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Coluna
(Edição nº 15)
"8
de Março e Direitos Humanos em debate"
,
por
Flávia
de Mattos Motta (*)
Nós tivemos, nesta mesa, uma
abordagem que vem do Direito outra, da História, todas feministas. O meu
olhar vem marcado pela Antropologia e, assim sendo, convidada a pôr a
minha “colher torta”, eu não resistiria em insistir nos aspectos
culturais envolvidos na questão dos direitos humanos. Nesse ponto, cabem
“relativismos culturais”? Ou a questão é de “crítica cultural” e mudança
cultural? Nós antropólogos aprendemos a ser muito tolerantes com os
costumes alheios, mas quando o “costume” envolve violência, direitos
humanos, “mulheres apanhando”, nisto que chamamos “nossa sociedade”,
pode haver tolerância?
Lévi-Strauss escreveu, em seu famoso Tristes Trópicos, que a nossa
sociedade é a única que nos cabe transformar. E eu acho que esse é que é
o sentido de uma antropologia feminista: contribuir numa mudança na
nossa sociedade.
E para essa mudança se concretizar, não há lei, instituição, ou decreto
que possam promovê-la sozinhos. Ela tem que se dar no plano cultural, no
plano das mentalidades.
Evidentemente os casos
específicos de violência contra a mulher envolvem aspectos psicológicos,
mas o que eu gostaria de propor aqui é uma reflexão sobre as disposições
culturais que sustentam as variadas formas de violências contra a
mulher, inclusive as sexuais. O desvelamento de seus mecanismos é ponto
de partida para a discussão sobre o que se pode fazer para mudar tais
disposições. Não ignoramos a complexidade do problema, inclusive no que
se refere a “causas”. No caso da violência contra a mulher, concorrem os
mais variados contextos e há seguramente inúmeras “causas”. Mesmo que
signifiquem ainda uma compreensão parcial da complexidade do problema,
mapear alguns daqueles contextos e identificar alguns fatores que
favorecem a reprodução dessas práticas são fundamentais para a
implementação de medidas e políticas mais eficazes.
O material de divulgação desse evento diz: Direitos Humanos, acesso à:
vida, casa abrigo, serviços de saúde, informação, integridade física,
integridade moral, livre expressão sexual, concepção e contracepção. Eu
acrescentaria: educação – “educação de gênero”, educação para as
relações de gênero com direitos humanos.
Eu ouvi, desde a semana
passada, conforme foi se aproximando o 8 de março, uma série de
“barbaridades” a respeito. Nós aqui reunidas/os temos um consenso em
relação a essa data, mas isso está longe de representar “senso comum”.
Eu vi na televisão, em comentários de professores e alunos de segundo
grau, mas também de universitários: 8 de março para quê?, então
tinha que ter dia do homem!, ou: a mulher já conquistou a
igualdade! e assim por diante.
Por mais que a cada 8
de março a mídia dê algum espaço para estatísticas sobre saúde da
mulher, violência, desigualdades no mercado de trabalho esses dados
custam a se tornar consenso.
Eu cada vez mais acredito
que é preciso implementar um projeto de educação voltado para a questão
de gênero, com ênfase nas questões relativas a direitos humanos. Essa
discussão tem que ir para as escolas, públicas, privadas, para a mídia,
na revista Capricho, revistas masculinas e femininas, etc.
Mas eu acho, e adoraria
ouvir nossas palestrantes a respeito, que essa mudança é uma mudança
social, cultural e ela depende muito especialmente (ainda que não
exclusivamente) de uma ênfase na escola, na educação de nossas crianças
e adolescentes. A educação é uma grande ferramenta de promoção de
cidadania e direitos humanos, que pode pôr freios importantes no
processo em curso, histórico e permanente na sociedade brasileira, que
transforma tantas das nossas meninas em mulheres violentadas e tantos de
nossos meninos em homens violentos ou estupradores.
(*)
Flávia de Mattos Motta
é doutora em Ciências Sociais - Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividade (NIGS)/UFSC.
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