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Coluna (Edição nº 35)
"Por
uma análise de classe do recente movimento estudantil", por
Danilo Enrico Martuscelli
(*)
As análises acerca do recente movimento grevista das três universidades
públicas paulistas (Unesp, Unicamp e USP) têm, em linhas gerais, apelado
para critérios e valores morais para julgar as reivindicações e métodos
de luta desse movimento, o que tem acarretado na ausência de
objetividade na análise desse movimento. Isso quer dizer que é
insuficiente, ou mesmo inadequado, partir de valorações como
justo/injusto, bom/mau, civil/incivil para compreender os motivos que
deram impulso à mobilização grevista que obteve dos estudantes os
maiores índices de participação e adesão do início ao fim desse
movimento.
Consideramos que esse tipo de avaliação subjetiva ou moralista desse
movimento grevista, em especial do comportamento político dos estudantes
nesta conjuntura política, esteve difuso não só no seio do campo
político conservador, como obteve apoio no campo político progressista.
No
campo político conservador, representado, sobretudo, pelos membros da
burocracia estatal, pela grande imprensa e pelos membros da alta
burocracia universitária, tornou-se perceptível o uso recorrente do
discurso da civilidade, do consenso da comunidade acadêmica, da defesa
da integridade institucional, que se afetada deveria recorrer, como de
fato recorreu, ao uso do aparato policial ou mesmo da política de
punições aos grevistas. O discurso da imaturidade, da irresponsabilidade
e irracionalidade intrinsecamente juvenis também foi amplamente
utilizado com a finalidade de banalizar as práticas dos estudantes
mobilizados e de valorizar os agentes que supostamente possuem uma
conduta intrinsecamente madura, responsável e racional quando tomam
decisões políticas.
Colocando-se como porta-vozes da “plena democracia” e da neutralidade
política, esse campo político utilizou-se de vários recursos para
colocar o movimento grevista na defensiva, tendo sido o mais expressivo
o Decreto Declaratório que se apresentou não como um recuo para o atual
governo estadual, mas apenas como uma “interpretação autêntica” dos
decretos precedentes que feriam em diversos aspectos o princípio
constitucional da autonomia universitária e ainda ferem a Constituição
Estadual, uma vez que cria uma Secretaria de Estado pela via de decreto
e não pela Assembléia Legislativa. É notável também que esse campo
político conservador se valeu da crítica sistemática aos métodos de luta
do movimento grevista, considerados violentos, corroborando o
esvaziamento político das principais reivindicações desse movimento que
procuravam atacar, de forma mais ativa, as conseqüências das políticas privatistas postas em curso pelos precedentes e atuais governos
estaduais e federais, assim como reitores. Não é aleatório que pautas
como ampliação da assistência estudantil, aumento salarial para docentes
e funcionários, defesa da contratação de docentes e funcionários, e,
sobretudo, a revogação dos decretos do Governo Serra faziam parte do
elenco de reivindicações.
Se
tomarmos, portanto, os argumentos apresentados pelo campo político
conservador como ponto de partida para a análise desse recente movimento
grevista, incorreremos numa avaliação que dissolve o conhecimento do
significado político desse movimento na suposta constatação de que os
grevistas desrespeitaram as instituições públicas, ao se valerem dos
mesmos métodos de luta dos incultos, dos apologetas da baderna civil, da
massa irracional. Inúmeras foram as tentativas de jogar a comunidade
acadêmica e extra-acadêmica contra as categorias mobilizadas, em
especial os estudantes, todos elas reforçando a lógica de que a educação
superior pública é um privilégio de um pequeníssimo contingente e não um
direito que deve ser ampliado a todas camadas sociais. Com isso, seria
inconcebível a “sociedade” dar apoio ou mesmo gastar dinheiro com
pessoas (ler: estudantes mobilizados) que não querem cumprir a sua
verdadeira função social que é estudar e preferem abusar das práticas de
desobediência civil, afetando a “normalidade” das regras de convivência.
Como sabemos, esse discurso da educação como privilégio não tem nada de
novo, uma vez que ele é sempre retomado para jogar os grupos excluídos
da universidade pública contra os grupos incluídos e aponta como solução
remediável a privatização de todo o sistema de ensino superior público.
No
campo político progressista, no qual se encontra a baixa patente das
categorias inseridas na universidade, também encontramos avaliações que
não contribuem para uma caracterização satisfatória do movimento
grevista, o que tem levado as análises a certos tipos de fetichização
das práticas estudantis ou mesmo à absolutização da novidade dos
métodos, como chegou a ser afirmado por certos intelectuais da esquerda,
recentemente, no jornal Folha de São Paulo. O fetiche dos métodos de
luta dos estudantes, a identificação de toda a categoria docente como
inimiga da educação pública e dos “estudantes e funcionários”, o uso da
dicotomia exata versus humanas para entender, respectivamente, os grupos
não mobilizados ou alienados e os grupos mobilizados ou críticos, o
incentivo ao apartidarismo como única lógica possível de mobilização, a superestimação do caráter altruísta do movimento estudantil, o fetiche
da política de negação da ordem de todas as coisas são alguns exemplos
de caracterização do movimento estudantil difundidos entre os grupos que
deram apoio às iniciativas dos grevistas, mas que ocultam os motivos que
levaram os estudantes a se mobilizarem.
Pelas
razões expostas acima, consideramos que a análise do movimento grevista
não deve partir das perguntas do que é justo ou injusto, bom ou mau,
adequado ou inadequado, pois o fundamento moralista dessas perguntas
prejudica a realização de uma análise objetiva das mobilizações da
conjuntura recente. Com o intuito de fornecer indicações para a
construção de um tipo de análise alternativo, consideramos oportuno
reorientar as perguntas, o que nos leva a tentar responder as seguintes
questões: qual é a situação de classe dos estudantes mobilizados? Quais
foram as principais reivindicações e o significado dos métodos de luta
aplicados por essa categoria na atual conjuntura?
A
renda familiar dos estudantes dos cursos em que a mobilização grevista
obteve maior adesão é um dos indicadores que temos para caracterizar
esse movimento. Através de estatísticas dos matriculados nos últimos
vestibulares, podemos notar que a maioria dos estudantes dos cursos
mobilizados pertence a famílias com renda inferior a 10 salários
mínimos. Isso é um aspecto importante da caracterização que necessita
maior precisão, mas que denota desde já que comparativamente foram os
estudantes mais pobres que aderiram com mais intensidade ao movimento.
Com isso, sugerimos que a relação de dependência do estudante com a
família é um dos determinantes da situação de classe dos estudantes
mobilizados e forma o que poderíamos chamar de caução
político-ideológico deste setor.
Quando analisamos as reivindicações como as que demandam ampliação da
assistência estudantil, não podemos tomá-las de modo isolado sem
considerar essa situação de classe dos estudantes. Parte significativa
dos estudantes das três universidades públicas estaduais não tem
interesse na assistência estudantil, uma vez que as famílias desses
estudantes fornecem-lhes “mesadas” suficientes para cobrir os altos
custos com moradia, alimentação, material de estudo, lazer entre outros
componentes. Outra parcela toma a assistência estudantil como condição
imprescindível para a sua manutenção na universidade. Isso significa que
a assistência estudantil não é uma pauta que atenderá indistintamente
todos os estudantes, mas sim a parcela mais pauperizada que esteve à
frente da luta.
As
possibilidades de remuneração durante e após o período e de formação dos
estudantes são também diferenciadas. Diversos cursos possuem um perfil
adaptado às demandas do mercado, em especial do grande empresariado, que
realiza parcerias com as universidades públicas estaduais, oferecendo
como moeda de troca estágios razoavelmente remunerados, mas sem nenhum
direito trabalhista. Outros cursos mais resistentes ao privatismo não
possuem essa mesma aceitação no mercado, o que leva os estudantes desses
cursos a ter como única alternativa as mal-remuneradas bolsas pesquisas,
quando têm a oportunidade de terem seus projetos de pesquisa aprovados.
Isso demonstra que as oportunidades de remuneração são diferenciadas
durante o próprio processo de formação. Uma análise dos estudantes
mobilizados poderá constatar que eles tendem a participar do segundo
grupo. Não queremos, com isso, sugerir que a saída para a universidade
são as parecerias com a iniciativa privada, mas sim que a ampliação da
participação da iniciativa privada nas universidades nos últimos anos
têm colaborado para dividir politicamente os estudantes e para
estabelecer as diretrizes de pesquisa que devem ser cada vez mais
operacionalizáveis às empresas, que patenteiam o conhecimento elaborado
no interior das universidades e obrigam a “sociedade” a pagar pelo alto
preço desse conhecimento. Nesta lógica, não há perspectiva de
socialização do conhecimento, muito menos de produção de conhecimento
crítico à lógica mercadológica ou mesmo estatal.
Outro
indicador que nos ajuda a entender a disposição dos estudantes
mobilizados para a luta são as perspectivas de inserção futura desses
estudantes no mercado trabalho. Talvez pudéssemos sugerir que os
estudantes mobilizados encontram-se entre aqueles que estarão
submetidos, de modo mais intenso, ao emprego precarizado ou mesmo ao
desemprego, e tenderão a receber salários bem abaixo dos outros cursos
em que a mobilização nem sequer teve fôlego. É preciso dizer que as
profissões de menor prestígio social das quais fazem parte os estudantes
mobilizados têm obrigado esses estudantes a prolongarem o tempo de
estada nas universidades com os cursos de pós-graduação que têm exigido
cada vez mais a pesquisa just-in-time ou drive thru, sem
lhes garantir em vários casos, como contrapartida, quaisquer
perspectivas de bolsas de estudo.
Esses
argumentos nos dão importantes indicações para podermos entender por que
os estudantes se mobilizaram e nos ajudam a identificar qual é a
situação de classe dos mesmos. Sem elencar esses aspectos mínimos,
continuaremos reproduzindo o discurso dissimulador do consenso ou da
unidade de interesses da comunidade acadêmica. Muito longe de serem
jovens inconseqüentes ou apologetas da baderna civil, os estudantes
mobilizados parecem ter dado mostras do quão cindida encontram-se as
universidades públicas em termos de interesses políticos, econômicos e
sociais.
Os
elaboradores dos diversos manuais de civilidade produzidos nos últimos
meses execraram os métodos de luta dos estudantes, como ocupações de
prédios públicos e barricadas. No entanto, não fizeram o mínimo esforço
para compreender esses recursos táticos utilizados para colocar em
evidência as reivindicações dos grevistas. O resultado disso tem sido a satanização do movimento estudantil e a omissão ou silêncio diante da
forma política do governo por decreto ou por medida provisória, ou da
centralização das decisões políticas nas instâncias executivas seja dos
governos municipais, estaduais e federais, seja da alta administração
das universidades, que tem sido louvada e concebida como a única maneira
de se fazer política. Uma forma política autoritária que faz de tudo
para dirimir os conflitos e aplastar as oposições à alta patente.
Não é
intenção aqui fazer apologia do movimento estudantil, pois os seus
limites podem ser vistos a olho nu, ou melhor, o movimento estudantil
atacou muito mais os efeitos da política educacional para o ensino
superior do que suas causas, tarefa esta que obrigaria uma politização
ainda maior do movimento e uma articulação mais ampla com setores
insatisfeitos e recalcitrantes à política econômica e social vigente há
mais de quinze anos no Brasil e, em particular, no Estado de São Paulo.
Campinas, 17 de julho de 2007.
(*)
Danilo Enrico Martuscelli
é doutorando em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).
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