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Coluna (Edição nº 20)
"A
Construção Social do Feto como Pessoa Mediada pela Ultra-Sonografia
Obstétrica", por Lilian Krakowski Chazan (*)
Neste texto discuto a
construção social do feto como Pessoa,i
que na sociedade ocidental contemporânea é atravessada e mediada por uma
série de dispositivos tecnológicos, dentre os quais o ultra-som
obstétrico tem um papel fundamental. A inclusão do feto na categoria de
Pessoa implica um rearranjo, não só dos sentimentos em relação ao feto,
mas também da própria categoria.
O ultra-som passou a
ser usado, a partir de fins da década de 80, nos EUA, como exame de
rotina na gestação (Mitchell, 1994: 146), tornando-se um dispositivo
essencial na medicalização da gravidez e também do feto. Esta utilização
da tecnologia representou uma considerável ampliação do controle e
disciplinarização dos corpos, ao mesmo tempo em que se reforçava uma
nova subjetividade. Esse reforço parece se dar em dois planos: em um
primeiro, reconfigurando e antecipando vivências da mulher em relação ao
seu feto – agora tornado visível para ela sob uma forma externalizada na
tela, muito antes de poder captar sensorialmente os movimentos fetais.
Em um segundo plano, constitui-se o próprio feto como um novo
‘indivíduo’, visualizável e com a atribuição de ‘comportamentos’
observáveis, específicos, individualizados e psicologizados (Piontelli,
1987; 1988; 1989; 1992; 1995). O novo recurso correspondia à construção
de uma outra sensibilidade em relação ao bebê ao mesmo tempo em que a
reforçava e a estendia também ao feto que tornara-se, desde a década de
30, também ele um objeto de atenção médica e social (Chazan, 2000:
52-67). No mesmo processo que gerou as condições de sua produção, o
ultra-som contribuiu e vem contribuindo, em larga escala, para o reforço
dessa nova sensibilidade, em uma via de mão dupla. O uso do ultra-som na
gestação possibilitou, além de uma monitoração crescente da gravidez e
do feto, uma ampliação do número de atores envolvidos na situação: o
parceiro, médicos e técnicos, além da família. Diagnósticos precoces de
anomalias genéticas ou congênitasii
acarretaram situações em que passava a ser discutida a interrupção da
gestação em termos médicos, configurando-se uma ‘nova eugenia’. As
imagens fetais foram – e continuam sendo – utilizadas politicamente por
grupos anti-aborto (Rapp, 1997; Salem, 1997). Petchesky, em um dos
primeiros artigos a discutir a utilização destas imagens, aponta que,
baseadas nelas, as lideranças do movimento anti-aborto, em seu afã de
ganhar terreno nas cortes judiciais e nos “corações e mentes” da
população norte-americana, efetuaram uma mudança estratégica consciente
– do discurso e autoridade religiosos para o discurso e autoridade
médico-técnicos (Petchesky, 1987: 58).
No passado, a presença
pública do feto revelava-se aos poucos, em um período de meses, e os
sinais desta presença passavam necessariamente pela codificação da
mulher, tanto em termos físicos quanto psíquicos. A passagem dos sinais
internos de gravidez para os externos ocorria de maneira lenta e gradual
e, de qualquer maneira, os sinais dependiam do relato da mulher grávida.
Nos dias atuais, a ultra-sonografia sobrepõe-se à consciência corporal
da mulher e fornece um conhecimento médico, independente, sobre o feto.
Os estados corporais que anteriormente indicavam a gravidez são
substituídos por sinais exclusivamente visuais que transformam uma série
de ecos em um ‘bebê’. O conhecimento corporal difuso da mulher acerca de
sua gravidez é transformado, reduzido e restringido à imagem do feto
como uma entidade separada ou um ‘paciente’ (Rapp, 1997: 39). Michèle
Fellous (1991), em estudo sobre a ecografia obstétricaiii
na França observa que, para as gestantes, a visualização do movimento é
mais impactante do que apenas a imagem e que, freqüentemente, o
interesse das mulheres no ultra-som decresce a partir do momento que
começam a sentir os primeiros movimentos fetais. Entretanto, para os
homens, sem a possibilidade de apreender o feto sensorialmente, esse
interesse persiste inalterado durante toda a gravidez da mulher (Fellous,
1991: 20).
O constructo que
emerge da visualização do feto foi denominado por alguns autores de
“feto-cyborg” (Mitchell & Georges, 1998). O uso deste conceito
permite que sejam colocados em evidência não apenas a interação
corpo-máquina na reconfiguração da Pessoa, como também os processos de
produção deste constructo:
Usar o ultra-som para descobrir e
conhecer o feto-cyborg é, nos termos de Haraway [Donna
Haraway], um problema de tradução; ultra-sonografistas devem
traduzir não só a física dos ecos, como também os significados
clínicos e sociais dos diferentes matizes de cinza (Mitchell &
Georges, 1998: 108).iv
Obstetras,
radiologistas e técnicos podem apropriar-se da imagem descrevendo-a para
a gestante em termos que garantem sua ‘condição de Pessoa’ (personhood)v
em termos físicos, morais e subjetivos (Rapp, 1997: 39). Fellous (1991),
observando o uso e o impacto da ecografia na França e EUA, mostra que há
diferenças marcantes na construção da idéia de autonomia do feto em
relação à grávida, dependendo da categoria profissional – por exemplo,
ultra-sonografistas e pediatras tendiam a perceber o feto como um ser
autônomo, enquanto obstetras percebiam a díade como uma unidade (Fellous,
1991: 56).
Mitchell (1994), em
estudo sobre a ultra-sonografia com 49 mulheres primíparas,vi
no Canadá, observa que, durante o exame, o termo ‘feto’ é reservado a
questões diagnósticas, e que a maioria das observações feitas pelo
ultra-sonografista durante um exame de rotina refere-se à anatomia,
aparência e atividade do ‘bebê’. A imagem ultra-sonográfica é descrita
para a gestante em termos de atividade intencional: está “brincando”,
“nadando”, “pensando”, “espreguiçando”, “descansando”,
etc. A aparência de ‘bebê’ do feto é ressaltada, com comentários sobre “a
gracinha dos dedinhos do pé”, ou sobre a semelhança com membros da
família. Os movimentos fetais são também freqüentemente descritos em
termos de humor como, por exemplo, “o bebê está feliz”, “relaxado”,
“cansado”, “tímido”. Muitas vezes os técnicos interagem
com a imagem na tela, cumprimentando-a, dirigindo-lhe reprimendas ou
criando uma voz em seu lugar, que “fala” com a grávida (Mitchell,
1994: 150). Em outras palavras, é atribuída ao feto uma subjetividade,
de forma bastante explícita.
A descrição é vital para a
imagem ultra-sonográfica tornar-se significativa culturalmente como “um
bebê”, e passa por um “filtro cultural”: no Canadá, os
técnicos selecionam as partes “não-chocantes” tais como bexiga,
pés e mãos – e dedos – para mostrar às grávidas, e não mostram a face do
feto no período de 16/18 semanas, considerada por eles como alarmante
para as mulheres. Apenas mais adiante mostram o rosto do feto (Mitchell
& Georges, 1998: 108). Os médicos, contudo, em conversas entre si
referem-se às imagens em linguagem neutra, científica (Rapp, 1997: 39).
As pesquisas antropológicas
evidenciam portanto que a construção do feto como Pessoa é informada e
configurada pelos códigos culturais vigentes em conjunto com os meios
tecnológicos disponíveis, em uma relação dialética, não sendo possível
dissociar os dois termos deste binômio.
Referências
Bibliográficas
CHAZAN, Lilian K. Fetos,
máquinas e subjetividade: um estudo sobre a construção social do feto
como Pessoa através da tecnologia de imagem. 2000. 116f.
Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2000.
FELLOUS, Michèle. La
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Éditions Nathan, 1991. 154p.
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categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção do ‘eu’”. In:
MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo : E.P.U./EDUSP,
1974. v. 1
MITCHELL,
Lisa M. “The Routinization of the Other: Ultrasound, Women and the Fetus”.
In: BASEN, G., EICHLER, M. & LIPPMAN, A. (Eds.) Misconceptions: The
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Technologies. (Volume Two). Ontario, Canada: Voyageur Publishing,
1994. p. 146-160.
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Lisa M., GEORGES, Eugenia. “Baby’s First Picture: The Cyborg Fetus of
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p.57-80.
PIONTELLI, Alessandra.
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Monitored Reproduction”. In: DOWNEY, G. L. & DUMIT, J. (Eds.).
Cyborgs and Citadels: anthropological interventions in emerging sciences
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Press, 1997. p. 33-48.
SALEM, Tania. “As novas
tecnologias reprodutivas: o estatuto do embrião e a noção de pessoa”.
Mana, v.3, n.1, p. 75-94, 1997.
Notas
iA categoria Pessoa, na
antropologia, está referida ao trabalho fundador de Marcel Mauss
(1974).
ii
As anomalias genéticas dizem respeito a alterações existentes nos
cromossomos do feto, enquanto as congênitas são decorrentes de
problemas ocorridos intra-útero, como por exemplo infecções da
gestante (rubéola, toxoplasmose), uso de medicamentos e radiação,
que podem gerar diversas malformações no concepto.
iii
Os termos ultra-sonografia e ecografia são utilizados neste texto
como sinônimos, e sempre referidos ao seu uso em obstetrícia..
iv
A tecnologia de ultra-som vem sendo rapidamente sofisticada,
tornando-se capaz de produzir imagens cada vez mais nítidas que, em
função da cultura visual vigente, contribuem acentuadamente para o
obscurecimento do fator ‘tradução’ presente nesta tecnologia. O
aparente realismo da imagem reforça a autoridade da tecnologia como
produtora de verdades sobre o concepto e a gravidez, além de
freqüentemente possibilitar a confusão da imagem técnica com a coisa
em si – o feto.
v
Não há uma tradução exata em português para o termo personhood.
Optei por utilizar ‘condição de Pessoa’ e ‘pessoalidade’ como
equivalentes à palavra inglesa.
vi
Mulheres em sua 1a gestação.
(*)
Lilian Krakowski Chazan
é mestre e doutoranda em Saúde Coletiva do
PPGSC do Instituto de Medicina Social da UERJ.
Bolsista FAPERJ.
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