo”. 1978. Pgs 298-316.
FUENTES, Emilio. Introduccion. In: VALERO, Helena. Yo soy Napëyoma:
relato de uma mujer raptada por los indígenas yanomami. Caracas:
Fudación La Salle de Ciências Naturales, 1984.
LATOUR, Bruno. Reassembling the social: An Introduction to
Actor-Network-Theory. New York: Oxford University Press, 2005.
MALINOWSKI, B. Argonauts of the Western Pacific. London:
Routledge, 1922.
PRATT, M. L. "Fieldwork in common places". In: CLIFFORD, James & G.
MARCUS (ed.), Writing Culture. The poetics and politics of
ethnography. Berkeley, Los Angeles & London: University of
California Press. 1986. Pp: 27-50.
VALERO, Helena. Yo soy Napëyoma: relato de uma mujer raptada por los
indígenas yanomami. Caracas: Fudación La Salle de Ciências Naturales,
1984.
VIVEIROS DE CASTRO, E. O nativo relativo. Mana. Estudos de
Antropologia Social. 2002. 8(1): 113-148.
[1] Tais questões têm
inspiração direta em Pierre Clastres, que escreveu um ensaio sobre “Yanoáma”.
Intitula-se “Uma etnografia selvagem: A propósito dos Yanomama”, publicado
originalmente na revista L’Homme, I, n.9, 1969 —sendo a versão da qual
disponho publicada em “Arqueologia da Violência” (2004). Deve-se
considerar que, como comparação, se Pierre Clastres focou seu texto sobre
“Yanoáma” preponderantemente no quão inspirador era para a
etnologia indígena o conteúdo do relato de Helena Valero, neste breve
experimento proponho focar na forma do relato, apontando possibilidades de
inspiração para os que almejam produzir etnografias interessantes.
Recentemente, em um período de trabalho de campo em São Gabriel da
Cachoeira e arredores (março-abril de 2007), a ascendência indígena de
Helena Valero (tanto pela linha materna quanto paterna) foi comentada em
algumas conversas com um antropólogo que realiza pesquisa entre os Baré na
região. Isso indica a complexidade da identificação de Helena como uma
“menina branca” raptada pelos Yanomami. Este tema merece exploração mais
cuidadosa que a que posso dispensar no momento. Por ora, me contento com
as linhas gerais do que Valero coloca na Introdução de “Yo soy Napëyoma”
(1984): 1) sua mãe é Tukano, do rio Tiquiê, e seu pai tem origem cabocla (pai
de Caracas, mãe criolla) e; 2) a oposição entre ela, enquanto “civilizada”,
e “os índios”, ao menos em relação aos Yanomami, é fortemente marcada em
seu relato. Portanto, mesmo tendo em mente a complexidade da situação rionegrina em relação à indianidade e seus marcadores, faz-se por ora a
opção de seguir a narrativa de Valero em sua ênfase no distanciamento
entre elas e “os índios”, no caso, os Yanomami.
[2] No momento, não me
concentrei na leitura dessa publicação como o fiz com “Yanoáma”. Um
trabalho comparativo entre as duas certamente pode refinar algumas
questões em trabalho posterior. Mas, cabe referir que para a escrita deste
texto busquei nesta publicação a confirmação de alguns dados, como datas,
grafia de alguns termos em Yanomami, bem como alguns dados acerca da
controvérsia entre Biocca e Valero, dados esses que tendem à incorreção no
livro publicado por Biocca (Valero 1984).
[3] “Os antropólogos”,
unidade essa consideravelmente artificiosa, como se esses praticassem uma
única forma de distanciamento, como se esses compreendessem
consensualmente uma única forma de relação possível entre antropólogo e
nativo. Todavia, para efeitos esquemáticos, é mister que em relação à
narrativa de Helena Valero alguma unidade (instável, certamente) se
projete sobre os antropólogos. Claro que, desde que se considere a
instabilidade dessa unidade, em relação à forma narrativa de Valero —seu
relato performático, nas palavras de Biocca—, poderíamos apontar reverberâncias com algumas propostas etnográficas, em especial as
produzidas a partir dos questionamentos pós-modernos da década de 1980,
muito embora para bem delinear essas aproximações e distanciamentos seria
necessário todo um outro tópico, o que não é possível neste espaço.
Portanto, para traçar as diferenças, tomaremos como parâmetro alguns
postulados da assim referida antropologia clássica, não abordando, por ora,
desdobramentos mais contemporâneos do método etnográfico, apenas,
pontualmente, alguma referência ao trabalho de Bruno Latour (2005).
(*)
Bruno Ribeiro Marques:
É
mestrando em Antropologia Social no Museu Nacional-UFRJ.
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