 |
Coluna (Edição nº 23)
"Considerações sobre o uso do argumento étnico-cultural nos
processos de planejamento urbano na cidade de Florianópolis", por
Tereza Mara Franzoni
No final dos anos 90,
comecei a observar, nas reuniões entre representantes da administração
pública municipal e grupos de movimentos sociais/comunitários e
ambientalistas, uma constante preocupação em distinguir "nascidos" de
"não nascidos" na Ilha de Florianópolis, "moradores" de "não moradores"
da cidade, "herdeiros" de "não herdeiros" das tradições culturais
locais. Esta distinção geralmente aparecia como forma de legitimar ou
construir um determinado argumento, ou, num sentido inverso, como forma
de destruir ou deslegitimar o argumento ou alguém. As categorias
distintivas mais recorrentes nas reuniões eram "estrangeiro" e "nativo",
cujos significados, até onde pude observar, estavam diretamente
relacionados ao grau de legitimidade que se atribuía ao falante.
No mesmo período,
desenvolvia-se na cidade uma espécie de "limpeza" das ruas e lugares
públicos, donde foram "desaparecendo" as crianças e adultos que pediam
esmolas e dormiam nas ruas da cidade. "Limpeza" esta, acompanhada de
inúmeras denúncias de mortes e desaparecimentos, cuja responsabilidade
foi, inúmeras vezes, atribuída tanto à Prefeitura Municipal, como à
Polícia Militar do Estado.
A meu ver, os acontecimentos citados acima possuem uma relação
significativa e fazem parte de um contexto relacional bem mais próximo
do que possa parecer. Minha sugestão vai no sentido de nos perguntarmos
de que modo tanto a distinção "estrangeiro x nativo", como a "limpeza"
das ruas adquire legitimidade a nível local, de que modo este estado de
coisas se instaura, de que forma o conjunto dos cidadãos, inclusive
aqueles que estão mobilizados e articulados politicamente na luta pela
"participação de todos" e pela "cidade para todos", podem fortalecer e
ajudar a produzir os argumentos, os instrumentos e as práticas de
exclusão.
A legitimidade do "nativo" no Planejamento Urbano
Um dos processos mais ricos
e participativos na área de planejamento urbano que pude acompanhar nos
últimos anos foi a elaboração do Plano Diretor Comunitário da
Planície do Campeche.
Tanto no que se refere ao envolvimento comunitário, ao número e à
multiplicidade de pessoas e grupos envolvidos, como à capacidade de auto
superação diante das impossibilidades criadas pela administração pública
municipal, este processo foi, no mínimo, um grande exercício de
participação direta. É sobre este processo, no qual deposito muitas de
minhas esperanças, que proponho esta reflexão, ainda bastante intuitiva.
Deixo claro que as questões aqui levantadas para o caso do Campeche
podem ser pensadas também, até onde pude observar, para os processos
desencadeados em outras regiões da cidade, em particular para o caso de
Ingleses e Santinho.
Datam dos anos 90 os
primeiros embates entre o Movimento Campeche Qualidade de Vida e
a administração pública municipal. A discordância girava em torno do
Plano Diretor elaborado pela prefeitura para a região do Campeche e
arredores. Como resultado destes embates, desenvolveu-se nesta região um
processo até então inédito no Brasil: a elaboração, fora das
instituições governamentais de planejamento urbano, de um plano diretor,
nos moldes legais e formais de exigência para a aprovação na Câmara de
Vereadores. O Plano Diretor Comunitário da Planície do Campeche
foi apresentado aos vereadores do município com o mesmo padrão de
apresentação do Plano proposto pelo IPUF, incluindo um refinamento legal
na justificativa que não era encontrado no plano apresentado pela
Prefeitura.
Foi durante estes anos e
durante a elaboração do Plano Diretor Comunitário, que pude observar, no
campo do planejamento urbano, o "aparecimento", nos discursos (falas e
propostas de desenho urbano), de categorias como "população nativa",
"moradores tradicionais", "nativos" e suas oposições correlatas.
Juntamente com a idéia de "preservação dos ambientes naturais", aparecia
também a de "preservação das populações tradicionais".
Foi neste contexto que as
articulações políticas de associações e grupos comunitários passaram a
utilizar o critério do nascimento na localidade como um dos requisitos
na escolha de seus representantes públicos nos processos de negociação
junto à administração municipal. Relacionando o critério do nascimento
com a legitimidade da proposta defendida. Nesta linha, no campo das
alianças políticas formais, a inclusão das associações de pescadores na
rede de articulação política dos grupos comunitários também pode ser
olhada como um indicativo do reforço da identificação com a imagem do
"nativo". Se, por um lado, podemos encontrar aqui uma estratégia de
resposta às acusações sofridas por várias associações, a saber, de serem
"estrangeiras",
por outro esta "resposta" acabava por reforçar os critérios de
legitimidade estabelecidos, criando também divisões e tensões internas
nos próprios grupos a partir das mesmas categorias.
O exemplo do processo de
elaboração do Plano Diretor Comunitário da Planície do Campeche
ilustra, para além de um caso particular, um contexto no qual os
discursos sobre planejamento urbano a nível local, principalmente nos
momentos de conflito, recorreram a oposição "nativo x estrangeiro", como
parâmetro legítimo nos processos de negociação. O deslocamento do
"argumento étnico" para o território do planejamento urbano, indicado
pela importância adquirida pela oposição "estrangeiros x nativos" neste
campo, parece estar influenciando também uma reorganização das relações
no interior dos grupos comunitários e das hierarquias e legitimidades aí
encontradas.
A colocação da legitimidade
do argumento na legitimidade daquele que fala, ou daquele em nome de
quem se fala, parece fortalecer a idéia de uma espécie de direito
"natural" sobre a terra. O direito, pelo menos no campo do argumento, de
um determinado grupo social, identificado por suas relações de moradia,
parentesco e tradições culturais, que teriam com a terra, uma relação de
pertencimento à terra e à cidade sobre a qual se desenha o Plano
Diretor. Ele tanto pertence a terra como a terra a ele pertence porque
nela nasceu e, quem sabe, para com quem se tem uma dívida.
O paradoxo que aqui se
coloca, e que merece ser explicitado principalmente para aqueles que
desavisadamente aderem às categorias em disputa, sem se dar conta de seu
caráter relacional e profundamente político, é que "o nativo" a que a
imagem remete - aquele morador tradicional das comunidades litorâneas,
pescadores e rendeiras que viviam ainda da agricultura e da pesca - não
só tem desfrutado de forma pouco significativa do poder e dos direitos
que o discurso lhe atribui, como também, como boa parte da população
empobrecida que morava na Ilha até os anos 80, vem sofrendo um violento
processo de expulsão de suas terras. Processo este agravado pelo
empobrecimento desmedido causado pela especulação imobiliária promovida
tanto pelas elites locais, quanto por grupos econômicos nacionais e
internacionais. Ora, que poder é este então que o "nativo" tem contra o
suposto "estrangeiro"? De quem se fala quando se utiliza as categorias
"nativo" e "estrangeiro"? O que se quer dizer com estas categorias? Por
que ou como, apesar do paradoxo, este "argumento" encontra legitimidade,
não só entre os que se dizem "nativos" mas também entre aqueles que são
acusados - e justificam-se em função disto - por serem "estrangeiros"?
Considerações finais
Mais do que respostas,
sugiro aqui alguns elementos (quem sabe hipóteses) que, a meu ver, podem
ajudar a compreender as relações sociais até aqui descritas e a
complexidade em que estão imersas. Apresento estes elementos na forma de
tópicos, sem contudo atribuir-lhes qualquer hierarquia de importância:
1) Um elemento significativo
pode ser encontrado no contexto dos anos 40, em particular nas políticas
de construção de uma "identidade" para o litoral catarinense, através
das quais as elites locais procuravam a consolidação de uma "identidade
açoriana", compondo com os demais grupos nacionais encontradas em SC, o
quadro da "Europa brasileira". Este processo teve continuidade até os
dias atuais, através de um movimento externo (esforços advindos do
próprio governo de Açores, tendo em vista a construção de uma identidade
relacionada às ilhas), como também internos (donde os esforços dos
historiadores na década de 40 e, posteriormente, as iniciativas
governamentais de valorização de uma suposta "identidade açoriana" tendo
em vista o desenvolvimento do turismo, principalmente nos anos 80).
Aliada ou contrária a este esforço oficial encontra-se a população
local, cujas manifestações culturais desencadeiam, por vezes, violentos
embates no campo da "resistência cultural", disputando com a versão
oficial sua própria leitura do que seja a identidade local (como é o
caso da "farra do Boi" na Ilha e no litoral catarinense).
2) Parece-me que algumas
pistas podem ser encontradas também na memória local sobre os anos 70.
Nesta década, a cidade passa por transformações significativas, tanto do
ponto de vista urbanístico (ampliação do sistema viário, concentração
dos serviços e infra estrutura urbana, ressignificação dos espaços - "
cidade"/ "centro" e "interior"/ "balneário") quanto do ponto de vista
sócio-cultural (intensificação de fluxos migratórios diversos, externos
e internos, reorganização das hierarquias profissionais, dos grupos de
poder políticos e econômicos e ampliação da diversidade sócio cultural).
Neste período nascem bairros e regiões inteiras marcadas pela identidade
de origem migratória e de classe social de seus moradores.
3) Por fim, outros elementos
do contexto contemporâneo mais amplo, ligados a desenvolvimentos
recentes do processo de urbanização e de planejamento urbano local podem
contribuir para localizar e compreender melhor os conflitos no campo do
planejamento e a forma como dialogam com outros conflitos de caráter
mais amplo e mais ou menos violentos. Os elementos recentes a que me
refiro são os seguintes:
a) Por ser uma cidade de
porte médio, com forte apelo turístico, Florianópolis tornou-se um dos
pólos receptores de um tipo particular de fluxo migratório decorrente da
fuga das grandes metrópoles. Um fluxo não tão intenso em termos
numéricos, porém de grande visibilidade econômica, principalmente para
as camadas médias e altas da população já residente, já que possui uma
forma de ocupação espacial e de intervenção econômica diferenciada da
população local (exemplo disto são os condomínios e casas com forte
sistema de segurança e as propostas de privatização das ruas -
fechamento e instalação de portões). Novamente grandes diferenças sócio
culturais se estabelecem e os novos moradores, agora em menor número,
trazem consigo dinâmicas sociais próprias das grandes cidades marcadas
pelo discurso da violência urbana e pelos padrões de moradia fortemente
definidos pelo cercamento e pela vigilância tecnológica.
b) Outro aspecto importante
refere-se à consolidação das leis específicas e das exigências
internacionais que estabelecem a obrigatoriedade da "participação
popular" nos projetos de desenvolvimento, trazendo para os fóruns
estatais os movimentos e grupos políticos consolidados. A exigência de
um Conselho de Desenvolvimento Urbano para gestão dos Planos Diretores
Municipais e o Estatuto da Cidade são exemplos disto. A obrigatoriedade
da realização da "Agenda 21" também. Muitas das tensões que antes se
colocavam nas lutas pela ampliação dos espaços de participação, pelo
reconhecimento da necessidade de participação do maior número de
cidadãos possíveis, foram deslocadas para o grau de legitimidade dos
atores, ou seja para a sua diferenciação em categorias mais ou menos
legítimas para a participação.
c) Um outro aspecto é a
hegemonia do discurso ambientalista de caráter preservacionista. O
fortalecimento deste discurso nos movimentos sociais locais inicia com a
década de 90, sofrendo, mais recentemente, uma abertura em termos
políticos com a criação dos Movimentos pela Qualidade de Vida (que
reúnem tanto movimentos comunitários como ambientalistas). Esta
"abertura", no entanto, parece ter significado em muitos casos apenas a
incorporação das populações tradicionais e das manifestações culturais
locais (ainda que nem todas), no rol dos itens a serem preservados.
d) Por fim, as tensões
criadas pelo crescimento urbano e seus chamados efeitos negativos.
Violência, desemprego, aumento da visibilidade da pobreza, etc., tendem
a agravar tanto os conflitos entre grupos (principalmente quando a
construção das identidades destes envolvem direta ou indiretamente os
elementos da disputa - direito às terras, por exemplo, ou poder de
decisão sobre elas) quanto as práticas de exclusão e eliminação do
oponente político em questão.
A dificuldade parece estar
em perceber o contexto no qual estamos inseridos em sua complexidade,
para além do maquiavelismo, e neste sentido em sua densidade, pois se
tratam de relações sociais bastante conflituosas que exigem um olhar
descentrado e atento.
-
O presente texto foi
originalmente apresentado em forma de Palestra no evento Cidade em
Debate - Democracia Participativa e Justiça Social, que ocorreu nos dias
20 e 21 de agosto de 2004, em Florianópolis, tendo sido promovido pela
União Florianopolitana de Entidades Comunitárias (UFECO) e o Fórum da
Cidade de Florianópolis. Mantenho aqui as características de oralidade e
provocação para o debate que estiveram presentes durante a palestra,
devendo-se a isto o número reduzido de notas e referências
bibliográficas. Uma versão mais completa tanto do argumento quanto das
informações aqui citadas podem ser encontradas no Projeto de Pesquisa:
"Estrangeiros" e "nativos": Práticas e representações sociais nas
negociações em torno do planejamento urbano na Ilha de Santa Catarina
entre 1997 e 2001 - O caso do Campeche. Florianópolis: CEART/UDESC,
2003.
- Professora
do Centro de Artes da UDESC e aluna do Programa de Pós Graduação em
Antropologia Social da UFSC.
-
Ver em especial o
Dossiê sobre a violência policial em Florianópolis, elaborado pelo CECCA
- Centro de Estudos Cultura e Cidadania - e pelo CDHGF - Centro de
Defesa dos Direitos Humanos em 2000.
-
Em 1997, surge uma
articulação política de grupos (associaçõesãos de moradores, conselhos
comunitários, grupos religiosos, grupos artísticos, etc.), chamada
Movimento Campeche Qualidade de Vida, cujo objetivo inicial era a
contestação da proposta de Plano Diretor elaborado pelo IPUF, Instituto
de Planejamento Urbano de Florianópolis, subordinado a à Prefeitura
Municipal. É também neste ano que vem a público o Dossiê Campeche
(1997), documento elaborado a partir de uma série de reuniões realizadas
na região, envolvendo os referidos grupos políticos, intelectuais e
pesquisadores universitários, funcionários e representantes de
instituições públicas e moradores da região que, posteriormente, veio a
fundamentar a proposta do Plano Diretor Comunitário.
- O
município de Florianópolis possui a maior parte de seu território
situado na Ilha de Santa Catarina. A região do Campeche fica situada em
uma grande planície ao Sul da Ilha e é nela se encontram vários bairros
litorâneos. Ingleses e Santinho, são também bairros litorâneos,
situando-se porém na parte norte da Ilha.
-
"Estrangeiro" foi muitas vezes, e ainda é em alguns casos, uma acusação
utilizada pelos funcionários da prefeitura municipal, para colocar sob
suspeita os argumentos e as propostas de determinadas pessoas nas
reuniões públicas de discussão das propostas de planejamento urbano. Foi
uma acusação também utilizada por colunistas sociais para deslegitimar
ou colocar sob suspeita pessoas que questionavam a política local.
- Aqui aponto
para mais uma hipótese sobre a "culpa" manifestada nas falas não raras
nas reuniões e assembléias dos e entre grupos. Nelas, os falantes, antes
de comentarem o assunto que está em pauta, justificam e declaram seu
amor pela cidade, falando sobre seus filhos que nela nasceram ou sobre a
escolha que dela fizeram "apesar" de não terem nela nascido.
|