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Coluna (Edição nº 20)
"Entre Desafios e
Dilemas: a tomada de posse da nova diretoria da ABA", por Andrea
Lissett Pérez (*)
O evento de posse da nova
Diretoria da ABA sutilmente nos envolveu em uma embriagadora atmosfera “antropolítica”,
carregada de discursos globalizantes, denunciadores, questionadores e
promissores, que nos levaram, desde diferentes pontos de vista, a pensar
os atuais desafios da antropologia brasileira. Uma reflexão nada fácil e
cheia de dilemas que nos confrontam, nós @s antropólog@s, como sujeitos
políticos, no sentido de tomar posições num contexto marcado por
diferentes interesses e forças políticas.
Esse foi o espírito do
evento, conduzido por uma solenidade bem amena, em que a oratória e o
ritual foram protagonistas de uma importante comunhão da Associação
Brasileira de Antropologia: aquela que procedeu à passagem de diretoria
para o biênio 2004-2006. No ato de abertura, uma mesa redonda abordou a
temática Desafios da antropologia brasileira contemporânea, com a
participação de representantes da diretoria passada e da atual direção
da ABA: os doutores Gustavo Lins RIBEIRO (UnB), Antônio Souza LIMA
(UFRJ), Peter FRY (UFRJ) e Miriam Pillar GROSSI (UFSC).
A mesa redonda trouxe
relevantes e controvertidas idéias, que nos permitiram uma aproximação
não apenas do discurso teórico, mas da sua natureza prática, do seu
desenvolvimento no mundo, sempre mais complexo e revelador. Nesse
sentido, partindo de experiências significativas, tais como a Comissão
Nacional de Assuntos Indígenas, a presidência da ABA, a representação na
CAPES, a militância na academia, entre outros, debateram-se os desafios
e dilemas que estão colocados à antropologia brasileira contemporânea.
Os debates mostraram-se
provocadores, apontando para a desafiante imagem do “intelectual
orgânico”, que pensa a si mesmo, o mundo e a sua ação dentro dele.
Problemas éticos, êmicos, políticos e teóricos, estiveram entrelaçados
nessas análises que, à melhor maneira de Bruno Latour e suas redes
contínuas de significado – tal como sugeriu Peter Fry –, possibilitaram
dimensionar o sentido do ser antropólogo/a, desde o âmbito mais global –
o mundo pós-imperialista – até o mais particular, em que a própria
subjetividade aparece imersa nesse agir.
Ex-presidente da ABA, o
antropólogo Gustavo Lins Ribeiro iniciou sua fala com a apresentação do
contexto da antropologia contemporânea recorrendo a uma memorável frase
de Clifford Geertz: “Agora todos nós somos nativos”. Nessa sentença, há
um novo universo de pesquisa e, sobretudo, novas relações que questionam
a natureza do “nós”, sujeito privilegiado e portador do saber, bem como
do “outro”, objeto distante e exótico. As relações se subvertem não só
no plano metodológico, mas também no plano das relações políticas, pois
agora nos deparamos com o “outro” que fala por si mesmo e questiona o
lugar de “tradução” da antropologia. Qual é, pois, o lugar da
antropologia nessa nova ordem socio-política? Gustavo propõe uma
alternativa interessante: a de assumir a antropologia como uma
cosmopolítica. Assim, em ordem a essa proposta, nós latino-americanos
teríamos que partir de nossas condições históricas e políticas,
reconstruindo os novos sujeitos de pesquisa, de modo que os do “Norte” –
EUA – e seus modelos de vida, que figuram como uma linha de alto
interesse, passariam a ser vistos apenas como “uma coisa” e não como “a
coisa”.
Sob este mesmo dilema, o de
estarem todos na condição de “nativos”, Peter Fry lançou um outro
questionamento bastante pertinente quanto à situação em que “nossas
próprias crenças e a quase hegemonia vão de encontro a outras crenças e
a outras hegemonias dos outros nativos”. O que fazer nesse caso?
Partindo de sua experiência, Fry afirmou que havia encontrado uma boa
saída para tal dilema na possibilidade da discordância, uma vez que
“nesse embate saem coisas muito valiosas”. No entanto lembra que, no
terreno da identidade, essa problemática se torna ainda mais complexa,
pois as “identidades aparecem como reais, permanentes e crescentes em
todos os tempos e em todos os espaços”. Por outro lado, como sublinha
Fry, @s antropólog@s pensamos as identidades como socialmente
construídas, que aparecem e surgem em momentos históricos específicos.
Portanto, esse seria um grande desafio que diz respeito ao fenômeno da
identidade, eixo fundamental da configuração do sujeito na
contemporaneidade. Nessa perspectiva, Fry entende que a antropologia
cumula um importante potencial de ação respaldado por sua
“iconoclastia”, quer dizer, pela “idéia de relativizar, de se
distanciar, de desrespeitar os ícones”, e, nessa medida, de ampliar e
viabilizar a coexistência social da diferença e a convivência com ela.
Em relação às questões
sociais que mobilizam atualmente a área da antropologia no Brasil, os
convidados da mesa apontaram dois eixos fundamentais: por um lado, a
questão indígena, amplamente abordada por Antônio Souza, cuja denúncia
acerca da dificuldade de promover o desenvolvimento da política
indigenista alerta para o fato de que, apesar dos ganhos obtidos na
década de 1990, o período após a Constituição é marcado por uma prática
política em que as reivindicações desses grupos são desconhecidas, e as
vozes de protesto, silenciadas. Por outro lado, a questão racial, que
nos últimos anos tem alcançado importante visibilidade em diferentes
setores da sociedade. Não obstante, é uma questão complexa, não
resolvida, que, segundo Gustavo Lins Ribeiro, poderá mudar a forma de
fazer antropologia nos próximos anos.
Encerrado o debate da mesa
redonda, teve início a cerimônia de posse da nova Diretoria: um ato que,
embora indicasse tom solene, guardou a plasticidade de um evento
antropológico – música, performance, imagens e oratória. Inicialmente,
apresentou-se um documentário sobre os 50 anos da ABA, com as imagens
alegóricas dos fundadores da Associação e alguns depoimentos sobre sua
história. Em seguida, deu-se o momento mais esperado, o das
palavras de posse da nova presidenta da ABA, a professora Miriam
Pillar Grossi, cujo discurso fluente, afetuoso e político percorreu a
sua história acadêmica e profissional, fazendo um especial
reconhecimento às linhagens antropológicas que ajudaram a formá-la – na
UFRGS, na UFSC e na Escola Francesa de Antropologia. De modo especial,
destacou o lugar importante das políticas de gênero como possibilidade
de enriquecer a ação [o agir] da Associação; nesse sentido, resumiu seu
pensamento no seguinte lema: “Cada outr@ é todos nós”. Finalmente, no
momento mais forte de seu discurso, enfatizou as políticas de gestão que
a atual Diretoria pretende priorizar, assinalando, dentre outras: a luta
pelos direitos étnicos – linha de pesquisa que se intenta manter e
apoiar, buscando maior interlocução com o Estado e outras agências da
sociedade; a abertura de novas alternativas de ação, por exemplo, junto
ao Ministério da Cultura, com o qual já se assinaram convênios acerca
dos patrimônios culturais; o ensino na e da antropologia, ampliando seus
campos de reflexão e procurando maior qualificação nessa área; e, de
maneira particular, o acento na manutenção e no aprimoramento do nível
de excelência acadêmica na antropologia, incentivando
publicações, pesquisas, produções acadêmicas, sem descuidar do debate
ético em torno às problemáticas fundamentais que atingem a ciência
antropológica hoje.
Por fim, a cerimônia de
posse foi encerrada com uma bela apresentação musical do professor
Rafael Bastos e de sua esposa, Silvia, que de maneira magistral, entre
notas e melodias, ajudaram a “harmonizar” os grandes dilemas e desafios
antropológicos lembrados nos discursos que presidiram ao tom dessa
noite.
>> Leia o discurso de posse
>> Veja
as fotos do evento
(*)
Andrea Lissett Pérez
é Doutoranda em
Antropologia Social do PPGAS - UFSC.
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