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Coluna (Edição nº 37)
"Nota
sobre o Projeto 'Educação em e para os Direitos Humanos em
Santa Catarina'", por
Tiago Hyra Rodrigues (*)
Esta coluna apresenta os resultados parciais do Projeto “Educação em
e para os Direitos Humanos em Santa Catarina”. Tal Projeto foi
realizado pelo
LEVIS (Laboratório de Estudos das Violências da Universidade Federal
de Santa Catarina), e desenvolvido com financiamento do Ministério da
Educação (através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade – SECAD) e da Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República (SEDH), e capacitou duas turmas de educadores
catarinenses (uma da região da Grande Florianópolis e outra da região de
Brusque, totalizando mais de 100 educadores) a trabalhar com as
temáticas relativas aos Direitos Humanos nas escolas.
A
formação dos educadores foi realizada na forma de cursos (com palestras,
recursos audiovisuais e oficinas), que foram desenvolvidos com abordagem
geral e introdutória na concepção da Educação em e para
Direitos Humanos como um conjunto de direitos fundamentais e universais,
englobando sua conceituação e seus princípios. Abordou também os
fundamentos filosóficos, sociais e políticos da Educação em Direitos
Humanos, bem como os documentos e as declarações internacionais sobre os
Direitos Humanos e seus reflexos na legislação brasileira,
principalmente a Constituição Federal de 1988. Foram contempladas ainda
a conjuntura internacional, com base no Plano Global de Educação em
Direitos Humanos e na década para a Educação em Direitos Humanos
1995-2004 estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), e a
situação nacional, centrada no Plano Nacional de Educação em Direitos
Humanos.
A
ênfase dos cursos, por sua vez, esteve voltada para as experiências
vivenciadas pelos estudantes no contexto da realidade escolar, onde
efetivamente se opera a Educação em e para os Direitos
Humanos. As temáticas abordadas pelos cursos tiveram sempre como
referência o universo do ensino e da escola, as relações entre alunos,
entre estes e os professores, assim como as experiências e narrativas
pessoais que pudessem ser trazidas para o ambiente da sala de aula e
desenvolvidas sob uma perspectiva humanista. Entre os temas discutidos
nos cursos estiveram: direitos da infância e adolescência, violências,
gênero, minorias sociais e étnicas e meio ambiente. Tal metodologia,
baseada em temas transversais e interdisciplinares, buscou assimilar a
contribuição das diferentes dimensões sociais para um entendimento poliforme das questões relacionadas com os Direitos Humanos, bem como de
sua dimensão quotidiana e vivencial. Está aqui implicada, portanto, uma
importante dimensão de combate aos grandes problemas que nossa sociedade
atravessa, como a luta contra a exclusão social (e educacional), contra
as violências, preconceitos e discriminações, e por direitos assegurados
em nossa Constituição Federal.
Compreende-se que a temática plural dos Direitos Humanos não deve ser
restrita a conceitos e definições abstratas, tampouco como um conjunto
de garantias jurídicas elencadas por dispositivos normativos de diversas
esferas. Uma Educação em Direitos Humanos que se pretenda dinâmica e
interativa com as múltiplas configurações da sociedade contemporânea
deve, inevitavelmente, partir de uma visão interdisciplinar e ampliada
dos inúmeros elementos que permeiam todas as temáticas. Em temas
transversais, como violência, gênero, etnia, minorias sociais e étnicas,
e meio ambiente, parece possível identificar múltiplas relações e
diversificados exemplos que envolvem e são reciprocamente envolvidos
pelo universo dos Direitos Humanos. Tal metodologia busca assimilar a
contribuição das diferentes dimensões sociais para um entendimento multi
e transdisciplinar das questões relacionadas com Direitos Humanos, assim
como de seus aspectos mais contextuais e vividos. É neste sentido que a
proposta pretende atuar na formação em e para os Direitos
Humanos, informando sobre tratados, concepções e legislações em
Direitos Humanos, mas também, e sobretudo, formando para os
Direitos Humanos, para o pensar crítico e seu exercício, para a
tolerância e para a solidariedade, para a justiça social e sustentabilidade, para a inclusão e para a pluralidade.
Capacitar os participantes do Curso de formação significa também
incentivá-los para a realização de estudos, reflexões, pesquisas,
propostas de trabalho e intervenções, bem como a produção de
conhecimento nas diversas áreas abrangidas pelos Direitos Humanos,
aprofundando seus conhecimentos teóricos e metodológicos de modo a
possibilitar a vinculação da teoria com a prática educativa e cotidiana.
E é a
escola o espaço no qual estes conhecimentos devem aparecer
sistematizados e codificados; ela é o espaço em que se definem a ação
institucional pedagógica e a prática e a vivência dos Direitos Humanos.
Em nossa sociedade, a escola é o principal espaço de estruturação de
concepções de mundo e de consciência social, de circulação e
consolidação de valores, de formação para a cidadania, de constituição
de sujeitos sociais e de desenvolvimento de práticas pedagógicas, que
supõem a pluralidade e a alteridade, a liberdade para o exercício da
crítica, da criatividade e para o reconhecimento, o respeito, a promoção
e valorização da diversidade. Assim, é necessário centrar esforços na
qualificação dos profissionais da área, pois serão eles que estarão
difundindo os valores e práticas humanistas entre os jovens, formando os
cidadãos do Brasil de amanhã.
Desta
forma, sendo a educação um meio privilegiado na luta pelos Direitos
Humanos, cabe priorizar a formação de promotores desses direitos,
vinculada às práticas sociais e à qualificação de profissionais que
atuam nos sistemas de educação, multiplicadores que são de valores,
atitudes e práticas, além de implementadores diretos de políticas
públicas. Deve-se ressaltar também que a educação é compreendida como um
direito em si mesmo, mas também como meio indispensável de acesso a
outros direitos. Nessa perspectiva, a implementação deste projeto visa
fortalecer uma cultura de respeito aos Direitos Humanos no Estado de
Santa Catarina, entendendo que esta ação supõe a difusão de valores
solidários, cooperativos e de justiça social, uma vez que o processo
permanente de democratização do país requer o fortalecimento da
sociedade civil como instância que seja capaz de expressar anseios e
demandas da população, reivindicar seus direitos e transformá-los em
conquistas, que só serão efetivadas na medida em que forem incorporadas
pelo Estado brasileiro como políticas públicas. Desta forma, o objetivo
é o de contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais pacífica
e democrática no Brasil, utilizando o meio mais apropriado para tanto: a
educação.
Além
disso, deve ser ressaltado que o Projeto “Educação em e para
os Direitos Humanos em Santa Catarina” também gerou alguns “produtos”:
uma apostila didática, com textos dos palestrantes, um audiovisual com
as palestras e oficinas, e um livro (no prelo) intitulado “Educação
em e para os Direitos Humanos: Discursos críticos e temas
contemporâneos”, organizado por mim e pelo Coordenador do LEVIS, Prof.
Dr. Theophilos Rifiotis. A equipe do projeto também foi responsável pela
realização da conferência “Políticas Públicas para a Juventude: o que há
de novo?”, proferida na Universidade Federal de Santa Catarina pela
Profa. Dra. Regina Novaes, da UFRJ, e também ex-presidente do CONJUVE
(Conselho Nacional de Políticas Públicas de
Juventude), em setembro de 2007.
(*) Tiago
Hyra Rodrigues:
É integrante da
Equipe
LEVIS e
doutorando em Antropologia Social pelo PPGAS/UFSC.
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