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Coluna (Edição nº 28)
"Antropologia
e Ciência: desafios contemporâneos", por Stelio Marras e Guilherme José da Silva e Sá (*)
Uma nova área da antropologia, frequentemente chamada de Antropologia da
Ciência e Tecnologia, tem se constituído como das mais produtivas e
inovadoras no atual cenário internacional dos estudos antropológicos.
Também no Brasil, pesquisadores dos principais centros de ensino e
pesquisa ligados à antropologia, embora não só a esta disciplina, já
desenvolvem trabalhos sobre a função ontológica e epistemológica das
ciências e das técnicas em nossa sociedade.
De fato, se a fascinante
empresa da antropologia se funda na reflexividade provocada pela
descoberta do outro, esse modo radical de conhecimento deveria,
contudo, ser aplicável a nós mesmos, como condição de se
confirmar ou não os fundamentos epistemológicos da disciplina. Se ela é
esclarecedora para a alteridade, deve ser também para a identidade, pois
se não for possível fazê-lo, abre-se, desde então, um terrível fosso
entre nós e eles. Mas como antropologizar a própria
sociedade do observador? Os experimentos mais comuns incidem sobre o que
há de exótico, tradicional ou popular na sociedade
ocidental. Repousariam nesses domínios, digamos, pré-modernos os
objetos, estes sim, tradicionais da disciplina. Tais estudos, como os de
antropologia urbana, produzem resultados de alcance certamente útil e em
alguma medida reveladores, mas que parecem não privilegiar zonas
fundamentais da cosmologia ocidental ou moderna. Mas uma antropologia
que pretenda dialogar com o mundo contemporâneo não pode e não deve
ignorar a ciência – suas práticas, seus discursos, seus efeitos –, já
que o mundo dos homens é feito originariamente com o mundo das coisas.
Como excluir a tecnologia do imaginário e da ação prática ocidental?
A proposta de uma
antropologia da ciência relaciona-se diretamente com a produção
científica tal como é feita na prática – daí o grande interesse pelo que
se passa dentro dos laboratórios, como os de biologia e física. Como
antropologia, supõe o método etnográfico, que surpreende a ciência em
ação, ao contrário da tradição de estudos sociais e históricos que se
debruçam sobre os chamados fatos estabelecidos, isto é, os objetos já
prontos de uma Ciência que aparece no maiúsculo. Trata-se de flagrar,
antes, o modo como o real se torna real, mas sem com isso aderir seja ao
construtivismo-sociologismo (tradição das ciências sociais), seja
ao realismo-naturalismo (tradição das ciências da natureza). Isto
é possível, como propõe o antropólogo Bruno Latour, por certo o mais
influente teórico contemporâneo que advoga por uma antropologia da
ciência e das técnicas, por via do estudo das redes, isto é, o
modo como na prática os humanos e os não-humanos se associam.
Homens e coisas se associam numa só rede de múltipla agência. É que
“vivemos em sociedades que têm por laço social os objetos fabricados em
laboratório”, diz Latour:
“Aqueles que são
incapazes de explicar a irrupção dos objetos no coletivo humano, com
todas as manipulações e práticas que eles necessitam, não são
antropólogos, uma vez que aquilo que constitui, desde a época de
Boyle, o aspecto mais fundamental de nossa cultura, foge a eles:
vivemos em sociedades que têm por laço social os objetos fabricados
em laboratório”[1]
Se os humanos fazem as
coisas, também as coisas (os objetos, os não-humanos, ou melhor, os "quase-sujeitos",
"quase-objetos", na terminologia do autor) fazem os humanos. Ou ainda:
“há tanto uma história social das coisas quanto uma história
‘coisificada’ dos humanos”[2].
Isto equivale a afirmar que é simetricamente interessante “tanto a
história do envolvimento dos humanos na construção dos fatos científicos
quanto o envolvimento das ciências na feitura da história humana”[3].
Os seres que aparecem nos
recintos laboratoriais criam ou integram as redes que conectam este
universo tecno-científico à sociedade humana. Seguir no encalço destas
redes empíricas, discursivas e reais significa seguir os fatos em
processo, reencontrando o nível da descrição, o nível propriamente
etnográfico da indução. Trata-se de focar nas coisas e fatos não como
eles são, mas como eles se tornam. Antes do ser, o “tornar-a-ser” – o
que não significa recair nas facilidades do construtivismo. Antes da
purificação dos fatos entre sociais ou naturais, é preciso surpreender o
seu caráter híbrido nos recintos.
Pois entrar nos recintos,
inteirar-se dos termos, debates e controvérsias científicas, todo esse
trabalho de descrição das práticas laboratoriais integra os principais
desafios de uma antropologia da ciência. É por isso que neste
empreendimento deve-se considerar que, para pensar sobre os cientistas,
é preciso, antes, pensar com eles, na prática, na ciência em ação.
[1] Jamais fomos
modernos: ensaio de antropologia simétrica. São Paulo, Ed. 34, 1994.
p. 27.
[2] Bruno Latour, A
esperança de Pandora – ensaios sobre a realidade dos estudos científicos.
Bauru, SP; Edusc, 2001, p. 32.
[3] Idem, p. 23.
(*)
Stelio Marras é doutorando do PPGAS - USP e membro do Grupo de
Estudos de Antropologia da Ciência e Tecnologia.
Guilherme José da Silva e Sá é doutorando do PPGAS/Museu Nacional -
UFRJ e membro do Grupo de Estudos de Antropologia da Ciência e
Tecnologia.
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