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Coluna
(Edição nº 17)
"Doença e saúde: a antropologia pode contribuir?", por Rogério
Lopes Azize (*)
Médicos não são os únicos interessados em refletir sobre doenças e
processos de cura. Antropólogos preocupados em estudar a dimensão social
das doenças, sofrimentos ou perturbações têm realizado pesquisas que
demonstram as conexões entre os eventos de doença/saúde e a cultura na
qual tais eventos estão sendo vivenciados. A Comunidade Virtual de
Antropologia tem recebido algumas perguntas de estudantes de várias
áreas e curiosos em geral a respeito dessa sub-área de pesquisa dentro
da Antropologia; este pequeno texto tem somente a pretensão de responder
a alguns destes questionamentos e suscitar novas curiosidades, em
caráter introdutório.
Grande parte dos estudos em Antropologia da saúde/doença tem como
objetivo de fundo demonstrar a existência de outras racionalidades
médicas, ou falar sobre o choque entre os sistemas locais e os valores
da biomedicina ocidental. Duarte (1998) usa o termo “medicina cientifizante ocidental moderna” para designar a lógica do sistema
biomédico; tal sistema e sua interpretação fisicalista das doenças tem
pretensões universalizantes, de forma que os males são entendidos como
um evento de uma suposta ‘natureza humana’, sem qualquer conexão com
características das culturas humanas. A contribuição da antropologia
visa buscar compreender os aspectos simbólicos que perfazem não somente
os sistemas médicos nativos, mas também as crenças da biomedicina
ocidental, problematizando o status universalizante desta última.
Trabalhando em países geograficamente distantes ou relativamente perto
de casa, pesquisadores têm se dedicado ao esforço de refletir sobre
doenças que apresentam, claramente, limites culturais, como o “mal do
coração”, no Irã, o “susto”, em vários países da América Central e do
Sul, ou ainda a “doença de nervos”, entre segmentos das classes
trabalhadoras no Brasil. Por vezes, essas pesquisas comparam os saberes
da biomedicina ocidental com os saberes ‘tribais’ de outros povos; mas é
possível construir também modelos comparativos entre diferentes
representações veiculadas em nossa própria sociedade, que opõem a visão
de mundo das ‘classes médias e altas’ à das ‘classes populares’, ou os
saberes ‘científicos’ aos saberes ‘leigos’ (Duarte, op. cit.). Isso
significa que, para quem estiver interessado em realizar uma pesquisa na
área de saúde, há uma imensa riqueza de temas possíveis, sem falar
nas abordagens metodológicas e nos recortes disciplinares disponíveis,
que também são vários.
Um pouco mais raros, mas já conformando uma área de pesquisa com
produção bastante fértil no Brasil, são os estudos que colocam em
perspectiva as práticas da biomedicina ocidental, ou seja, têm como
objeto de pesquisa o conjunto de saberes, práticas e técnicas sobre
saúde/doença, hegemônicas dentro da cultura ocidental contemporânea,
cujos agentes principais são os médicos e profissionais da medicina,
incluindo os laboratórios farmacêuticos. Trata-se de um itinerário
bastante comum na Antropologia: buscamos primeiro a diferença radical,
para depois nos aproximarmos da nossa própria cultura, utilizando o
outro como um espelho que nos ajuda no processo de relativização.
Contemporaneamente, pesquisas de cientistas sociais estão falando sobre
a dimensão social de temas que variam dos anticoncepcionais a
transplantes, passando pela concepção de doença, saúde, cura e
medicamento.
Minha própria pesquisa, realizada no âmbito de um curso de mestrado em
Antropologia Social, versou sobre o uso de medicamentos em classes
médias urbanas no Brasil. Discuti, naquele momento, as representações em
torno de doenças como a depressão, a disfunção erétil e a obesidade, e
também em torno dos remédios utilizados para combater tais sintomas, que
já foram chamados pelos meios de comunicação de massa pelo termo “drogas
do estilo de vida”, como o Prozac®, o Viagra® ou o Xenical®. A forma
como os laboratórios farmacêuticos falam destas doenças são um bom
exemplo do caráter universalista que o enfoque biomédico quer ter. São
doenças caracterizadas como mundiais, epidêmicas, existindo em todas as
culturas e países e já definidas há muito tempo. Mas será que tais
doenças são encaradas em todos os países da mesma forma? Sendo ainda
mais radical: será que elas existem em todos os países, sendo males
socialmente aceitos e reconhecidos?
Não cabe responder a tal pergunta neste espaço. Como já havia dito,
tenho somente o objetivo de gerar uma reflexão a respeito das interações
entre cultura e saúde/doença. Mas podemos fazer uma pequena reflexão
sobre a forma como a “saúde”, agora utilizada como categoria a ser
analisada, é pensada em nossa cultura.
Em minha dissertação, faço uma reflexão sobre o rendimento que a
expressão “qualidade de vida” possa ter para pensarmos as idéias de
saúde e doença entre as classes médias e altas. Na certa, você já ouviu
esta expressão, até porque ela parece estar em todos os lugares. Nas
fronteiras de uma cultura de classe média, percebe-se uma noção de saúde
que já não mais ocupa o posto de contrário à idéia de doença; e uma
noção de qualidade de vida que se tornou uma espécie de chave-mágica da
sociedade contemporânea, uma palavra-chave que pode justificar mudanças
no cotidiano, consumo, novos hábitos e mudanças marcantes no estilo de
vida. Se uma ação qualquer vai trazer ao seu agente mais “qualidade de
vida”, então esta ação é socialmente justificável; apesar da categoria
apresentar um significado nebuloso, seu reconhecimento é imediato na
cultura de classe média urbana e o seu uso é bastante freqüente. Na
publicidade de medicamentos, na fala de usuários, mas também nos
argumentos de venda de inúmeros outros produtos, de empreendimentos
imobiliários a um novo sistema de dedetização, o apelo à idéia de
“qualidade de vida” solta aos olhos e é repetida com freqüência (Azize,
2002).
Tal discurso não parece estar necessariamente preocupado com a questão
da “doença”. As fronteiras entre estados normais e patológicos parecem
estar sendo rearrumadas, visto que a intervenção medicamentosa em
estados de saúde mostra-se cada vez mais comum. Saúde, não mais um mero
oposto a um estado de “doença”, é hoje um termo inflacionado,
especialmente, ao que parece, entre as classes médias urbanas com acesso
privilegiado aos serviços que poderíamos encaixar num grande bloco como
sendo “de saúde”, envolvendo medicamentos, terapias alternativas,
programas de exercícios físicos e tantas outras práticas. Sobre a
medicação que toma conta do nosso cotidiano, “sua aposta deixa de ser a
saúde, que não está forçosamente ameaçada, está em um exagero com
relação à saúde, isto é, numa acentuação das capacidades de reação ou de
resistência de funções orgânicas com as quais o indivíduo não mais se
satisfaz” (Le Breton, 2003:61).
Não faltam referências em obras de ficção científica, na linha das
anti-utopias ou críticas a um possível estado totalitário – do Admirável
mundo novo de Huxley ao mundo dos replicantes de Philip Dick –, ao uso
de pílulas que controlam o humor das pessoas conforme o seu desejo. Cabe
uma reflexão sobre a que distância estamos destas imagens, uma vez que o
corpo hoje não passa de um rascunho a ser aprimorado (Le Breton, op.cit.)
e a melancolia, a gordura corporal, o grau de (hiper-) atividade e a
potência sexual, longe de serem um destino controlado pela biologia, são
estados que se colocam cada vez mais à nossa escolha. A conexão entre a
cultura, a forma como se encara o corpo e estados patológicos que, para
utilizar uma expressão perigosa, parecem estar na moda é óbvia demais
para ser desprezada e faz por merecer a atenção das ciências sociais.
BIBLIOGRAFIA
AZIZE, Rogério Lopes. A “A química da qualidade de vida: um olhar
antropológico sobre uso de medicamentos e saúde em classes médias
urbanas brasileiras”. Dissertação de mestrado em Antropologia Social,
UFSC, 2002.
DUARTE, Luiz Fernando Dias, LEAL, Ondina Fachel. Doença, sofrimento e
perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Fiocruz,
1998.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade.
Campinas, SP: Papirus, 2003.
Para um panorama da produção no Brasil das ciências sociais a
respeito do binômio saúde/doença, além dos enfoques teóricos possíveis,
especialmente no campo da Antropologia Social, ver a introdução de Luiz
Fernando Dias Duarte à coletânea “Doença, sofrimento e perturbação:
perspectivas etnográficas”, Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998.
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Rogério Lopes Azize é mestre em Antropologia Social e
professor da Universidade Estadual de Santa Catarina.
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