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Coluna (Edição nº 32)
"Com o
corpo, a alma e a mente: salvação e terapia pessoal como ethos
moral entre as classes médias", por
L. Nicolás Viotti
(*)
O fantasma do “holismo”
percorre as classes médias! Uma alteridade relativamente
próxima convive com muitos de nós; e involucra, quando não a nós mesmos,
as nossas redes de afinidade, que incluem amigos e familiares. Alguns
exemplos heterogêneos disso são as chamadas “espiritualidades
alternativas”, que inventam sua tradição junto à zona dos orientalismos
e indigenismos, misturando-se freqüentemente com traços do mundo psi, o
que renova a aposta por entender a pessoa em um sentido integral. Ao
mesmo tempo, na mancha da tradição católica, fazem parte deste fenômeno
as múltiplas manifestações de um revivalismo “emocional” com oficinas de
cura “interior” e liturgias renovadas. Tal qual se refere McGuire
(1988), num trabalho sensível às diversas terapias rituais da pessoa nos
Estados Unidos (muitas delas não por acaso chamadas de “holistas”), a
diversidade pode ir desde cursos de terapia trans-pessoal, oficinas de
auto-conhecimento, neo-xamanismos urbanos, terapias orientais de
diversas índoles até cursos de cura dentro do leque cristão. Cenário ao
qual já nos acostumamos nas cidades da América Latina, onde as classes
médias dispõem de uma heterogênea oferta de bens que misturam salvação e
cura ancorados na síntese com as próprias tradições locais.
A terapia - entendida como
“mudança de vida”, como transformação “holista” da pessoa, como um “todo
integrado” de individualidade, corporalidade, sociabilidade e
religiosidade - parece ser um traço deste conjunto de dispositivos da
educação moral contemporânea. O pretendido “holismo” é, paradoxalmente,
uma transformação centrada na intimidade pessoal com fortes traços de um
culto de si. Assim, temos uma ênfase no indivíduo em
relação a ele mesmo, ao seu próprio corpo, aos outros indivíduos
e ao sagrado, embora este último estivesse, hipoteticamente, condenado a
desaparecer.
A dissolução dos limites
entre o campo religioso e o campo terapêutico entre as classes médias (Bourdieu,
1987) pareceria re-ligar esferas que nunca estiveram totalmente
afastadas no mundo popular das sociedades ocidentais mais ou menos
contemporâneas. Para não falar das cosmovisões não ocidentais ou da
própria tradição européia não moderna, onde sacralidade, corporalidade e
sociabilidade encontram-se integradas em configurações holistas num
sentido amplo. Com efeito, entre os setores médios, seguindo a célebre
formulação de Max Weber: a “cura de almas”, apagaria os seus limites
estritos tanto com a “cura de corpos” quanto com a “cura psi”.
Agrega-se às religiosidades uma preocupação com a cura física tanto
quanto com a psicologização, visível por exemplo nos cursos de cura
interior católicos e nas oficinas de auto-ajuda do horizonte new age.
Herdeiras da contracultura
dos anos 60, embora não seja uma novidade na modernidade ocidental,
estas manifestações colocam, uma vez mais, a crítica dos dualismos
modernos alma-mente/corpo, razão/emoção, natureza/cultura, no contexto
de um ethos individualista que constitui uma configuração
histórica da pessoa contemporânea. Ao mesmo tempo em que se percebe uma
terapeutização das religiosidades – universo moral explícito primordial
–, critica-se a dimensão moral do universo terapêutico: movimento
anti-psiquiátrico, crítica ao fisicalismo biomédico e procura de
alternativas autônomas, autoconscientes do aspeto moralizador dos
saberes terapêuticos.
A crítica ao intelectualismo
das religiões instituídas – tanto a partir de dentro quanto de fora
delas, nos movimentos de renovação e nas religiosidades alternativas –,
assim como a crítica ao modelo médico, psiquiátrico ou psicoanalítico
ortodoxos no contexto da contracultura dos anos 60, são, para além das
especificidades, parte de uma transformação maior que tem reverberâncias
contemporâneas nos estilos de significar o sofrimento, e que apontam a
integrar os enfoques “parciais” do corpo, alma e mente. Boltanski e
Chiapello (1999), embora coloquem o problema desde uma perspectiva muito
geral, analisam a crítica à modernidade que questiona o
desencantamento e a inautenticidade do estilo de vida
moderno, da relação com os objetos, as pessoas, a expressão dos
sentimentos e a criatividade, como uma dialética de oposição e de
assimilação às ideologias dominantes do que chamam “novo espírito do
capitalismo”: uma ideologia da autonomia, da autoregulação
e da flexibilidade. Gesto crítico da contracultura que reaparece
renovado no centro das eleições morais de universos das classes médias.
Reverbera também aqui o eco da célebre expressão de Marx sobre a
história política: se passa como tragédia e se repete como farsa!
Um conjunto de valores, antes ligados a uma cultura dita ‘alternativa’,
torna-se o senso comum do capitalismo contemporâneo.
Contudo, cabe ressaltar o
risco de se cair na condenação moral daquelas (outras) sensibilidades
críticas que vêem neste movimento o desenvolvimento de uma crise social
sem precedentes, posição em relação a qual marco uma diferença. Acredito
que somente a preocupação empírica pode gerar análises pertinentes, que
marquem uma diferença clara entre uma ‘antropologia da moral’ e uma
‘antropologia moralista’, em favor da primeira. Trata-se de levar a
serio a cosmovisão e os valores que se encontram em jogo entre as
pessoas que participam do universo estudado. Os focos etnográficos a
pesquisar poderiam dizer muito sobre a sociabilidade, a transformação
das noções de ‘pessoa’, a mutação e a permanência de modos de relação
com o sagrado que são caros aos universos morais.
Estou falando aqui de
desafios contemporâneos para o trabalho etnográfico e histórico,
desafios que consistem em mapear as transformações das configurações
morais das “modernidades periféricas” – que supõem tradições locais e
que incorporam as categorias eruditas das novas teologias/tecnologias da
interioridade que se difundem e se vulgarizam entre os setores médios.
Pensar nestas questões é colocar também um convite a olhar de perto um
processo que, se teve início como uma crítica periférica à ideologia
moderna e aos dualismos clássicos associados a ela, pareceria estar
convertendo-se numa formação da autonomia pessoal que chama a atenção
sobre as mutações do individualismo contemporâneo.
Bibliografía
Boltanski, Luc e Eve Chiapello. 1999. Le nouvel esprit du capitalisme.
Paris: Editions Gallimard.
Bourdieu, Pierre. 1987. “La dissolution du religieux”. In: Choses
dites. Paris: Éditions de Minuit.
McGuire, Meredith. 1988. Ritual Healing in suburban America. New
Brunswick, New Jersey e London: Rutgers University Press.
(*)
L. Nicolás Viotti: Doutorando PPGAS-Museu Nacional-UFRJ.
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