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Coluna (Edição nº 27)
"O pajé que
virou sapo e depois promessa de remédio patenteado", por
Bia Labate - SP, abril de 2005 (*)
Assim ouvi dizer uma vez de
um Kaxinawá:
"O kampu era um pajé que morreu e virou um sapo. Antes de morrer,
ele disse: '- eu vou ajudar a curar doença'.
"Tem uma época do ano, quando os macacos começam a engordar, que o
kampu canta. Assim o pessoal da comunidade sabe que é época boa de
caçar”.
"Eles fazem um ritual para pegar o kampu. Ele gosta de ficar em
cima de uma árvore. Tem que levar lanterna. Ele canta o canto dele e
aí a gente consegue achar ele. Nós conhecemos o canto de todos os
sapos”.
"Antes de pegar o kampu, tem que conversar com ele. Só o pajé
pode pegar”.
"Tudo na mata tem dono. Tem os espíritos yuxin e os encantados
yuxibo. Precisa respeitar para não ser ofendido. Tem que pedir
licença – não dá para ir pegando assim o que quiser da natureza”.
"Quando o caçador fica enpanemado, ele não consegue caçar nem
pescar. Não acha nada. Atira e não acerta. Então ele precisa de uma
injeção de kampu. Também, quando a pessoa está doente, com
sujeira dentro da barriga, a gente dá injeção nela”.
"Quando a gente acha o kampu a gente bate na cabeça dele com um
palito. Sai um 'leite'. Aí raspa as costas e as patas com o palitinho.
É mais ou menos como um leite da seringueira".
"Depois a gente deixa secar. Vira um pozinho. Aí faz três furinhos no
braço da pessoa e coloca o pozinho em cima".
"É bom tomar caiçuma de milho aquecida antes. Forra o estômago da
pessoa, ajuda nos efeitos. A gente toma de uns três a cinco litros”.
"Em criança a gente não dá injeção. Só depois dos doze anos de idade".
"O kampu prepara o espírito do caçador. Ele fica forte,
renovado. Fica feliz com a caçada, pega anta”.
***
Foto: Edilene Coffaci de Lima
kampo /(Phyllomedusa bicolor),/ aldeia Katukina do Campinas, Terra
Indígena do rio Campinas, Acre, janeiro de 2005
Certa época andava muito
triste. Resolvi experimentar esta espécie de remédio caseiro de vários
grupos indígenas amazônicos, mais conhecido como kambô ou
kampo – substância retirada da rã Phyllomedusa bicolor,
quando estressada (o sapo e o remédio levam o mesmo nome; há variações
nas designações dependendo do grupo).
Um amigo indígena aceitou fazer um tratamento comigo. Seriam pelo menos
três injeções, a cada trinta dias. Vou contar aqui como foi a primeira.
Era meio dia. Antes de começar, ele me mandou tomar um litro de suco de
mamão com água. Ele fez cinco “pontos” no meu braço, com um cipó aceso.
A aplicação doeu um pouco. Mas eu não liguei, fiquei conversando. Por
dentro, me sentia levemente valente.
Durante cerca de vinte a trinta minutos senti um efeito muito forte.
Meu coração disparou – mas as batidas não seguiam um
padrão lógico.
Minha cabeça latejava. Tudo estava pesado. Saía suor da minha testa. Uma
sensação de enjôo pelo corpo inteiro e uma tremedeira leve, como se
alguns “fios” corressem por dentro de mim (como se ‘eles’ quisessem
fazer este movimento).
Foto: Edilene Coffaci de Lima
coleta da secreção do kampo /(Phyllomedusa bicolor)/, aldeia
Katukina do Campinas, Terra Indígena do rio Campinas, Acre, janeiro de 2005
Era diferente de qualquer outra sensação que já tive antes. E olha que
já experimentei bastante coisa. Meu amigo tinha me explicado no início:
– “o kampu aquece o nosso sangue e a nossa cabeça”.
Grogue, tentei vomitar ou defecar, mas não saía nada. – “Tá bom
então...”, pensei. Aí, me deitei. Continuava dentro de mim um festival
de sensações descontroladas (ruins e novas).
Depois de um tempo, meu amigo mandou sentar e molhou os furinhos com
água. Perguntei: – "Porquê você esta fazendo isto?”, - "Para você
vomitar”, ele respondeu.
Não muito depois, vomitei. Foi uma enxurrada só, veio tudo de repente,
quase escapou em mim mesma. Vomitei pela boca e nariz ao mesmo tempo.
Nunca antes tinha vomitado pelo nariz. Éca! Muito estranho. Ficou um
gosto horrível na boca e no nariz, que durou até o dia seguinte.
Depois, me deitei de novo, com a mão na cabeça. Meu amigo se aproximou e
cantou um canto. Estava de pé, e fazia uns movimentos com as mãos. Não
vi como era, porque estava com os olhos fechados. Fazia um ventinho bom
em cima de mim. E dava a sensação de que ele sabia o que estava fazendo,
que tinha um conhecimento ali – isto me reconfortou um pouco.
Foto: Edilene Coffaci de Lima

kampo /(//Phyllomedusa bicolor) /pronto para ter a secreção
coletada, aldeia Katukina do Campinas, Terra Indígena do rio Campinas,
Acre, janeiro de 2005
Fui para o banheiro de novo. Olhei-me no espelho. Estava feia demais.
Ave Maria. Meus olhos vermelhos, saltados para dentro. Ou então eram a
bochecha e a boca que estavam todas inchadas. Sapo Bia.
O efeito foi passando até serenar.
Perguntei ao meu amigo sobre a experiência e ele me disse: – “você
vomitou, e isto é bom. Mas vomitou pouco, não chegou ainda naquela cor
amarela. Seu espírito continua sujo, precisa limpar mais”.
***
A primeira descrição sobre
o kambô foi feita por Constantin Tastevin, um missionário francês, em
1925. A partir da década de 50, o tema atraiu o olhar da medicina. Na
década de oitenta, se intensificaram os estudos antropológicos que
descrevem o uso por populações indígenas do sudoeste amazônico. É
durante esta década também que se afirma que a secreção do sapo é rica
em peptídeos (substâncias com dois ou mais aminoácidos conjugados,
presentes no organismo, com fortes potenciais para usos terapêuticos).
No final dos anos 80, são depositados os primeiros pedidos de patentes.
Aqui no Brasil, aconteceu
mais ou menos assim: seringueiros aprenderam estes conhecimentos com os
índios, na Amazônia. Começaram a aplicar kambô em brancos, em cidades do
Acre. Francisco Gomes, ou Shiban, de Cruzeiro do Sul, que convivera
alguns anos com os katukina, talvez tenha sido um dos pioneiros deste
processo.
Logo a prática se espalhou
e começaram e aparecer seringueiros do norte e brancos de classe média
que aplicavam kambô nas grandes cidades. Houve notícias de que havia
gente comercializando a substância para terceiros. Alguns foram acusados
de charlatões. Outros viajaram para o Acre, fazendo estágios ou alianças
com seringueiros ou com indígenas.
Em 2003, alguns katukina de
Cruzeiro do Sul procuraram o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN)
para denunciar o mau uso do kambô. Pediram providências contra o
pirateamento do kambô por urbanos; estavam preocupados, também, com seus
direitos intelectuais no caso de remédios derivados da substância. Vale
lembrar que uma patente pode demorar muitos anos até chegar a
eventualmente virar um remédio.
Em 29 de abril de 2004, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), proibiu qualquer
propaganda das virtudes terapêuticas e medicinais do kambô, e retirou do
ar o site
www.kambo.com.br.
A ministra Marina Silva
decidiu tratar esse caso como um caso-modelo. Para isso, designou um
grupo de trabalho do Ministério do Meio Ambiente para uma ação conjunta.
O grupo, que vem se reunindo desde 2004, congrega representantes de
etnias indígenas, antropólogos, indigenistas, herpetólogos (biólogos que
estudam sapo), biólogos moleculares e médicos.
Dia 21 e 22 de março de
2005, ocorreu um seminário técnico em Brasília. De acordo com uma das
integrantes do grupo, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, da
Universidade de Chicago, “os índios estão preocupados com direitos
intelectuais. Já existem cerca de 70 patentes sobre usos de substâncias
isoladas na secreção e sintetizadas. Embora a rã Phyllomedusa bicolor
tenha distribuição em todo o oeste Amazônico, ela é usada para a
'injeção do sapo' pelos grupos cuja língua pertence ao tronco Pano e
vários de seus vizinhos imediatos. O pedido veio dos Katukina, mas
outros serão incluídos entre os possíveis beneficiários. O projeto deve
abranger, em um primeiro momento, os Katukina, os Kaxinawá e
possivelmente os Yawanawá”.
Na reunião, outro assunto
debatido foi o do ‘aval médico’. Os médicos insistem que embora grupos
indígenas usem a substância como uma prática curativa com aparente
benefício, isto não substitui a necessidade dos testes convencionais –
fases pré-clinicas (testes em animais) e clínicas (testes em humanos).
Este processo pode levar de dez a doze anos.
Glacus de Souza Brito,
médico-assistente do Departamento de Imunologia da Faculdade de Medicina
da USP, também membro do grupo de estudos do governo, afirmou que
“sabemos muito pouco a respeito. Há apenas relatos empíricos e
antropológicos, mas precisamos estudar urgentemente os efeitos da
substância sobre o sistema imunológico”.
Outros resultados possíveis
dos debates atualmente em andamento, ainda mais distantes, seriam criar
sistemas de manejo do sapo (para evitar a sua extinção, dada agora a
grande procura) e promover a formação de especialistas indígenas em
kambô.
Após participar do
seminário técnico promovido pelo governo em Brasília, chegou na cidade
Sherê, professor da aldeia katukina Samaúma, no Juruá (Acre). Também
está aqui Ni-í, cacique suplente e agente de saúde da aldeia katukina do
Campinas. Ambos fazem parte da Associação Katukina do Campinas (AKAC).
Eles têm palestras agendadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, e têm aplicado a “vacina de sapo” em interessados.
Em São Paulo, estão atendendo no espaço terapêutico Casa do Sol,
na Pompéia. O local é dirigido por Sonia Maria Valença Menezes,
terapeuta floral, acupunturista e integrante do movimento religioso do
Santo Daime. Sonia tomou contato com a substância pela primeira vez em
1999, através de Francisco Gomes e de seus familiares. Depois, viajou
algumas vezes ao Acre e acabou tornando-se representante da AKAC em São
Paulo.
Dia 16 de março, Ni-í e Sonia deram uma palestra no Primeiro Encontro
Brasileiro de Xamanismo, organizado pela Associação Lua Cheia, na
Pax. A eclética reunião congregou índios, xamãs urbanos, antropólogos,
esotéricos e praticantes de artes diversas de cura. A platéia parecia
curiosa – mas ninguém se inscreveu para o tratamento com a tal da
secreção cutânea da rã verde.
Dia 06 de abril, foi a vez
da Clínica Fênix de Medicina e Terapias Alternativas, na Bela Vista,
sediar um encontro com Ni-í e Sonia. O espaço é dirigido pelo psiquiatra
Paulo Urban, que trabalha com a “psicoterapia do encantamento”, prática
que “reúne conhecimentos da psicologia junguiana, alquimia,
hiperventilação e vivências xamânicas”.
Entre novembro e dezembro
de 2004, Paulo recebeu três aplicações do “veneno de sapo”. Afirmou que
a experiência lhe trouxe “um profundo aprendizado”, e ficou estimulado
para conhecer mais a respeito do assunto.
Uma pessoa da platéia
perguntou porque Ni-í estava em São Paulo. Assim disse o cacique: "Na
cidade tem muita gente que precisa de ajuda, doente, com muitos
problemas, depressão... Então nós estamos divulgando nossos
conhecimentos. Nós conhecemos este remédio há muito tempo, mas agora o
homem branco se interessou por ele. Não dá mais para segurar, não tem
jeito. É a gente que sabe usar direito”.
Uma outra pessoa contou que
há pouco tempo atrás recebera três aplicações de kambô. Disse que quando
chegou em casa após a primeira delas, “minha noiva ficou me olhando com
atenção. Ela pediu para eu sair de perto ali da porta, mudar de lugar.
Fiz isto. Ela continuou me observando e falou que tinha uma luz verde em
torno de mim”. O curioso é que os Katukina afirmam que quem usa o kambô
costuma emanar uma luz verde. Segundo Ni-í esta luz “facilita a
aproximação da caça”. (Não ficou claro se a moça já sabia desta história
antes).
Um terceiro presente
indagou que tipo de doenças o kambô cura. Sonia respondeu que ele “é um
poderoso energizante natural, e eleva a eficiência do sistema
imunológico. Eu era infértil, mas o tratamento com kambô me permitiu
engravidar”. Ela se referiu à substância como um “Ser Divino”, e disse
que “a cura vem conforme o merecimento de cada um” – claras influências
das concepções daimistas sobre suas práticas.
Na ausência dos Katukina, Sonia aplica o kambô em seus pacientes. De
acordo com ela, a Casa do Sol seria “o primeiro consultório
indígena de São Paulo. Além do kambô, usamos ervas, plantas e
pajelança".
De acordo com a antropóloga Edilene Coffaci de Lima, professora da
Universidade Federal do Paraná, e que conhece os Katukina há quase
quinze anos, "a comercialização da substância por brancos gera
insatisfações entre os Katukina, porém, do ponto de vista do Estado,
seria complicado estabelecer uma regulamentação do 'uso tradicional do
kambô' ou uma espécie de 'reserva de mercado' para a aplicação somente
por indígenas, como gostariam alguns”. Para ela, haveria uma “grande
diferença” entre “simplesmente usar a secreção do sapo, como índios e
seringueiros fazem há muito no alto Juruá, e comercializar a secreção ou
a atividade de aplicação do kambô, como tem ocorrido ultimamente.”
Até o momento, o veneno de sapo tem sido incorporado sobretudo aos
circuitos das terapias holísticas e das novas religiosidades urbanas.
Para a antropóloga, no caso específico dos katukina, estaria ocorrendo
um processo de “xamanização do kambô”. Assim explica: “nas aldeias, o
kampo é usado principalmente para a caça e para combater a preguiça
e é aplicado por qualquer pessoa, desde que tenha atributos morais
reconhecidos como positivos pelo grupo. Já nas grandes cidades, há uma
tendência a divulgar o kambô como se ele dependesse de conhecimentos
secretos e iniciáticos (típicos de um pajé) e a vacina passa a ser usada
como um remédio capaz de combater todos males.”
De fato, parece que a substância está sendo propagandeada como uma
espécie de antídoto contra “panema de branco”. Não é difícil imaginar
que no futuro surgirão muitas variações do uso do kambô. Talvez apareça
a igreja do “Santo Kambô da Luz Verde”?
***
Ainda não sei dizer se tive
benefícios com o kambô. Nos primeiros dias, nada em especial chamou
minha atenção. Mas cerca de cinco dias depois comecei a sentir algo do
sapo dentro de mim. Não sei explicar direito... Sonhei com a rã verde
duas vezes. Era o sapo e eu, eu e o sapo. Talvez eu tenha sido
influenciada porque ficara lendo sobre o assunto?
A segunda aplicação foi de sete “pontos”. Desta vez fui bem maltratada.
Comecei a achar o sapo meio malvado. Seja como for, a cicatriz que ficou
no braço – uma série de furinhos enfileirados na horizontal, que arderam
até fechar – dá uma agradável sensação de força.
Referências úteis
Internet:
Verbete sobre os katukina,
por Edilene Cofaci de Lima, Instituto Socioambiental:
http://www.socioambiental.org/website/pib/epi/katukina/katukina.shtm
Resolução da Anvisa -
http://www.abpvs.com.br/resolucoes/resolucao08.htm
Primeiro Encontro
Brasileiro de Xamanismo –
http://www.xamanismo.com.br
Clínica Fênix -
http://www.amigodaalma.com.br
Bibliografia:
AQUINO, Terri & Marcelo P.
IGLESIAS. (1994). Kaxinawá do rio Jordão. História, território,
economia e desenvolvimento sustentado. Rio Branco, Comissão
Pró-Índio.
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela
(2005). “Des grenouilles et des hommes”. Télérama hors série, Les
Indiens du Brésil. Paris, mars 2005, pp. 80-83.
LIMA, Edilene Coffaci de
(2000). A pedra da serpente. Saber e classificação da natureza entre
os katukina. Tese de Doutorado, USP.
LIMA, Edilene Coffaci de
(2002). "Habitantes: os Katukina". CARNEIRO DA CUNHA, Manuela & Mauro
ALMEIDA. Enciclopédia da Floresta. O alto Juruá: práticas e
conhecimentos das populações. São Paulo, Cia das Letras. pp.
169-176.
MONTAGNER MELATTI, Delvair.
(1985). O mundo dos espíritos: estudo etnográfico dos ritos de cura
Marubo. Tese de Doutorado, UnB.
PEREZ GIL, Laura (1999).
Pelos caminhos de Yuve: conhecimento, cura e poder no xamanismo yawanawa.
Dissertação de Mestrado, UFSC.
SOUZA, Moisés Barbosa et
alii. (2002). “Anfíbios”. In. CARNEIRO DA CUNHA, Manuela & Mauro
ALMEIDA. Enciclopédia da Floresta. O alto Juruá: práticas e
conhecimentos das populações. São Paulo, Cia das Letras.pp. 601-614.
TASTEVIN, Constantin
(1925). “Le fleuve Muru”, La Geographie, t. XLIII & XLIV: 403-422
& 14-35.
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Bia Labate é antropóloga, autora do livro "O Uso Ritual da Ayahuasca".
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