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Coluna
(Edição nº 16)
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"Pequena
homenagem ao professor Octavio Ianni (1926-2004)",
por suas alunas Samira Feldman Marzochi e Simone
Meucci (05 de abril de 2004) (*)
A apresentação que havíamos elaborado para o texto de Octavio Ianni, "A
Dialética das Relações Raciais",
apresentado em 2003 no encontro da Anpocs, teve de converter-se numa
pequena homenagem, após a triste notícia de seu falecimento, a 04 de
abril de 2004. Diante da enorme importância que o professor Octavio
Ianni teve para a sociologia e para a cultura, não poderemos registrar,
aqui, mais que palavras modestas.
Octavio Ianni conciliava o ofício de pesquisador e de professor de modo
notável. Como pesquisador, procurava compreender a lógica subjacente aos
grandes e pequenos movimentos da vida social. Dedicou-se igualmente à
compreensão do processo de globalização e ao entendimento de processos
muito sutis de estigmatização de grupos sociais. Dedicou-se, também, ao
questionamento de autores e conceitos das ciências sociais, ao
desmascaramento de instituições e ideologias. Era, de fato, um
incansável problematizador, virtude cada vez mais rara em meio à nossa "roda-viva".
Seu refinado senso crítico somava-se à ironia e ao humor cáustico. Suas
críticas, não obstante, eram resultado do trabalho paciente. Não se
comportava como um intelectual arrogante. Comportava-se como um
trabalhador, no sentido estrito do termo. Ciência e magistério eram,
para ele, ofícios que exigiam dedicação. Cumpria, por isso, seus
compromissos com elevado
senso público. Era polido, formal, pontual e exigente com seus alunos e
orientandos. Às vezes, quando queria, era também doce, próximo,
encantador.
As salas de aula eram sempre abarrotadas. Havia fila em frente ao seu
gabinete. Todos queriam escutar suas palavras, submeter idéias à sua
avaliação criteriosa e experiente. E ele gostava disso, do interesse dos
alunos por suas aulas, por suas avaliações e opiniões. Não se trata
apenas de vaidade. Ianni sabia que suas palavras eram instrumentos
preciosos para
provocar "demônios", despertar inquietações, colocar em dúvida as
pequenas certezas dos pesquisadores iniciantes. De fato, preocupava-se
muito com a formação de novos pesquisadores em Ciências Sociais.
Era capaz de conciliar com generosidade trabalho e amor pelo mundo. Mas
não se deixava enganar por soluções confortáveis. Questionava,
provocava, enlouquecia aqueles que se abrigavam no senso comum
sociológico. Negava a
melancolia pelo passado ou pelo futuro. Nenhum romantismo ingênuo,
nenhuma fórmula fácil. Para ele, o encantamento do mundo estava na
complexidade, na dialética, nas metamorfoses surpreendentes.
Defendia a independência da atividade intelectual a todo o custo.
Independência que era, para ele, a única maneira de preservar o
potencial crítico e transformador da ciência. Por isso atribuía tanta
importância à disciplina, aos fundamentos, ao método, ao trabalho
ininterrupto. Por isso, também, incomodava-se tanto com o descaso
governamental em relação à
Universidade Pública, com a desvalorização dos professores, com a "parceria
público-privado", com a transformação da universidade em laboratório
para a grande indústria etc.
Era, além de tudo, um impressionante orador. Atentando sempre para as
conexões, virava idéias de cabeça para baixo, fazia malabarismos,
bagunçava e reorganizava o mundo, brincava de pequeno deus, entrava e
saía de gaiolas de ferro, tirava de letra sistemas e estruturas. Era às
vezes um clown em grande estilo, às vezes um monge, às vezes profeta.
Interpretava criativamente autores, correntes, teorias e conceitos das
ciências sociais.
Além dos clássicos da sociologia, dominava um vasto conhecimento sobre a
filosofia, a história, as várias correntes das ciências sociais,
passeava pela literatura, pelas artes e imprimia a seus discursos uma
perspectiva invariavelmente universalista. Era sensível, sobretudo, às
questões relacionadas à desigualdade social, à dominação do capital, aos
abusos de
poder, mas não se deixava fechar numa visão restrita da realidade, muito
menos parar no tempo. Assimilava com precisão e rigor tudo o que
acontecia de novo, quando apontava problemas, limites, ou quando se
empolgava, acreditando que a novidade deveria conter algum "germe de
transformação".
Sua visão era predominantemente marxista. Mas o Marx de Octavio Ianni
era o jovem, o velho, o filósofo, o historiador, o erudito e,
principalmente, o idealista. Fazia do trabalho intelectual algo de
importância revolucionária. Fazia-se assim, para nós, o maior
representante da única sociologia que faz sentido: a do pensamento
crítico, irreverente e lúcido em relação aos
processos e estruturas sociais.
(*)
Samira Feldman Marzochi foi aluna de Octavio Ianni na
graduação e no mestrado. Orientanda de Renato Ortiz,
desenvolve atualmente pesquisa de doutorado sobre a inserção
de ONGs em sistemas institucionais mundializados.
Simone
Meucci: no mestrado (IFCH/Unicamp 1997-2000), foi orientanda de
Octavio Ianni e defendeu a dissertação "A institucionalização da
Sociologia no Brasil: os primeiros manuais e cursos". Atualmente
doutoranda (IFCH/Unicamp), é orientada por Elide Rugai Bastos e faz
pesquisa sobre Gilberto Freyre.
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