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Coluna
(Edição
>> dez
- jan 2000/2001)
"Algumas
Considerações em torno da Antropologia Visual",
por Luis Nicolau
Parés (*)
A Antropologia Visual
tem sido tradicionalmente entendida como aquela área da Antropologia
Sócio -Cultural que utiliza os suportes imagéticos para descrever e
analisar uma cultura ou um aspecto particular de uma cultura. A produção
de documentários etnográficos, ou de monografias que articulam texto
com imagens fotográficas foram, até recentemente, as principais
atividades associadas à Antropologia Visual.
Como foi notado por Sol Worth (1981), existe uma diferença entre
"utilizar um meio e estudar como um meio é utilizado". A
Antropologia Visual vem desenvolvendo, desde a década de 70, um
importante trabalho teórico e reflexivo, que consiste em determinar e
analisar as propriedades dos sistemas visuais e suas estratégias
discursivas, assim como as condições da sua interpretação,
relacionando esses sistemas particulares com as complexidades dos
processos políticos e sociais dos quais são parte. O estudo do uso
dos meios visuais na disseminação do conhecimento antropológico
seria, portanto, o segundo domínio de atuação da Antropologia
Visual.
Como uma extensão desta preocupação na análise dos sistemas
visuais, colocações mais recentes (Morphy & Banks, 1992)
argumentam que o domínio da Antropologia Visual deveria estender-se
ao estudo dos sistemas representacionais da cultura visível, isto é,
ao estudo de qualquer sistema expressivo da sociedade humana
que comunique o seu sentido, parcial ou principalmente, através de
meios visuais. Este âmbito muito mais vasto, que, a rigor, deveria
chamar-se de Antropologia do Visual, incluiria a emergente disciplina
dos estudos da cultura visual (Visual Culture Studies), assim como a
Antropologia da Comunicação Visual.
Frente a um determinado fato social, o que interessa à Antropologia
é apreender os seus sentidos ou significação, desvendar a sua
complexidade conceitual e entender como os próprios atores
interpretam e problematizam as suas práticas e valores. A função do
antropólogo é, portanto, essencialmente interpretativa, entendendo a
interpretação como um passo intermediário entre a compreensão e a
explicação. Além disso, a interpretação antropológica comporta
um processo de “tradução”, no sentido de que as representações
antropológicas são, geralmente, de uma cultura para outra. Ao lado
da sua dimensão epistemológica, ou de produção de conhecimento, o
discurso antropológico, de um modo geral, é um processo
representacional e comunicativo.
É precisamente nessa dimensão representacional e comunicativa que os
elementos imagéticos, tanto estáticos (fotografia) quanto dinâmicos
(filme, vídeo), ou a sua combinação nos suportes multimídia, com a
sua capacidade para mostrar, para dar a ver diretamente, constituem
recursos descritivos de inegável valor para a reflexão antropológica.
O que resulta mais problemático é saber até que ponto esses modos
de representação visual possuem uma capacidade argumentativa intrínseca
que sirva aos propósitos interpretativos que se espera do discurso
antropológico e aqui cabe distinguir fotografia e linguagem
cinematográfica.
Qualquer registro visual traz sempre implícito um certo grau de
interpretação do fato representado, pois ele é um recorte subjetivo
dessa realidade. Porém, do ponto de vista do espectador, uma imagem
estática está aberta a múltiplas interpretações e não é capaz
por ela mesma de gerar um sentido unívoco, sendo que precisa ser
articulada com outras imagens ou com um texto para gerar uma narrativa
reflexiva. A virtude da fotografia está na interrupção da duração
temporal e na capacidade de analise que se deriva daí. Já a
linguagem cinematográfica (ou videográfica), na sua linearidade
temporal, teria uma discursividade similar à da palavra. A dimensão
“processual” do filme cria sentido e expressa intenção. Através
de “concatenações sintagmáticas imbuídas com capacidade
argumentativa” (Eco, 1982), o filme marca um itinerário narrativo
que direciona e estabelece limites à interpretação do espectador.
A imagem fotográfica (ou cinematográfica) é um artefato socialmente
construído, e, apesar da sua natureza icônica e indicial, capaz de
gerar a ilusão de constituir uma cópia ou analogia da realidade, ela
é apenas uma analogia de um determinado olhar, de um ponto de vista
sobre a realidade. Nas ultimas décadas, o paradigma do realismo
fotográfico tem sido seriamente questionado. A pretensão, tão cara
ao positivismo cientifico, de que a câmara é capaz de produzir uma
“evidência” do real, ao considerar a imagem fotográfica como uma
transcrição fiel e neutra do real, não é mais aceita. Hoje
prevalecem as teorias que entendem a mensagem fotográfica como um
signo convencional, tão arbitrário quanto a linguagem verbal. A
subjetividade implícita na produção de qualquer imagem relativiza a
sua suposta “verdade”, “autenticidade” ou “objetividade”.
Entretanto, apesar dessas e outras possíveis criticas, os registros
visuais, sob certas condições, são susceptíveis de serem
utilizados como fonte primária para a análise antropológica. Se as
imagens são produzidas com a necessária eficiência visual para
destacar elementos úteis à reflexão e se explicitam os modos de
produção empregados, a documentação visual pode constituir-se numa
“meta-realidade”, acessível e permanente, a partir e em torno da
qual se desenvolva o exercício interpretativo. Certamente, dependemos
do compromisso ético do pesquisador para garantir a confiabilidade
dos documentos visuais, especialmente hoje, em que as tecnologias
digitais permitem uma cada vez mais fácil manipulação imagética - mas isso acontece também com as etnografias textuais.
A proximidade íntima e singular que proporciona um registro visual é
capaz de descrever complexos aspectos do real e evocar um sentido de
experiência e participação dificilmente expressáveis pela palavra.
As imagens podem funcionar, não como representações fieis da
realidade fenomenológica, mas como um caminho, uma janela aberta para
aceder à realidade invisível que se oculta por trás da aparência
sensível. Com a crise dos discursos antropológicos de caráter
totalizante, existe uma crescente tendência a experimentar formas
etnográficas parciais, abertas, metafóricas, que adotam estilos
reflexivos e dialógicos, susceptíveis de provocar perguntas ao
espectador. Talvez nesses experimentos, os elementos imagéticos, e
com eles a Antropologia Visual, venham a propor novos caminhos para o
futuro do projeto antropológico.
(*) Luis Nicolau Parés
é pesquisador Visitante no PPCS da FFCH, UFBA, PhD em Londres com a tese The phenomenology of spirit possession in the Tambor de Mina: an ethographic and audio-visual study. London, SOAS, 1997.
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